O portão rangeu como rangia todas as vezes quando eu passava por ele, o lamento metálico já denunciava minha chegada. Sentado na poltrona junto a janela meu pai me recebia dizendo que eu tinha chegado atrasada.
- Já são quase 17 horas
- Calma vovô. Aposto que o senhor vai me perdoa quando souber o que tenho aqui dentro da sacola
- O que é?
Tirei uma vasilha azul e coloquei sobre a mesa
- Trouxe bolo de cenoura que o senhor tanto gosta
- Muito bem, menina marshmallow
Ele levantou da cadeira, foi até a cozinha trazendo uma garrafa de café
Andando arrastado, os pés inchados um pouco pra fora da sandalia. Andava devagar, do jeito de quem já viveu muito, meu pai estava prestes a fazer 70 anos. Cabelos brancos como a neve penteados de lado tentando esconder a careca.
Ele tinha mais ou menos 1,80 de altura, pele branca, usava oculos, nariz grande, orelhas maiores ainda.
Inclusive herdei isso dele, mas eu era mais branca que ele, quase transparente, e isso me rendeu muito apelidos quando mais nova. Entre eles o tal "menina Marshmallow" que foi dado nada mais,nada menos que pelo meu proprio pai.
Esse nome para os mais novos é em referência ao Homem Marshmallow do filme caça fantasmas.
Além de branca, eu era um pouco gordinha, outro apelido que ele me dava era de "fanstasma", também em referência ao mesmo filme.
Porém,eu não ficava calada e respondia, chamando ele de Gargamel dos smurfs, por causa da calvice que ele já tinha desde mais jovem.
Enfim, como vocês podem notar, nossa relação sempre foi leve, descontraida. Meu pai morava nessa casa sozinha, ele era viuvo, só teve a mim de filha.
Eu morava apenas algumas quadras dali e ia visita-lo diariamente.
Ele sentou e eu continue de pé, servindo a mesa. Colocando café na xicara, pegando açucar
Enquanto ele ajeitava os óculos no nariz e resmungava do calor, sobre vizinhos barulhentos.
— Eita como reclama, como reclama
— Não é você que fica aqui, ouvindo essa barulheira.
Então notei ele me olhando, dos pés a cabeça. Eu vestia uma saia jeans que deixava visiveis minhas panturrilhas torneadas, os joelhos, as coxas grossas e uma camisa branca de alcinha fina.
— Tá olhando o quê? perguntei
— Cadê seu marido que não vê uma coisa dessas hein!!?
— Ta em casa, assistindo jogo
Ele balançou a cabeça negativamente
— Que foi homi, que tanto balançar de cabeça é esse
— Mulher minha num andava assim na rua
— Deixa de ser cabeça pequena pai,isso é tão antigo
Sentei ao lado dele e começamos a comer
— Antigo!? pouca vergonha dessa ai no meu tempo não tinha.
— Sei, e aquelas moças de saia curta que passava na tv, que o senhor ficava grudado na televisão
— Que moça!!?
— Ai pai, não vem da uma de desmemoriado pra cima de mim não. Aquelas dançarina de palco dos programas, dava pra ver as calcinha delas
— Mas aquilo é diferente, tão no palco, é serviço delas né minha filha
— O senhor é muito cara de pau mesmo
— Mas não mude as coisas não. A questão é que mulher ou filha minha não andaria desse jeito.
Comecei a rir
— Então quer dizer que o senhor falhou comigo!!?
— Claro que não, enquanto voce esteve comigo você andou nos eixos!!É esse seu marido ai que é um frouxo
— Pai não sei se o senhor notou, mas eu já tenho 46 anos
— Sim, mas você sempre vai ser a minha menina
— Onw velho rabugento pra eu amar
Me estiquei alcançando o pescoço dele. Passei meus braços por de tras dele abraçando-o.Ele apertou minhas costas de volta, com força e completou dizendo:
— Minha menina marshmallow
— O senhor não toma jeito mesmo né.
Fui até a coxinha levando a louça suja, voltei enxugando as mãos num pano de prato.
— Vamos dar uma volta.
— Não quero.
— Vamos pai, sair um pouco dessa casa,esticar as pernas
Ele resmungou de novo
— Anda, o senhor não tem querer não. Vai pegar uma blusa.
Ele levantou devagar, os joelhos estalando, fiquei esperando na sala de braços cruzados, a blusa subindo um centímetro a mais com a postura ereta, revelando uma faixa de pele clara acima da saia.
O tempo foi passando e nada dele, fui até o quarto, chegando proximo vi a porta entre aberta,dei um leve empurrãozinho.
— O que é isso pai!!?
— O que é!?
— Por que o senhor ta vestido assim!?
— Vou me deitar
Ele tinha trocado de roupa, trocado a bermuda jeans por um short fino velho caindo aos pedaços
— Não, não não vai não. Cadê, deixa eu ve
Fui mexendo no guarda roupas dele, encontrei de cara uma casima gola polo listrada em azul e preto.
