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BERNARDO [03] ~ O PRIMEIRO BEIJO

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Da série BERNARDO
Um conto erótico de Bernardo
Categoria: Gay
Contém 2275 palavras
Data: 29/07/2026 08:37:31
Assuntos: Gay, História, Romance

Quarta e quinta se passaram no mesmo compasso: mais professores se apresentando, mais nomes pra decorar, e a turma começando a se costurar num tecido só. As panelinhas existiam, claro — sempre existem —, mas suas bordas ainda eram porosas, indefinidas, como se ninguém tivesse decidido ainda em que grupo precisava caber. Isso me aliviava. Panelinhas bem demarcadas são o início de toda guerra territorial dentro de uma sala de aula, e eu já tinha visto o suficiente disso no ensino médio pra saber que união é sempre mais barata que faccionismo.

Eric e Rafael, enquanto isso, pareciam ter nascido amigos. Cochichavam durante a aula inteira, riam de piadas que existiam só pra eles dois, construíam em tempo recorde aquela intimidade que normalmente leva meses pra se formar. E o ciúme — esse hóspede que eu não tinha convidado, mas que se instalou em mim como se pagasse aluguel — ficava mais difícil de esconder a cada dia.

Os olhos de Eric encontravam os meus com uma frequência que eu tentava classificar como coincidência. Nunca era. Ele sustentava o olhar um segundo a mais do que qualquer coincidência permitiria, e ainda tinha a ousadia de sorrir — um sorriso pequeno, de canto de boca, que não pedia desculpas por nada. Eu desviava o olhar depressa, como quem apaga um incêndio antes que alguém veja a fumaça. Ele não desviava nunca. Ele sabia exatamente o efeito que tinha sobre mim, e parecia gostar de testar até onde esse efeito ia.

Foi nessa época que comecei a entender uma coisa sobre mim mesmo que eu ainda carrego, décadas depois: a gente adora escrever roteiros pros outros. Ninguém suporta bem a incerteza de simplesmente não saber o que se passa na cabeça de alguém — então inventamos. Damos intenção a olhares, motivo a sorrisos, roteiro a silêncios. E o pior: uma vez que o roteiro está escrito, ele começa a parecer verdade, só porque nós mesmos o escrevemos. Eu tinha decidido, sem uma única evidência real, que Eric brincava comigo de propósito, que sabia do meu desejo e se divertia vendo até onde eu aguentava. Pode ser que fosse verdade. Pode ser que ele só fosse um garoto se descobrindo, com a mesma confusão que eu, o poder que tinha sobre as pessoas ao redor. Eu nunca soube dizer com certeza — porque eu nunca perguntei. É sempre mais fácil viver dentro da própria teoria do que arriscar a resposta real.

Alice também percebia. Eu sentia o peso do olhar dela em mim sempre que o meu se demorava demais em Eric.

— O que foi? — perguntava eu, fingindo distração.

— Nada — respondia ela, sem parar de sorrir, o suficiente pra eu saber que “nada” ali queria dizer exatamente o oposto.

Ficávamos presos naquele jogo, Eric jogando sem nem saber que jogava, eu perdendo em cada rodada, Alice na arquibancada, se divertindo com a partida mais do que qualquer um de nós dois.

Quanto a Rafael, minha cabeça já tinha decidido: eles tinham algo. Um caso, um flerte, alguma coisa que justificasse aquela intimidade instantânea demais pra ser inocente. Talvez fosse só isso mesmo, um cara gentil sendo simpático com um colega novo, mas eu nunca soube fazer as coisas do jeito simples. Sempre preferi a versão complicada, a versão em que eu era vítima de uma trama arquitetada contra mim, porque essa versão, por mais dolorosa que fosse, ao menos me isentava de qualquer culpa. Toda história, eu aprenderia muitos anos depois, tem três versões: a minha, a do outro, e a verdade — que quase nunca é nenhuma das duas, e que só quem está de fora, ouvindo as duas partes sem precisar se proteger de nenhuma delas, consegue enxergar de verdade.

Na minha cabeça, naquele momento, Eric era o vilão. Eu já tinha construído um perfil psicológico completo pra ele: friamente calculista por trás da beleza nórdica, manipulador por esporte, quase um predador emocional se divertindo com minha confusão. Ele não era nada disso, claro. Mas era mais confortável imaginar um vilão do que admitir a verdade, muito mais simples e muito mais difícil de engolir: o único responsável por tudo aquilo era eu.

Hoje, com a distância que só o tempo dá, eu sei quem era o verdadeiro vilão daquela história. E também sei que eu era, ao mesmo tempo, a única vítima que ela tinha. Eu tinha construído, com as próprias mãos, uma prisão de segurança máxima dentro da minha cabeça, e o preso, o único preso, era o Bernardo que eu poderia ter sido. Aquele que não teria fingido, durante anos, ser outra pessoa só pra caber num molde que nunca foi feito pra mim. Existe uma pergunta que eu me faço até hoje: como alguém consegue ser feliz fingindo, vinte e quatro horas por dia, ser quem não é? A resposta, eu aprendi tarde demais, é que não consegue. Derrubar aquela prisão foi um processo lento — e, como toda demolição feita à mão, dolorido em cada tijolo.

