Era uma quinta-feira. Beraldo estava no culto de oração. Daniel estava na faculdade e ia assistir um filme após a aula. Convidou Sara,mas ela alegou cansaço. Eram 19 horas.
Natália preparou a janta. Desceu para os fundos. Entrou na edícula.
Sara estava lendo na cama, de camisola. Não a branca. Uma azul-clara, nova, que Natália nunca tinha visto.
— Bonita — Natália disse, fechando a porta.
— Tire.
Natália tirou.
O que se seguiu foi uma das transas mais lentas e deliciosas que tiveram até então. Sem pressa. Tinham pelo menos uma hora pela frente. Natália explorou cada centímetro de Sara com a boca, com a língua, com os dedos. Sara fez o mesmo. Gemiam baixo, sussurravam palavras sujas, riam entre um beijo e outro.
Estavam nuas. A camisola azul no chão. A bermuda jeans de Natália pendurada na cadeira. As calcinhas misturadas no lençol.
Estavam abraçadas,no roça-roça, os seios de ambas se esbarrando, a boca na boca, quando ouviram.
O barulho do portão dos fundos abrindo.
As duas congelaram.
— O que foi isso? — Sara sussurrou.
— Não sei.
Passos no quintal. Passos conhecidos.
— É o Daniel — Natália reconheceu. O sangue gelou. — Ele disse que ia ao cinema.
— Por que ele voltou?
Não dava tempo de vestir. Não dava tempo de fugir. A única porta era a que dava para o quintal. Daniel já estava chegando.
— Embaixo da cama — Sara sussurrou, apontando.
Natália rolou da cama para o chão. Enfiou-se embaixo da cama de solteiro. O espaço era apertado. A poeira. O cheiro de mofo. Ela encolheu os joelhos contra o peito, nua, os cabelos soltos, o coração batendo tão alto que parecia um tambor. Sara rapidamente pegou a bermuda de Natália, as calcinhas e atirou embaixo da cama no exato momento que Daniel chegou de vez.Bateu na porta.
— Sara? Tá acordada?
Sara se enrolou no lençol. Apenas o lençol. Não dava tempo de vestir mais nada.
— Estou — respondeu, a voz estranha. — O que houve? Pensei que você estava no cinema.
— O filme encheu. Vou tentar outro amanhã, dessa vez com você. Deixa eu entrar?
Hesitação.
— Pode.
Daniel entrou.
Natália, debaixo da cama, viu os pés dele. Tênis branco. Barro na sola.Viu o lençol roçando o chão.
Daniel sentou na cama. A cama gemeu com o peso.
— Só queria ficar um pouco com você. A gente tem passado tão pouco tempo junto.
— É que eu tenho ajudado sua mãe na cozinha — Sara disse. A voz ainda estranha, mas Daniel pareceu não notar.
- Você tá nua?
- A noite tá quente. Olha como tô suando. Costumo ficar assim quando estou só. Daqui a pouco iria jantar com sua mãe.
— Eu sei. Mas fica aqui do meu lado.
A cama gemeu de novo. Daniel se aproximou. O lençol cobria o que precisava cobrir.
Daniel começou a beijar Sara. Natália ouviu o som dos beijos. Molhados. Demorados. Seu estômago se contraiu.
— Que gosto bom — Daniel murmurou.
— É que… escovei os dentes agora pouco — Sara mentiu.
Natália sabia qual era o gosto. Era o gosto dela. Minutos antes, a boca de Sara estava entre suas pernas.
Daniel empurrou Sara deitada na cama. A cama rangeu.
— Daniel, não agora — Sara tentou.
— Por quê? Estamos sozinhos.
— Estou com fome, ainda não jantei.Estava descansando um pouco,não estou no clima..
— Você parece bem.
Ele a beijou de novo. A mão dele percorreu o corpo de Sara por cima do lençol. Natália ouvia os movimentos. A cama estremecia.
Sara gemia. Mas Natália conhecia aqueles gemidos. Eram falsos. Forçados. Diferentes dos gemidos que Sara emitia quando estavam juntas.
Daniel parou.
— Deixa eu ver você.
— Daniel, por favor…
— O que foi? A gente transa quase sempre. Por que não pode agora?
Natália sentiu o coração na boca. A nuca suava. A poeira da edícula grudava na sua pele nua.
— Como falei,você chegou inesperadamente, daqui a pouco jantaremos. Pode ser mais tarde?
Daniel suspirou. A cama estremeceu com ele se sentando.
— Tudo bem. Desculpa. É que eu sinto tanta sua falta, mesmo você estando aqui.
— Eu também sinto sua falta — Sara mentiu.
Silêncio.
— Vou ao banheiro — Daniel disse. — Mais tarde retorno,prometo
— Vai.
Os pés de Daniel se moveram. Tênis branco andando em direção à porta.Natália via toda essa movimentação. A porta abriu. Fechou.
