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Eu, a esposa gostosa do meu chefe e os vizinhos deles - Parte 04

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Um conto erótico de Vinícius
Categoria: Grupal
Contém 12157 palavras
Data: 31/07/2026 16:52:30
Última revisão: 31/07/2026 17:06:03

CRONOLOGIA: Os eventos narrados aqui acontecem em 01 de agosto de 2025 (sexta-feira).

Eu sou o Vinícius. Nunca fui muito de falar de mim mesmo, mas se eu tivesse que me apresentar, diria que sou um cara normal. 25 anos, 1,76m, moreno claro, cabelo castanho-escuro meio ondulado (bagunçado quase sempre), olhos castanhos. Gosto de coisas tranquilas, observar mais do que falar, aprender no meu ritmo. Não sou o mais confiante, mas também não sou bobo. Trabalho como analista de comércio exterior júnior, na Dumont & Maffei Global Trade, uma empresa de importação e exportação. Fui efetivado há pouco tempo, depois de dois anos de estágio puxado.

Meus chefes são o Rogério e a Lorena. Nepobabies, sócios e donos/cofundadores da empresa. Jovens, bonitos, carismáticos e, meu Deus, absolutamente caóticos. Às vezes um é o cara sensato que resolve tudo com calma; no dia seguinte, o mesmo está organizando uma competição de quem consegue equilibrar mais potinhos de café vazios na cabeça. E o pior: o outro embarca.

Ela e o Rogério me apresentaram uma amiga deles, Lisandra. Só de pensar nela, eu sinto meu coração acelerar. Tem 23 anos, mas carrega uma maturidade que me desarma. E, de alguma forma, quis namorar comigo. Talvez seja porque, assim como eu, ela também precisou batalhar muito cedo. Pele clara, olhos que lembram o mel sob a luz do sol, e aqueles cabelos loiros, lisos, que caem sobre os ombros. Mas o que mais me deixa sem ar é a boca dela. Lábios carnudos, rosados, sempre convidativos. Sem mencionar o corpo dela. Alta, coxas firmes que denunciavam horas de movimento e trabalho. A cintura dela é fina, desenhando uma curva perfeita até os quadris. Uma bunda que desafia qualquer homem a não virar o pescoço quando ela passa. Os seios pequenos.

O nosso capítulo começa na sexta de manhã.

O meu encontro com o Miguel foi uma experiência. Eu já tinha conhecido pai e irmão de namorada e até uma tia que me interrogou sobre intenção de casamento antes de perguntar meu nome. Mas tinha sido a primeira vez que eu tinha dormido na casa do cara sem avisar, transado com a irmã dele na sala (e no banheiro e na cama dela) e usado uma escova de dentes recém-comprada que não sabia de quem era. A frase “desculpa qualquer coisa” parecia uma reação pouco honesta.

Vou pular essa conversa. Mas resumindo o final, eu tinha esquecido de levar roupa de trabalho pra partida. Por isso, tive que usar uma camisa social e uma calça emprestadas do Miguel. Ele era 10 cm mais alto que eu, além de ombros mais largos. As mangas cobriam metade das minhas mãos quando eu relaxava os braços. A barra da calça tinha recebido duas dobras e ainda ameaçava encostar no chão. Apertei o cinto até a calça parar de escorregar. Saímos cedo. A Lisandra também porque ela tinha que trabalhar nos apartamentos da Andréia e do Carlos naquela sexta.

Quando cheguei no escritório, o pessoal estava todo na copa. O Tiago narrava a partida pra todos, com o Rodolfo encostado na bancada, tomando café e confirmando tudo. A Pâmela, baixinha e loira, segurava uma caneca perto do peito e ouvia com atenção. A Donna tinha se apoiado na bancada. A Renata estava ao lado da Marília, enquanto o Dirceu mexia no café. A Érica tinha saído da recepção para escutar o final. O Nildo permanecia perto da geladeira, quieto.

— O Pedro recebeu sozinho dentro da área — dizia Tiago. — O goleiro já tinha caído. Eu percebi antes de todo mundo, voltei uns cinco metros e bloqueei a primeira finalização.

Parei perto da porta e fiquei ouvindo o relato que não correspondia ao que eu (ou quem quer que tenha assistido) se lembrava.

— A bola voltou no atacante. Ele tentou de cabeça. Eu me joguei de novo e tirei quase em cima da linha.

— Com a ponta do pé — acrescentou Rodolfo.

— Isso. Eu já estava no chão, mas consegui esticar o pé.

— Foi incrível — disse Rodolfo.

Pâmela abriu um sorriso pequeno. O Tiago percebeu e ajustou a postura. Ele tinha um jeito relaxado que costumava parecer espontâneo.

— Depois veio aquele chute de fora. A bola ia no ângulo. Eu corri para trás e desviei de cabeça.

O Rodolfo bebeu café e acrescentou:

— Ele caiu na rede depois do corte, mas salvou o gol. Tirou antes da linha. Por centímetros.

Foi quando notaram a minha chegada.

— E como o Vinícius foi? — perguntou Dirceu. — O Dênis falou que ele pegou muito.

— Foi seguro depois do começo — comentou Tiago. — Só teve uma bola no primeiro tempo que desviou no gramado e entrou por baixo do braço. Mas aquilo enganava qualquer goleiro.

Pelo menos, ele relevou meu frango vergonhoso que nem um amador teria levado.

— Como não ficar seguro quando se tinha uma defesa que tinha um cara que era o Baresi, Beckenbauer e Maldini em um só? — completou Rodolfo.

Quem era Baresi?

A Pâmela continuava olhando para ele. Ela era tímida e raramente entrava numa conversa quando havia muita gente. Mas o relato tinha prendido sua atenção. O Tiago percebeu e começou a contar o lance do chute do Enéias que eu desviara na trave. Na versão nova, ele tinha fechado o atacante e forçado a finalização. O pé dele ainda teria tocado na bola. O desvio foi decisivo pra minha defesa. O Rodolfo confirmou.

— Por que você não desviou essa sozinho? — desconfiou Dirceu.

— O Vinícius precisava impressionar um pouco a namorada.

Eles olharam pra roupa que eu estava usando, que claramente não era minha, e acertaram mentalmente quase tudo que tinha acontecido entre o jogo e a minha chegada.

— Impressionou mesmo — brincou Marília.

— Não é que o nosso Vini conquistou a 11 de 10 — brincou Dirceu.

A Pâmela ficou vermelha por tabela. Érica riu e voltou a olhar pro Tiago, talvez esperando que ele também revelasse algum pós-jogo. Tiago ajeitou o cabelo e escolheu guardar mistério.

Mais que envergonhado, fui até o garrafão encher a minha garrafa. O Tiago retomou a partida para me salvar do meu constrangimento. Narrou tudo numa versão que ele era o técnico e o defensor em campo, mas também dava um pouco de glória pro Rogério (que não tomou caneta), pra Lorena (que fez o triplo do que realmente fizera), para mim (que salvei uma bola que ele deixou passar numa falha causada pelo cansaço aos 40 do 2º tempo) e pro Rodolfo (o jogador mais polivalente do mundo).

A Pâmela perguntou quem tinha sido o MVP da partida.

— Essas coisas são subjetivas — respondeu Tiago, modesto. — O time todo foi bem.

O Rodolfo tomou mais um gole.

— O pessoal do nosso lado apontou o Tiago como MVP.

— Várias pessoas comentaram — acrescentei.

A Pâmela sorriu outra vez e o Tiago me agradeceu com um movimento discreto da cabeça.

O horário de entrada se aproximou. A Érica lembrou que precisava voltar à recepção. A Donna terminou a água e saiu com Renata e a Pâmela. Dirceu e Marília seguiram juntos pelo corredor, seguidos pelo Tiago e o Nildo.

O Rodolfo permaneceu na bancada. Ele esperou o barulho das vozes se afastar e apoiou a caneca ao lado do corpo.

— Você se deu bem ontem.

— O time todo se deu bem.

— Estou falando da “11 de 10”.

Se eu demonstrasse vergonha, ele continuaria. Meu rosto esquentou antes de eu escolher qualquer reação.

— Foi tudo bem.

— Essa roupa é do sogro ou do cunhado?

— Cunhado.

O Rodolfo observou a sobra de tecido nos meus ombros. Depois olhou para a barra dobrada da calça.

— E valeu por ficar quieto — disse ele, apontando com o queixo pro corredor. — O Tiago está tentando impressionar a Érica.

— Eu pensei que fosse a Pâmela.

— A primeira que ficar impressionada o bastante está valendo.

O Rodolfo pegou a caneca outra vez e bebeu mais um gole.

— Quase três meses de chove-não-molha — comentou, voltando ao tema que me deixava vermelho. — Você se arriscou muito em perder ela.

— A Lisandra queria ir devagar.

— Devagar é uma coisa. Você foi lerdo!

— Ela tinha seus motivos.

— Relaxa. Estou zoando. Vocês fizeram o que funcionou para vocês. — Rodolfo deu um tapinha nas minhas costas. — Mas nunca mais deixe as coisas chegarem ao ponto dela se sentir na obrigação de fazer um ultimato como o de terça.

Ele um último gole de café.

— Como naquele seu frango, esquece os erros passados e foca no presente.

— Pode deixar.

Ele desceu da bancada. A caneca vazia ficou na pia. Ajeitou a camisa sobre a cintura e olhou o próprio reflexo escuro na porta do micro-ondas.

— Hoje quem vai se dar bem sou eu.

— Rolou match com o Antônio?

— Rolou. Marcamos um jantar pra esta noite.

Na terça passada, a Jéssica dissera ao Rodolfo que apresentaria o Antônio antes da partida caso fosse do interesse do contador. O Antônio foi o nosso atacante e fez um dos gols. O entrosamento dos dois durante a partida foi nítido.

— Primeiro, um jantar. Depois a gente vê. Nem todo mundo é puritano igual a você para esperar três meses por sexo.

