Capítulo 3 — A madrugada
Há uma hora da madrugada em que o mundo parece diminuir.
As cidades ficam para trás. Os caminhões passam cada vez mais espaçados. As luzes dentro do ônibus permanecem quase apagadas, iluminando apenas o suficiente para que cada passageiro encontre o próprio lugar sem acordar os demais.
Era nesse silêncio que seguíamos.
O ronco constante do motor deixava de chamar atenção. Depois de tantas horas, ele parecia fazer parte da respiração do próprio ônibus. De vez em quando a suspensão passava por alguma irregularidade da estrada, e todo o veículo balançava suavemente, como um barco seguindo por um mar tranquilo.
Olhei discretamente ao redor.
Quase todos dormiam.
Alguns com a cabeça encostada na janela.
Outros abraçados às mochilas.
Havia um casal algumas fileiras à frente, coberto por um casaco improvisado como manta. Um senhor roncava baixinho do outro lado do corredor. Uma criança dormia profundamente no colo da mãe.
Aquela cabine cheia de pessoas parecia, ao mesmo tempo, completamente silenciosa.
Voltei os olhos para a janela.
Lá fora havia apenas a escuridão.
Meu reflexo aparecia no vidro, misturado às poucas luzes que surgiam ao longe.
Foi então que senti novamente a presença dele ao meu lado.
Não precisei olhar.
Às vezes percebemos alguém apenas pelo modo como ocupa o espaço.
Ele continuava desperto.
Pensei em dizer alguma coisa.
Qualquer coisa.
Perguntar para onde ele estava indo.
Comentar sobre a demora da viagem.
Falar sobre algum dos jogos que eu tinha visto na tela dele horas antes.
As palavras chegaram até minha cabeça.
Nenhuma delas chegou à minha boca.
Sempre fui assim.
Quando alguma situação realmente importa para mim, falar parece mais difícil do que deveria.
O silêncio, por estranho que pareça, parecia mais seguro.
Mesmo assim, ele já não era o mesmo silêncio do começo da viagem.
Agora havia uma consciência mútua da presença do outro.
Como se ambos soubéssemos que existia algo delicado sendo construído, ainda sem nome.
Lembro de respirar fundo algumas vezes.
Não por ansiedade.
Mas porque havia uma calma diferente.
Uma calma que eu não sentia havia muito tempo.
Não era felicidade.
Também não era paixão.
Era uma sensação mais difícil de explicar.
Como se, por algumas horas, eu pudesse simplesmente dividir aquele espaço com alguém sem precisar representar nenhum papel.
Sem precisar parecer mais forte.
Mais engraçado.
Mais interessante.
Mais confiante.
Eu podia apenas estar ali.
Hoje, olhando para trás, talvez tenha sido exatamente isso que começou a me tocar.
Não foi um gesto específico.
Foi a ausência de esforço.
Não havia expectativas.
Não havia promessas.
Não havia futuro sendo planejado.
Existia apenas aquela madrugada, aquela estrada e duas pessoas que, sem praticamente trocar palavras, dividiam o mesmo silêncio.
Há lembranças que sobrevivem pelos acontecimentos.
Outras sobrevivem pela atmosfera.
Quando penso naquela noite, antes de lembrar dos fatos, lembro do ambiente.
Do cheiro discreto do tecido das poltronas.
Do ar frio que saía pelos difusores acima da cabeça.
Do reflexo das luzes da estrada atravessando as cortinas por alguns segundos antes de desaparecer novamente na escuridão.
Lembro da sensação de que o restante do mundo havia ficado muito distante.
Como se o ônibus estivesse atravessando não apenas quilômetros de estrada, mas um intervalo de tempo onde a vida cotidiana havia parado de existir.
Talvez tenha sido por isso que tudo parece tão intenso quando volto a essa lembrança.
Porque, durante algumas horas, nada existia além daquele pequeno espaço compartilhado entre duas poltronas.
Na época eu não tinha consciência disso.
Hoje tenho.
Às vezes, não é um acontecimento extraordinário que muda a forma como lembramos de uma noite.
Às vezes é apenas a descoberta inesperada de que ainda somos capazes de nos sentir profundamente presentes.
E foi ali, naquela madrugada silenciosa, antes que qualquer gesto mudasse a direção da viagem, que alguma coisa dentro de mim começou a despertar. Não era algo sobre ele apenas. Era algo sobre mim, que eu ainda levaria muitos dias para compreender.