O toque para a montagem da Guarda Noturna às vinte e duas horas trouxe aquele ar cinzento e pesado que só a madrugada no batalhão tinha. Enquanto eu fechava a porta do meu armário, uma mão firme segurou o meu pulso e me puxou com cuidado para o espaço estreito entre a fileira de armários e a parede.
Era o Gustavo.
— Ficou maluco? — murmurei num sussurro, olhando para trás para garantir que ninguém nos via.
— Fica quieto — Gustavo pediu, a voz baixa e carregada de uma ansiedade que ele custava a esconder. Ele olhou nos meus olhos com uma seriedade quase dolorosa.
— O Tenente colocou o Dagoberto na mesma guarda que você, Michel. Aquele desgraçado tá mordido por causa do Pólux e tá doido pra arrumar um motivo pra te foder na frente do Oficial de Dia.
— Eu sei me cuidar, Gustavo — respondi, tentando manter a voz calma. — A gente já conversou sobre isso. Eu não vou deixar ele pisar em mim.
— Eu sei que não vai, mas o cara é sujo — Gustavo insistiu, aproximando o rosto do meu, segurando a minha cintura por um segundo no breu daquele canto. — Só... não cai nas provocações dele, tá? Eu preferia mil vezes estar nessa guarda com você pra garantir que ninguém ia esticar a asa pro teu lado.
Senti meu peito amolecer com o cuidado na voz dele. A brabeza e a marra que ele vestia diante da tropa ali simplesmente não existiam. Olhei para a boca dele, respirei fundo e, sem pensar muito, me inclinei e selei os lábios dele num beijo roubado, rápido e urgente no meio do breu.
Gustavo correspondeu com intensidade, a mão apertando a minha cintura antes de nos separarmos.
— Eu fico bem — murmurei com um sorriso curto, me soltando dele. — Agora me deixa ir antes que dê o horário da guarda.
No posto de comando, fomos divididos em duplas. Vítor assumiu a guarita principal, Dagoberto ficou na guarita secundária do alojamento, e eu fui escalado para a ronda móvel da aleia central junto com o Martins, do Primeiro Pelotão.
O silêncio da mata ao redor do batalhão era quebrado apenas pelo som das nossas botas na brita umedecida pelo orvalho da noite. Caminhei ao lado do Martins por alguns minutos em silêncio. Ele era alto, de postura ereta, mas caminhava com uma leveza que raramente se via em um recruta.
— Você é o Martins do Primeiro Pelotão, né? — puxei assunto num tom baixo, ajustando a bandoleira do fuzil no ombro. ele me olhou, dando um sorriso ameno que iluminou o rosto dele na penumbra.
— Sou eu mesmo 114. Martins.
— O Emiliano fala bastante de você — comentei, soltando uma risada fraca. — Ele me contou como vocês dois conseguiram sobreviver ao Pólux lá do outro lado do rio.
Martins parou o passo por meio segundo, surpreso, e soltou um riso abafado, balançando a cabeça.
— O Emiliano?... Não consegue guardar um segredo...— Martins disse, os olhos brilhando com um tom divertido. — Mas ele fala muito bem de você também, Michel. Disse que você é o cara mais firme e correto do Terceiro Pelotão.
— O Emiliano é meu parceiro — respondi, sentindo um alívio em conversar com alguém tão tranquilo. — Bom saber que ele achou alguém de confiança no meio daquele inferno.
Martins deu dois passos devagar, ficando lado a lado comigo sob a sombra de uma árvore grande. Ele me encarou por alguns segundos com um olhar atento, desacelerando a caminhada.
— É... o Emiliano é um cara massa — Martins começou, a voz ficando mais baixa e aveludada. Ele deu um sorriso de canto, inclinando o corpo de leve na minha direção. — Mas, sabe... vendo você assim de perto, na luz da lua... dá pra entender por que o pessoal do teu alojamento fica em cima de você. Você é bonito, 114. Tem uma energia diferente de todo mundo desse quartel.
Congelei no lugar, arregalando os olhos de leve. O tom dele não era de brincadeira ou camaradagem. Era um flerte direto, com um charme rasgado que me pegou totalmente desprevenido, tentei quebrar a conversa sendo irônico.