O Rodolfo parecia interessado, porém sem criar um roteiro inteiro antes do encontro. Ele pegou a caneca e encheu com mais café. Peguei a minha garrafa e fomos pra porta.

— Espero que dê certo com o Antônio.

— Amanhã, eu te mando um emoticon sorrindo se eu tiver me dado bem e um poker face se não rolou nada. — Ele pensou por alguns passos. — E se ele for tão bom na cama quanto era no ataque, a gente pode marcar um encontro duplo. Você e Lisandra. Eu e Antônio.

— O que aconteceu sobre não criar expectativas?

— 24 cm.

— Isso é muita expectativa.

— Para você, tudo antes de três meses parece cedo.

Empurrei de leve o braço dele com o ombro e ele riu. Chegamos às nossas baias e começamos a trabalhar.

Pouco antes das 9h30, o Tobias passou a circular pelo escritório com uma pilha de folhas. Ele carregava a expressão de quem tinha de impedir o colapso da empresa por meio de um memorando de duas páginas. Ele chegou à minha mesa e me deu uma das folhas. Li duas vezes antes de olhar para ele.

“DIRETRIZES SOBRE DPA NO AMBIENTE DE TRABALHO”.

— DPA? O que é isso?

— Demonstrações Públicas de Afeto. O documento consolida parâmetros de convivência, delimita comportamentos incompatíveis com o ambiente corporativo e orienta os colaboradores quanto aos possíveis desdobramentos disciplinares.

Antes que eu pudesse perguntar o motivo daquilo, as portas dos dois escritórios da diretoria se abriram quase ao mesmo tempo. O Rogério e a Lorena saíram com os memorandos nas mãos. A Lorena usava uma calça de tecido leve e uma blusa ajustada. O cabelo escuro caía até perto das clavículas, liso naquela manhã, emoldurando o rosto de traços suaves e olhos cor de avelã.

O corpo dela chamava atenção mesmo naquela roupa. A cintura marcada deixava as pernas torneadas mais evidentes, enquanto o tecido acompanhava a bunda firme e arredondada. Os seios médios preenchiam a blusa de maneira natural e os braços esguios tinham uma leve definição.

Ela ergueu o papel na direção de Tobias.

— Vocês não conseguiram pensar numa sigla menos ofensiva?

Tobias franziu a testa, aparentemente incapaz de identificar onde estava a ofensa.

— A nomenclatura foi selecionada por representar uma tradução objetiva do conceito e permitir a rápida identificação do assunto abordado.

— Estou falando da sigla começar com DP.

O silêncio de Tobias mostrou que ele continuava sem entender e a Lorena não queria explicar em público. Foi a vez do Rogério perguntar:

— Isso tem a ver com o incidente no almoxarifado na terça?

— A ocorrência mencionada não integra o escopo desta comunicação.

— Então foi por causa do incidente no almoxarifado da semana passada?

— Essa ocorrência também permanece fora do escopo do documento atual. Nenhuma medida relacionada a ela está sendo formalizada neste momento.

— E o incidente no almoxarifado da semana anterior?

— As situações citadas até o momento não possuem vínculo com esta iniciativa de orientação coletiva. Recomendo que perguntas adicionais sobre episódios anteriores no almoxarifado sejam encaminhadas por um canal individual e reservado.

O Rogério olhou ao redor e percebeu que boa parte do escritório havia abandonado qualquer esforço para fingir que trabalhava. O Tiago mantinha uma das mãos parada sobre o teclado, o Dênis observava a conversa com a testa franzida e a Pâmela encarava uma planilha imóvel havia tempo demais.

— Quero deixar registrado que eu nunca fiz nada impróprio com a minha esposa dentro do meu escritório — anunciou Rogério, como se sentisse cobrado. — Isso jamais aconteceu.

O Rogério pode não ter percebido na hora. Mas várias pessoas, além de mim, que conheciam bem ele e a Jéssica, tinham notado que a escolha específica das palavras indicava que nem as nossas baias podiam estar livres.

Tobias respirou fundo e ergueu o memorando um pouco mais.

— A comunicação atual foi motivada pelo recebimento de manifestações relacionadas a um casal que teria mantido contato íntimo na copa durante o expediente de terça-feira. O objetivo é alinhar expectativas de comportamento e reduzir a possibilidade de novos desconfortos coletivos.

Senti meu estômago apertar. Quem tinha dado uns amassos na terça na copa tinha sido eu e a Lisandra. Foi quando a gente começou a namorar.

Do nada, o Dirceu e a Marília levantaram as mãos antes que eu precisasse tomar qualquer decisão. Os dois estavam sentados em lados diferentes da sala e a tranquilidade deles tornava a admissão ainda mais inesperada.

— A culpa foi nossa. Pelo menos imagino que vocês estejam falando da gente — disse Dirceu.

— A finalidade deste alinhamento não inclui atribuição pública de culpa. A exposição espontânea também não é necessária para a aplicação das orientações.

— Então fomos nós sem atribuição pública de culpa — respondeu Dirceu.

— Eu só queria saber quem reclamou — disse Marília. — Porque ninguém entrou na hora, a pessoa viu pela porta e foi reclamar?

— A identidade de quem apresenta uma manifestação precisa permanecer protegida. Essa confidencialidade reduz o risco de constrangimento, retaliação e deterioração das relações entre os envolvidos.

A Lorena abriu um sorriso animado.

— Vocês estão namorando?

Tobias fechou os olhos por um instante e pareceu buscar forças em algum procedimento interno.

— Lorena, considerando sua posição de liderança, perguntas sobre vínculos afetivos entre funcionários podem criar uma percepção de invasão de privacidade. Elas também podem gerar desconforto, mesmo quando formuladas por curiosidade pessoal.

— Foi só curiosidade.

— Curiosidade associada a uma relação hierárquica continua apresentando impacto hierárquico. A ausência de intenção inadequada não elimina esse efeito.

— Eles não podem estar namorando — respondeu Rogério. — Eles são casados.

Dirceu e Marília se olharam e deram de ombros.

— Eles nunca fariam isso com os cônjuges deles.

— Nós somos casados um com o outro — explicou Marília.

— Vocês se separaram pra se casar? — estranhou Rogério. — Tão rápido assim.

— Nós somos casados já faz cinco anos.

A Lorena perdeu o sorriso por alguns segundos. O Rogério rememorou tudo que lembrava dele há anos.

— Isso explica as alianças... — comentou Rogério.

— Casados? Vocês dois? — insistiu Lorena.

— A gente já era casado quando entrou aqui — respondeu Marília.

A Lorena olhou pro resto de nós.

— Só por curiosidade, tem mais algum casal aqui?

— Essa pergunta também ultrapassa os limites recomendados para uma interação entre liderança e equipe — tentou Tobias. — Informações dessa natureza devem ser compartilhadas de maneira voluntária, individual e apenas quando possuírem relevância objetiva para o trabalho.

— Existe alguma regra proibindo relacionamento entre funcionários? — perguntou Tiago, do nada.

— Relacionamentos consensuais não são proibidos. Existem procedimentos destinados à prevenção de conflitos de interesse, favorecimento, assédio e exposição inadequada no ambiente de trabalho.

— E trazer alguém de fora? — perguntou Dênis. — Uma visita comum.

Tiago soltou um ruído curto pelo nariz.

— Uma visita comum ao almoxarifado.

A Donna afastou a cadeira da mesa e apoiou um dos braços no encosto.

— E no depósito do andar de baixo? Ouvi que já usaram até pra suruba.

— Esse tipo de especulação foge completamente da finalidade desta comunicação — respondeu Tobias. — A empresa espera que todas as interações ocorram de maneira respeitosa, consensual e compatível com o uso adequado das instalações.

— Eu ouvi que alguém transou na sala de reunião — comentou Marília.

— Quando foi isso? — perguntou Pâmela. — Na sala grande ou na pequena? Não que tenha sido eu, mas...

Ela percebeu o que falava e voltou rapidamente pro computador. A tentativa de parecer ocupada falhou porque sua mão nem sequer estava sobre o mouse.

Durante esse intervalo, a conversa se espalhou pelo escritório. Cada pessoa parecia conhecer um boato diferente. Todo mundo já tinha ouvido gemidos ou barulhos de casais fornicando, ou boatos a respeito, em praticamente todos os cômodos do escritório. E lembraram que duas pessoas viram dois casais diferentes, não identificados, se pegando em lugares diferentes ao mesmo no arraial da empresa. E lembraram que já tinha sido visto pelado por quem sem querer ou querendo.

Tobias tentou interromper o vozerio duas vezes e foi ignorado. Na terceira, soltou um pigarro tão forte que parecia carregar toda a frustração acumulada desde o primeiro dia em que entrara naquela empresa.

O escritório inteiro se calou ao mesmo tempo. Os últimos a se calar foram Rogério e Lorena, que apontavam um para o outro.

— A única pessoa daqui que eu já vi pelada foi ela — disse Rogério.

— A única pessoa daqui que eu já vi pelado foi ele — disse Lorena.

As falas ficaram suspensas no ar. O Rogério abaixou o braço devagar e a Lorena acompanhou o movimento poucos segundos depois. Todo mundo olhou pros dois em silêncio.

— Existe uma história completamente razoável por trás disso — arriscou Lorena. — Ela é engraçada, não é o que vocês estão pensando e faz todo o sentido dentro do contexto.

Ninguém disse nada.

— Eu acho bom deixar claro que eu já era casado nas vezes em que isso aconteceu.

O julgamento coletivo e silencioso tinha piorado.

— Isso piorou bastante a história — comentou Lorena entre dentes.

— Percebi depois que falei.

Tobias olhava pros dois com a expressão de quem tentava calcular quantas reuniões individuais seriam necessárias para apagar os efeitos daquela manhã. O Dirceu pigarreou e olhou ao redor.

— Proponho que todo mundo finja que os últimos cinco minutos nunca aconteceram.

A adesão correu pela sala com uma rapidez rara e o DPA foi esquecido por algumas semanas.

