A ideia surgiu numa noite qualquer, sem planejamento, sem grandes declarações. Estavam na cama, depois de transar, aquela preguiça gostosa que vinha depois do prazer. Natália estava de bruços, a cabeça virada para o lado, os olhos semi cerrados. Sara acariciava suas costas com a ponta dos dedos.
— Eu queria ser mãe — Sara disse. A frase saiu como quem comenta o tempo.
Natália abriu os olhos.
— O quê?
— Mãe. Eu queria ser mãe.
Natália virou-se de lado. Olhou para Sara. O rosto dela estava sério. Não era brincadeira.
— Você nunca falou nisso.
— Nunca tinha pensado nisso. Até agora.
Ficaram em silêncio. A mão de Sara continuava desenhando círculos nas costas de Natália.
— Você quer ter um filho? — Natália perguntou.
— Quero. Mas não sei se quero passar por uma gravidez. Meu corpo… não sei. E também não sei se quero um bebê. Talvez uma criança maior. Uma menina.
— Por que uma menina?
— Porque eu sei como é ser menina. Sei o que dói. Sei o que assusta. Sei o que falta. Eu queria dar para uma menina tudo o que não tive.
Natália sentiu os olhos marejarem. Não esperava por aquilo. A vida dela tinha sido tão cheia de perdas — o filho que não falava com ela, a família que a renegou, a comunidade que a odiava. A ideia de construir algo novo, de dar amor a alguém que precisava, mexeu com ela de um jeito que não sabia explicar.
— Eu também quero — disse. E surpreendeu a si mesma.
Sara sorriu. Um sorriso que iluminou o quarto escuro.
— Sério?
— Sério. Sou mãe. Sei o que é criar um filho. Sei o que acertei. Sei o que errei. Talvez… talvez com uma menina eu possa acertar mais.
Sara a abraçou. Ficaram assim, nuas, abraçadas, planejando uma família.
Passaram meses maturando a ideia. Depois, mais meses lidando com muitas burocracias. Processos, entrevistas, visitas de assistentes sociais. Explicaram a história delas — ou uma parte. Disseram que eram um casal de mulheres que se amava, que tinha estabilidade financeira, que tinha muito amor para dar. Não contaram sobre o passado de Natália como esposa de pastor. Não contaram sobre Daniel. Algumas coisas ficam no passado.
O dia que receberam a notícia foi numa terça-feira à tarde.
— Temos uma menina — a assistente social disse ao telefone. — quatro anos. Chamava-se Sofia, mas podem mudar o nome se quiserem. Ela está à espera de uma família há quase dois anos.
Natália desligou o telefone. Olhou para Sara. As duas caíram no choro.
No dia seguinte, foram buscar a menina.
Sofia era pequena para a idade. Cabelos castanhos, crespos, presos em dois coques desajeitados. Olhos grandes, cor de mel, que olhavam o mundo com uma desconfiança que doía de ver. Vestido azul, surrado, meio largo. Chinelos de dedo.
Quando viram Natália e Sara, ela se agarrou na perna da assistente social.
— Não tenha medo — a assistente disse, ajoelhando-se na altura dela. — Essas são suas novas mamães.
Sofia não disse nada. Apenas olhou.
Natália ajoelhou-se também. Ficou na altura dos olhos da menina.
— Oi — disse, com a voz mais macia que conseguiu. — Meu nome é Natália. Essa é Sara. A gente veio te buscar. A gente vai te levar para casa.
Sofia continuou em silêncio. Mas seus olhos pararam de piscar.
— Você gosta de desenhar? — Sara perguntou.
A menina assentiu, quase imperceptível.
— A gente comprou giz de cera. Muitos. Todas as cores.
Sofia desgrudou da perna da assistente. Deu um passo à frente.
A primeira noite foi difícil. Sofia chorou. Não queria dormir. Não queria comer. Ficou sentada num canto do quarto novo, de joelhos abraçados, olhando para a parede.