Sexta-feira chegou, e eu só me dei conta disso quando entrei na sala e senti o clima diferente no ar. Tinha me esquecido completamente — perdido demais nos meus próprios pensamentos pra acompanhar o calendário — de que aquela era a primeira sexta do semestre, e todo mundo sabia o que isso significava. Mesmo sem trote oficial havia anos, a tradição informal continuava viva: os veteranos da atlética organizavam, por conta própria, uma recepção mais pesada pros calouros que topassem participar. Ninguém era obrigado. Mas todo mundo sabia que quem participava ganhava um lugar mais rápido dentro do curso, e quem não participava, também.

— Vai participar? — perguntou Alice assim que sentei.

— Ainda não decidi.

— Vai sim, para de ser chato.

— Não sei se quero.

— Ah, para com isso, medroso. É a chance mais rápida de se enturmar com o resto da turma. Quem sabe você não aproveita pra se aproximar do nórdico.

— Hã?! — quase engasguei.

— Nada — respondeu, ainda sorrindo, satisfeita por ter me pego de surpresa.

Eu tinha cada vez mais certeza de que Alice sabia exatamente o que se passava comigo. A decisão sensata seria me afastar dela antes que ela juntasse as peças de vez. Não me afastei. Alguma coisa em mim insistia em mantê-la por perto, mesmo que isso significasse viver esquivando de indiretas cada vez menos sutis. Era mais fácil fingir que estava tudo bem — eu já tinha anos de prática nisso, do que admitir em voz alta o que aquilo significaria. Enquanto ficasse só entre quatro paredes da minha cabeça, não parecia real.

A aula inteira correu naquele clima de expectativa nervosa. Até Rafael, que até ali eu só tinha visto sorrindo, passou o dia calado.

Assim que o sinal bateu, um grupo de veteranos entrou na sala fazendo barulho suficiente pra parecer o dobro de gente que realmente era. Me encolhi na cadeira, e não fui o único. À frente do grupo estava um cara alto, cabelo cor de mel caindo desarrumado sobre o rosto, sorriso largo e fácil. Olhou direto pra mim, viu o pânico estampado, e riu.

— Calma, calma, calouros — falou, virando-se pro resto da sala. — Ninguém é obrigado a nada. Mas topar ou não topar já diz bastante sobre quem vocês são aqui dentro.

Alguma coisa em mim decidiu ficar, mesmo com toda vontade de sumir dali. Ele reparou, satisfeito.

— Eu sou o João, terceiro período. Hoje eu vou ser o guia de vocês nessa recepção.

Uma fila se formou no corredor. Tiramos os sapatos, e os veteranos foram passando, escrevendo apelidos na testa de cada um. Fiquei ao lado de Alice.

— Resolveu ficar, hein?

— Ainda não tenho certeza se foi a decisão mais sensata.

— Para de ser medroso. Seu problema é pensar demais. Devia se deixar levar mais vezes.

Não era a primeira vez que ouvia aquilo, e definitivamente não seria a última. João já escrevia algo na testa dela quando cheguei minha vez.

— Parou de tremer?

— Eu não estava tremendo — respondi, a voz falhando o suficiente pra desmentir a frase inteira, o que só o fez rir mais.

— Nome?

— Bernardo.

— Já sei. Tremelique.

— Eu não estava tremendo! — falei alto demais pro meu próprio bem.

Alice me cutucou, tarde demais.

— Ah, um calouro respondão — riu João, e os outros veteranos riram junto. — Já sei o que vou escrever aqui.

Fechei os olhos enquanto ele escrevia. Quando terminaram comigo, Alice me contou o que tinha escrito nela — “sapatão” — e eu, sem coragem de olhar no espelho do celular de ninguém, perguntei o que escreveram em mim.

— Bom… acho melhor você não saber ainda — ela fez uma careta.

Não era coisa boa. Nunca é, quando alguém evita responder.

Não vou entrar em detalhes sobre as próximas horas — bermuda, sem camisa, coberto de tinta e algo que cheirava a comida estragada, exposto no gramado central pra quem quisesse ver. Ao menos não estava sozinho: a turma inteira estava no mesmo estado. Eric ganhou o apelido de Barbie. Rafael, Bobo da Corte. Os dois se autoexplicavam.

Quando a tarde já ia avançada, João anunciou que era hora do “tratamento especial” — uma tradição informal da atlética, reservada a um calouro por semestre.

— E esse semestre, o escolhido foi ele! — apontou pra mim, me puxando pro centro do gramado.