Por volta das 10h30, a porta das salas de Rogério e Lorena abriram. O Rogério foi até o setor administrativo e voltou acompanhado do Tobias. A Lorena bateu duas palmas.

— Gente, atenção um instante.

Antes que ela falasse, o Dênis levantou a mão.

— Recebi um telefonema urgente da Zacinthos. Eles querem marcar uma reunião hoje, às 13h.

A sala ficou mais atenta. A Zacinthos representava uma fatia importante do faturamento da empresa. Qualquer mensagem deles vinha acompanhada de um cuidado especial.

— É sobre a renegociação? — perguntou Rogério.

— Sim. Querem bater o martelo nas alegações de falhas do contrato atual. Exigem a reunião precisa hoje e nesse horário.

A Lorena checou seu e-mail pelo celular.

— Acabamos de receber o convite.

O Rogério leu a tela por cima de seu ombro.

— A Antonela revisou esse contrato várias vezes desde a primeira conversa. — Ele mencionava a advogada que cuidava do jurídico da empresa. — Ela confirmou que o texto está claro. Nenhuma cláusula ambígua. A Zacinthos conhece a posição da gente.

— Eu chequei os valores — comentou Rodolfo. — O contrato está sendo seguido à risca.

— Eles marcaram em cima da hora, pro horário do almoço e estão tratando a conversa como decisão final — avaliou Rogério. — Isso mostra que querem encerrar o assunto. Eles sabem que a tese deles é fraca e querem seguir em frente sem drama.

— A equipe jurídica que vinha cuidando disso ficou fora do convite — comentou Lorena, lendo o e-mail. — Vão mandar uma advogada nova e o nome dela nem aparece aqui.

— Talvez confirmem depois — especulou Dênis.

— Provavelmente — respondeu Lorena. — A ausência da equipe que participou de todo o imbróglio diz bastante.

O contrato da Zacinthos com a Dumont & Maffei valia milhões. Nenhum dos dois lados queria uma guerra aberta. Tirar a equipe jurídica que começou a confusão pareceu um movimento de recuo amigável da parte deles.

— Vocês dois vão participar? — perguntou Dênis, ajeitando os papéis sobre a mesa.

— Tenho umas pendências pessoais para resolver no almoço — respondeu Lorena.

— Também tenho um compromisso inadiável — respondeu Rogério. — Já estou falando com a Antonela. Ela conhece o contrato inteiro e vai participar.

Se fosse mais uma rodada de discussões contratuais, os dois dariam um jeito de estarem presentes. Conhecia ambos o suficiente pra saber disso. Mas tudo indicava que não passava de uma “vamos deixar o passado no passado e todos voltarmos a sermos amigos” com uma advogada novata tendo que passar o recado porque nenhum dos titulares queria se sujeitar a isso.

O Rogério olhou pro Dênis e pro Rodolfo. Quando seus olhos chegaram em mim, as coisas parecerem erradas.

— Antonela, Dênis, Rodolfo e Vinícius, vocês participam. A reunião tende a ser rápida.

— Eu?

— Você acompanhou a negociação, organizou o histórico das operações e ajudou o Dênis com a papelada.

O que não foi dito em voz alta era algo como “você vai ser o rapaz que entra mudo e sai calado, escreve a ata, observa tudo e aprende pra quando for a sua vez no lugar do Dênis numa negociação desse tamanho”.

Depois que a Lorena guardou o celular, a expressão séria desapareceu. A mudança dos dois foi tão rápida que a Zacinthos pareceu perder importância no mesmo instante.

— Resolvida a parte chata, temos uma coisa boa — disse Lorena. — Hoje é o aniversário do Nildo.

Alguns colegas começaram a bater palmas. O Nildo ficou vermelho nas bochechas e tentou sorrir.

— Não precisava fazer nada.

— Precisa, sim — respondeu Lorena. — Nós comemoramos os aniversários de todo mundo aqui!

O Nildo puxou a gola da camisa. O ar-condicionado estava forte, e ainda assim uma camada fina de suor surgiu perto de sua testa.

As festas de aniversário haviam se transformado numa tradição aqui. Rogério e Lorena organizavam uma pra cada funcionário, sempre com bolo e balão. O aniversariante ganhava um cartão assinado por todo mundo, embora algumas assinaturas fossem tão grandes que ocupavam metade do espaço. No começo, as festas aconteciam no horário do almoço. Eles achavam que estavam oferecendo um momento descontraído sem atrapalhar o expediente.

O Tobias teve que explicar aos dois que participações obrigatórias em eventos fora do expediente poderiam causar problemas trabalhistas e colocar “presença facultativa” no convite não resolveria quando o convite vinha dos donos da empresa. Por isso, eles mudaram pra festa durante o expediente. Que eram boas como descanso e ruins quando estávamos com prazos apertados e depois precisávamos correr pra recuperar o tempo usado na comemoração.

O único que sempre ficava de fora das festas era o Nildo, por ser celíaco. Segundo ele, qualquer contato com glúten podia causar uma reação forte.

Não que isso tenha impedido a dupla de procurar lanchonetes inclusivas que funcionassem no horário do expediente pra comemorar o aniversário do Nildo. No ano passado, ele pegou um atestado por quatro dias bem na época do próprio aniversário.

— Antes da celebração, gostaria de registrar que a participação permanece voluntária e integrada ao horário regular — anunciou Tobias.

A Lorena fez um gesto para Nildo se levantar.

— Vem com a gente.

Ele demorou para empurrar a cadeira. Quando ficou de pé, limpou as mãos na lateral da calça. Todos se reuniram em volta dele e começamos a cantar “Parabéns pra você”.

Tobias levantou a mão após uma certa linha.

— A menção a muitos anos de vida pode ser mantida como manifestação de boa vontade. O trecho referente a exigências pessoais do aniversariante deve preservar o direito de escolha.

A Lorena fechou os olhos por um instante. Retomamos o parabéns. Menos o Tobias, que acompanhou com uma letra própria, falando sobre ciclo, bem-estar e pertencimento.

Quando terminamos, o Rogério colocou a mão no ombro dele.

— Agora vem o presente.

O pânico do Nildo aumentou. Seus olhos percorreram a sala como se procurassem uma caixa grande ou alguma surpresa capaz de saltar de trás de uma mesa. A Lorena trocou um olhar animado com o Rogério.

Seguimos pelo corredor. Perto da sala de descanso, havia uma porta que ficara fechada durante as reformas da semana anterior. Eu passara por ela várias vezes sem perguntar o que estavam fazendo. A Lorena parou diante da porta. Uma fita verde atravessava a entrada. Havia uma placa coberta por um pano branco. O Tobias posicionou o Nildo no centro, respeitando uma distância que ele chamou de “adequada para o registro institucional”.

— O que tem aí?

— Seu presente — respondeu Rogério.

O Nildo perdeu mais cor. A Lorena puxou o pano da placa do local: “Estação Inclusiva”. Abaixo do nome, uma frase menor informava que o espaço havia sido criado para oferecer segurança alimentar e participação plena nas atividades internas.

Todos aplaudiram. A antiga área vazia agora tinha uma bancada nova ocupando a parede principal. Um armário branco exibia etiquetas verdes e avisos sobre uso exclusivo. Uma geladeira pequena ficava no canto, ao lado de um micro-ondas embalado em plástico transparente. Caixas fechadas guardavam pratos e copos. Os utensílios vinham separados em compartimentos próprios. A parede havia recebido revestimento lavável. Uma faixa no chão delimitava o espaço. As instruções de limpeza estavam impressas e protegidas por plástico. Até a esponja tinha uma embalagem individual.

— Tudo aqui é exclusivo para alimentos sem glúten — explicou Lorena. — A geladeira, o micro-ondas, os armários e os utensílios ficam separados.

O Rogério apontou pra bancada.

— Tudo feito pra reduzir o risco de contaminação cruzada. O pessoal da limpeza recebeu orientação específica.

— A empresa contratada emitiu um protocolo detalhado — acrescentou Tobias. — O espaço também terá controle periódico, registro de uso e acompanhamento da percepção do colaborador beneficiado.

— Agora, você vai poder participar de todas as nossas festas! — disse Lorena.

— Pra sempre! — emendou Rogério.

Todos olharam pro Nildo. Ele estava imóvel.

— Isso deve ter saído bem caro... — Foi a única coisa que ele disse.

— Um bocado — disse Lorena. — Mas a gente estava há três anos pensando em como te integrar nas festas!

O Nildo olhou pra estação. Seu suor já alcançava as laterais do rosto.

A Lorena abriu a geladeira. Dentro havia caixas de salgadinhos e um bolo coberto. Tudo estava lacrado. Os rótulos exibiam selos grandes informando a ausência de glúten.

— A primeira festa aqui é a sua — disse.

— Também pode trazer seu almoço e guardar aqui — continuou Rogério. — Acabou aquele drama de ter que ir almoçar em casa todo dia.

O Nildo passou a mão pela testa.

A Lorena explicou que já havia comentado sobre o problema do Nildo e a iniciativa que eles com as empresas do prédio. Algumas demonstraram interesse em conhecer a estação. O Tobias até estava preparando um material para treinamento interno e estudo de caso.

— Estudo de caso?

— A recusa não produzirá qualquer efeito negativo na relação de trabalho — respondeu Tobias. — A iniciativa continuará sendo reconhecida como resposta a uma necessidade real identificada no ambiente.

O Rogério entregou uma tesoura pro Nildo.

— Corta a fita.

As pessoas abriram espaço. A Érica começou a filmar. O Nildo pegou a tesoura com uma mão trêmula.

— Eu preciso falar alguma coisa?

— Uma fala é opcional. Caso escolha se manifestar, recomendo um conteúdo espontâneo, breve e alinhado à sua experiência pessoal.

O Nildo apenas encarou o responsável do RH.

— Isso ajudou muito.

— Fico satisfeito com o retorno.

Quando a fita caiu, todos aplaudiram de novo e a Lorena o abraçou.

