O sol ainda não havia perfurado completamente as cortinas do apartamento funcional quando meus olhos se abriram. O relógio marcava 6h17 da manhã, mas minha mente já estava acesa, fervilhando com imagens da noite anterior — o calor de Isabela ao meu lado, a respiração suave de Edna do outro lado da cama, o peso das revelações que ainda não tinha processado completamente.
Fiquei deitado por longos minutos, olhando para o teto branco e sem graça, sentindo o ar-condicionado gelado bater no rosto.Ao meu lado esquerdo, Isabela dormia profundamente, o cabelo loiro espalhado sobre o travesseiro, o rosto relaxado em uma expressão de paz que raramente a via usar nos últimos tempos. À direita, Edna estava enrolada no lençol, o corpo maduro ainda marcado pelos eventos da noite anterior, mas respirando com a regularidade de quem finalmente encontrou um momento de descanso.
A noite anterior tinha sido... diferente. Não apenas o sexo — embora isso também tivesse acontecido, mais tarde, quando as três almas quebradas buscaram conforto um nas outras. Mas antes disso, houve confissões. Planos. Promessas. Um acordo tácito de que, não importava o que a Seita ou o Núcleo jogassem contra nós, estaríamos juntos.
Mas agora, na fria luz da manhã, outras preocupações tomavam conta. O livro que Pamela havia roubado do cofre do pai ainda estava na mente. Eu tinha lido , página após página de segredos que mudavam tudo o que eu pensava saber. Meu pai, Carlos Eduardo Silva, não era apenas um Guardião desaparecido — ele era uma peça-chave em um quebra-cabeça que eu mal começava a entender. As anotações marginais em tinta vermelha eram particularmente inquietantes: "Eliminado pelo Núcleo? Investigar ligação com Karam."
E minha mãe. Ana Lucia Silva. Guerreira de Elite da Seita Principal. Treinada em Petrópolis. Memórias suprimidas. Está "acordando".
A frase me dava calafrios. O que significava "acordando"? E por que ninguém tinha me contado isso antes?
Levantei devagar, tentando não acordar as duas. Edna se mexeu, murmurando algo incompreensível, mas seus olhos permaneceram fechados. Isabela estava profunda, o rosto relaxado, quase sereno. Cobri-as cuidadosamente com o lençol e fui em silêncio até o banheiro.
O chuveiro gelado me acordou completamente. Deixei a água bater no rosto, nos ombros, tentando clarear a mente para o dia que viria. Hoje seria diferente. Hoje eu precisava tomar decisões.
Quando saí do banheiro, enrolado em uma toalha, Edna já estava acordada, sentada na beira da cama, enrolada em um lençol branco. Seus olhos castanhos me encontraram imediatamente, carregados de uma preocupação que ela tentava disfarçar.
— Você está diferente — disse ela, voz rouca de sono. — Desde ontem. Desde que leu aquele livro.
— Descobri coisas sobre meus pais — respondi, secando o cabelo com a toalha. — Coisas que mudam tudo.
— O que exatamente?
Vesti a camisa social que a Seita havia providenciado — roupas de marca, adequadas que tinha comprado. Calcei as calças de alfaiataria, os sapatos de couro italiano.
— Meu pai pode estar vivo. Ou morto. Depende . E minha mãe... ela não é quem eu pensava que era. Ela era... é... uma assassina treinada. Uma Guerreira de Elite. E algo está acontecendo com ela. Algo chamado "despertar".
Edna ficou em pé, o lençol caindo, revelando o corpo nu sem qualquer constrangimento — não mais, não depois de tudo que passamos. Veio até mim, colocou as mãos delicadamente no meu rosto.
— Você não precisa carregar isso sozinho — disse ela, com olhos profundos nos meus. — Nós estamos aqui. As três pessoas nesse quarto... nós escolhemos ficar juntas. Lembra?
Eu assenti, sentindo o calor reconfortante das mãos dela.
— Eu sei. Mas tem coisas que eu preciso fazer sozinho. Pelo menos por enquanto.
— Como o quê?
— Preciso falar com meu tio. Augusto. Ele prometeu explicações sobre o Núcleo. E sobre minha mãe.
Edna franziu a testa, preocupação cruzando seu rosto.
— Cuidado, Matheus. Augusto é... ele é perigoso. Mesmo sendo seu tio, ele é um dos 27 Guardiões de nível 99. Ele não faz nada por altruísmo.
— Eu sei — respondi, apertando a mão dela. — Mas não tenho escolha.
Isabela se mexeu na cama, abrindo os olhos devagar. Quando nos viu, sorriu — um sorriso genuíno, raro nos últimos dias, iluminando o quarto.
— Bom dia — disse ela, sentando-se e esticando os braços. — Vocês parecem sérios demais para esta hora.
— Estamos planejando o fim de semana — respondi, tentando soar leve. — Edna, você disse que seus filhos voltam da faculdade hoje, não é?
Edna assentiu, um brilho maternal aparecendo em seus olhos.
— Sim. Eles chegam à tarde. Vou passar o fim de semana com eles ... preciso explicar algumas coisas. Sobre o novo emprego. Sobre por que estou morando aqui.
