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Um conto erótico de contos.eroticos
Categoria: Heterossexual
Contém 3998 palavras
Data: 13/07/2026 12:14:34

Alguns meses depois, Giulia já não conseguia fingir com a mesma facilidade.

No começo, acreditou que bastaria separar os mundos.

Em casa, continuaria sendo a esposa de Rafael: discreta, cuidadosa, presente, respondendo com paciência às frases atravessadas, aos comentários sobre roupa, horário e comportamento. Na igreja, seria outra: eficiente, elegante, necessária, circulando entre eventos, reuniões, viagens, planilhas, cartões e segredos que Rafael jamais entenderia.

Por algum tempo, funcionou.

Ou pareceu funcionar.

Giulia aprendeu rápido. Aprendeu quais pastores assinavam documentos sem ler. Quais fornecedores cobravam mais do que entregavam. Quais esposas sabiam demais e quais preferiam não saber. Aprendeu que certas notas fiscais eram aceitas porque ninguém queria fazer perguntas, e que alguns pagamentos só pareciam estranhos para quem ainda acreditava que dinheiro precisava ter uma origem limpa.

Com Karina, Bianca e Fernanda, também aprendeu outra coisa: liberdade tinha gosto.

Às vezes vinha em forma de vinho, viagens e quartos fechados.

Às vezes, em forma de dinheiro guardado sem Rafael saber.

Aos poucos, Giulia construiu uma reserva. Pequena no começo, depois mais confortável. O suficiente para respirar melhor. O suficiente para não depender de cada humor do marido. O suficiente para olhar uma discussão em casa e pensar que, se precisasse sair, talvez conseguisse.

Mas ainda não era simples.

Nada naquele mundo era simples.

Se ela deixasse Rafael, não perderia apenas um casamento. Perderia também o lugar seguro que ocupava dentro da igreja. A esposa separada de um funcionário ligado aos homens certos dificilmente continuaria circulando com a mesma liberdade entre as mulheres dos pastores. Não por decisão delas, talvez. Karina poderia tentar protegê-la. Bianca faria escândalo. Fernanda ficaria ao seu lado.

Mas os maridos falariam.

Os pastores comentariam.

Rafael, ferido no orgulho, faria questão de transformar a saída dela numa afronta.

E, no fim, por mais poderosas que parecessem, Karina, Bianca e Fernanda ainda pertenciam àquela estrutura.

Augusto, não.

Essa foi a conclusão que Giulia demorou meses para admitir.

Numa quinta-feira à noite, depois de uma briga particularmente cansativa, ela ficou sentada sozinha no banheiro, olhando para a própria aliança no dedo.

Rafael havia reclamado da roupa que ela usara em uma reunião.

Depois reclamou do horário.

Depois do perfume.

Depois do dinheiro que ela agora tinha.

- Você está se achando muito desde que começou a andar com esse povo - ele havia dito, parado na porta do quarto, a voz carregada de irritação. - Não esquece quem você é, Giulia.

Ela perguntou, cansada:

- E quem eu sou?

Rafael respondeu sem pensar:

- Minha esposa.

Como se aquilo bastasse.

Como se não houvesse mais nada antes ou depois.

Naquela noite, Giulia não chorou.

Isso a assustou mais do que a briga.

Antes, teria chorado. Teria sentido culpa, medo, talvez vontade de explicar. Agora, sentada no banheiro, olhando para a própria mão, sentiu apenas um cansaço limpo. Uma certeza seca, sem drama.

Não queria mais.

Não daquele jeito.

Não naquela casa.

Não com aquele homem.

Pegou o celular e abriu a conversa com Augusto.

Ficou alguns segundos encarando o nome dele.

Depois digitou:

“Preciso conversar com você. A sós.”

A resposta veio alguns minutos depois.

“Quando?”

Giulia olhou para a porta fechada do banheiro. Do outro lado, Rafael assistia televisão, como sempre fazia depois de discutir. A casa parecia pequena demais. O ar, pesado demais.