— Feliz aniversário.

Entramos na estação e começamos a festinha do Nildo. O Tobias também participou, mas estava mais interessado em repassar todos os protocolos técnicos de uso do espaço a todos.

— A ação também produz aprendizado institucional. O impacto poderá ser acompanhado por indicadores de utilização, adesão e satisfação.

— Indicadores? — estranhou Nildo.

— Uma avaliação simples sobre uso do espaço, percepção de segurança e eventuais necessidades de melhoria.

A Lorena se aproximou, ainda sorrindo.

— A gente quer ter certeza de que está funcionando pra você.

— Está perfeito.

— Você nem usou ainda.

A Lorena achou graça. O Nildo tentou acompanhar o sorriso dela. A festinha foi boa e todo mundo se divertiu, mas aquele era um daqueles dias que eu não teria muita folga. Depois disso, voltei pra minha mesa e abri os documentos da Zacinthos.

Todo mundo estava bem confiante pra reunião das 13h. E todos tinham motivos para isso. Estávamos vencendo a discussão com vantagem. Mas a minha intuição dizia que tinha algo muito estranho.

Pouco depois, a Lorena saiu. Não disse pra onde, só que era algo importante. Depois, foi o Rogério quem teve que sair pro seu compromisso inadiável. Pouco depois, saíram a Marília com seu Dirceu.

Perto das 12h45, os quatro já estávamos na sala de reuniões com tudo organizado. Estávamos muito bem preparados.

O Dênis conhecia aquela relação comercial desde o começo. Sabia os volumes negociados, os descontos concedidos em cada renovação e a margem que restava depois de todos os custos. Lembrava o que havia sido prometido em cada conversa e conseguia apontar a origem de quase todo crédito ou abatimento registrado nas operações. Também dominava as condições obtidas com transportadoras e seguradoras. O Rodolfo tinha uma planilha aberta em cada monitor disponível. Ele conseguia calcular o custo de qualquer concessão e medir a exposição financeira de uma cobrança retroativa. Já havia montado quatro cenários, até uma catástrofe. A Antonela havia chegado pouco depois do meio-dia e revisara o contrato inteiro outra vez. Era uma advogada empresarial experiente, conhecia a estrutura jurídica daquele negócio e participara diretamente da redação das cláusulas discutidas.

Segundo ela, a posição da Dumont & Maffei permanecia sólida. O texto distinguia os benefícios gerados exclusivamente pelas operações da Zacinthos daqueles obtidos graças ao conjunto da carteira da empresa. Os descontos questionados pertenciam à segunda categoria.

Foi quando a recepcionista avisou que os representantes da Zacinthos haviam chegado. Fomos recebê-los na recepção.

A mulher que nos esperava perto do balcão pareceu examinar todo o ambiente antes de voltar a atenção para nós. Ao lado dela havia um rapaz magro.

Ela era alta, por volta de 1,73m, com uma postura reta que valorizava ainda mais o corpo. Usava uma calça preta de cintura alta, camisa clara e um blazer aberto. A cintura estreita criava uma transição acentuada para a bunda redonda e projetada. As coxas grossas preenchiam a calça e davam ao corpo uma força que contrastava com os braços finos. Os seios médios empurravam a camisa com volume suficiente para prender nossa atenção. A abertura entre os primeiros botões revelava uma parte pequena do colo moreno.

Tinha a pele morena, com um tom dourado. O rosto era oval e alongado, afinando até um queixo pequeno. Os olhos castanho-escuros eram grandes, levemente puxados nos cantos. As sobrancelhas arqueadas reforçavam uma expressão atenta. O nariz estreito terminava numa ponta arredondada, e a boca tinha lábios cheios. O cabelo preto caía liso, com uma franja longa penteada para o lado. Seu sorriso era bonito e amplo. Havia alguma coisa naquele sorriso que me causou uma impressão estranha. Parecia educado e agradável. Ao mesmo tempo, ela observava cada um de nós como se nos calculasse.

O Dênis se apresentou primeiro.

— Sou responsável pela relação com a Zacinthos.

— Milena — respondeu, apertando a mão dele.

Foi assim que conheci o nome da Milena.

Ela apresentou o rapaz ao lado como Caio, estagiário do departamento jurídico da Zacinthos. Ela explicou que trabalhava numa firma contratada naquela manhã para encerrar a questão entre as duas empresas.

— Examinei a documentação que nos enviaram e entendi que já temos informações suficientes para resolver isso logo.

O tom era tranquilo. A frase soava conciliadora. Antonela e Dênis trocaram uma olhada rápida e entenderam a mesma coisa: a Zacinthos havia percebido a fragilidade da própria posição e mandara alguém para negociar uma saída aceitável.

Isso reduziu parte da tensão. O pedido inicial envolvia uma redução de 05% na remuneração da Dumont & Maffei. O Dênis acreditava que eles poderiam oferecer um ajuste menor agora em troca de uma renovação mais longa. Todos estavam de acordo.

A Milena cumprimentou cada um de nós. Quando chegou a mim, seus olhos passaram pelo meu rosto, pelo crachá e pela pasta que eu carregava. O aperto de mão foi firme. Ela observava tudo e todos com a mesma expressão.

Enquanto seguíamos o Dênis pra sala de reuniões, percebi quando a Milena inclinou um pouco o rosto na direção do Caio.

— 15 minutos.

— Certo — respondeu o rapaz ajustando o relógio.

Por algum motivo, decidi decorar a hora também.

Quando entramos, a Milena parou perto da porta e leu o nome da empresa gravado na parede.

— Dumont & Maffei — comentou. — Esses sobrenomes não me são estranhos...

— Se você não lembra de onde, não deve ser importante — comentou Caio.

Ela ficou em silêncio por um instante e sorriu para ele.

— Tem razão.

Primeiro, ela disse que entrou no caso há poucas horas e já tinha chegado a conclusões em uma leitura. Agora, assumia que mal tinha lido o nome da empresa. Tudo soava despreparo.

A Milena sentou no lugar indicado e prestou atenção em quem sentava onde. A Antonela tomou o assento mais próximo da cabeceira e deixou o contrato marcado à sua frente. O Rodolfo escolheu uma cadeira diante do monitor, com a planilha aberta. O Dênis ocupou a cabeceira e eu fiquei mais perto da porta, com o notebook aberto.

— Devido ao pouco tempo entre o convite e a reunião, tivemos uma combinação de imprevistos — explicou Dênis. — Os dois sócios estão indisponíveis. Reunimos o melhor time que tínhamos. Eu respondo pela decisão administrativa enquanto eles estão fora.

A Milena assentiu, mas notei seus olhos passando pelas marcações da Antonela, pela tela do Rodolfo e pros papéis que eu tinha sobre a mesa. Depois, sorriu de leve.

O Dênis começou pela posição da empresa. Falou com segurança. Existia um contrato vigente, negociado entre duas empresas. Os preços estavam definidos. As obrigações de cada lado também. A forma de remuneração havia sido discutida durante meses antes da assinatura.

— A Zacinthos pediu uma redução de 05% — disse ele. — Examinamos o pedido e concluímos que o contrato continua adequado. As condições podem seguir até o término. Podemos discutir algo apenas para a renovação.

Ele apresentou um resumo dos anos de relação entre as empresas. Explicou que os volumes haviam crescido e que a Dumont & Maffei fizera investimentos para atender aquela conta. Também mostrou que a remuneração permanecia dentro dos parâmetros acordados, mesmo depois das mudanças operacionais.

A Antonela assumiu em seguida. Sua exposição foi firme. O contrato fora negociado livremente. A Zacinthos tinha equipe própria, conhecia o modelo de cobrança e recebera relatórios durante anos. As faturas haviam sido pagas sem uma contestação formal capaz de alterar o modo como a relação funcionava.

— O contrato separa duas situações — explicou ela. — Benefícios obtidos por causa de uma operação específica devem ser repassados. Ganhos obtidos graças ao tamanho da nossa carteira ficam com a Dumont & Maffei. Os descontos discutidos vieram da força comercial da empresa como um todo.

A Milena escutava com as mãos apoiadas sobre a mesa. Mantinha o corpo imóvel, exceto quando virava uma página.

Antonela prosseguiu. Nenhuma parte podia mudar a interpretação do contrato apenas porque desejava pagar menos depois de anos de execução. A Zacinthos recebera os serviços, conhecera os relatórios e aproveitara todas as condições obtidas. A tentativa de reclassificar os descontos criava uma contradição com o comportamento anterior.

O Dênis voltou a falar para explicar a origem econômica dos benefícios. A Dumont & Maffei negociava com vários fornecedores usando o volume agregado de sua carteira. As condições mudavam conforme o conjunto das operações. Uma transportadora jamais concederia o mesmo desconto considerando apenas a movimentação isolada da Zacinthos. Ele mostrou tabelas comparativas e propostas antigas. Os números apoiavam sua explicação. Em operações semelhantes, clientes menores haviam recebido custos mais altos porque não teriam acesso às condições obtidas pela Dumont & Maffei.

O Rodolfo completou a apresentação. A contabilidade da empresa tratara aqueles valores desde o início. Aceitar a interpretação proposta pela Zacinthos afetaria a estrutura de remuneração daquele contrato e poderia criar discussões em outras contas.

Quando eles terminaram, me senti confiante. Nossa posição era sólida. O máximo que a Milena podia fazer era pedir uma saída elegante, talvez negociar a promessa de um desconto na renovação e voltar pra Zacinthos com alguma vitória para apresentar.

Ela fechou a pasta que estava lendo e apoiou os antebraços sobre a mesa.

— O contrato é bem escrito — começou. — A posição de vocês faz sentido. Eu apresentaria uma defesa parecida se estivesse do seu lado.

A afirmação deixou o ambiente mais leve por alguns instantes. A Milena abriu outra pasta.

— A Zacinthos não afirma que o contrato inteiro seja inválido. Também reconhece que a Dumont & Maffei precisa ser remunerada. A discussão está em como algumas cláusulas foram aplicadas.