— Eles sabem sobre a Seita? — perguntei, preocupado.
— Não. E não podem saber. Vou inventar algo sobre um programa de intercâmbio docente. Eles são adultos, mas ainda são meus filhos. Quero protegê-los disso.
Isabela se levantou, veio até nós, ainda usando apenas uma camisola fina.
— E eu vou passar o fim de semana com minha mãe — disse ela, o tom de voz mudando, carregado de preocupação. — A situação dela... não está boa. Desde que a Seita começou a "cuidar" dela.
— O que exatamente eles estão fazendo? — perguntei, sentindo uma pontada de culpa.
Isabela sentou na beira da cama, os ombros caídos.
— Mandaram uma mulher. Uma espécie de... treinadora. Ela leva minha mãe para malhar todos os dias, mantém ela em forma. Dizem que é para "preservar o valor do investimento". E regulam as drogas. Não deixam ela usar demais e ela quer sempre mais. E eles dão o suficiente para mantê-la funcional, obediente. Às vezes levam ela para missões... — a voz falhou. — Às vezes eu a vejo nos olhos dela, Matheus. Ela está se perdendo. A droga está tomando conta.
Eu me aproximei, abracei Isabela por trás, sentindo o corpo dela tremer levemente.
— Eu vou falar com Augusto — prometi. — Vou garantir que ela tenha ajuda de verdade. Não apenas... manutenção.
As três ficamos ali por mais alguns minutos, em um abraço coletivo que dizia mais do que palavras poderiam expressar. Depois, nos preparamos para o dia. Edna e Isabela tomaram banho juntas — um ritual íntimo que desenvolveram, uma forma de se fortalecerem mutuamente — enquanto eu revisava as informações do livro roubado, fazendo anotações mentais.
Quando saí do apartamento, já eram 9h30. O Colégio Helsing funcionava em horário diferente da escola pública e eu podia dar um tempo e sair um pouquinho.
Dirigi o Corolla Cross que Ricardo me emprestara até o condomínio de luxo onde Augusto morava. O segurança da portaria me reconheceu e liberou a entrada sem questionamentos. A mansão imponente apareceu no final do caminho pavimentado, com seus jardins meticulosamente cuidados e a fachada fria de quem não precisa impressionar ninguém.
Fui recebido pelo mordomo habitual e levado até o escritório enorme. Augusto estava sentado atrás da mesa de mogno, examinando documentos, impecável como sempre em seu terno escuro de grife. Ele me olhou com aqueles olhos frios e avaliadores, mas houve algo diferente — um brilho de satisfição, talvez, ou de expectativa.
— Matheus — disse ele, gesticulando para a cadeira em frente à mesa. — Sente-se. Estava esperando que viesse.
— O senhor sabia que eu viria? — perguntei, sentando-me.
— Eu sabia que você leria o livro. E que teria perguntas. — ele recostou-se na cadeira, entrelaçando os dedos. — O que você quer saber?
Fui direto ao ponto.
— Tudo. Sobre meu pai. Sobre minha mãe. Sobre o Núcleo. Sobre por que eu sou "Escolhido". Sobre essa marca que tenho no corpo desde que nasci.
Augusto sorriu levemente — um sorriso que não alcançava os olhos.
— Ambicioso. Gosto disso. Mas vamos por partes. — ele fez uma pausa, escolhendo as palavras. — Sua mãe... ela era uma das melhores Guerreiras que a Seita já teve. Fria. Letal. Leal até o momento em que não foi mais. Quando engravidou de você, algo mudou. Ela queria sair. Proteger você. E eu a ajudei.
— Por que? — perguntei, com a voz saindo mais rouca do que pretendia.
— Porque ela é minha irmã — disse ele simplesmente. — E porque eu vi o potencial em você desde antes do seu nascimento. As marcações... elas apareceram no terceiro trimestre da gravidez. Sua mãe temia o que a Seita faria se descobrisse. Então nós planejamos. Ela fugiu. Se escondeu. Criou você longe de tudo isso.
— Até que eu entrei sozinho na Seita — completei, amargurado.
— Até que você entrou sozinho — ele confirmou. — Mas isso não é necessariamente ruim. Você está onde deveria estar. Onde está destinado a estar.
— E meu pai? — pressionei.
A expressão de Augusto mudou. Ficou mais sombria, mais fechada.
— Carlos Eduardo... ele era um Guardião talentoso. Leal à Seita. Mas quando descobriu sobre você, ele entrou em pânico. Tentou tirar você da mãe. Tentava tirar vocês dois da Seita, do país, de tudo. — ele fez uma pausa. — Ele desapareceu. Não sabemos ao certo se foi o Núcleo que o pegou, ou se ele foi eliminado por traição. O arquivo diz "desaparecido", mas...
— Mas o quê?
— Mas suspeitamos que o Núcleo o mantém vivo. Como prisioneiro. Como peça de troca. Como... isca.a meses.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eu senti o chão tremer sob meus pés, embora soubesse que era apenas minha própria mente processando a informação.
— E quanto a Isabela e Edna? — mudei de assunto, precisando de ar. — Elas estão seguras aqui?