“ Amanhã.”

Augusto respondeu:

“Tenho uma casa vazia no Jardim Europa. Te mando o endereço.”

Giulia leu a mensagem duas vezes.

Não era um escritório.

Não era um restaurante.

Não era a igreja.

Era uma casa.

Ela sabia o que aquilo significava.

E, ainda assim, respondeu:

“Vou às oito.”

No dia seguinte, Giulia se arrumou com mais cuidado do que pretendia admitir.

Passou quase uma hora diante do espelho, escolhendo uma roupa que pudesse parecer casual se alguém perguntasse, mas que escondesse por baixo uma intenção clara. Vestiu um vestido escuro, elegante, de tecido leve, que acompanhava o corpo sem exagero. Prendeu os cabelos, soltou de novo, depois decidiu deixá-los caindo sobre os ombros.

Por baixo, escolheu uma lingerie preta, delicada e provocante, diferente das peças que usava quando ainda tentava parecer apenas uma esposa comportada. A renda desenhava seu corpo com precisão, valorizando a cintura, o quadril e o colo. Quando se olhou no espelho, sentiu um arrepio.

Não estava se vestindo para pedir ajuda.

Ou não apenas para isso.

Estava se vestindo para ser vista.

Para ser desejada.

Para lembrar a si mesma que ainda tinha poder sobre o próprio corpo, mesmo quando sua vida parecia cercada de decisões difíceis.

Rafael nem percebeu.

- Vai sair? - perguntou, sem tirar muito os olhos do celular.

- Vou resolver uma coisa da igreja.

A mentira saiu fácil demais.

- Com a Karina?

Giulia pegou a bolsa.

- Também.

Ele assentiu, satisfeito com a própria ignorância.

- Não volta tarde.

Giulia parou na porta por um instante.

Antes, aquela frase teria soado como ordem.

Agora, soou como ruído.

- Não prometo - respondeu.

Rafael ergueu os olhos, mas ela já estava saindo.

A casa indicada por Augusto ficava em uma rua calma, arborizada, onde os muros altos escondiam jardins, piscinas e vidas que não precisavam explicar sua origem. Giulia estacionou em frente a um portão cinza-escuro. Antes que tocasse a campainha, o portão começou a abrir.

Augusto já a esperava.

A casa era moderna, ampla, com janelas grandes e iluminação baixa. Não parecia habitada, mas também não parecia abandonada. Tinha móveis caros, cheiro de madeira, couro e limpeza recente. Um lugar pronto para receber alguém sem deixar marcas.

Augusto estava na sala, usando camisa branca dobrada nos antebraços e calça escura. Os cabelos grisalhos estavam bem penteados, e o rosto carregava aquela calma conhecida que fazia Giulia sentir, ao mesmo tempo, segurança e perigo.

- Você está bonita - ele disse.

Giulia fechou a porta atrás de si.

- Só bonita?

Augusto a observou com mais atenção.

- Perigosa.

Ela sorriu, mas o sorriso não durou muito.

Havia coisas demais acumuladas dentro dela.

Augusto percebeu.

- Você disse que precisava conversar.

- Preciso.

- Agora?

Giulia sustentou seu olhar.

A resposta deveria ser sim.

Era para isso que havia ido até ali. Para falar de Rafael, da separação, da igreja, do medo de perder o trabalho, da vida que precisava reorganizar antes de desmoronar. Mas quando viu Augusto diante dela, a distância de meses entre os encontros pareceu pesar no corpo antes de pesar na consciência.

Ela deu alguns passos até ele.

- Ainda não.

Augusto entendeu.

Não perguntou.

Apenas colocou a taça que segurava sobre a mesa e esperou que ela se aproximasse.

Giulia parou diante dele.

Por alguns segundos, nenhum dos dois se tocou.

A tensão entre eles tinha uma maturidade diferente da urgência da primeira vez. Havia saudade, sim, mas também havia reconhecimento. Augusto conhecia parte dela que Rafael nunca havia visto. Giulia conhecia nele uma calma perigosa, capaz de oferecer prazer e saída com a mesma naturalidade.