— O motivo de ficarem em cima de mim é para me fazerem de motivo de chacota! — Falei sorrindo.
— Eu seria diferente, ficaria em cima de você para outra coisa! — Disse ele se escorando em um tronco de árvore.
— Martins... — comecei, o cérebro dando um nó ao pensar no Emiliano. — Vamos continuar andando... Se Emiliano escutasse isso...
— Eu sei, e eu curto muito o Emiliano — Martins respondeu com uma calma desarmante, dando mais um passo na minha direção e olhando direto para a minha boca. — Mas no Exército a gente aprende a aproveitar as oportunidades que aparecem no escuro, não acha? Ninguém precisa saber de nada...
Antes que eu pudesse responder e impor um limite firme naquele absurdo, o som de passos pesados na brita cortou o ar.
— Mas que porra de conversinha fiada é essa aqui? — a voz debochada de Dagoberto ecoou na escuridão.
Dagoberto vinha caminhando com a lanterna desligada no cinto, um sorriso venenoso estampado no rosto. Ele parou a dois metros de nós, nos olhando de cima a baixo.
— Olha só... o 114 já arrumou um amiguinho novo do Primeiro Pelotão pra fazer companhia na madrugada — Dagoberto soltou, a voz cheia de escárnio e deboche homofóbico. — Que bonitinho os dois de sussurro na sombra. Veio ensinar as manhas pro recruta do Primeiro Pelotão, 114? Ou vieram só namorar no escuro?
Martins não perdeu a postura. Ele deu um passo à frente, cruzando os braços e encarando Dagoberto com um sorriso irônico e calmo.
— Ô Dagoberto... pra quem tá de guarda, você passa tempo demais preocupado com o que os outros homens fazem no escuro, né? — Martins rebateu com um tom afiado e debochado. — Tá querendo entrar na fila ou é só inveja de não ter ninguém olhando pra essa tua cara de trapo?
Dagoberto fechou a cara na hora, o rosto queimando de raiva.
— Cala a boca, seu merda! — Dagoberto rosnou, dando um passo agressivo para cima do Martins.
— O que tá acontecendo aqui? — a voz grave e gélida do Vítor surgiu do meio da sombra.
Vítor aproximou-se com a postura impecável de sempre, o fuzil empunhado com precisão. Ele olhou para o Dagoberto com uma autoridade fria.
— Dagoberto, você tá fora do seu Posto de Observação. Volta pra guarita secundária agora antes que eu chame o Oficial responsável e relato quebra de conduta.
Dagoberto deu um passo para trás, mas em vez de se encolher, deu uma risada curta e debochada, ajeitando a bandoleira no ombro.
— Ah, pronto... Chegou o xerife do pelotão — Dagoberto zombou, olhando o Vítor de cima a baixo. — Baixa essa bola, Vítor. Tu não é graduado não, é recruta igual a todo mundo aqui. Fica querendo dar uma de santo, de soldado perfeito... me dá até preguiça.
— Eu não tô dando uma de nada, recruta — Vítor cortou com a voz baixa, mas perigosamente firme. — Tô mandando você cumprir a sua ordem e voltar pro seu posto. Segunda vez que eu te aviso. Na terceira, a conversa vai ser no gabinete do Brito.
— Vai lá, corre chorando pro Tenente, seu puxa-saco! — Dagoberto avançou meio passo, a cara de pau estampada no rosto. — Tu acha que engana quem com essa pose de durão, Vítor? Fica aí pagando de moralista, caguetando o Cabo no acampamento, bancando o protetor domas por dentro tu é um coitado.
Vítor nem piscou. Manteve a mandíbula travada, apenas apontando o caminho da guarita com o queixo.
— Último aviso, Dagoberto.