Augusto assentiu.
— Enquanto você estiver no Helsing, elas não precisarão fazer missões. Estão sob sua proteção como suas putas particulares. A Seita as respeitará... enquanto você mantiver o favor deles.
— O favor deles? — repeti, sentindo um frio na espinha.
— Você subiu rápido demais, Matheus. Nível 12 em semanas. Isso gera inveja. Inimigos. — ele me encarou fixamente. — Você precisa relaxar. Continuar investigando o Núcleo, sim. Mas com cautela. E precisa de uma fonte de informação confiável.
— Alguém além do senhor? — perguntei, talvez com um tom mais sarcástico do que deveria.
Augusto ignorou o tom.
— Vou enviar alguém para falar com você. Uma juíza. Alanis Ferreira. Ela é Guardiã de Nível 87, braço direito da Seita no judiciário. Ela explicará melhor sobre o Núcleo, sobre sua posição, sobre o que esperamos de você.
— Alanis — repeti, memorizando o nome.
— Ela é... eficiente. Fria. Mas leal. Ouça o que ela tem a dizer. — ele se levantou, caminhando até a janela, olhando para os jardins. — E Matheus... tome cuidado. O Núcleo já sabe de você. Eles estão de olho. Sempre que descobrir algo, passe a informação para Ricardo imediatamente. Ele é meu representante no Helsing. Confio nele para filtrar o que é importante.
Eu assenti, levantando-me.
— Obrigado... tio.
A palavra soou estranha na minha boca. Augusto virou-se, surpreso, e por um segundo vi algo diferente em seus olhos — talvez calor, talvez lembranças de uma família que nunca tivemos chance de ser.
— Vá — disse ele, voltando à sua postura fria. — E lembre-se: no Helsing, você é peixe pequeno. Nade com cuidado.
Saí da mansão com a cabeça fervilhando de informações. O sol já estava alto, o calor do Rio de Janeiro se instalando para mais um dia. Peguei o celular e tentei ligar para minha mãe — precisava ouvir a voz dela, precisava tentar entender o que era esse "despertar" que todos mencionavam.
A ligação caiu na caixa postal. Tentei novamente. Mesmo resultado.
Mandei uma mensagem: "Mãe, preciso falar com você. É urgente. Ligue assim que puder."
Não houve resposta. Não houve "entregue", nem "lida". Apenas silêncio.
Um nó de preocupação se formou no meu estômago, mas tentei ignorá-lo. Tinha outras prioridades agora. Precisava chegar à escola.
Dirigi até o Colégio Helsing, estacionando no espaço reservado para funcionários e alunos bolsistas. O prédio imponente de vidro fumê brilhava sob o sol, ostentando riqueza e poder. Eu me sentia um intruso cada vez que atravessava aquelas portas.
Fui até o campo de futebol, onde sabia que encontraria os únicos rostos familiares neste lugar de estranhos. Neguin e Paulo estavam lá, chutando bola sozinhos no gramado sintético perfeito. Eles ainda usavam roupas simples demais para o ambiente — camisetas de bandas, shorts gastados, tênis surrados — e seu jeito de se mover denunciava que não pertenciam ali, não importava quanto tentassem disfarçar.
— E aí, Matheus! — gritou Neguin ao me ver, um sorriso genuíno iluminando o rosto. — Sumiu, hein? Virou playboy de elite, esqueceu dos amigos?
— Nunca — respondi, entrando no campo. — Vamos jogar?
Fizemos uma pelada improvisada, três contra três com alguns alunos que se juntaram. O sol batia forte, o suor escorria, e por alguns minutos eu esqueci de Seitas e Núcleos, de rituais e destinos. Era só bola, amigos, e o som de risadas que pareciam vir de outra vida.
Foi quando senti o olhar.
O Professor Bruno Vasconcelos estava na beira do campo, de braços cruzados, observando. Seus olhos azul-gelados — daquele tom estranho, quase irreal — me encontraram por um segundo. Ele fez o gesto. Discreto, rápido, quase imperceptível: o toque no pulso esquerdo. O sinal do Núcleo.
Eu fingi que não vi. Continuei jogando, rindo, chutando. Mas o sangue gelou nas veias.
Quando o jogo acabou. Precisava me limpar, trocar de roupa. Fui até o banheiro do ginásio, o coração ainda acelerado não apenas pelo esforço físico. O espelho mostrava um rosto que eu mal reconhecia — mais velho, mais cansado, olhos mais fundos, marcados por segredos que não deveria carregar.
Lavei o rosto, o pescoço, os braços. O suor misturava-se com a água fria, escorrendo pelo ralo. Fiquei ali por um momento, respirando fundo, tentando me recompor.
Quando saí do banheiro, já eram quase 11h. O corredor estava vazio, a maioria dos alunos em aula ou nos intervalos nos jardins. Foi quando vi.
Um carro preto executivo, modelo importado, estacionado do lado de fora do prédio de ciências, em uma área onde veículos não deveriam parar. A porta traseira se abriu. Uma mulher saiu — cabelo loiro solto, óculos escuros de grife, vestindo um vestido de verão elegante que marcava o corpo escultural de forma discreta mas inegável.