Ela levou a mão ao primeiro botão da camisa dele.

- Senti sua falta.

Augusto segurou delicadamente seu pulso.

- De mim ou do que acontece quando está comigo?

Giulia olhou para a mão dele envolvendo a sua.

- Hoje eu não quero separar as coisas.

Ele soltou seu pulso.

Giulia terminou de abrir o botão.

Augusto a beijou.

O beijo começou lento, quase controlado, mas a resposta dela veio mais intensa. Giulia segurou a nuca dele, aproximando-se como se carregasse meses de raiva, cansaço e desejo acumulados. Augusto a recebeu com firmeza, uma das mãos em sua cintura, a outra subindo por suas costas.

Ela se sentiu respirar pela primeira vez naquele dia.

Talvez naquela semana.

Talvez em meses.

O vestido escuro deslizou de seus ombros pouco depois. Giulia deixou que caísse no chão, revelando a lingerie preta escolhida naquela tarde. Augusto afastou-se apenas o suficiente para olhá-la.

Não disse nada de imediato.

E esse silêncio, vindo dele, valeu mais que elogio.

Giulia ergueu o queixo.

- Vai ficar olhando?

- Vou.

- Por quanto tempo?

- O necessário.

Ela sentiu o rosto aquecer, mas não desviou.

Augusto aproximou-se novamente, tocando-a com aquela paciência que sempre a desarmava. Suas mãos percorreram a cintura, as costas, os quadris, demorando-se nos detalhes da renda e na pele exposta. Giulia fechou os olhos por um instante, permitindo-se ser observada e tocada sem a pressa egoísta que havia marcado tantos momentos de sua vida antiga.

Com Rafael, muitas vezes seu corpo parecia obrigação.

Com Augusto, parecia linguagem.

Ele a conduziu até o sofá largo da sala. Giulia sentou-se primeiro, puxando-o pela camisa antes que ele pudesse escolher a distância. Augusto sorriu contra sua boca.

- Impaciente.

- Com saudade.

- Achei que tinha vindo conversar.

- Eu vim.

Ela o beijou outra vez.

- Depois.

Augusto aceitou.

A saudade entre os dois não precisou de explicação. Veio nos gestos, nos beijos, na forma como Giulia se entregava à atenção dele sem perder a iniciativa. Ela queria ser tocada, mas também queria conduzir parte daquilo. Queria sentir o peso da experiência dele e, ao mesmo tempo, lembrar que não era mais a mulher que esperava autorização para desejar.

Naquele grande sofá, Giulia o fez ficar sentado, se ajoelhando entre as pernas dele logo depois, puxando o que faltava das roupas dele, ela então leva sua mão delicada e habilidosa em seu membro, iniciando uma punheta com calma, enquanto sentia o pau dele endurecer em sua mão.

Com um sorriso nos lábios, ela leva a lingua em suas bolas, iniciando uma lambida calma, chupando uma a uma das bolas dele, deslizando a lingua lambendo todo o pau de Augusto até chegar na cabeça, onde a encaixava em seus lábios, dando sugadinhas enquanto o encarava, atenta às reações de prazer que ele dava.

Inicia então um boquete, engolindo a rola dele de uma só vez, fazendo ela ir fundo em sua garganta, começa um vai e vem, um boquete ritmado, intenso , fazendo Augusto gemer de prazer com aquela boquinha, ela olhava, sorria e continuava a mama-lo, deixando o pau dele bem babado, enquanto forçava ele contra sua garganta.

Augusto apenas olhava, gemendo todo excitado com aquela mulher que o mamava de forma tão dedicada, olhava a saliva dela lambuzando todo seu pau, escorrendo entre os lábios dela, em um boquete intenso e bem molhado.