— Ou o quê? Vai me bater? — Dagoberto deu uma gargalhada provocativa, vendo que o Vítor continuava imóvel. O deboche nos olhos dele virou veneno puro. Ele se aproximou mais um pouco, abaixando o tom de voz para soar o mais nojento possível. — Tu se acha muito superior a todo mundo aqui, né? Mas a gente sabe de onde tu veio, 'militar exemplar'. Acha que ninguém no alojamento pesquisou sobre a tua família? Acha que ninguém sabe da vida da tua mãe? Uma puta conhecida na cidade, ja meti o pau naquela vadia várias vezes, ao invés de se preocupar em me tirar daqui, por que não se preocupa em tirar sua mãe dos programas que ela faz? Seu bostinha!
— Lava a tua boca pra falar da minha mãe — Vítor rosnou, o peito subindo devagar.
— Por quê? Menti? — Dagoberto estufou o peito, vendo que tinha finalmente achado um ponto fraco para atingir o cara que ele tanto odiava. Ele deu um sorriso maldoso e cuspiu as palavras direto na cara do Vítor: — A verdade dói, né? Fica aí fingindo que é o certinho do pelotão, o soldado de honra... mas a tua mãe é uma puta de programa que rodava a cidade inteira pra te sustentar! Tu é filho de zona, porra! Já descobriu quem é seu pai?
O silêncio que se seguiu foi aterrador.
A aragem da madrugada pareceu congelar. Vítor travou. O rosto dele, sempre impassível e controlado, se transformou em uma máscara de pura fúria cega. Os olhos dele pareceram incendiar na escuridão.
Vítor deu um passo lento à frente. Ele não gritou, não avançou como um louco e nem levantou os punhos. Em vez disso, ele inclinou a cabeça devagar, aproximando o rosto para perto do rosto de Dagoberto. A voz de Vítor saiu em um tom gélido, sussurrado e terrivelmente calmo — o som de quem não estava fazendo uma ameaça da boca para fora, mas fazendo uma promessa:
— Dagoberto... é melhor você não dormir mais no alojamento. Porque você pode amanhecer sem vida naquela beliche. E ninguém vai provar quem foi.
O sorriso debochado de Dagoberto morreu instantaneamente. Ele congelou no lugar. A cor sumiu do rosto dele e os olhos se arregalaram em choque, percebendo que tinha ultrapassado um limite perigoso com a pessoa errada.
Ao ver o clima de horror se instaurar, dei um passo à frente com calma e leveza. Coloquei as mãos entre os dois, buscando apaziguar aquilo antes que virasse uma tragédia.
— Galera, chega... Vítor, calma. Dagoberto, volta pro teu posto — falei com a voz mansa, colocando a mão suavemente no peito do Dagoberto para afastá-lo. — Vamos cada um pro seu canto!
Mas Dagoberto estava em puro pânico, tremendo de raiva e medo. Ao sentir meu toque no peito dele, ele surtou.
— Não encosta em mim, seu bosta! — Dagoberto gritou, desferindo um empurrão violento e cego contra o meu peito para se livrar do contato.
O empurrão me pegou totalmente desprevenido e sem apoio nos pés. Perdi o equilíbrio no escuro da mata e fui arremessado para trás. Tentei me segurar no ar, mas meu corpo caiu com força no chão.
O lado esquerdo do meu rosto bateu em cheio na quina pontiaguda de uma pedra grande que delimitava o canteiro da guarita.
Um estalo seco ressoou na madrugada. Uma dor aguda e lancinante rasgou a minha pele na altura do supercílio e da bochecha. O impacto fez minha visão piscar em um clarão branco. Senti o calor do sangue escorrer imediatamente pelo meu rosto, manchando o colarinho da farda.
— Porra! — Martins gritou, ajoelhando-se ao meu lado no mesmo instante. — Michel!
Dagoberto olhou para mim no chão, vendo a poça de sangue que começava a sujar a brita. Assustado com o que tinha acabado de fazer e morrendo de medo do Vítor, ele deu dois passos para trás e saiu correndo no escuro em direção à sua guarita, sumindo na mata.
Vítor se ajoelhou do outro lado, o terror estampado no rosto ao me ver ferido. A frieza da ameaça de segundos atrás deu lugar a um desespero puro.
— Michel... meu Deus,— Vítor gaguejou, tirando o lenço do bolso e pressionando contra o meu corte. — Me desculpa... eu deixei as coisas chegarem a esse ponto.