Lucia. A mãe de Pamela.
Meu coração acelerou. Ela não deveria estar aqui. O Helsing tinha segurança rigorosa, visitantes precisavam de autorização prévia, especialmente em áreas restritas.
Ela tirou os óculos escuros, olhando ao redor com uma expressão que misturava urgência e cautela. Seus olhos castanhos varreram o corredor e... me encontraram.
Por um segundo, ficamos parados, a dezenas de metros de distância. Eu poderia ter acenado, poderia ter chamado. Mas algo na postura dela — a tensão nos ombros, a forma como segurava a bolsa contra o corpo — me disse que não deveria chamar atenção.
Então fiz o que meu instinto gritou para fazer: disfarcei.
Virei o rosto, comecei a andar na direção oposta, fingindo interesse em um aviso no mural de eventos escolares. Mas mantive Lucia no campo de visão pelo canto do olho. Ela se moveu, rápida, em direção à ala administrativa.
Eu a segui. Mantendo distância, fingindo que ia para outro lugar, parando de vez em quando para amarrar o cadarço ou consultar o celular. Ela não olhou para trás. Ou talvez olhasse, e eu fosse bom demais no disfarce.
Lucia entrou pelo corredor principal, passou pela recepção sem parar — como se já conhecesse o caminho — e foi direto até a ala onde ficava a sala de Ricardo. Eu a observei parar diante da porta, bater duas vezes, e entrar.
Fiquei no fim do corredor, encostado na parede, o coração batendo forte no peito. O que ela estava fazendo aqui? E por que na sala de Ricardo?
Esperei. Contei os segundos no relógio da parede — um, dois, três... até sessenta. Cada minuto parecia uma hora. Alunos passavam, me olhando estranho, mas eu mantinha a pose de quem espera um amigo.
Então a porta se abriu.
Lucia saiu, rápida, quase apressada. Seus olhos encontraram os meus imediatamente — ela sabia que eu estaria ali. Ela veio em minha direção, os saltos altos ecoando no piso de mármore.
— Espera aqui — disse ela, baixo, quase um sopro, quando passou por mim. — Não fale com ninguém. Não se mexa.
Eu assenti, confuso, mas obedeci.
Ela voltou ao carro, pegou algo no banco de trás — uma pasta de couro preto — e retornou em minha direção. Quando chegou perto, seus olhos varreram o corredor, certificando-se de que estávamos sozinhos.
— Vamos ao seu quarto — disse ela, e não era um pedido. — Agora. Não podemos falar aqui.
— Lucia, o que está acontecendo? — perguntei, voz baixa. — Por que você estava com Ricardo?
— No seu quarto — ela repetiu, os olhos firmes nos meus. — Ou eu vou embora, e você nunca saberá o que seu tio está planejando para você. Nem o que aconteceu de verdade com seu pai.
O peso da ameaça — ou da promessa — me atingiu em cheio. Assenti, e a levei até o alojamento dos funcionários, até meu apartamento funcional no terceiro andar.
Assim que a porta se fechou atrás de nós, a atmosfera mudou. Lucia trancou a porta. Guardou a pasta em cima da escrivaninha. E então se virou para mim, e eu vi algo em seus olhos que não tinha visto antes — medo, sim, mas também um fogo que eu reconhecia. O mesmo fogo que ardia em mim desde que entrei nesse mundo.
— Eu não deveria estar aqui — disse ela, tirando o blazer, revelando um top de seda que marcava os seios perfeitamente reconstruídos. — Barreto não sabe. Pamela não sabe. Ninguém sabe.
— Então por que você está aqui?
Ela se aproximou, passando os braços ao redor do meu pescoço, pressionando o corpo contra o meu.
— Porque eu preciso te falar algo. Algo que não posso falar em lugar nenhum. Algo sobre sua mãe. Sobre a noite em que ela fugiu. — ela fez uma pausa, os lábios a centímetros dos meus. — Mas primeiro... primeiro eu preciso sentir que ainda estou viva. Que ainda sou humana. Que não sou apenas uma peça no jogo deles.
Eu entendi. Ou talvez não entendesse completamente, mas meu corpo respondeu antes da mente. A tensão, o perigo, o mistério — tudo se misturou em uma necessidade primária, animal.
Nossos lábios se encontraram em um beijo feroz, desesperado. Não havia ternura ali, apenas necessidade. A língua de Lucia forçou a entrada na minha boca, explorando, dominando. Suas mãos puxaram minha camisa para fora da calça, dedos ágeis desabotoando-a em segundos.
— Rápido — ela ofegou, mordendo meu pescoço. — Não temos muito tempo. Alguém pode vir procurar você.
Eu a empurrei contra a parede, levantando o vestido até a cintura. Ela não usava calcinha — apenas uma tanga fio dental que rasguei sem cerimônia. Lucia gemeu, não de dor, mas de aprovação.
— Isso... me machuca um pouco... eu gosto dessa sua rola...
Segurei suas nádegas, apertando a carne macia, e a levantei. Ela envolveu as pernas na minha cintura, apoiando as costas na parede. Desabei a calça com uma mão, libertando meu pau já duro, e posicionei na entrada da buceta dela.