Giulia realmente sabia o que estava fazendo, a maneira provocante como olhava para ele, a forma como brincava com a rola dele na boca, tudo aquilo era observado de forma admirada pelo homem que estava recebendo talvez o melhor boquete da vida dele, naquele momento.

Depois de deixar a rola dele bem babada, Giulia se levantava, subindo no colo dele, encaixando os labios da bucetinha dela na espessura do pau dele, sem penetra-la, sentia a rola de Augusto pulsando contra sua bucetinha que estava toda molhada, ela inicia um vai e vem, roçando a buceta no pau dele, enquanto trocavam beijos intensos.

Augusto então manda ela ficar de 4, ela no mesmo instante obedece, empinando bem a bunda, ficando de 4 no sofá, com o rostinho encostado no sofá e a bunda pra cima, ela rebolava para ele, provocando, sem dizer nada, Augusto por sua vez, começa a penetra-la, enfiando o pau de uma só vez naquela bucetinha molhada e apertada, ela geme, geme auto sentindo o pau dele dentro dela, sentindo ele iniciar um vai e vem forte, fazendo o som do quadril dele batendo na bunda dela, ecoar pela casa.

Giulia gemia alto, sentindo o pau dele todo dentro da buceta dela, com força, sem dó, seus tapas na bunda dela ardendo sua pele e ao mesmo tempo a fazendo se arrepiar toda, com a dor e o prazer ao mesmo tempo em seu corpo.

Giulia nem precisava pedir, Augusto ao ouvir os gemidos intensos dela, começa a meter cada vez mais forte, socando sem dó, dando tapas em sua bunda, fazendo ela gemer cada vez mais alto.

Ela forçava a bunda contra a cintura dele, rebolando na rola de Augusto sentindo o pau dele bem fundo na bucetinha dela, toda entregue para aquele homem.

Augusto apesar de experiente, ainda era apenas um homem, com o tezão a flor da pele, foi dificil controlar, apenas avisa que iria gozar, tirando o pau da bucetinha dela, Giulia então se vira, deitando no sofá de barriga pra cima, olhando para ele, enquanto Augusto começa a gozar em cima dela, jorrando sua porra naquela barriguinha definida e seus seios fartos, deixando Giulia toda lambuzada com sua porra.

Ela olhava aquilo com uma carinha sacana, sentindo a bucetinha abertinha e o corpo todo lambuzado com a porra daquele homem.

– Nossa, que delicia … rs

Augusto vai ate o banheiro, pegando uma toalha para ajudar ela a se limpar, depois se ajoelhava na frente dela, caindo de boca na bucetinha dela e começa chupa-la, pegando Giulia de surpresa, afinal nenhum homem depois de gozar antes dela, havia se preocupado em faze-la gozar depois.

E depois de um tempo sendo chupada por Augusto, finalmente Giulia começa a gozar, sentindo o corpo todo vibrar em um orgasmo gostoso e intenso.

Ele deita ao lado dela, com uma cara de quem havia cumprido uma missão muito importante e ela satisfeita ao lado dele, se aconchega em seus braços.

O sentimento não era como se fossem um casal, isso estava longe de acontecer,mas havia ali uma cumplicidade, mesmo que nenhuma palavra estivesse sendo dita.

Depois, a casa pareceu ainda mais silenciosa.

Giulia estava deitada no sofá, com a cabeça apoiada no peito de Augusto. A respiração dos dois havia se acalmado aos poucos, mas o corpo dela ainda carregava a memória do que tinha acabado de acontecer. O vestido permanecia caído perto da mesa. A lingerie, parcialmente fora do lugar, parecia agora menos uma escolha provocante e mais uma prova de que ela havia ido até ali querendo ser vista antes mesmo de pedir ajuda.

Augusto acariciava lentamente seus cabelos.

- Agora podemos conversar? - perguntou.

Giulia fechou os olhos.

Por um momento, teve vontade de mentir.

Dizer que não era nada, que só queria vê-lo, que estava cansada, que resolveria tudo sozinha. Mas o peso que carregava havia se tornado grande demais para caber em silêncio.