Passos no quintal. O banheiro da edícula era externo, nos fundos. Levava alguns segundos para chegar.
— Agora — Sara sussurrou, debruçando-se para fora da cama. — Sai agora.
Natália saiu de debaixo da cama. Rolou para fora, suja de poeira, completamente nua. Os seios balançando. Os cabelos emaranhados. A pele marcada pelo chão áspero. A bermuda nas mãos. A blusa que vestia ficou na cadeira.
— Vai — Sara disse, apontando para a porta.
Natália correu.
Abriu a porta da edícula. Saiu no quintal. A noite estava escura. O banheiro ficava do outro lado. Daniel estava lá dentro. A luz acesa. A sombra dele no vidro fosco.
Natália correu sem fazer barulho. Pés descalços na grama. Escorregou na lama, quase caiu, segurou o equilíbrio. Os seios balançavam. A bunda nua à mostra. Se alguém olhasse pela janela da vizinha, veria uma mulher de 44 anos, esposa do pastor, correndo pelada no quintal.
Entrou pela porta dos fundos. Subiu os degraus. Passou pelo corredor. Entrou no quarto.
Trancou a porta.
Apoiou-se na porta. Ofegante. O coração parecia que ia sair pela boca.
E então ela começou a rir.
Não um riso baixo. Um riso solto, gargalhado, que vinha do fundo da barriga. Ela colocou a mão na boca para abafar, mas não conseguia parar. Os ombros sacudiam. As lágrimas vieram — não de tristeza, de pura adrenalina.
— Meu Deus — ela disse entre risadas. — Meu Deus, meu Deus, meu Deus.
Ela olhou para o próprio corpo no escuro do quarto. Estava suja. Pelada. Cabelo uma bagunça. Marcas de dedo na coxa. O cheiro de Sara ainda na pele.
Correra um risco imenso. Daniel poderia ter aberto a porta da edícula antes. Poderia tê-la visto entrando de baixo da cama. Poderia ter visto sua mãe nua, escondida, enquanto ele tentava transar com a namorada.
O escândalo seria indescritível. A família destruída. A igreja em choque.
Mas não aconteceu.
Por um triz, não aconteceu.
E por causa desse triz — por causa do perigo que não se concretizou — a travessura parecia ainda mais gostosa.
Natália se olhou no espelho do guarda-roupa. A mulher refletida estava irreconhecível. Cabelo bagunçado. Olhos brilhando. Sorriso largo.
Não era mais a esposa do pastor. Não era mais o exemplo de conduta moral. Não era mais a mulher que tinha medo do próprio desejo.
Ela era outra.
E essa outra ria do perigo. Essa outra gostava do risco.
Natália tomou banho vestiu uma roupa e desceu para o jantar. Esperou Sara e Daniel aparecerem. Daniel falou que o cinema lotou. E as duas estavam serenas. Beraldo chegou e sentou-se. A família estava completa na mesa. Feliz.
Na hora de dormir, Natália deitou na cama, de olhos abertos, gargalhando baixo no escuro. Beraldo ainda não havia entrado no quarto.
O coração ainda batia rápido.
Mas o medo tinha virado outra coisa. Uma excitação nova. Uma consciência de que o perigo não afastava o prazer — o perigo era parte do prazer.
Ela fechou os olhos. Ainda sorrindo. Ainda sentindo o gosto de Sara na boca.
Os dias seguintes reservavam novos encontros.
Ela mal podia esperar.
Semanas depois da quase descoberta, algo mudou entre elas.
No começo, a adrenalina do risco serviu de combustível. Transaram mais vezes, mais rápido, mais silenciosamente — como se cada encontro pudesse ser o último. O perigo as excitava. O quase-serem-pegas as fazia gozar com mais intensidade.
Mas aos poucos, o cansaço chegou.
Era o cansaço de sempre olhar por cima do ombro. De parar no meio de um beijo porque ouviram um barulho. De gemer abafado com a mão na boca, sem nunca poder soltar a voz. De se despedir antes da hora, correndo, sem o abraço demorado que as duas queriam.
Numa tarde, depois de um encontro apressado na edícula — Beraldo estava em casa, dormindo, mas podia acordar a qualquer momento — Natália sentou na cama, a roupa ainda desabotoada, e não se levantou.
— O que foi? — Sara perguntou, já vestindo a camisola.
— Não sei — Natália respondeu. — Estou cansada.
— De mim?
— Não, imagina!... Desse jeito. De ter que correr. De não poder dormir abraçada com você. De não poder fazer carinho sem olhar para a porta.
Sara sentou ao lado dela. Pegou sua mão.
— Eu também estou cansada.
Ficaram em silêncio. A luz da tarde entrava pela janela da edícula. Lá fora, o quintal vazio. A casa silenciosa.
— Eu estou apaixonada por você — Natália disse. Não era a primeira vez que dizia, mas dessa vez a voz estava diferente. Mais pesada. Mais definitiva.