— Caramba, rasgou o supercílio dele! — Martins praguejou, me ajudando a sentar. Soltei um gemido abafado de dor.
— Fica parado, 114 — Vítor disse, a voz baixa, firme e densa. Ele examinou o meu corte com cuidado e depois olhou na direção para onde o Dagoberto tinha fugido no escuro.
Um brilho perigoso acendeu nos olhos de Vítor. A calma dele tinha voltado, mas era a calma de quem já tinha tomado uma decisão definitiva.
— Aquele desgraçado tá fodido na minha mão — Vítor pronunciou cada palavra devagar, num tom gélido que fez até o Martins arrepiar. — A conta dele comigo acabou de aumentar, e ele vai pagar cada centavo.
— Vítor, ele tá desesperado... — murmurei com a voz fraca, sentindo o sangue morno escorrer pelos meus dedos.
— Deixa ele desesperado — Vítor respondeu, ajeitando a minha cabeça para estancar o sangue. — Ele ultrapassou todos os limites hoje.
Às seis horas da manhã, a guarda finalmente se encerrou. Fomos liberados do posto e caminhamos direto para o alojamento do Terceiro Pelotão. Limpei o excesso de sangue na pia do banheiro, mas não havia como esconder o estrago: meu supercílio tinha um corte profundo e o lado esquerdo do meu rosto estava nitidamente roxo e inchado.
Assim que entramos no alojamento, o sinal de inspeção soou. A tropa inteira foi colocada na posição de sentido, alinhada ao lado das beliches, ainda sonolenta e em silêncio.
Pelo canto do olho, vi o Gustavo parado a duas beliches de distância. Antes de qualquer graduado entrar, os olhos dele se cravaram no meu rosto. Vi o peito dele travar e os olhos dele arregalarem em choque. Ele deu um meio passo involuntário para fora da linha, o maxilar endurecendo de desespero e raiva ao ver meu olho quase fechado, mas o código do quartel o obrigou a congelar no lugar assim que o barulho de coturnos pesados ecoou no corredor.
A porta do alojamento se abriu com estrondo. O Sargento Rocha entrou com a prancheta debaixo do braço, caminhando devagar pela aleia central, analisando a postura de cada um.
— Sentido!
Rocha parou no meio do alojamento, encarando a tropa com o desdém de costume.
— Muito bem... a guarda noturna se encerrou. Alguns de vocês demonstraram uma postura aceitável no posto, outros pareciam espantalhos fardados — Rocha começou, a voz áspera preenchendo o ambiente. Ele caminhou até a linha do Primeiro Grupo de Combate. — O Recruta Vítor manteve a disciplina. O Recruta Martins do primeiro pelotão cumpriu o padrão...
Rocha continuou caminhando, passando pelos recrutas até parar exatamente na minha frente.
Ele travou os passos. Os olhos pequenos do sargento desceram devagar pelo meu uniforme, parando no meu rosto deformado e no colarinho ainda manchado de vermelho.
Um silêncio pesado e mortal tomou conta do alojamento. Ninguém ousava respirar.
— Mas o que diabo é isso aqui? — Rocha perguntou, a voz baixando para um tom perigosamente calmo. Ele deu um passo à frente, aproximando o rosto do meu, encarando o corte e o roxo no meu olho. — Que porra aconteceu com a sua cara, Recruta 114?
Engoli em seco, sustentando a postura ereta mesmo com a dor latejando na cabeça.
— Foi um acidente durante a patrulha, Sargento — respondi com a voz mais firme que consegui reunir. — Tropecei na brita da guarita no escuro e bati o rosto na mureta de concreto.
Rocha ficou em silêncio por três segundos eternos. Em seguida, soltou uma gargalhada curta e sem humor, negando com a cabeça.
— Tropeçou na brita? — Rocha debochou, a voz subindo de tom rapidamente enquanto ele encarava cada recruta na fileira. — Você tá achando que eu sou idiota, 114?!
Rocha deu dois passos para trás e cruzou os braços, encarando o pelotão inteiro com um olhar de puro veneno.