Ela se sentou devagar, puxando uma almofada para perto do corpo.

Augusto não apressou.

Apenas esperou.

Giulia olhou para a sala ampla, para os móveis caros, para as janelas fechadas e para o reflexo de si mesma no vidro escuro. Por alguns segundos, pareceu estranho falar sobre casamento e medo naquele lugar onde acabara de se sentir tão livre.

- Eu quero me separar do Rafael - disse, enfim.

A frase saiu calma.

Mais calma do que ela esperava.

Augusto não demonstrou surpresa.

- Há quanto tempo sabe disso?

Giulia soltou um riso fraco.

- Talvez há mais tempo do que tive coragem de admitir.

- O que aconteceu?

- Nada novo. Esse é o problema.

Ela passou as mãos pelos cabelos, tentando organizar as palavras.

- Ele continua o mesmo. Controlando roupa, horário, dinheiro, o jeito que eu falo, o jeito que eu chego em casa. Tudo vira uma cobrança. Tudo que eu faço fora dele parece uma ameaça. Ele gosta que eu trabalhe na igreja porque isso melhora a imagem dele, mas odeia quando percebe que eu existo lá dentro sem precisar dele.

Augusto permaneceu em silêncio.

Giulia continuou:

- Antes eu achava que era culpa. Que eu estava errada por trair, por mentir, por desejar outras coisas. Agora eu olho para ele e... não sinto mais vontade de tentar.

A voz dela falhou um pouco, não por arrependimento, mas por cansaço.

- Eu não quero voltar para aquela cama fingindo que ainda sou a mulher que ele acha que tem.

Augusto se levantou e serviu água para os dois. Entregou uma taça a ela antes de se sentar novamente.

- Você tem dinheiro?

- Tenho uma reserva.

- Quanto tempo consegue se manter?

- Alguns meses. Talvez mais, se eu cortar tudo.

- E por que me chamou?

Giulia olhou para ele.

- Porque dinheiro não é o único problema.

Augusto esperou.

- Se eu me separar, eu saio da igreja.

- Provavelmente.

A resposta direta doeu mais do que ela esperava.

- Karina tentaria me manter.

- Tentaria.

- Mas não conseguiria.

- Não por muito tempo.

Giulia apertou a taça entre os dedos.

Ouvir aquilo de Augusto tornava tudo mais real.

- Os homens não aceitariam - ela disse.

- Não.

- Rafael faria disso uma humilhação pública.

- Faria.

- E eu perderia o trabalho.

Augusto inclinou levemente a cabeça.

- Na igreja, sim.

Giulia franziu a testa.

- Na igreja?

- Você não precisa trabalhar lá.

Ela ficou em silêncio.

Augusto apoiou a taça na mesa.

- O que você sabe fazer, Giulia?

A pergunta a pegou desprevenida.

- Como assim?

- Além de ser bonita. Além de ser esposa do Rafael. Além de ser o segredo preferido das meninas. O que você sabe fazer?

A frase atravessou alguma parte sensível dela.

Não pela dureza.

Mas porque ninguém perguntava aquilo havia tempo demais.

Giulia abaixou os olhos para as próprias mãos.

- Eu sou formada em Ciências Contábeis.

Augusto ficou imóvel por alguns segundos.

- Você é contadora?

- Formada. Não exerci como deveria.

- Por quê?

Ela soltou um riso sem alegria.

- Porque casei. Porque mudei de cidade. Porque Rafael achava que eu não precisava trabalhar de verdade. Porque, depois de um tempo, parecia mais fácil deixar todo mundo esquecer que eu tinha estudado.

Augusto a observou de um jeito diferente.

Não como havia olhado para a lingerie.

Não como amante.

Como alguém que acabara de encontrar uma peça útil num lugar inesperado.

- Você tem registro?

- Tenho. Regularizei antes de vir para cá. Achei que talvez um dia precisasse.

- E nunca disse isso a Karina?