— Espera... — ela suspirou, os olhos vidrados. — Espera...
Mas eu não esperei. Empurrei para cima, entrando de uma vez, sentindo a buceta quente e molhada me engolir até o talo. Lucia gritou baixo, as unhas cravando nos meus ombros, as pernas apertando minha cintura.
— Porra... que grosso... me arrombo toda...
Eu comecei a socar com força, usando a parede como apoio. Cada estocada era profunda, brutal, intencional. O som de nossos corpos se encontrando — pele contra pele, suor contra suor — ecoava no quarto vazio. Lucia gemia sem se importar com quem poderia ouvir, a cabeça jogada para trás, o cabelo loiro balançando.
— Mais forte... me arrebenta... me faz sentir alguma coisa...
Eu obedeci. Segurei suas coxas com força, marcando a pele com meus dedos, e metia sem piedade. O prazer misturava-se com a raiva, a confusão, o medo de tudo que estava por vir. Lucia era um refúgio temporário, uma forma de esquecer, mesmo que por alguns minutos, o peso do mundo.
Ela gozou primeiro, apertando meu pau em espasmos ritmados, gritando um nome que não era o meu — talvez o de Barreto, talvez o de outro, talvez de ninguém. Não me importei. Continuei socando, sentindo o próprio orgasmo se aproximar.
— Goza dentro... — ela pediu, ofegante, os olhos vidrados. — Goza dentro de mim... quero sentir sua porra escorrer...
Eu não hesitei. Enterrei até o fundo e soltei jatos quentes, enchendo-a, gemendo no pescoço dela. Ficamos ali por longos segundos, conectados, ofegantes, suados, o coração dela batendo contra o meu peito.
Quando finalmente a baixei, suas pernas tremiam. Ela mal conseguia ficar de pé. Fomos cambaleantes até a cama, desabando nela, ainda ofegantes.
— Eu não deveria ter feito isso — disse ela, depois de um tempo, olhando para o teto. — Mas eu precisava de rola. Antes de te contar... precisava sentir que ainda tenho controle sobre algo. Sobre mim mesma meu corpo.
— O que você precisa me contar? — perguntei, ainda recuperando o fôlego.
Lucia virou o rosto para mim. Havia lágrimas em seus olhos, mas também uma determinação feroz.
— Sua mãe não fugiu sozinha naquela noite — disse ela, voz baixa. — Eu a ajudei. E seu pai... seu pai não foi capturado pelo Núcleo. Ele se entregou a eles. Para proteger vocês dois eu acho.
Eu senti o mundo parar.
— O quê?
— Carlos Eduardo fez um acordo — continuou Lucia, sentando-se na cama, buscando suas roupas. — Ele se entregou ao Núcleo em troca da segurança de você e sua mãe. Eles o mantêm vivo, Matheus. Em algum lugar. E agora... agora que você está no Helsing, agora que os rituaiss estão "ativos"... eles vão querer usá-lo. Os dois lados. Para abrir o que deveria permanecer fechado.
Eu não consegui responder. Apenas fiquei ali, nu, suado, o coração partido em mil pedaços pela revelação.
Lucia se vestiu rapidamente, a transformação de amante vulnerável para mulher de negócios completa em segundos.
— Eu preciso ir — disse ela, pegando a pasta. — Antes que alguém note minha ausência. — ela parou na porta, olhando para trás. — Cuidado, Matheus. Com todos. Comigo inclusa. — um sorriso triste. — Especialmente comigo.
E ela saiu, deixando-me sozinho no quarto, com o cheiro do sexo ainda no ar e o peso de verdades que eu não estava preparado para ouvir.
Eu deveria me mover. Deveria fazer algo. Mas fiquei parado na cama, olhando para o teto, sentindo as lágrimas finalmente virem.
Meu pai estava vivo. E ele tinha se sacrificado por mim.
O que eu faria com essa informação? Como poderia salvá-lo, quando mal conseguia me salvar?
O celular vibrou na mesa. Uma mensagem de Ricardo: "Alanis chega amanhã. 14h. Sala 312. Não se atrase."
Eu olhei para a mensagem, depois para a porta por onde Lucia tinha saído.
O jogo estava apenas começando. O dia seguinte chegou carregado de nuvens escuras que pairavam sobre o Rio de Janeiro. Eu tinha passado quase toda a noite em claro, processando as revelações de Lucia, o peso da verdade sobre meu pai se misturando aos sonhos fragmentados de rituais antigos e entidades adormecidas. O apartamento estava vazio — Edna tinha partido de manhã cedo para encontrar os filhos na estação rodoviária, e Isabela seguira para a casa da mãe, com aquela expressão de preocupação que eu já conhecia tão bem.
Agora, eram 13h40, e eu caminhava pelos corredores do prédio administrativo do Helsing, em direção à sala 312. O ambiente era diferente do resto da escola — mais sóbrio, mais sério, com paredes de concreto aparente e iluminação fria de luzes fluorescentes. Este era o território de Ricardo, o núcleo de operações da Seita dentro daquele antro de elite.