Ela retirou duas folhas e colocou a primeira diante de si.

— Uma parte do contrato determina o repasse dos benefícios obtidos por causa das operações da Zacinthos. Outra parte permite que a Dumont & Maffei fique com ganhos gerados pela carteira geral. As duas regras funcionam bem quando a origem do desconto é clara.

Ela ergueu os olhos pro Dênis.

— O problema aparece quando um fornecedor concede uma condição por causa da carteira inteira e considera separadamente o volume elevado de um cliente.

— O fator decisivo continua sendo a negociação global — respondeu Antonela.

— Pode ser — retrucou Milena. — O texto não explica como medir a participação de cada elemento.

Seu tom permanecia educado. A sensação na sala começou a mudar devagar, pois cada resposta dela aceitava uma parte do argumento anterior e abria uma pergunta mais difícil.

A Milena entregou ao Caio uma papelada que ele distribuiu pela mesa. Eram relatórios e e-mails produzidos durante a execução do contrato. 11 operações estavam destacadas.

— Selecionamos apenas os casos com referências diretas à conta da Zacinthos — explicou. — Deixamos de fora tudo o que depende apenas da carteira geral.

Olhei a primeira página. Uma apresentação comercial dizia que determinada condição havia sido obtida “em razão do volume da conta”. Outro e-mail mencionava um “crédito concedido para esta operação”. Havia ainda uma mensagem sobre um abatimento ligado à projeção anual do cliente. Algumas comunicações vinham do setor operacional. Duas haviam sido escritas pelo próprio Dênis.

Ele leu as cópias sem demonstrar surpresa, embora sua mandíbula ficasse mais rígida.

— Essas expressões descrevem a operação — disse. — Elas não definem a origem do desconto.

— Uma frase isolada teria pouco peso — respondeu Milena. — Aqui existem onze operações. Em todas elas, a própria Dumont & Maffei ligou parte do benefício ao volume individual da cliente.

Antonela folheou o material.

— Comunicações comerciais não mudam o contrato. As pessoas usam palavras de forma ampla em e-mails e apresentações. A redação assinada pelas partes continua sendo o ponto principal.

— Concordo que essa é uma boa defesa — disse Milena. — Um juiz também examinaria como as partes agiram durante os anos seguintes. Esses documentos ajudam a interpretar o que cada lado entendia durante a execução.

A Antonela apontou para uma das páginas.

— A Zacinthos recebeu essa apresentação em 2022. Pagou todas as faturas posteriores.

— E pediu esclarecimentos em momentos diferentes.

— Sem contestar formalmente os valores.

— Os pedidos existem. Algumas respostas ficaram incompletas. A Zacinthos diria que só depois reuniu informações suficientes para perceber a divergência.

A Milena parecia antecipar cada resposta nossa, pois nem hesitava em separar os argumentos sólidos das pequenas brechas que ela usava em seguida pra uma pergunta ainda mais complicada.

— Vocês podem vencer uma ação. Talvez consigam uma decisão favorável depois de uma perícia e mantenham esse resultado em recurso. A pergunta relevante para hoje envolve o custo desse caminho.

— A existência de uma discussão não transforma qualquer interpretação em aceitável — respondeu Dênis.

— A Zacinthos precisa apenas de uma interpretação plausível e de documentos suficientes para levar a questão adiante.

Ela falava sem ameaça aberta. Descreveu o que aconteceria caso a divergência virasse uma disputa formal. A Zacinthos poderia contestar parte das faturas, exigir uma auditoria das operações anteriores e pedir os documentos relacionados às negociações com fornecedores. E então, discutir a classificação dos créditos na Justiça.

Do nosso lado, a Dumont & Maffei teria de mobilizar pessoas para localizar arquivos antigos e acompanhar uma perícia demorada. A empresa precisaria explicar a disputa a bancos, auditores e parceiros que perguntassem sobre ela. O conflito consumiria tempo e dinheiro mesmo com uma vitória futura.

O Rodolfo olhou pra própria planilha. Antonela e Dênis se entreolharam. Eu senti a confiança inicial esvair.

— A Zacinthos está usando o risco de ruptura para conseguir uma redução que o contrato não prevê — disse Dênis, controlando a irritação.

— A Zacinthos pode cumprir o contrato atual enquanto a discussão segue — respondeu Milena. — A renovação é outra decisão. A empresa também pode reduzir volumes futuros dentro dos limites permitidos.

— Isso prejudicaria os dois lados.

— Sim. A confiança já está comprometida. Uma vitória daqui a alguns anos não obrigaria a Zacinthos a continuar cliente de vocês.

O Dênis apoiou as costas na cadeira. Ele era o responsável pela conta e sabia o que seria perdê-la. O Rodolfo abriu uma das propostas enviadas por uma transportadora.

— Esses descontos dependiam do volume total negociado pela Dumont & Maffei. Aqui está a tabela usada para calcular as faixas.

A Milena puxou a cópia para perto.

— Eu reconheço a importância da carteira global. A questão envolve a participação do volume da Zacinthos em algumas condições específicas.

— Os fornecedores não separam cada cliente dessa forma.

— Em nenhum momento?

O Rodolfo abriu outro arquivo.

— Eles usam projeções gerais e analisam contas maiores em separado quando existe concentração relevante.

— Então alguns fornecedores consideraram a projeção da Zacinthos individualmente — pescou Milena.

— Dentro de uma negociação ampla.

— Exatamente.

O Rodolfo percebeu tarde demais onde havia sido conduzido. A Milena juntou as mãos.

— A própria Dumont & Maffei acabou de confirmar que certos benefícios tiveram origem mista. A carteira geral teve peso. O volume individual da Zacinthos também teve.

— Reconhecer que um dado foi considerado não define a quem pertence o desconto — interveio Antonela.

— Concordo. Isso cria uma discussão real sobre a classificação.

O Caio entregou uma planilha impressa ao Rodolfo.

— Excluímos todas as condições que dependem apenas da carteira geral. Mantivemos os 11 lançamentos ligados por documentos à movimentação da Zacinthos.

Antonela levantou a mão antes que o Rodolfo avançasse.

— Qualquer conferência dos cálculos não representa reconhecimento de dívida.

— Claro — respondeu Milena. — Estamos avaliando números, nada além disso.

O Rodolfo começou a reproduzir os cálculos, comparando datas, volumes e percentuais. Abriu quatro arquivos, conferiu uma tabela antiga e pediu que eu localizasse uma apresentação de maio de 2023.

A Milena observava sem pressa enquanto o Caio olhava os olhos no relógio de vez em quando. O Rodolfo revisou a última fórmula e respirou fundo.

— Considerando as premissas usadas aqui, a soma está correta.

— Qual é o valor? — perguntou Dênis.

— Pouco mais de R$,00.

Silêncio. Ela sorriu.

— A correção matemática não demonstra que esses valores pertencem à Zacinthos — interveio Antonela.

— Estamos de acordo — disse Milena, sorrindo.

— A Zacinthos dificilmente recuperaria tudo isso — continuou Antonela. — Houve pagamentos durante anos. A origem dos descontos continua ambígua. Parte das pretensões pode enfrentar limites de tempo.

— Nossa avaliação também considera uma recuperação parcial — respondeu Milena. — A Zacinthos aceita que existe risco. A Dumont & Maffei possui risco semelhante.

Ela devolveu a planilha de volta pro Rodolfo.

— Com documentos suficientes, essa discussão poderia durar anos. A chance de vitória integral importa menos do que o custo de manter o conflito aberto.

A Milena retirou uma minuta da pasta. A quantidade de marcações mostrava que o documento estava pronto antes de ela entrar no prédio.

— A Zacinthos propõe encerrar o passado e manter a relação.

O Caio distribuiu as cópias. Comecei a ler enquanto ela explicava. A Zacinthos renunciaria a qualquer cobrança retroativa relacionada às operações já realizadas. Também encerraria o pedido de auditoria dos exercícios anteriores. O acordo registraria que a Dumont & Maffei não reconhecia qualquer irregularidade e manteria a controvérsia em sigilo.

Em troca, o contrato ganharia uma redação mais clara para definir os benefícios que deveriam ser repassados. A Zacinthos renovaria a relação por um período maior e garantiria um volume mínimo de operações. A Dumont & Maffei concederia uma redução em sua taxa de remuneração.

A proposta era uma derrota aceitável dadas as circunstâncias. A Zacinthos conseguia agora o desconto que queria, mas a nossa empresa trocaria um risco incerto por receita futura garantida.

— A parte do percentual ainda está em branco — disse Dênis.

Nesta altura, bastava ela responder em 5% e a Zacinthos transformaria uma derrota certa numa vitória absoluta.

A Milena ainda examinava um documento que o Rodolfo deixara sobre a mesa. Seus olhos pararam perto do cabeçalho. A mudança no rosto foi mínima. A boca perdeu o sorriso durante uma fração de tempo.

Ela tocou a linha com o nome dos sócios com a ponta do dedo.

— Os sócios são Rogério Dumont e Lorena Maffei?

— Sim.

— Rogério Dumont? — repetiu Milena.

— Isso.

A Milena ficou em silêncio. Nesse momento, o alerta no meu celular tocou. A reunião tinha começado há 15 minutos.

Os olhos da Milena baixaram novamente para o nome no papel. Quando levantou o rosto, o sorriso parecia um pouco mais satisfeito.

— A Zacinthos requer uma redução de 40%.

A reação veio de todos os lados da mesa.

— 40%? — reagiu Dênis.

— A solicitação era de 05% — lembrou Antonela.

— Esse valor muda toda a economia do contrato — calculou Rodolfo.

— O pedido anterior foi feito antes da análise completa dos documentos — respondeu Milena, com calma. — Também não incluía a renúncia a qualquer cobrança retroativa.

— Uma redução desse tamanho transforma a divergência numa penalidade comercial — respondeu Dênis.

— Ela compra o encerramento do passado, o sigilo e uma renovação longa. Também garante um volume mínimo.