— Algum desgraçado aqui dentro achou que podia resolver diferencinha pessoal no meio do serviço de guarda — Rocha esbravejou, a voz ecoando pelas paredes do alojamento. — Eu vou dar uma chance. Uma única chance. Quem fez isso no rosto do 114 se apresente agora!
Ninguém se moveu. Olhei de relance para o Dagoberto, que estava pálido como um cadáver, olhando fixamente para a parede sem piscar. Gustavo mantinha os punhos fechados ao lado do corpo, a respiração pesada, dividida entre a vontade de falar e o medo de me expor.
Rocha deu um sorriso maldoso, percebendo o silêncio da tropa.
— Ninguém vai se acusar? Ótimo — Rocha disse, abaixando a voz para um tom de ameaça pura que fez o sangue do alojamento gelar. — Se o culpado não se apresentar na minha mesa até o toque da alvorada, a folga do fim de semana de todos vocês está oficialmente cancelada!
Um murmúrio abafado de desespero tentou ensaiar entre as beliches, mas o olhar de Rocha cortou qualquer reação.
— Não para por aí! — Rocha bradou, a voz ecoando com força pelas paredes do quarto. — A partir de hoje, o Terceiro Pelotão assume o serviço pesado do batalhão. Escalas duplas de Guarda Noturna sem revezamento, limpeza da graxa das viaturas até o amanhecer, lavagem do refeitório e faxina pesada nos sanitários dos graduados. Ninguém aqui dorme mais do que quatro horas por noite enquanto esse covarde não aparecer!
Rocha aproximou-se da porta, parou com a mão na maçaneta e olhou para trás com um sorriso perverso.
— Se o responsável não tiver a hombridade de se entregar, eu sugiro que vocês mesmos descubram quem foi e tragam o desgraçado arrastado pelos pés até a minha sala. Porque se dependendo de mim, vocês vão pedir pra sair do Exército antes do domingo. Estão dispensados... por enquanto.
Rocha virou as costas e bateu a porta do alojamento com um estrondo. O silêncio que se seguiu foi sufocante, carregado pela raiva dos recrutas e pelos olhares pesados que começaram a se cruzar na penumbra.
O silêncio tenso após a saída do Rocha durou pouquíssimos segundos. Assim que os passos do sargento se distanciaram no corredor, a bomba relógio explodiu dentro do alojamento.
A raiva contida da tropa se voltou inteiramente contra mim.
— Qual é a tua, 114?! — um dos recrutas do fundo vociferou, dando um passo agressivo na minha direção.
Em questão de segundos, um círculo de recrutas revoltados se fechou ao redor da minha beliche. Os rostos deles estavam transformados pelo cansaço e pela fúria de verem suas poucas horas de sono e o fim de semana jogados no lixo.
— Fala de uma vez quem foi que fez essa porra, Michel! — outro recruta gritou, me prensando contra a armação de ferro da cama. — Ninguém aqui é obrigado a pagar por palhaçada sua não, caralho! Tu acha que a gente vai ficar limpando graxa de madrugada e perder a folga por causa do teu segredinho?!
— Abre a porra da boca! — um terceiro avançou, apontando o dedo na minha cara com os olhos arregalados. — Fala logo quem te deu esse soco antes que a gente mesmo resolva isso aqui dentro!
Senti o ar faltar no peito. Ver dezenas de caras maiores que eu me cercando, gritando e me ameaçando ao mesmo tempo fez um pânico cego tomar conta de mim. Meu coração disparou, o sangue quente voltou a gotejar do meu supercílio e a sensação de encurralamento me paralisou por um segundo.
Olhei para o lado e vi o Dagoberto no fundo, encolhido na beliche dele, fingindo que não era com ele, enquanto a tropa me pressionava cada vez mais perto da parede.
— Eu... eu já disse que caí! — tentei falar, mas minha voz saiu trêmula e fraca.
— Mentira, porra! Rocha não é cego e a gente também não! — o recruta mais alto esbravejou, me empurrando levemente pelo ombro.
O pânico cego estava prestes a me fazer desabar, o sangue gotejando mais rápido do corte no supercílio. Eu via a fúria nos olhos de todos eles, a promessa de que se o Rocha não me fizesse falar, eles fariam. Eu estava encurralado, sem ar, prestes a quebrar.