Natália sentou no chão ao lado dela. Não forçou nada. Não tentou abraçar. Apenas ficou ali, presente.
— Quando eu era pequena — Natália disse, baixo —, eu também tive medo. Medo de não ser amada. Medo de não ser boa o suficiente. Isso passou. Um dia passa.
Sofia não respondeu. Mas depois de um tempo, encostou a cabeça no ombro de Natália.
Sara apareceu na porta do quarto. Tinha lágrimas nos olhos. Não disse nada. Apenas sentou no outro lado da menina.
As três ficaram ali, sentadas no chão do quarto novo, até Sofia adormecer.
Os dias se transformaram em semanas. As semanas em meses.
Sofia aprendeu a chamar Natália de "mãe" e Sara de "mamãe". Aprendeu que podia pedir comida quando estava com fome, que podia chorar quando estava triste, que podia rir quando estava feliz. Aprendeu que não precisava mais esconder os brinquedos embaixo da cama — ninguém ia tirá-los.
Natália aprendeu a ser mãe de novo. Era diferente de quando Daniel era pequeno. Antes, havia regras. Havia o que podia e o que não podia. Havia Deus vigiando cada passo. Havia o medo do pecado, do julgamento, do inferno.
Agora não.
Agora havia apenas amor. Amor para dar. Amor para receber. Amor sem condições.
Sara se descobriu uma mãe protetora, quase exagerada. Acordava várias vezes à noite para ver se Sofia estava respirando. Comprava roupas demais, sapatos demais, livros demais.
— Você vai estragar a menina — Natália ria.
— Deixa eu estragar.
Sofia cresceu. As covinhas nas bochechas apareceram. O cabelo crespo ganhou produtos especiais que Sara pesquisava na internet. Os olhos cor de mel perderam a desconfiança, ganharam brilho.
No primeiro aniversário juntas, fizeram uma festa pequena. Bolo de chocolate. Balões coloridos. Três pessoas.
— Posso fazer um pedido? — Sofia perguntou, diante das velinhas.
— Pode — Sara respondeu.
Sofia fechou os olhos. Pensou. Soprou.
— O que você pediu? — Natália perguntou.
— Não posso contar. Senão não dá certo.
Mas na hora de dormir, Sofia segredou no ouvido de Sara:
— Pedi para a gente ficar junto para sempre.
Sara chorou. Natália também.
Naquela noite, depois que Sofia dormiu, Natália e Sara foram para o quarto. Não transaram. Não tiveram vontade. Apenas ficaram abraçadas, em silêncio, digerindo a felicidade.
— Eu nunca imaginei que podia ser tão feliz — Natália disse.
— Nem eu.
— Perdi um filho, mas ganhei uma filha.
— E uma esposa — Sara completou.
— E uma esposa.
Sofia as encontrou abraçadas na manhã seguinte. Pulou na cama, enfiou-se entre as duas.
— Bom dia, minhas mães.
— Bom dia, filha.
O sol entrava pela janela. O apartamento pequeno estava cheio de desenhos na geladeira, sapatos jogados no corredor, giz de cera espalhados pela sala.
Era uma bagunça. Era uma família. Era o que importava.
Dois anos depois, a adoção foi oficializada. Sofia era legalmente filha delas. O juiz sorriu na audiência. A assistente social chorou. Sara e Natália seguravam Sofia pela mão, uma de cada lado.
— Parabéns — o juiz disse. — Que vocês sejam muito felizes.
— Seremos — Natália respondeu.
Na saída do fórum, Sofia perguntou:
— Agora vocês vão me devolver?
Natália ajoelhou-se. Pegou o rosto da menina entre as mãos.
— Nunca, filha. Nunca mais.
Sofia sorriu. Pela primeira vez, um sorriso sem medo.
Foram para casa. Pararam no parque. Comeram sorvete. Sujaram as roupas.
À noite, depois que Sofia dormiu, Natália e Sara se olharam.
— Pronta para mais uma aventura? — Sara perguntou.
— Sempre.