— 40% supera qualquer ajuste razoável — analisou Dênis. — A margem dessa conta não comporta uma queda desse tamanho sem revisão de outras condições.

A Milena manteve as mãos sobre a mesa.

— 40%.

— Podemos chegar a 20%, desde que a renovação seja mantida pelo período proposto.

Ela fechou a caneta e a colocou sobre a minuta.

— A próxima cifra que eu disser será 50%. Vocês podem negociar a estrutura do acordo ou podem me pedir um novo cálculo do risco. Escolham com cuidado.

O silêncio que veio depois encerrou a discussão sobre uma redução direta do percentual. O Dênis sabia reconhecer quando uma proposta havia encontrado seu limite. A Antonela percebeu que Milena estava disposta a encerrar a reunião e levar a disputa adiante. O Rodolfo voltou aos números, procurando uma forma de tornar os 40% suportáveis.

— Podemos escalonar a redução — concluiu. — Um percentual menor nos primeiros meses, compensado depois que o volume mínimo for comprovado. O resultado anual continuaria equivalente aos 40%.

— Aceitável.

— O contrato precisa prever recomposição caso o volume fique abaixo do mínimo.

— Concordo.

— A recomposição começa no mês seguinte ao descumprimento.

— Depois de 60 dias.

— 45 dias — analisou Rodolfo.

— Fechado.

Quase era como se ela já tivesse calculado tudo mentalmente antes dele. A negociação avançava em detalhes enquanto a questão principal continuava ruim para nós. A Antonela ampliou as garantias sobre os períodos anteriores. O Dênis preservou algumas cobranças adicionais ligadas a serviços fora do escopo padrão. O Rodolfo criou faixas pro volume.

A Milena avaliava cada proposta com rapidez. Ela concedia apenas o suficiente pra passar a impressão de termos pequenas vitórias. Como a defesa da Alemanha deixando o Brasil fazer 1 gol depois dos 7.

— Ninguém nesta sala possui poderes para assinar — relembrou Milena. — Gostaria de saber qual recomendação vocês levarão aos sócios. Rejeição imediata ou assinatura da minuta?

Ela falou com a mesma tranquilidade usada desde o início. Dênis e Rodolfo olharam pra Antonela. Ela fez um movimento discreto com a cabeça. Ele prosseguiu.

— Podemos recomendar a assinatura. Precisamos registrar que consideramos a redução alta e que os sócios devem avaliar o impacto.

— Naturalmente.

— A Dumont & Maffei não adotará medidas de rescisão enquanto a proposta estiver em análise — acrescentou Antonela. — A Zacinthos mantém os volumes atuais durante o mesmo período.

— Aceito até o fim do prazo de análise.

— Às 17 horas de hoje.

— Um contrato desse tamanho merece tempo — reagiu Dênis.

— A questão existe há meses. A minuta resolve os pontos discutidos hoje.

— Precisaremos revisar a redação — avisou Antonela.

— Podem enviar ajustes até as 17 horas, mas garanto que não há nada de ambíguo ou fora de lugar nesse texto. Eu mesma o redigi.

O pedido inicial da Zacinthos havia sido uma redução de 05%. Ela saía dali com uma redução oito vezes maior, junto de uma renovação longa e um contrato reescrito a favor da cliente. Mesmo com as proteções obtidas, a sensação na sala era de perda. Mas nenhum dos três podia recomendar que os sócios arriscassem anos de conflito jurídicos sem sequer examinar a proposta.

Milena organizou os documentos. Ela se levantou e entregou uma cópia atualizada a Antonela.

— A minuta já contém a renovação, o volume mínimo e a confidencialidade. Também inclui a renúncia às cobranças retroativas e a ausência de reconhecimento de irregularidade. Ajustarei os pontos combinados quando voltar ao escritório. Antes das 14h20 vocês receberão.

Em seguida, ela se levantou e entregou um cartão pro Dênis.

— Entreguem o meu cartão de contato para os sócios.

A maneira como ela disse os nomes chamou minha atenção. Havia familiaridade escondida na voz, talvez lembrança. Dênis estava concentrado demais nos números. Rodolfo revisava uma fórmula. Antonela marcava a minuta.

Então, ela olhou pro relógio do estagiário, que checou a hora.

— 19 minutos.

— Eles eram bons — respondeu Milena.

Não. Eu só tinha entendido tudo naquele momento. Ela tinha deduzido quanto tempo precisaria pra nos derrotar assim que olhou pra gente. E tinha vencido com 15 minutos. Mas gastou os quatro minutos seguintes girando a faca devagar depois que leu o nome do Rogério no contrato. Aquilo era estranho.

Depois disso, a Milena sorriu, apertou a mão de cada um e saiu da sala acompanhada do estagiário. O perfume permaneceu por alguns instantes, junto com a imagem da cintura estreita, das coxas grossas e da bunda redonda se afastando pelo corredor.

Ninguém falou durante alguns segundos. Rodolfo continuou olhando a planilha. Antonela releu a primeira página da minuta. Dênis tinha as duas mãos apoiadas sobre a mesa e parecia tentar organizar pensamentos que se recusavam a formar uma fila adequada. Eu interrompi o registro e salvei a ata.

— Ela mentiu sobre ter começou a trabalhar nisso hoje de manhã — disse Dênis, irritado.

— Não. A pesquisa já existia e os documentos já estavam com eles. Ela selecionou uma gama de documentos que tornavam a posição dela mais difícil de atacar e montou uma estratégia — respondeu Antonela. — Ela deve ser uma especialista em contencioso. Eu não esperava por isso, desculpem.

— Ninguém esperava — disse Rodolfo.

— Ela nos colocou nas cordas — resumiu Dênis. — Tivemos sorte de ela parar nos 40%.

Dênis passou a mão pelo rosto e os três pensavam a mesma coisa. Se aquilo tivesse se estendido ainda mais, teria sido muito pior pra nós.

Perto das 13h50, desci ao depósito do andar inferior pra buscar duas caixas de documentos antigos. Esse depósito ocupava uma sala grande em formato de L. Depois da curva, havia um espaço mais largo, escondido de quem permanecesse no corredor. As coisas usadas com frequência ficavam no andar de cima, então quase ninguém descia até ali.

Eu era um dos poucos que tinha uma cópia da chave, sabia onde estavam as caixas e esperava resolver tudo em poucos minutos. Assim que fechei a porta atrás de mim, porém, ouvi uns gemidos vindos da área escondida. Parei entre duas estantes. Podia jurar que eram um casal transando.

Depois da confusão da terça, o almoxarifado ficou muito visado e aquele depósito oferecia mais espaço e privacidade. E, por quê eu tava pensando nisso? Infelizmente, a minha curiosidade venceu o bom-senso e avancei devagar. Quando cheguei perto da curva, inclinei o rosto e enxerguei a parte escondida.

Os gemidos vinham de duas mulheres.

De um lado, Rogério e Jéssica estavam sobre algumas mantas estendidas perto da parede. Do outro, Dirceu e Marília ocupavam outro espaço improvisado no chão. Os quatro pelados, cada casal transava concentrado no próprio parceiro.

A primeira coisa que me atingiu foi a nudez da Jéssica. Eu já a tinha visto de short curto. Sabia que ela tinha coxas grossas e uma bunda grande. Ver tudo sem tecido era outra coisa.

Ela estava de quatro diante do Rogério, com os joelhos apoiados nas mantas e os braços estendidos. Os cabelos castanho-claros desciam pelas costas em ondas suaves, cobrindo parte da pele dourada. A cintura estreita abria caminho para uma bunda arredondada e firme. Havia uma maciez natural sobre os músculos, visível quando Rogério segurava os lados de sua bunda e a carne cedia sob os dedos. As coxas robustas sustentavam cada movimento. Os músculos ficavam aparentes sempre que ela empurrava a bunda para trás. Os seios médios pendiam sob o peito, movendo-se ao ritmo das metidas. As aréolas rosadas cercavam bicos duros que apontavam para baixo por causa da posição.

O Rogério se mantinha ajoelhado atrás dela. O corpo dele estava coberto de suor e os músculos dos braços se contraíam enquanto puxava a Jéssica pela cintura. O pau entrava na boceta dela num ritmo forte e regular. A cada metida, a bunda dela recuava para receber tudo e produzia um som úmido contra a parte baixa do corpo dele.

— Assim, amor. Continua assim.

O Rogério inclinou o corpo sobre ela e passou uma das mãos pela barriga firme. Os dedos subiram até um dos seios e apertaram a carne cheia enquanto ele continuava metendo. O seio escapava parcialmente entre seus dedos a cada movimento.

A Jéssica ergueu o rosto e arqueou as costas, oferecendo ainda mais a bunda. O movimento abriu melhor suas pernas e me permitiu ver a boceta molhada agarrada ao pau do marido. Os pelinhos dourado-escuros sobre o púbis estavam grudados pela umidade.

Meu pau endureceu dentro da calça. Ajustei o corpo atrás da estante e respirei devagar, tentando recuperar algum juízo.

Voltei os olhos para o outro casal.

A Marília estava deitada de costas, com as pernas abertas ao redor do Dirceu. Os seios médios se espalhavam de leve sobre o peito e balançavam quando o Dirceu avançava entre suas coxas. Os bicos estavam duros, e um deles desaparecia dentro da mão dele sempre que ele se inclinava. As coxas da Marília eram grossas, com bastante volume na parte de cima. Os joelhos permaneciam erguidos, e os pés se apoiavam na bunda do Dirceu para puxá-lo. Sua cintura tinha uma curva suave, e a barriga se contraía com as metidas. A bunda se levantava um pouco sempre que ela acompanhava o movimento.

O Dirceu mantinha os braços ao lado do corpo dela. A pele negra estava úmida, destacando a musculatura comum de um homem que se cuidava sem viver para isso. Os músculos das costas apareciam quando ele recuava. O pau saía quase inteiro da boceta da Marília antes de voltar com força.

— Mais fundo.