— JÁ CHEGA DESSA MERDA! — um grito rouco e potente estourou no alojamento, cortando o coro de ameaças como um chicote.
O círculo de recrutas se abriu instantaneamente. Gustavo passou pelo meio deles como um trator, a expressão tão aterrorizante que os caras que estavam me prensando deram dois passos para trás no mesmo segundo. Ele parou na minha frente, me usando como escudo, os punhos cerrados ao lado do corpo, tremendo de uma fúria contida que parecia prestes a explodir e levar o alojamento inteiro junto.
Gustavo varreu o quarto com o olhar, fuzilando cada um que ousou levantar a voz contra mim. Ninguém sustentou o olhar dele por mais de um segundo. O silêncio que se seguiu foi pesado, mortal.
Ele então virou a cabeça devagar, travando os olhos em uma figura que estava parada na beliche oposta, assistindo a tudo com a sua habitual indiferença gélida.
— Vítor — Gustavo chamou, a voz baixa, perigosa, cada sílaba soando como uma ameaça. — Você estava na guarda com ele. Você sabe o que aconteceu. Quem foi o filho da puta que encostou a mão na cara do Michel?
Vítor continuou encostado na beliche, os braços cruzados, a expressão vazia. Ele olhou para o Gustavo, depois olhou para mim.
Lentamente, os lábios de Vítor se curvaram. Não foi um sorriso amigável, foi um esgar de puro desprezo e sadismo, uma expressão que raramente aparecia naquele rosto de pedra. Ele olhou de volta para o Gustavo, seus olhos brilhando com a chance de ver o circo pegar fogo.
— Sabe, Gustavo... o Rocha está certo. O 114 não caiu — Vítor começou, a voz calma e aveludada, ecoando no alojamento silencioso. — Alguém empurrou ele, ele bateu o rosto... Alguém que você conhece bem. Quem fez isso... — o sorriso de Vítor aumentou, tornando-se uma linha cruel e debochada. — ...quem fez isso dá risadinhas com você, senta do seu lado no refeitório e come junto com tu!
A revelação caiu como uma bomba de fragmentação no alojamento.
Vi o mundo girar rápido demais ao redor do Gustavo. Os olhos dele não procuraram os recrutas irritados. Eles foram direto para o fundo do alojamento.
E eles travaram na figura encolhida na beliche inferior.
Dagoberto estava pálido. A cor tinha sumido completamente do rosto dele, restando apenas um tom acinzentado de pânico puro. Ao sentir o olhar de Gustavo cair sobre ele, ele estremeceu visivelmente.
Ele não esperou a pergunta do Gustavo. Não esperou o interrogatório. Dagoberto quebrou.
— Fui eu! — Dagoberto gritou de repente, a voz falhando, gaguejando, o desespero tomando conta dele. Ele se levantou devagar, com medo, olhando para o Gustavo como se estivesse vendo o próprio demônio na sua frente. — Eu... eu juro que não foi por querer, Gustavo! A gente... a gente teve uma discussão lá no posto de guarda... ele começou a me peitar, a me provocar... eu perdi a cabeça e... e só empurrei ele! Eu juro, Gustavo! Eu só dei um empurrão pra ele se afastar! Eu não queria que ele batesse a cara na pedra! Foi um acidente! Eu... eu não sabia que ia dar essa merda toda! Eu juro que foi um acidente gente.
O ar no alojamento parecia ter evaporado. A confissão desesperada do Dagoberto caiu como uma sentença sobre a cabeça dele, e o choque inicial da tropa se transformou instantaneamente em uma onda de fúria coletiva.
Um dos recrutas do Terceiro Pelotão, o Simões deu três passos largos até o fundo do quarto. A fisionomia dele estava dura como pedra. Ele segurou o Dagoberto pelo colarinho da farda de combate com tanta força que o tecido estalou.