- Ela nunca perguntou.

- Rafael?

Giulia sorriu de lado.

- Rafael dizia que contabilidade era bom para eu cuidar melhor das contas da casa.

Augusto riu baixo, mas não havia humor no som.

- Idiota.

A palavra, dita com tanta tranquilidade, fez Giulia sorrir pela primeira vez desde que começara a conversa.

- Isso casa com a consultoria? - perguntou.

- Mais do que você imagina.

Augusto levantou-se e caminhou até a janela. Ficou alguns segundos olhando para o jardim escuro antes de continuar.

- Tenho uma empresa de consultoria financeira. Oficialmente, cuidamos de reestruturação, gestão patrimonial, contratos, investimentos, recuperação de empresas, projetos institucionais.

Giulia ouviu a palavra “oficialmente”.

- E não oficialmente?

Ele virou o rosto para ela.

- Fazemos dinheiro circular para pessoas que não gostam de aparecer.

Ela não perguntou mais.

Não ainda.

Augusto voltou até o sofá.

- Você aprende rápido. Já entende a lógica da igreja. Sabe lidar com documento, fornecedor, evento, nota, planilha e gente mentindo com sorriso no rosto. Com formação contábil, deixa de ser apenas útil. Vira perigosa.

Giulia sentiu algo dentro dela acender.

- Perigosa é bom?

- Para mim, sim.

- E para mim?

- Depende do quanto quer continuar sendo protegida pelos outros.

Ela sustentou seu olhar.

- Eu não quero voltar para Rafael.

- Então não volte.

A simplicidade da frase quase a desarmou.

- Não é tão fácil.

- Eu sei.

Augusto pegou o celular e digitou alguma coisa rapidamente.

- Esta casa está vazia, mas não serve para você. É exposta demais. Tenho um apartamento no centro, dois quartos, garagem, portaria discreta. Perto da consultoria.

Giulia sentiu o coração acelerar.

- Você está me oferecendo um apartamento?

- Estou oferecendo uma transição.

- Qual a diferença?

- Apartamento parece favor. Transição é estratégia.

Ela olhou para ele, tentando encontrar alguma armadilha explícita.

- E o que você quer em troca?

Augusto sorriu levemente.

- Trabalho bem feito.

- Só isso?

- Lealdade.

A palavra pesou.

- Lealdade a você?

- Ao lugar que vou te dar.

Giulia ficou em silêncio.

Ele caminhou até uma gaveta lateral e retirou um envelope escuro. Colocou-o sobre a mesa, diante dela.

Giulia abriu.

Dentro havia um cartão sem nome visível, discreto, pesado.

Ela ergueu os olhos.

- Outro cartão?

- Esse não é da igreja.

- É seu?

- Não exatamente.

Giulia observou o cartão entre os dedos.

- De quem é?

- De alguém grande o bastante para não conferir fatura pequena.

Ela entendeu.

Não tudo.

Mas o suficiente.

- Político?

Augusto não respondeu.

A ausência de resposta bastou.

- Posso usar para quê?

- Para o que precisar.

Giulia respirou fundo.

- Augusto...

- Para o que precisar - ele repetiu. - Mercado, roupa, mudança, advogado, passagem, hotel, silêncio. Não quero você voltando para Rafael porque ficou com medo do aluguel.

Ela apertou o cartão entre os dedos.

- E de onde vem esse dinheiro?

Augusto se recostou no sofá.

- De várias operações.

- Isso é vago.

- É seguro.

- Para quem?

- Para você, se aprender a não fazer certas perguntas cedo demais.

Giulia olhou para o envelope, depois para ele.

- Você está me colocando dentro do seu esquema.

- Estou te dando a chance de escolher entrar acordada.

A resposta ficou entre os dois.

Giulia pensou na igreja. No cartão antigo. Nas viagens. Nas notas que não batiam. No dinheiro que havia aprendido a guardar com cuidado. Pensou em Rafael, dizendo que o papel dela era caber na vida dele. Pensou em Karina, Bianca e Fernanda, que haviam aberto uma porta mas talvez não pudessem acompanhá-la para fora dela.