O Dirceu diminuiu o ritmo durante algumas metidas e empurrou o corpo pra frente até encostar nela.

— Assim?

Ela segurou a nuca dele e o beijou. O Dirceu voltou a se mover, agora com golpes mais longos. As coxas da Marília apertaram os lados do corpo dele, e um gemido comprido escapou de sua boca quando o pau entrou até o fim.

A presença do outro casal fazia parte da excitação dos quatro. O Rogério olhava de vez em quando pra Marília e Dirceu. A Jéssica também virava o rosto na direção deles, observando por alguns instantes antes de voltar a se concentrar no marido. Ambos os casais estavam afastados pra evitar qualquer incidente.

O Rogério segurou a Jéssica pelos cabelos perto da nuca e a fez levantar o tronco. Ela ficou ajoelhada, com as costas encostadas no peito dele, enquanto o pau permanecia dentro de sua boceta. A mudança de posição expôs todo o corpo dela de frente pra parede lateral.

Um dos braços do Rogério passou por baixo dos seios, prendendo-a contra ele. A outra mão subiu até o seu pescoço e apertou de leve as laterais. A Jéssica soltou um gemido alto e segurou o pulso do marido, mantendo a mão dele no lugar.

— Aperta mais.

O Rogério obedeceu aos poucos. Continuou metendo de baixo para cima enquanto beijava o ombro dela. Os seios da Jéssica balançavam livres, e a barriga firme se dobrava ligeiramente a cada avanço. Ela abriu mais os joelhos e rebolou sobre o pau dele, usando as pernas fortes para subir e descer.

Foi nessa hora que a Jéssica abriu os olhos, virou o rosto na direção da curva e me viu.

O ar pareceu parar dentro dos meus pulmões. Seu olhar encontrou o meu rosto entre a estante e a parede. Meu primeiro impulso foi recuar, porém as minhas pernas demoraram a responder.

A Jéssica continuou rebolando. A expressão dela mudou por um instante. Depois da surpresa, veio um sorriso. Eu esperava qualquer sinal pra ir embora. Um movimento de cabeça, uma careta ou qualquer reação que mostrasse incômodo. Em vez disso, ela sorriu ainda mais e piscou para mim.

O meu coração disparou. Ela parecia excitada com a ideia de mais uma pessoa a vendo foder com o marido.

Ela passou a se mover com mais força. Os músculos das pernas trabalharam enquanto subia e descia no colo do marido. O suor escorria pelo meio dos seios e descia pela barriga. Quando o Rogério soltou seu pescoço, a Jéssica levou a própria mão até a boceta e começou a esfregar o clitóris.

O Rogério segurou os dois seios dela por baixo e os levantou. Apertou os bicos entre os dedos enquanto continuava metendo. A Jéssica arqueou as costas e deixou a cabeça cair contra o ombro dele.

— Vou gozar — avisou ela.

— Goza no meu pau.

O ritmo ficou mais rápido. A bunda da Jéssica batia contra a parte baixa do corpo dela e a boceta molhada produzia um som alto em cada metida. Ela esfregou o clitóris com movimentos curtos, respirando pela boca.

Do outro lado, a Marília também parecia próxima de gozar. O Dirceu tinha se ajoelhado e segurava as pernas dela abertas pelos joelhos. A posição deixava a boceta completamente exposta enquanto ele metia. A Marília apertava os próprios seios e acompanhava cada avanço com a bunda.

— Olha para eles — disse Dirceu.

A Marília virou o rosto para Rogério e Jéssica. Seus olhos desceram pelo corpo nu da Jéssica e acompanharam o movimento do pau entrando nela.

A Marília começou a tocar o clitóris enquanto observava. O Dirceu manteve as pernas dela abertas e aumentou o ritmo. O corpo dos dois se chocava com força suficiente para deslocar as mantas sobre o piso.

A boceta da Jéssica se contraiu ao redor do pau do Rogério. Eu vi o corpo inteiro dela endurecer. As coxas tremeram e os dedos pararam sobre o clitóris enquanto o orgasmo a atingia. Ela soltou um gemido comprido, sem tentar abafá-lo, e empurrou a bunda para baixo, mantendo o pau enterrado.

O Rogério diminuiu o movimento e segurou a mulher contra o peito. Continuou metendo devagar durante as contrações, beijando o lado do rosto dela. A Jéssica respirou fundo algumas vezes e abriu os olhos.

Depois que ela se recuperou, ela olhou pro casal transando ao lado deles e pra mim de novo. E sorriu.

O Rogério soltou a cintura dela e se afastou um pouco. O pau saiu da boceta molhada. A Jéssica virou o corpo, se deitou de costas diante dele e abriu as pernas.

O Rogério se acomodou entre suas coxas e esfregou o pau sobre a boceta. A cabeça deslizou entre os lábios molhados antes de entrar de novo. Jéssica segurou os braços dele e recebeu a primeira metida com um gemido rouco.

Eu conseguia ver quase tudo. Os seios dela se espalharam um pouco para os lados. O Rogério apoiou o peso em um braço e usou a mão livre para apertar um deles. O bico rosado desapareceu entre os dedos. A Jéssica envolveu a cintura dele com as pernas. As coxas grossas se fecharam sobre suas costas e os calcanhares pressionaram sua bunda musculosa.

— Me come do jeito que só você sabe, amor.

O Rogério sorriu e voltou a meter com força. O corpo da Jéssica se deslocava sobre a manta e ela precisava se segurar nos ombros dele para permanecer no lugar.

Do outro lado, o Dirceu tinha puxado a Marília para perto da borda das mantas. Ela se virou e apoiou as mãos no chão, oferecendo a bunda pra ele. A posição destacou o volume de suas coxas e a curva larga da bunda. O Dirceu passou as duas mãos por ela e apertou a carne antes de alinhar o pau com a boceta. A Marília abriu mais as pernas e recuou.

O Dirceu entrou de uma vez. A Marília soltou um gemido e abaixou o peito sobre os braços. Os seios ficaram comprimidos contra as mantas enquanto a bunda permanecia empinada. Ele começou devagar. Depois de algumas metidas, segurou sua cintura e acelerou. As nádegas da Marília tremiam em cada impacto.

— Mais forte.

O Dirceu deu um tapa na bunda dela e aumentou a força. A Marília empurrou o corpo para trás, encontrando cada metida. Ela virou o rosto pro outro casal.

— Quero ver o Rogério gozando em você.

O Rogério olhou pra Marília enquanto continuava metendo.

— Isso vai acontecer logo.

A Jéssica apertou as pernas ao redor dele.

— Espero que não seja tão logo.

A conversa alimentava o tesão dos quatro. O Rogério se ajoelhou e puxou a Jéssica pelos tornozelos. Ela deslizou até ficar com a bunda próxima das coxas dele. Em seguida, ele levantou suas pernas e as apoiou contra o próprio peito. A posição deixou a boceta dela aberta diante dele.

O Rogério segurou o pau pela base e passou a cabeça sobre o clitóris. Jéssica observou o movimento, respirando rápido.

— Coloca logo.

Ele empurrou devagar. A boceta apertada recebeu a cabeça e depois o restante do pau. A Jéssica mordeu o lábio enquanto as pernas eram pressionadas contra o próprio tronco.

O Rogério manteve as coxas dela juntas sobre um dos ombros e começou a meter. A bunda arredondada se elevava a cada avanço. Os dedos dele apertavam a parte posterior das coxas.

A Jéssica olhou para mim uma vez. Ela queria saber se eu a estava vendo assim, completamente exposta. Eu via o pau entrar na boceta brilhante. Os seios cheios balançavam sobre o peito e os bicos permaneciam duros. Ela estendeu uma das mãos e puxou Rogério pela nuca para beijá-lo. O beijo durou enquanto ele continuava metendo. Quando se separaram, uma linha de saliva permaneceu entre suas bocas por um instante.

— Quero você gozando dentro.

— Vou gozar dentro.

O Dirceu mantinha o ritmo forte atrás da Marília. Ela já não falava frases inteiras. Os gemidos saíam curtos, acompanhando as metidas. Uma das mãos desceu entre as pernas e começou a esfregar o clitóris. O corpo da Marília ficou tenso. Suas coxas tremeram e a bunda pressionou o corpo do Dirceu.

— Estou gozando — disse com a voz quebrada.

O Dirceu segurou sua cintura e continuou metendo. A Marília fechou os olhos e soltou um gemido alto. As pernas estremeceram sobre as mantas enquanto a boceta se contraía ao redor do pau. Ele diminuiu o ritmo depois que o orgasmo passou. Curvou-se sobre ela e beijou suas costas, ainda mantendo o pau dentro. A Marília respirou fundo e virou o rosto para beijá-lo quando ele se aproximou.

O Rogério observou os dois por alguns instantes. Depois, voltou toda a atenção pra Jéssica. Ele soltou as pernas dela e a puxou para se sentar em seu colo. A Jéssica passou uma perna de cada lado do corpo dele e encaixou a boceta sobre o pau. Desceu devagar, recebendo cada cm enquanto segurava os ombros do marido.

Quando ficou completamente sentada, moveu a bunda em círculos. O Rogério segurou sua cintura e acompanhou. Os corpos colados mudaram o som da transa. Em vez dos impactos fortes, ouviam-se a pele úmida se esfregando e a respiração dos dois. A Jéssica beijou o Rogério com calma, mexendo a bunda sem pressa.

A intimidade entre eles ficou mais evidente naquela posição. Rogério conhecia os pontos do corpo dela e sabia quanto apertar. Jéssica entendia cada alteração em sua respiração. Os dois podiam transar com força e ainda pareciam um casal apaixonado.

Ela se levantou um pouco e voltou a descer. As coxas grossas sustentavam o movimento, e a bunda se abria sobre o colo dele. Os seios roçavam no peito do Rogério.

— Estou perto — avisou ele.

A Jéssica aumentou o ritmo. Passou a subir e descer com mais força, fazendo o pau desaparecer dentro da boceta.