Alice ria sem nenhuma vergonha. Eric me olhava fixo, sem revelar nada. Uma garota cochichou alguma ideia no ouvido de João, que riu satisfeito.

— Ótima sugestão. O tratamento especial do nosso amigo Bernardo vai ser… confisco de bens até amanhã de manhã.

Levei um segundo pra entender.

— Sem documento, sem celular, sem dinheiro — explicou João, claramente se divertindo. — Se quiser voltar pra casa, vai ter que pedir carona lá na avenida.

Tentei argumentar. Não adiantou. Dois veteranos me carregaram até a avenida principal, entre risadas de quem passava, e me deixaram lá, imundo, sem absolutamente nada além da própria vergonha.

Levantei o polegar pra cada carro que passava. Ninguém parou — óbvio que ninguém pararia, do jeito que eu estava. Depois de um tempo, desisti e comecei a caminhar, sabendo que ia levar horas pra chegar em casa daquele jeito. Foi então que uma buzina soou atrás de mim.

Um carro parado no acostamento, pisca-alerta ligado. Me aproximei desconfiado, me abaixei pra ver o motorista — e quase caí sentado na calçada.

Eric.

— Carona?

Fiquei estático. De todas as pessoas que poderiam ter parado, tinha que ser justamente ele — o único de quem eu deveria estar me afastando, não entrando no carro.

— Decide logo, não posso ficar parado aqui — falou, tentando soar impaciente, mas sem esconder o sorriso.

Entrei. Não foi uma decisão pensada — e eu penso tudo antes de fazer, sempre pensei — foi impulso puro, o tipo de coisa que eu quase nunca me permitia. Acho que estar tão exposto, tão humilhado, tinha esgotado toda minha capacidade de resistir à primeira saída que aparecesse. Mesmo sabendo que ficar sozinho com Eric era exatamente o oposto do que meu plano exigia.

— Obrigado — falei, depois de um silêncio constrangedor.

— De nada. Fiquei com dó, ninguém ia parar pra você — riu, e aquela risada de perto tinha um efeito ainda mais devastador do que de longe.

— Desculpa por sujar seu carro.

— Relaxa, eu também tô imundo. Vou ter que lavar de qualquer jeito.

Fizemos o resto do caminho quase em silêncio.

— Você não fala muito, né? — perguntou, num dado momento.

— Pois é…

— Desse jeito nossa relação não vai pra frente nenhuma.

Arregalei os olhos, e ele sorriu, satisfeito com o próprio efeito.

— Afinal, seremos colegas de turma pelos próximos cinco anos. Cinco anos é mais tempo que muito casamento por aí.

Chegamos ao meu prédio antes que eu conseguisse formular qualquer resposta à altura.

— Entregue.

— Muito obrigado. Você salvou minha vida — falei, olhando pra ele de verdade, pela primeira vez durante toda a viagem.

— Se salvei sua vida, mereço um pagamento por isso, não?

Não tive tempo de perguntar o quê. Ele avançou e me roubou um beijo — meu primeiro com outro garoto. Sem língua, mas também não foi só um selinho: prendeu meu lábio superior entre os dele, com calma, como quem sabe exatamente o que está fazendo. Meus olhos continuaram abertos pelo susto, olhando os dele fechados, aproveitando cada segundo que eu não consegui aproveitar junto.

Ele se afastou, sorrindo, esperando talvez algum sinal de que podia continuar. O sinal nunca veio. Abri a porta e corri pra dentro do prédio — corri de Eric, do beijo, de encarar de vez tudo aquilo que eu vinha negando havia anos. Só parei dentro do elevador, escorado na parede, chorando em silêncio.

10 de março de 2014. Até hoje é assim que eu lembro daquele dia: o dia do meu verdadeiro ritual de passagem.

____ CONTINUA…. ____

Nota do Autor

Olá, pessoal! Quanto tempo, né?

Queria passar aqui para explicar algumas coisas. Antes de tudo, o conto “FORA DK ESTOQUE” ficará em stand by por mais um tempo. Passei por alguns problemas pessoais e, por isso, acabei me afastando da escrita.

Agora que estou retomando esse hábito, fiquei em dúvida entre começar uma história totalmente nova ou trazer de volta um projeto antigo. No fim das contas, decidi reescrever Bernardo, principalmente porque tenho planos de escrever um spin-off desse universo no futuro.

A ideia é fazer uma nova versão, mantendo a essência da história, mas com um toque mais maduro da minha escrita. Vou mudar alguns detalhes e… quem já leu talvez encontre até um final diferente. (Risos!)

Espero, de coração, que vocês gostem dessa nova fase de Bernardo. Mais do que isso, espero reencontrar o prazer de escrever e compartilhar histórias com vocês.

E, como sempre, não deixem de comentar ou me mandar uma mensagem. Saber o que vocês estão achando faz toda a diferença e me motiva a continuar.

Nos vemos nos próximos capítulos!

Lukas Mattto

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