Augusto continuou:

- O dinheiro desse cartão não sai do meu bolso. E também não é presente de homem apaixonado. Não confunda as coisas.

- Eu não confundo.

- Ótimo. Use como ferramenta. Monte sua vida. Faça reserva. Aprenda a transformar acesso em independência.

Giulia sentiu um arrepio.

- Você fala como se já fizesse isso há muito tempo.

- Faço.

- E está me ensinando?

- Estou vendo se você merece ser ensinada.

Ela fechou o envelope com calma.

- E se eu aprender rápido demais?

Augusto sorriu.

- Aí talvez eu tenha um problema interessante.

Giulia guardou o cartão na bolsa.

Dessa vez, não sentiu culpa.

Sentiu medo, sim. Mas não o medo paralisante que Rafael provocava. Era outro tipo de medo. O medo de atravessar uma porta e saber que, depois dela, não haveria volta para a mulher que havia entrado.

- Quando começo? - perguntou.

Augusto a observou por alguns segundos.

- Amanhã, se quiser.

- E a igreja?

- Devolve o cartão. Entrega uma desculpa elegante. Diz que precisa reorganizar sua vida pessoal.

- Karina vai entender?

- Karina vai odiar.

Giulia fechou os olhos por um instante.

- Eu não quero perder elas.

- Talvez não perca.

- Mas vai mudar.

- Tudo que liberta muda alguma coisa.

Ela abriu os olhos.

Augusto estava perto, mas não tentou tocá-la. Naquele momento, a distância entre os dois parecia mais séria do que qualquer intimidade anterior.

- Você está me ajudando por quê? - Giulia perguntou.

Ele demorou a responder.

- Porque gosto de gente que descobre tarde demais que nasceu para mais.

A frase a atingiu em silêncio.

Giulia pegou o vestido no chão e começou a se vestir devagar. Augusto não desviou os olhos, mas também não interrompeu. Quando terminou, ela pegou a bolsa, sentindo o peso do envelope lá dentro.

Na porta, parou.

- E se eu não conseguir?

Augusto caminhou até ela.

- Consegue.

- Como sabe?

Ele tocou de leve seu rosto.

- Porque você já saiu faz tempo. Só ainda dorme na mesma casa.

Giulia engoliu seco.

Não respondeu.

Saiu da casa alguns minutos depois, levando na bolsa um cartão sem nome, uma chave que ainda receberia e uma decisão que já não podia fingir não ter tomado.

Naquela noite, quando voltou para casa, Rafael estava no sofá.

A televisão ligada.

O celular na mão.

A aliança brilhando no dedo dele como uma pequena peça de metal sem peso algum.

Giulia ficou parada na entrada por um instante.

Antes, aquela cena lhe dava raiva.

Agora, dava distância.

Rafael olhou para ela.

- Resolveu as coisas da igreja?

Giulia segurou a bolsa com mais firmeza.

Lá dentro, o envelope escuro parecia pulsar como um segredo novo.

- Resolvi algumas coisas - respondeu.

Ele voltou os olhos para a televisão.

- Amanhã a gente conversa. Estou cansado.

Giulia quase sorriu.

Pela primeira vez, a indiferença dele não a diminuiu.

Apenas confirmou que ela estava certa.

Subiu para o quarto sem dizer mais nada.

Enquanto Rafael permanecia na sala, sem imaginar que sua esposa acabara de receber uma saída, Giulia fechou a porta, tirou o cartão da bolsa e o colocou sobre a penteadeira.

Ao lado da aliança que retirou do dedo.

Ficou olhando para os dois objetos.

Um representava a vida que ainda a prendia.

O outro, a vida perigosa que acabava de se abrir.

Giulia não sabia se estava fazendo a coisa certa.

Mas sabia, enfim, que não queria mais pedir permissão para existir.

E isso bastava para começar.

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