— Goza em mim!

O Rogério segurou a bunda dela e ajudou a acelerar. O rosto dele se contraiu e a respiração ficou pesada. A Jéssica enterrou os dedos nos cabelos dele e continuou cavalgando.

— Enche a minha boceta!

O Rogério soltou um gemido baixo e puxou a Jéssica contra o corpo. A bunda dela permaneceu colada em seu colo enquanto ele enchia a camisinha dentro dela. Mesmo durante as contrações, ela continuou rebolando sobre o pau, prolongando o orgasmo do marido.

Ele apertou a bunda dela e deu duas palmadas. Jéssica sorriu, beijou sua boca e manteve o movimento mais lento.

Do outro lado, a Marília tinha se virado de frente pro Dirceu. Ela deitou de costas e abriu as pernas. O Dirceu entrou outra vez e começou a meter num ritmo mais curto. O corpo da Marília ainda tremia de vez em quando por causa do orgasmo anterior, mas ela o puxava para mais perto. O Dirceu demorou pouco. Ele empurrou o pau até o fim e permaneceu colado a ela enquanto gozava. A Marília fechou as pernas ao redor de sua cintura e segurou sua nuca. Os dois ficaram assim durante alguns instantes, respirando juntos.

O depósito ficou mais silencioso e a minha chance de sair piorou. Durante a transa, meus passos poderiam se perder entre os gemidos e os corpos batendo. Agora, qualquer movimento chamaria atenção.

Jéssica se sentou sobre as mantas com as pernas dobradas. A boceta ainda brilhava. Ela pegou uma toalha pequena e começou a se limpar. O Rogério se deitou ao lado dela, apoiando-se em um dos cotovelos.

— Obrigado pela ideia do depósito — disse Rogério para Dirceu. — Aqui é bem mais tranquilo.

— Achei engraçado você fingindo que não sabia que a gente era casado — brincou Dirceu, deitado ao lado da Marília. — Tem espaço, quase ninguém tem a chave e ninguém aparece depois do almoço.

A Jéssica olhou pro meu esconderijo. Deu um risinho de canto e voltou a passar a toalha entre as pernas. A Marília passou os dedos pelo peito do Dirceu. O Rogério passou a mão pela coxa da esposa.

— Eu gostei da companhia. Dá mais tesão transar com outro casal por perto.

— Também gostamos — respondeu Dirceu. — Achei que vocês fossem mais fechados para isso.

A Jéssica apoiou a cabeça no ombro do Rogério.

— A gente gosta de ver e de ser visto. Mas só isso. Cada casal com seu parceiro.

— Sem troca? — perguntou Marília.

— Sem troca — confirmou Rogério.

— A gente respeita quem curte troca de casal, mas essa não é a nossa praia.

— Nós gostamos de trocar — disse Dirceu. — Mas também curtimos o ver e ser visto.

A Marília se sentou e começou a procurar a calcinha.

— Podemos repetir do mesmo jeito.

— Podemos jantar lá em casa qualquer dia — disse Rogério. — As paredes entre apartamentos são grossas. Você pode ligar uma britadeira que seu vizinho do lado não vai saber.

— É uma boa — comentou Dirceu.

Esperei até os quatro começarem a se vestir e fugi de lá tão rápido quanto poderia ser silencioso. Fechei a porta com cuidado, subi as escadas depressa e só parei quando cheguei na minha baia. Alguns minutos depois, a Marília e o Dirceu apareceram no escritório, intactos. E o meu celular vibrou.

[Jéssica]: “Amanhã de manhã, o Rogério vai com o Antônio inscrever ele no jiu-jitsu.”

[Jéssica]: “Esteja aqui em casa às 9h30. Com a Lisandra.”

[Jéssica]: “Não aceito ‘não’ como resposta.”

[Jéssica]: “Não depois do que você viu.”

Comecei a escrever um milhão de desculpas, mas apaguei todas antes de terminar. Nova mensagem, da Lisandra.

[Lisandra]: “Querido, a Jéssica quer nos encontrar amanhã de manhã no apartamento dela. 9h30.”

[Lisandra]: “Tudo bem por você, né?”

[Vinícius]: “Você sabe pro que é?”

[Lisandra]: “Claro que eu sei.”

[Lisandra]: “Mas só nós três desta vez.”

[Lisandra]: “A gente chamou a Lorena e, quando soube que era você, ela ficou toda empolgada.”

[Lisandra]: “Mas ela vai ter que viajar hoje de noite e só volta segunda.”

MEU DEUS! O QUE ESTAVA ACONTECENDO????

[Lisandra]: “Ah, sim.”

[Lisandra]: “É pra guardar segredo sobre tudo isso, viu?”

[Lisandra]: “Nada de contar pra ninguém.”

[Lisandra]: “Principalmente pro Rogério.”

Bloqueei a tela e fiquei oficialmente desesperado. Nem percebi quando o Rogério chegou. O Dênis e o Rodolfo tiveram que entrar na sala pra explicar o que aconteceu com reunião da Zacintho. Só acompanhei relances pela janela.

Por algum motivo, se ele já tinha ficado bastante preocupado e arrependido com tudo que devia estar ouvindo, o momento em que seu rosto transpareceu que ele estava quebrando por dentro foi quando o Dênis entregou o cartão de contato que a Milena deixou.

Perto das 18h20, fechei o notebook e comecei a guardar minhas coisas. O escritório estava vazio e eu era o último ainda ali. Coloquei a mochila nas costas e fui até a porta. Quando passei pelo corredor da sala de descanso, escutei um choro abafado e irregular vindo de dentro da Estação Inclusiva. Parei diante da faixa verde no chão.

A porta estava quase fechada. Uma claridade escapava pela fresta, junto com um soluço forte. Durante alguns segundos, achei que algum funcionário tivesse passado mal e ficado preso ali. Abri a porta. O Nildo estava sentado no chão, encostado no armário exclusivo para alimentos sem glúten. Ele chorava com o rosto vermelho. Havia vários lenços amassados perto de seus sapatos.

— Nildo?

Ele ergueu a cabeça e levou um susto. Tentou secar o rosto com a manga da camisa.

— Achei que todo mundo tinha ido embora.

O choro dele diminuíra por vergonha, embora os soluços continuassem prendendo sua respiração. Puxei a cadeira e me sentei diante dele. Ele balançou a cabeça e voltou a chorar.

— Eu estraguei tudo.

Esperei alguns instantes. Ele apertou o termo entre os dedos até amassar uma das pontas.

— O que aconteceu?

— Eu inventei a doença celíaca.

Isso não era legal...

— Você não tem...

— EU AMO PIZZA! EU AMO PÃO! NUNCA TIVE ISSO!

Ele voltou a chorar.

— Eu achava as festas uma diversão forçada. Eu só queria trabalhar, ficar na minha, não ser demitido e voltar pra casa. Um dia, vi que só tinha bolo na festa e falei não podia participar por causa do glúten.

— Por três anos?

— No começo era fácil. Eu recusava comida e saía mais cedo. Depois começaram a pesquisar restaurantes só pros meus aniversários. A Lorena sempre perguntava sobre contaminação cruzada. A zeladora reclamava que teve que ter atenção redobrada na copa.

— Então, você passava uma hora em trânsito, indo e voltando pra casa na hora do almoço...

— Todo mundo tava de olho! Eu precisava sustentar a mentira!

Ele apontou para o espaço ao redor com a mão trêmula.

— Agora fizeram uma sala inteira por minha causa. Eu vou ser demitido!

— Você precisa contar a verdade, Nildo.

— Se eu contar, eu vou ser demitido!

— Talvez não. Eles vão ficar com uma boa dose de raiva. Mas depois de uns dias, talvez semanas, também vão entender que você estava com medo de ser demitido.

O Nildo ficou em silêncio. Eu sabia que a minha frase tinha pouca força. Ele respirou fundo, embora o ar saísse em pequenos cortes, limpou o nariz e olhou pros armários.

— A melhor saída é eu nunca mais comer nada com glúten.

Fiquei alguns segundos tentando entender a decisão.

— Você pretende passar o resto da vida sem comer pão por causa de uma festa?

— Só até eu pode me aposentar.

— Mas...

— Já está decidido! Só alguns anos sem pizza! Talvez eu emagreça...

Ele levantou do chão com dificuldade, pegou o paletó e caminhou pra saída.

— Você não precisa guardar segredo porque ninguém vai acreditar — disse. — Ninguém nunca vai me ver comendo nada com glúten.

— Mas...

O Nildo não tinha conseguido esconder o próprio pânico durante uma festa. A ideia de sustentar a mentira pelo resto da carreira parecia otimista demais.

— Nada de “mas”. Assunto errado.

— Pelo menos, você podia ter inventado que era intolerância à lactose — falei. — Teria dado menos trabalho pra todo mundo.

O Nildo parou com um braço dentro do paletó e, antes de sair do escritório, apenas disse:

— Eu já tinha usado essa pra fugir das festas no meu emprego anterior.

Pois bem, leitor. No próximo capítulo, Vinícius e Lisandra irão participar do arco crossover “Dois dates pra três casais”, onde dois cuzinhos não serão perdoados...

Coloquem nos comentários para o que vocês torcem que aconteçam nos próximos capítulos. Em breve, teremos a continuação.

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Perguntas:

1) O que acharam da estreia surpresa da Milena?

2) Quem é a maior troll: Jéssica ou Lisandra?

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Foto de perfil genéricaAlberto RobertoContos: 168Seguidores: 323Seguindo: 0Mensagem Em um condomínio de classe média alta, a vida de diversos moradores e funcionários se entrelaça em uma teia de paixões, traições e segredos. Cada apartamento guarda sua história, no seu próprio estilo. Essa novela abrange todas as séries publicadas neste perfil. Os contos sempre são publicados na ordem cronológica e cada série pode ser de forma independente. Para ter uma visão dos personagens, leia: Guia de Personagens - "Eu, minha esposa e nossos vizinhos"

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