Capítulo XV
Longe de todos os olhares, busquei qualquer vão na porta por onde pudesse ver o pau duro do Outro. Era o último refúgio que eu tinha para atestar que não era um completo fracasso. Não consegui ver nada; apenas ouvi o urro dele quando se satisfez, podendo bailar com seus olhos por todo o corpo sensual de tão bela Guerreira...
Ouvi Epona terminar os preparativos do Outro. Ouvi o clique metálico. Seus passos se distanciando, junto com o barulho que agora eu sabia exatamente o que era. A porta inteligente se abriu e Epona se retirou. Dias e mais dias de treinamento... tinham sido trivializados por uma figura que parecia estar anos à minha frente... ou, pior, ser simplesmente uma obra biológica superior... Chorei e chorei como nunca havia chorado...
Até esse ponto, pude sempre jogar meus fracassos nas desculpas estruturais, na desigualdade das origens, nas desigualdades do acaso... A experiência que havia vivido, contudo, tornou-se uma lente pela qual nada mais podia ser explicado sem levar em conta o óbvio: nem mediano eu era...
Tentar seguir o Homem fez-me sentir dor pelo corpo todo; falhar fez-me perder qualquer refúgio mental. Entre choros e gemidos de dor, passei horas às claras até que ouvi o destrancar da minha porta:
— Soube que chorou a noite toda, não é, Potrinho? Conta aqui para a titia o que é que houve, meu balofinho?
Disse Epona, forçando uma voz que tentava me reduzir ainda mais. Ela estava com roupas novas; as de outrora ainda estavam na frente da minha porta.
— Não pensou que fosse meu único animalzinho, né? Responde, Potrinho!
Suprimi a vontade de responder-lhe, de pedir conforto, de pedir seu colo. Pensei que, caso não respondesse nada, ela poderia me dar descargas elétricas tão fortes que poriam fim a esse amontoado medíocre...
Epona ordenava que eu a respondesse, e a cada vez que eu me mantinha em silêncio, ela apertava o botão com mais intensidade. Quando tomei o verdadeiro choque padrão, pela primeira vez, achei que ele fosse me matar... mas não matou...
Viria outro, mais forte ainda; seria o fim do meu sofrimento. Epona agachou-se e fitou-me:
— Quer que eu te mate, é? Seria fácil demais... Lembre-se, bebezão, você me foi confiado por Ártemis. Nem eu nem você vamos desistir; é apenas uma questão de entender a sua natureza e o que eu posso ajudar você a fazer... cada animal tem seu tempo...
Foi então que percebi algo: por mais que Epona estivesse tentando me destruir... por mais que o outro Macho fosse deterministicamente superior a mim... Epona estava presa ao regime natural, e minha escolha fora uma intervenção Divina! Ainda que eu não pudesse superar naturalmente o Homem... eu iria triunfar pela Vontade.
Demorou, mas consegui me pôr de quatro novamente. Arrastei-me para fora da cocheira. Epona levantou-se e deu alguns passos para trás, liberando a passagem para mim:
— Chega de pegar leve comigo, Senhora. Minha Deusa viu em mim algo que você precisa encontrar para não fracassar! Meu ego frágil, meu corpo flácido e pouco viril não vão mais ficar no seu caminho... faça o que tiver que fazer, mas me faça Cavalo antes do Outro!
— Você é muito bebê, Potro... não vai dar conta de fazer o que precisa. Conheço-o o suficiente para saber que está falando grosso simplesmente para esconder que o que você quer é se arrastar aos meus pés... pedindo mais um alívio momentâneo da porra nas suas bolas e, pior, na sua cabeça, hahaha!
Tudo o que ela dizia era verdade; Epona me lia perfeitamente... Mas a verdade é destino, é morte. A mentira, pelo contrário, é improviso, é Vida:
— Minha Senhora, peço que faça o que for preciso para que eu me torne aquilo que minha Deusa quer!
— Esse é um pedido e tanto, Potro. Não vejo fibra em você para isso. Um treinamento assim leva anos em um bom material...
— Ártemis impõe sua Vontade sobre o real! Eu irei fazer o que pedir, Senhora, serei Cavalo não só antes do Outro, como farei isso mais rápido que todos os outros animais que já treinou!
Epona olhou para mim... ou melhor, olhou para o meu pau e, vendo-o se espremer contra os dentes metálicos, sorriu e disse:
— Você não sabe o que pede, Potro, mas desde que pisou aqui, vejo em seu delírio algo que pode ser trabalhado! Recolha as minhas roupas, dobre-as e traga-as para o centro do Estábulo. Pode usar suas mãos, não quero sua saliva em meus pertences...
Quando me preparei para levantar e pegar as roupas, Epona girou a perna em um movimento rápido. A lâmina presa à sua bota desenhou a primeira marca em meu rosto. O corte, pouco acima da minha sobrancelha direita, dividiu-a em duas e só parou em razão da curvatura da minha testa. Sangue começou a escorrer em profusão, como costuma acontecer com esse tipo de ferimento.
— Isso é por ousar levantar sua voz diante de mim! Ártemis pode ter visto algo em você, mas me deu carta branca, inclusive, para te matar!