Se beijaram. Não era um beijo de desejo. Era um beijo de gratidão. De cansaço. De alegria.
A família delas tinha crescido.
Era pequena. Era imperfeita. Era tudo o que precisavam.
Um dia,estavam no parque com Sofia,quando o celular de Natália tocou.Era a irmã dela,trazendo novidades.
- Nat,tudo bem?Há tempos que não nos falamos
- Como vão todos aí?
- Bem…Olha,deixa eu lhe falar uma coisa… você vai ser avó.
- Como???
- Daniel está morando com uma moça, Ana. Ela tá grávida. Três meses.
- Nossa, que notícia boa! Muito feliz aqui!
- Pois é… eu converso com ela. Ela me perguntou… se era verdade que você tinha abandonado ele quando pequeno… É o que ele diz… Que você fugiu quando ele tinha sete anos… e não lembra mais de você.
Natália sentiu o peito inflar. Daniel também parecia renovar sua história.
- Ele tem esse direito. Ele agora terá família, precisa… recomeçar.
- Você não pergunta,mas aproveitando… Beraldo tem uma nova mulher, já alguns anos. É uma irmã da igreja. Lurdes.
- Uau! Que surpresa! Parecia que ela esperava eu “vazar” pra dar o bote. Fico feliz.
- Outra coisa… Nossa mãe… tá com saudade. Ela quer entender melhor o que houve com você.
- Quando contei a ela foi terrível… pra ela,óbvio. Tive que me distanciar de todos, é a parte mais chata quando se faz o que se quer. As mulheres nunca tem vontade própria. Quando tem,precisam se afastar de todos.
- Sei, é dose, compreendo. Mas ela… ela quer conhecer a neta.
- Parece que depois de anos as coisas querem se encaixar,se resolver. Isso é bom. Muito bom.
- Como vai a Sofia? Tá bem grandinha,né?
- Sim, estou aqui no parque com ela. Está brincando com outras crianças.
- E sua companheira? Como vai?
- Ótima. Está feliz como nunca, foi dela a ideia da maternidade.
- Então… quando quiser,é só marcar. Todos irão se reunir. Finalmente
- Finalmente…
A ligação se encerrou. Natália sorriu um sorriso novo, uma possibilidade de outros começarem a se adaptar a “nova ela” que surgiu já há seis anos. Dali alguns dias completaria 50 anos. E estava na melhor fase de sua vida. Tinha sido uma esposa exemplar,aquela que é admirada e respeitada. Agora,era um exemplo de mulher. Que erra,tem defeitos,que muitas vezes fala demais, que precisou tomar atitudes nada recomendáveis. Mas tem vida,personalidade, alma, e amor próprio.
- Foi minha irmã, com boas novidades. Serei avó. A companheira de Daniel está grávida.
- Nossa, que felicidade!Mesmo que seja complicado você conhecê-la, o fato dele constituir uma família é muito especial.
- Sim. Depois de tudo, está sendo uma novidade excelente.Beraldo também está com um novo amor. Minha mãe está querendo me ver. E conhecer a Sofia.
- Nossa, quanta coisa boa numa ligação! Era um sonho seu. E meu também, claro.
Natália estava serena. Olhou pra Sara.
- Estou te amando mais do que nunca. Sinto que as pessoas querem se adaptar a quem eu sou hoje.
- E está começando a acontecer. Te amo demais, meu amor, meu tudo, minha vida!
- Vocês são tudo pra mim, tudo! Você e Sofia. E agora, quero me acostumar a compartilhar você com quem deixei pra trás, com quem precisei ficar longe para me reconstruir como mulher. Te amo, minha luz,meu caminho,minha existência!
E naquele parque, o encanto parecia crescer ainda mais. Algo que começou de maneira acidental,inesperada,e louca, estava concretizado como nunca. Para sempre.
Esse foi nosso primeiro conto.Em breve, publicaremos outros. O retorno não foi o esperado, mas pelo menos plantamos nossa semente. Gratos pela atenção!