— Toma veste essa
Em seguida joguei a mesma bermuda que ele tava usando
— Anda see troca
— Meu Deus do céu
— Deixa de reclamar se veste.
Ele ficou me olhando, vendo que eu estava decidida, pegou a bermuda sobre a cama
— Não adianta fazer cara feia pra mim não.
Falei brincando para irritar ele.
Fiz cara de quem queria rir. Ele me olhou e desceu o short de uma vez ficando só de cueca na minha frente
— Deixa eu pelo menos sair né pai
— Você num ta com pressa!!?
— Tou
— Então
Ele vestia um cuecão marrom. Pelo volume que a vestimenta produzia imaginei que ele escondia um pau de considerável tamanho
— O senhor já pensou em atualizar suas roupas não!!?
— Como assim!? ele perguntou
— Uma cueca boxe no lugar dessa ai
— Eita que hoje a fantasminha ta demais, até com a minha cueca ta implicando
Comecei a rir, ele terminou de vestir a blusa que ue tinha achado e saimos de casa passeávamos pela calçada irregular do bairro. O sol de fim de tarde dourava os meus fios soltos do cabelo loiro, que balançavam com o ritmo dos passos. Waldir, meu pai, andava três passos atrás, a ritmo lento.
Eu notava outros homens na calçada olhando para mim, eles observavam minha cintura fina que se alargava nos quadris generosos, o balanço da minha bunda redonda a cada pisada, o volume que o jeans não conseguia disfarçar.
Diminui os passos para emparelhar com ele.
— O que foi!? que cara amarrada é essa!!?
— Nada!!
— Conheço o senhor, fala logo
— É esses bando de machos te olhando
— Não acredito, o senhor ta com ciumes!!?
Ele virou o rosto de lado, me evitando.
Segurei a mão dele
— Pronto, agora vão pensar que somos marido e mulher
— Quem vai acreditar nisso menina
— Ué!!? o que não falta é mulher mais nova com homem mais velho. E ninguém me conhece aqui.
Eu tinha me mudado recentemente para o bairro do meu pai, depois que ele ficou doente. Ficou mais facil pra eu cuidar dele.
Continuamos caminhando, agora de mãos dadas. Passamos pela panificadora de bairro, dobramos na esquina seguinte, chegando até a praça, onde jovens, adolescentes jogavam bola.
Sentamos numa arquibancada e eu comentava sobre o meu casamento, sobre meu marido Geovani, sobre os filhos já adultos. Tinha dois, Patricia e Felipe. Meu pai ouvia mas as vezes notava ele perder atenção, tentava identificar ao redor o que era responsável por isso, mas não via
Pouco depois, fomos até umas maquinas instaladas nas praças. Elas tinham por função exercitar o corpo das pessoas.
Sentei de frente pra ele, numa especie de cadeira flexora. Fazia de forma bem leve, conversavamos sobre coisas trivias, e novamente senti ele distraido.
Ta certo que o assunto não era lá interessante, mas nem atenção merecia!!?
— O que o senhor tem hein? ta cansado!!?
— Não. Porque!?
— Já é terceira ou quarta vez que lhe pego distraido, ta pensando em que!!?
— Não é nada, só pensando no passado
— Em que especificamente!!?
— Do tempo em que eu era jovem, de quando a gente compartilhava as dificuldades juntos
— O que fez o senhor ficar tão nostalgico assim
— Não sei, de repente vi você parada ai e lembrei de como o tempo voa e das oportunidades perdidas
— Que oportunidades!!?
— Não é nada, só algo que me veio a cabeça
Fiquei sem entender, voltamos para casa dele quando o céu já havia escurecido. No caminho compramos algodão doce, que ele fez questão de pagar.
Quando chegamos fui direto para a cozinha preparar o jantar, meu pai se sentou na mesma poltrona. Eu cantarolava enquanto mexia as panelas.
Normalmente eu organizava a casa minimamente durante alguns dias da semana, fazia comida, não todos os dias, pois ele fazia.As vezes eu levava comida pronta da minha casa.
Terminado o que tinha de fazer na cozinha sentei a frente dele e começamos a jantar
— Pai, posso fazer uma pergunta?
Ele levantou a cabeça, me olhou com naturalidade e disse: "sim"
— A oportunidade perdida que o senhor se referia não era sobre "aquilo" era!?
Ele ficou em silencio, na verdade a casa inteira. Só podia ouvir o barulho da geladeira estalando.
— É...não vou conseguir esconder
— Sabia
— Desculpa minha filha
— O senhor ainda tem esse sentimento guardado ai dentro!!?
— Sim
— Mas faz tanto tempo isso
— Eu sei, acho que eu nunca deixei de fantasiar isso
CONTINUA......