Parei diante da porta, respirei fundo, e bati duas vezes.
— Entre — veio a voz de Ricardo, grave e autoritária.
Abri a porta. A sala era espaçosa, com uma mesa de vidro fumê no centro, estantes cheias de arquivos que eu sabia conterem segredos suficientes para destruir metade da elite carioca, e uma janela que dava para o pátio interno da escola. Ricardo estava sentado atrás da mesa, de terno azul-escuro, impecável como sempre.
Mas não estava sozinho.
Ela estava de pé junto à janela, olhando para fora com uma postura que lembrava uma estátua — ereta, imóvel, perfeita. Alanis. A Juíza . juiza de Nívelmaximo da Seita, uma das Principais.
Quando se virou para me receber, seus olhos verdes me avaliaram com a frieza clínica de quem está acostumada a ver através de mentiras e defesas. Ela usava um terno cinza-chumbo de alfaiataria impecável, corte que valorizava seu corpo atlético sem ser vulgar, cabelo preto curto estilizado em um corte angular que realçava seus traços marcantes. Não usava joias além de um relógio discreto e caro no pulso esquerdo. Nada em seu visual sugeria sensualidade — apenas poder, controle, eficiência.
— Matheus — disse ela, e sua voz saiu clara, precisa, sem sotaque perceptível. — Pontual. Gosto disso.
— Doutora Alanis — respondi, fechando a porta atrás de mim. — Obrigado por concordar em me receber.
Ela não sorriu. Não fez qualquer gesto de cumplicidade. Apenas assentiu levemente e gesticulou para uma cadeira de couro preto posicionada frente à mesa de Ricardo.
— Sente-se. Temos muito que discutir, e pouco tempo.
Obedeci. Ricardo permaneceu em silêncio, observando a interação com interesse profissional. Alanis caminhou até a frente da mesa, apoiando-se nela com as duas mãos, inclinando-se para frente. Seus olhos verdes fixaram-se nos meus com uma intensidade que me fez sentir nu, vulnerável.
— Vou ser direta, Matheus. Não gosto de rodeios, e você não tem o luxo de tempo para aprender gradualmente. — ela fez uma pausa, escolhendo as palavras com precisão cirúrgica. — Primeiro: tome cuidado. O Núcleo já sabe de você. Mais do que você imagina. Eles têm olhos dentro desta escola, dentro deste prédio, possivelmente dentro desta sala.
Eu senti um frio percorrer a espinha, mas mantive a expressão neutra.
— Eu sei que estou sendo observado. O Professor Bruno...
— Não é só ele — ela cortou, seca. — É maior. Mais profundo. O Núcleo opera há milênios, Matheus. Eles têm métodos que a Seita ainda não compreende completamente. Agentes que não sabemos identificar. — ela se endireitou, cruzando os braços. — Por isso, segundo ponto: seus esforços para encontrar seu pai não são despercebidos. A Seita está mobilizando recursos significativos para localizar Carlos Eduardo. Temos informações de que ele está vivo, mantido em instalações do Núcleo em algum lugar da região serrana. Mas cada passo que damos, eles antecipam. É como se soubessem o que planejamos antes mesmo de planejarmos.
— Então há um informante — concluí.
— Há sempre um informante — ela confirmou, os olhos estreitando-se. — A questão é onde. E quem.
O silêncio pairou na sala por alguns segundos. Eu podia ouvir o ar-condicionado zumbindo baixo, o som distante de alunos no pátio abaixo. Finalmente, Alanis quebrou o silêncio com uma mudança abrupta de assunto.
— Terceiro ponto: você precisa de um par romântico.
Eu piscei, confuso com a transição.
— Como assim?
— Uma namorada — ela especificou, a voz mantendo o mesmo tom clínico, impessoal. — Alguém que possa acompanhar você publicamente, participar de eventos sociais, integrar-se aos círculos de influência. Alguém de pedigree adequado, com conexões, que justifique sua presença nos espaços que precisa infiltrar.
— Eu já tenho Isabela — respondi, sentindo a irritação subir. — E Edna. Elas estão comigo.
Alanis não se moveu. Seus olhos não demonstraram qualquer emoção, mas havia algo de desdém sutil em sua expressão quando respondeu:
— Não. Aquelas são suas putas. E não estou sendo pejorativa — ela levantou uma mão, antecipando minha objeção. — Estou sendo prática. Elas servem a propósitos específicos, proteção sexual, conforto emocional. Mas não podem acompanhar você aos eventos que precisará frequentar. Não têm pedigree, não têm posição social, não têm as conexões necessárias.
— Então o que você está sugerindo? — minha voz saiu mais dura do que pretendia.
— Alguém como Pamela Barreto — disse ela, simplesmente. — Filha de um Guardião, herdeira de fortunas, posição estabelecida na elite carioca. Alguém que justifique sua ascensão meteórica, que explique sua presença nos círculos certos. Alguém que o Núcleo hesitará em eliminar simplesmente por sua utilidade social.
Eu ri. Um som curto, amargo, sem humor.