— Foi um acidente o caralho! — Simões vociferou, chacoalhando o Dagoberto contra o ferro da beliche. — Por causa dessa tua covardia e desse teu empurrão no escuro, o pelotão inteiro vai perder a folga do fim de semana e ralar que nem bicho limpando graxa até de madrugada?!
— Me solta, Simões! Eu já pedi desculpa, porra! — Dagoberto tentou se soltar, mas a voz dele tremia de puro pavor.
— Desculpa não paga nossa folga e não limpa o rosto do 114, seu bosta! — outro recruta do grupo interveio, cercando o Dagoberto junto com o Simões, os olhos faiscando de raiva. — Você é muito machão pra empurrar quem tá quieto na guarda e fugir feito uma ratazana, mas na hora de assumir o rojão pro Rocha, fica aí quieto deixando a gente se foder no teu lugar?
— Escuta aqui, seu merda — Simões rosnou bem perto do ouvido do Dagoberto, a voz num tom baixo, mas carregado de uma ameaça visceral. — Você vai sair por aquela porta agora. Vai marchar até a sala do Sargento Rocha, vai bater na porta dele e vai confessar tudo!
— Eu não posso... o Rocha vai me foder, vai me colocar na custódia! — Dagoberto gaguejou, os olhos arregalados de desespero, olhando para o Gustavo como quem implorava por uma ajuda que sabia que não viria.
— Se você não for por vontade própria agora — Simões deu um puxão seco no colarinho dele, quase tirando os pés do Dagoberto do chão — eu juro pela minha farda que a gente te arrasta pelos cabelos até a mesa do Rocha. E depois que a luz do alojamento apagar hoje à noite, você vai aprender da pior forma o que acontece com covarde que faz o pelotão pagar o pato.
— Escolhe, Dagoberto — o outro recruta ameaçou, dando um passo à frente. — Ou você vai andando pra sala do sargento assumir a tua merda, ou você vai de maca direto pra enfermaria antes da alvorada.
A tropa inteira do Terceiro se fechou ao redor, formando um corredor humano implacável que apontava direto para a saída do alojamento. Ninguém disse mais nada. O silêncio da tropa era a confirmação de que a ameaça não era da boca para fora.
Dagoberto engoliu a saliva no seco, sentindo as pernas tremerem. Ele olhou em volta, vendo que até mesmo os caras que costumavam rir das piadas dele agora o encaravam com puro nojo. Ele ajeitou o colarinho com as mãos trêmulas, deu um passo incerto para a frente e começou a caminhada pelo corredor humano, de cabeça baixa, rumo à sala do Sargento Rocha para se entregar.
Quando a porta do alojamento se fechou atrás do Dagoberto, o silêncio finalmente voltou a pairar sobre o quarto, mas a tensão entre Gustavo, Vítor e eu estava apenas começando a queimar.
Antes que o Gustavo pudesse dizer qualquer coisa ou que o Vítor abrisse a boca, peguei um pano limpo na minha beliche, me esquivei de todos e saí a passos rápidos em direção ao pátio principal.
O ar frio da alvorada atingiu meu rosto, trazendo um alívio imediato para a pele quente do machucado. Sentei no banco de madeira sob a mureta da faina, pressionando o tecido contra o supercílio. A luz do sol começava a rasgar a névoa da manhã, pintando o céu de um tom alaranjado e fraco.
— Caramba, Michel... o que aconteceu com você?!
A voz preocupada fez eu levantar a cabeça devagar. Era o Emiliano. Ele vinha caminhando do pavilhão do Primeiro Pelotão com o cantil na mão, mas travou assim que viu o meu rosto. Ele acelerou os passos e se ajoelhou na minha frente, os olhos arregalados de susto.
— Pobre do meu parceiro... — Emiliano murmurou, segurando meu ombro com cuidado. — Foi na guarda? Quem fez essa maldade com você, cara?
— O Dagoberto — respondi num tom fraco, soltando uma risada curta e dolorida.
— Ele se complicou na ronda, perdeu a cabeça e me empurrou. Caí direto na quina da pedra da guarita. Mas o alojamento inteiro caiu em cima dele e ele acabou de ir se confessar pro Rocha.
Emiliano soltou um assobio baixo, balançando a cabeça.