— Eu também estou apaixonada por você — Sara respondeu. — E não é uma paixão de esconderijo. É uma paixão de… de querer acordar do seu lado. De fazer café para você. De assistir televisão sem fingir que não estamos nos tocando.
Natália apertou os olhos. Sentiu a lágrima querer cair.
— Você acha que isso é possível?
— O quê? A gente viver junto?
— Sim.
Sara demorou para responder.
— Eu quero que seja.
Naquela noite, Natália não dormiu. Ficou na cama ao lado de Beraldo, olhando o teto. O ronco dele, que antes a embalava, agora a irritava. A mão pesada no seu ombro, que antes a protegia, agora a aprisionava.
Ela pensou na sua vida. 44 anos. Vinte e três de casamento. Um filho adulto. Uma igreja. Uma comunidade. Um exemplo.
Tudo isso para quê?
Para se sentir viva apenas nos dez minutos furtivos em que Sara a tocava?
Ela merecia mais. Ela merecia um espaço próprio. Um lugar onde pudesse ser quem realmente era, sem máscaras, sem medo, sem Deus vigiando cada um de seus passos.
No dia seguinte, contou para Sara.
— Eu estive pensando — disse, enquanto cortavam legumes na cozinha. Daniel estava no quarto. Beraldo na sala.
— Pensando no quê?
— Em fugir.
A faca de Sara parou no ar.
— Fugir para onde?
— Não sei. Longe. Um lugar onde ninguém nos conheça. Onde você não seja minha nora e eu não seja a esposa do pastor. Onde a gente possa andar de mãos dadas na rua sem que ninguém aponte o dedo.
Sara largou a faca. As mãos tremiam.
— Você está falando sério?
— Nunca falei tão sério na minha vida.
Sara olhou em volta. A cozinha impecável. Os potes de tempero alinhados. O quadro com o Salmo 23 na parede. Tudo aquilo que representava a vida que Natália construiu — e que estava disposta a destruir.
— E o Beraldo?
— Não amo ele. Não do jeito que amo você. Acho que nunca amei. Ele foi um bom homem. Um bom pai. Mas não foi o amor da minha vida.
— E o Daniel?
Natália sentiu a pergunta como uma facada no peito.
— Daniel é meu filho. Sempre vai ser. Mas ele é adulto. Ele vai seguir a vida dele. E eu preciso seguir a minha.
Sara ficou em silêncio. As lágrimas escorriam pelo seu rosto.
— Eu tenho medo — confessou.
— De quê?
— De você se arrepender. De acordar um dia e me culpar. De olhar para trás e pensar que jogou tudo fora por um caso.
Natália tirou as mãos dos legumes. Pegou o rosto de Sara entre as suas. As duas com as mãos sujas de comida, os olhos marejados.
— Eu não vou me arrepender — disse. — Você é a única coisa nessa vida que eu tenho certeza. O resto… o resto eu fui empurrando. Com você eu quero correr.
Sara fechou os olhos. As lágrimas escorriam sob as mãos de Natália.
— E se a gente for? — sussurrou. — E se a gente realmente for?
— A gente vai. Mas precisa de um plano. Eu tenho dinheiro guardado,mas precisamos de um lugar para ficar. Não pode ser no desespero. Tem que ser certo.
— Como é que a gente faz?
Natália pensou.
— Beraldo vai viajar mês que vem. Congresso de pastores. Fica três dias fora. Daniel vai junto — ele vai ajudar na organização. A casa vai ficar vazia.
— Três dias?
— Três dias para a gente se preparar. Guardar o que for preciso. E no último dia, a gente some.
— Some para onde?
— Tenho uma tia-avó em outra cidade. Velha, sozinha, não vai contar para ninguém. A gente fica lá uns dias. Depois a gente vê.
Sara abriu os olhos. Olhou para Natália. A mulher que ela amava. A mulher que estava disposta a largar tudo por ela.
— Você tem certeza? — perguntou de novo.
Natália sorriu. Um sorriso triste, feliz, assustado, determinado.
— Nunca tive tanta certeza na minha vida.
Bateram palmas na sala. Daniel chamando:
— Mãe! O almoço?
Natália soltou o rosto de Sara. Voltou a cortar legumes.
— Quase pronto, filho!
Sara enxugou os olhos com o dorso da mão. Voltou a lavar os tomates.
A rotina continuou. O almoço foi servido. Beraldo deu graças a Deus. Daniel comeu feliz, sem saber. A família reunida em torno da mesa.
Sob a mesa, os pés de Natália e Sara se tocaram. Ficaram encostados durante toda a refeição.
O plano estava traçado.
Só faltava o dia.
E a coragem.
Mas a paixão — a paixão avassaladora que crescera entre elas nos últimos meses — já tinha tomado conta de tudo. Não havia mais espaço para dúvida. Havia apenas o próximo passo.
Fugir.
Começar de novo.
Ser quem elas realmente eram.