— Impossível — declarei. — Pamela é... complicada. Nós temos história, sim, mas ela não sabe nada sobre o que eu realmente sou. E não posso arrastá-la para isso maisd do que ela ja está.
— Então escolha outra — Alanis respondeu, dando de ombros com elegância controlada. — O nome não importa. A posição sim. — ela se aproximou, parando a poucos centímetros de mim, e por um segundo senti o perfume dela — algo amadeirado, frio, distante. — Estou apenas lhe dando um conselho, Matheus. Baseado em décadas de observação. O Núcleo ataca pontos fracos. Isolamento é uma fraqueza. Dependência emocional de pessoas vulneráveis é uma fraqueza. Você precisa de alguém que possa caminhar ao seu lado, não apenas atrás de você.
Eu queria argumentar, queria defender Isabela e Edna, queria dizer que elas eram mais do que "putas" — eram minha âncora, minha humanidade em meio à loucura. Mas algo nos olhos de Alanis me disse que ela já sabia disso. E que, de alguma forma distorcida, ela estava tentando me proteger.
— É só um conselho — ela repetiu, dando um passo atrás, retomando a distância profissional. — Faça o que quiser com ele. Mas lembre-se: na Seita, quem não evolui, é rebaixado. E quem se apega demais às ferramentas, esquece como usar as armas.
Ela se virou para Ricardo, que até então permanecera em silêncio observador.
— Ricardo, precisamos continuar nossa conversa. O relatório do Tribunal não vai se redigir sozinho.
Ricardo assentiu, olhando para mim com uma expressão que eu não conseguia decifrar — era simpatia, advertência, ou simplesmente cansaço?
— Matheus, você pode ir — disse Alanis, sem se virar. — E lembre-se do que discutimos. Cuidado. Sempre cuidado.
Levantei, sentindo as pernas um pouco fracas. Na porta, parei e olhei para trás.
— Doutora Alanis — chamei.
Ela se virou, uma sobrancelha arqueada em questionamento silencioso.
— Por que o senhor Augusto confia em você?
Por um segundo — tão breve que poderia ter sido imaginação — algo brilhou em seus olhos verdes. Algo que poderia ser tristeza, ou lembrança, ou apenas reflexo da luz da janela.
— Porque ele me salvou — ela respondeu, e pela primeira vez houve uma fissura em sua frieza, uma vulnerabilidade rápida demais para ser capturada completamente. — Quando eu tinha dezoito anos, minha família foi eliminada pelo Núcleo. Augusto me encontrou, me treinou, me deu propósito. — ela endireitou os ombros, a máscara de eficiência retornando. — Agora vá. E não repita o que ouviu aqui.
Saí da sala com a cabeça fervilhando. O conselho de Alanis ecoava em contraponto com as revelações de Lucia, criando um coral de vozes que puxavam para direções diferentes. Precisava de ar. Precisava de espaço. Precisava de... normalidade, se é que isso ainda existia para mim.
Fui até o campo de futebol, esperando encontrar os únicos elementos de sanidade que me restavam neste mundo de segredos. Eles estavam lá, como sempre — Paulo e Neguin, chutando bola entre si, rindo alto, aparentemente alheios à pressão que esmagava meus ombros.
— E aí, chefão! — gritou Neguin ao me ver, um sorriso genuíno iluminando o rosto. — Sumiu de novo! Tá virando executivo?
— Quem sabe — respondi, forçando um tom leve que não sentia. — O que vocês estão fazendo?
— Tentando entender como é que joga nesse campo sintético de rico — Paulo respondeu, dando um chute na bola que saiu torto. — É diferente da terra batida da escola pública, viu? A bola corre demais.
— Vocês se adaptam — murmurei, sentando-me no banco de reservas.
Eles pararam de jogar e vieram sentar ao meu lado. Por um momento, nenhum de nós falou. Apenas observamos o campo vazio, o sol tentando furar as nuvens, o mundo continuando como se nada de extraordinário estivesse acontecendo nos subsolos e salas fechadas daquele colégio.
— Eu descobri alguma coisa — Paulo disse finalmente, baixinho, olhando para os lados para garantir que não havia ninguém por perto. — Sobre a tal Maya. E sobre o Núcleo.
Eu endireitei na cadeira, toda a atenção voltada para ele.
— O quê?
— Neguin e eu estávamos fazendo aquela missão de espionagem — ele começou, a voz susurrando. — Seguindo a tal garota, a que você viu no ritual. Maya. Ela é filha de um porteiro do Helsing, sabe? Pobre porem esta sempre no meio de gente rica. E o Núcleo a recrutou há uns seis meses.
— Recrutou como? — perguntei.
— Prometeram curar a mãe dela — Neguin interveio, também baixo. — Câncer. Terminal. Eles disseram que tinham métodos, rituais, que podiam salvar ela. Em troca, Maya teria que servir de... de receptáculo, foi o termo que ouvimos.
— Receptáculo para quê?
Paulo deu de ombros, frustrado.
— Não conseguimos descobrir. Mas ouvimos uma conversa. Entre o Professor Bruno e um cara que não conhecemos. Alto, de terno preto, sempre usando luvas. Eles falaram sobre "preparação", sobre "despertar", sobre como a Maya estava "quase pronta". E algo sobre uma data — o equinócio de outono. Setembro. Falaram que era quando a "passagem" ficaria aberta.