— Aquele Dagoberto é um desgraçado mesmo, tava demorando pra aprontar uma dessas. Mas ainda bem que o pessoal não deixou barato... você tá bem? Tá tonto?
— Só latejando um pouco — murmurei, encarando o chão.
Emiliano sentou ao meu lado no banco, dando um tapinha leve nas minhas costas. A fisionomia dele mudou, perdendo a tensão da surpresa e dando lugar a um brilho bobo e apaixonado nos olhos. Ele olhou para o pátio, soltando um suspiro longo.
— Sabe, Michel... vendo essas merdas acontecerem, a gente dá até mais valor pras poucas coisas boas que encontra aqui dentro — Emiliano começou, a voz ficando mais mansa. Ele deu um sorriso sincero, olhando pra mim. — Eu preciso te agradecer, cara.
Engoli em seco, sentindo meu estômago dar um nó.
— Agradecer pelo quê?
— Por ter me apoiado com o Martins — Emiliano disse, os olhos brilhando de verdade. — Cara, ele é sensacional. O Martins é maduro, sabe? Ele me ouve, me respeita... faz tempo que eu não sentia uma conexão tão forte com alguém. Eu acho que tô gostando dele de verdade, Michel. De um jeito que eu não esperava encontrar no Exército.
Cada palavra do Emiliano caía no meu peito como um peso de chumbo. Ver a sinceridade pura no olhar do meu amigo, a vulnerabilidade de quem estava se entregando de coração, fez minha cabeça doer mais do que o soco e a queda na brita.
A lembrança do Martins na escuridão da guarda veio à minha tona com uma clareza aterrorizante: "Vendo você assim de perto... dá pra entender por que o pessoal vive no teu pé. Você é bonitão,Ninguém precisa saber de nada."
Uma culpa esmagadora começou a me sufocar. Como é que eu olhava na cara do Emiliano e contava que o cara em quem ele estava projetando todos os sentimentos dele tinha acabado de dar em cima de mim poucas horas atrás? Se eu contasse, destruiria o Emiliano e causaria uma guerra entre os pelotões. Se eu calasse a boca, estaria sendo um péssimo amigo, deixando ele ser enganado por um cara mau-intencionado.
— Emiliano... — comecei, a voz quase travando na garganta, sem saber direito como medir as palavras. — Você... você acha que conhece o Martins direito?
Emiliano franziu a testa, dando uma risada fraca, sem entender a pergunta.
— Ah, a gente tá se conhecendo, né? Mas por que a pergunta? Ele falou algo de mim quando vocês marcharam juntos?
Antes que eu pudesse inventar uma resposta ou tomar a decisão mais difícil da minha vida, o som de botas ritmadas na brita se aproximou.
O Martins vinha caminhando pelo pátio a caminho do refeitório, com a farda impecável e o fuzil a tiracolo. Assim que ele passou perto do nosso banco, parou o passo por um segundo.
Os olhos de Martins se cravaram nos meus. Ele olhou para o corte no meu supercílio, depois olhou para o Emiliano ao meu lado. Em vez de disfarçar ou demonstrar qualquer receio, Martins deu um sorriso curto, de canto de boca — um olhar carregado de um deboche sutil e perigoso, desfrutando secretamente do poder que tinha nas mãos.
— Bom dia, Emiliano. Bom dia, 114 — Martins cumprimentou com a voz aveludada e calma de sempre, sem perder a postura. — Vejo que o machucado já parou de sangrar. Tomar mais cuidado Michel...
Martins piscou de leve na minha direção, um gesto quase imperceptível para o Emiliano, e continuou seu caminho rumo ao refeitório, como se nada tivesse acontecido.
Emiliano acompanhou o Martins com o olhar, dando um sorriso bobo.
— Viu só? O cara é extremamente educado — Emiliano comentou, voltando a olhar para mim, totalmente alheio à cascavel que tinha acabado de passar. — Mas e aí, Michel... o que você ia me falar sobre ele?
Fiquei estático, o coração martelando no peito, olhando para o Emiliano e sentindo que, de um jeito ou de outro, aquela tempestade estava prestes a devastar tudo ao meu redor.