Dormir é um processo. Como tudo na vida cotidiana, nada sucede a saltos e rupturas, por mais que às vezes tenhamos a impressão contrária. Confinados ao passado, estamos sempre presos a rememorar os acontecimentos, e nossa memória tende a ser gentil. E quando não é, bom... para isso existem os antidepressivos.
Estava relativamente acostumado a eles. Enquanto menino, tive uma infância bastante tranquila. A escola dava sentido e ordem à minha vida. As provas, de algum modo, eram coisas que sentia depender apenas de mim. O sucesso ou o fracasso: havia igualdade, havia precisão. E quando não houvesse, bom, havia a quem reclamar.
Quando entrei na faculdade as coisas já eram bem diferentes. Já era homem e tinha que fazer escolhas. Os professores já não se importavam de fato com o sucesso dos alunos e a responsabilidade foi passada para mim de uma maneira tão brutal que lembro que atravessei noites acordado, quando percebi, no final do primeiro semestre, que talvez aquele curso não fosse para mim.
Comecei a fazer uso de antidepressivos e calmantes. Por mais dois semestres consegui fingir que a vida seguia igual à época do colégio. Mas aí veio o estágio. Ter que lidar com pessoas, lidar com chefes. Não ter o controle de fato de sua vida, mas ser cobrado o tempo todo como se tivesse. Essa sensação era insuportável.
As consultas aumentaram e com elas seus valores. Passei a usar os antidepressivos como bem entendia. Aumentando as doses quando a pressão de fora me sufocava e eu só queria dormir.
Mas apagar e dormir são coisas diferentes. Talvez, se existe algo que seja um corte do cotidiano, ou o mais próximo que exista disso, seja apagar. Quem já tomou um anestésico sabe o que estou falando. Não é um acalmar processual, povoado de sonhos e que repara o corpo. É como se fosse uma transição abrupta de um filme amador, ou pior, um filme que quer causar em nós o pior tipo de desconforto.
Quando tentei abrir os olhos não consegui de pronto. Tentei mexer meus braços e pernas, mas os senti presos. Imóveis. Tentei chamar por ajuda, mas não tive forças para abrir a boca. Esperei não sei quanto tempo e, então, um perfume doce e gentil inundou meu mundo.
Com algum esforço consegui mover minhas pálpebras, como se fossem gavetas emperradas e quebradas as quais é impossível abrir completamente. A luz era forte e meus olhos arderam. Era olhar para o sol, realmente...
Antes de conferir meu estado ou onde estava, procurei por minha Deusa. Sem vê-la, fui tomando ciência da sala em que estava. Um quarto de madeira, uma cama antiga, mas confortável. Um lustre com todas as suas luzes acesas. Meus pés e mãos estavam amarrados à cama com uma espécie de elástico grosso e pouco maleável (ao menos sem colocar alguma força o que eu não tinha no momento). Em minha veia, soro estava sendo injetado.
Tentei balbuciar algumas palavras, chamar por auxílio. Mas não consegui ir mais longe que projetar grunhidos irreconhecíveis. A porta do quarto se abriu e minha Deusa entrou.
Ela vestia uma roupa menos insólita e mais discreta. Trocara seu uniforme de caça por algo mais mundano e, talvez, mais confortável. Botas de couro preto com pequenos detalhes dourados. O cano comprido e amarrado com cadarço encontrava uma calça jeans escura. Vestia um casaco jeans um pouco mais claro e fechado. Seus seios maravilhosos estavam encobertos, mas a roupa era justa o suficiente para os marcar. Usava um par de brincos dourados com um detalhe branco que parecia uma joia, talvez pérola.
Ainda grogue, acabei não me contendo e fitei-a por mais tempo que no carro. Sem óculos escuros, seus olhos azuis compunham um quadro que faria jus a ser a obra principal em qualquer museu. Sorriu ao me olhar; quem diria que Ártemis teria covinhas.
— Garoto, você não tem ideia do trabalho que me deu...
Tentei falar algo, mas não consegui. Ela, se aproximando de mim, continuou:
— ... Imaginei que com essa pancinha você seria mais resistente ao medicamento.
Ela colocou o dedo em minha testa e sua unha me causou um leve desconforto. Controlava sua força e sua ira, pois devia saber que meu estado era delicado.
— Já me deu muito trabalho e ainda nem chegamos onde devíamos. Saiba que tudo isso será cobrado de você mais tarde. Esse local, essa cama confortável, seu tratamento... Prometi a um amigo meu que, por lhe salvar a vida, ele terá o direito de cobrar o pagamento de você a qualquer momento.
Minha alma de pobre se espantou quando ela mencionou dívida.
— Pagamen...to?
Ela tirou o dedo de minha testa, e ainda que eu não pudesse ver nem tocar, tenho a certeza de que ela pressionou tempo suficiente para fazer um levíssimo corte.
— Fique tranquilo, já te disse, daqui por diante eu penso por você. Você só vai fazer o que eu lhe mandar e, quando eu mandar, irá pagar a dívida.
Ela caminhou até o outro lado da cama e disse:
— Disseram que talvez você já fizesse uso de outros medicamentos... preciso que me diga exatamente o que toma quando estiver melhor.
Tentei balançar a cabeça e não sei se consegui ou não. Ela então começou a se mover em direção à porta pela qual entrou. Antes que levasse a mão à maçaneta, ela parou e se virou.
— É curioso como pessoas fracas precisam de remédios, precisam de consultas com psicólogos, padres ou coisa do tipo... Confessores para ouvirem aquilo que não conseguem processar e lhes ofertar alguma sensação de bem-estar e de pertencimento. Drogas para se anularem e não sentirem desconforto. São tais como ovelhas em um pasto que precisam ser cuidadas e mantidas. Ridícula humanidade cheia de presas tão míseras que não possuem nem a dignidade de confrontarem os predadores e morrerem em combate. São presas tão ridículas que querem fingir não serem presas. Ao menos você, garoto, minha ovelhinha... eu sei que seu piripaque não foi fruto dos medicamentos que tomava. Não, você teve uma overdose porque quis se entregar a mim. Quis se entregar para ser devorado por mim e terá a honra de ser consumido por completo, ciente de cada rasgo em seu corpo.
Por algum momento enquanto ela falava, e até ela se virar e sair do quarto, tive a impressão de que o branco dos seus brincos eram dentes. Gostaria que ela me devorasse ali mesmo...
Ao sair do recinto, como se o dia tivesse virado noite, apaguei novamente.