Eu senti o sangue gelar nas veias. O equinócio de outono. Setembro. Faltavam poucos meses.
— E mais — Paulo continuou, a voz ainda mais baixa. — Eles mencionaram você. Disseram que o "Portador" estava se aproximando da "Oferta". Que quando você e a Maya estivessem... prontos... algo aconteceria. Algo grande.
Eu não consegui responder. A informação era demais, pesada demais. Eu era peça em um jogo que eu não entendia completamente, e as regras mudavam a cada momento.
— Onde vocês ouviram isso? — finalmente consegui perguntar.
— No subsolo — Neguin respondeu. — Tem uma ala abandonada, atrás da quadra de tênis. A gente seguiu o Bruno até lá. Ele não nos viu, mas a gente viu ele. E viu outras coisas.
— Que coisas?
Paulo engoliu em seco, o rosto pálido.
— Símbolos, Matheus. Pintados nas paredes. Do tipo que você viu no ritual. E... e havia uma sala. Com uma mesa de pedra. Tipo um altar. E manchas escuras no chão que pareciam... — ele parou, a voz falhando.
— Pareciam o quê?
— Sangue seco — Neguin completou, os olhos arregalados. — Muito sangue. Antigo. E novo.
O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de medo que nenhum de nós queria verbalizar. Finalmente, eu me levantei, caminhando até a grade que separava o campo do resto do campus.
— Venham aqui — chamei, gesticulando para eles se aproximarem.
Ficamos os três na grade, olhando para o pátio abaixo. E então eu os vi.
Eles estavam sentados em um dos bancos de jardim, aparentemente casualmente, mas havia algo em sua postura que denunciava propósito. Daniel Karam, no centro, com seu sorriso de predador e olhos que eu agora sabia terem pupilas de réptil em certas luzes. Ao seu lado, os gêmeos Enzo e Lourenço Moreira, idênticos em sua arrogância. Rafael Dias, o filho do embaixador, elegantemente vestido como se estivesse em um jantar de gala e não em um pátio escolar. E Kenji Takahashi, o herdeiro do império de eletrônicos, quieto, observador, perigoso.
Eles não estavam sozinhos. Duas garotas que eu não reconhecia — ambas bonitas, ambas com uma expressão vazia nos olhos que eu já conhecia tão bem — estavam sentadas nos colos de Daniel e Rafael, respectivamente. As mãos dos meninos circulavam pelos corpos das garotas de forma possessiva, casual, como se fossem objetos de propriedade.
— Eles — sussurrei, indicando com um movimento sutil de cabeça. — O Núcleo.
Paulo e Neguin seguiram meu olhar, e eu senti ambos enrijecem ao meu lado.
— Merda — Paulo murmurou. — Eles parecem... normais. Mas não são.
— Não — concordei, observando Daniel dar risada de algo que Enzo disse, a mão apertando o seio da garota em seu colo sem qualquer cerimônia. — Eles são qualquer coisa, menos normais.
— O que a gente faz? — Neguin perguntou, com a voz tensa.
— Observamos — respondi, mantendo os olhos fixos no grupo abaixo. — Aprendemos. Esperamos.
Enquanto falava, Daniel levantou o olhar. Por um segundo — um instante que poderia ter sido coincidência, mas eu sabia que não era — seus olhos encontraram os meus.mesmo de bem longe ele sorriu. Um sorriso lento, predatório, cheio de promessas sombrias.
E então ele fez o gesto. O mesmo que Bruno fazia. Toque discreto no pulso esquerdo, os dedos formando um círculo breve.
A mensagem era clara: "Eu sei que você está aí. Eu sei o que você é. E estou esperando."
Eu não respondi. Apenas mantive o olhar, tentando projetar uma confiança que não sentia. Depois de longos segundos, Daniel desviou o olhar, voltando sua atenção para a garota em seu colo, beijando-a de forma que parecia mais ato de posse do que afeto.
— Vamos embora daqui — murmurei, afastando-me da grade. — Eles sabem que estamos observando.
— E agora? — Paulo perguntou enquanto caminhávamos em direção ao alojamento.
— Agora — eu respondi, a voz firme apesar do medo que corroía minhas entranhas — agora nós nos preparamos. Setembro está chegando. E eu tenho a sensação de que quando o equinócio chegar, tudo vai mudar.
— Para melhor ou para pior? — Neguin perguntou.
Eu olhei para ele, depois para Paulo, vendo nos rostos deles a mesma determinação assustada que sentia no meu próprio peito.
— Para ambos — respondi. — Sempre para ambos.
E enquanto caminhávamos, eu não conseguia tirar da cabeça as palavras de Alanis. "Você precisa de um par romântico." E as de Lucia. "Seu pai está vivo." E o sorriso de Daniel. "Estou esperando."
O tabuleiro estava montado. As peças se moviam. E eu, peão ou rei, ainda não sabia qual seria meu próximo movimento.
Mas sabia uma coisa: não seria fácil. E não seria sem perdas.