Lúcia chorava sem fazer barulho.
Era isso que tornava tudo pior.
Não havia soluço, não havia drama, não havia mão no peito nem pedido de perdão imediato. Apenas lágrimas descendo por um rosto imóvel, muito maquiado, muito antigo. O batom vermelho permanecia perfeito. Os olhos, não. Neles havia uma juventude soterrada que Tomás ainda não conhecia completamente, mas que parecia ter acabado de ser arrancada de dentro dela pela fotografia.
A imagem estava sobre a mesa do 1307.
O corredor do décimo terceiro andar em 1979.
A porta aberta.
Raul de um lado.
Sérgio do outro.
César ao fundo com a câmera.
E Lúcia, jovem, no centro, segurando a maçaneta.
Nem todo traidor queria trair.
Dante foi o primeiro a falar.
— O que você fez?
A pergunta saiu baixa, mas feriu o apartamento inteiro.
Lúcia fechou os olhos.
— Fechei uma porta.
— Para quem?
Ela abriu os olhos e olhou para a fotografia.
— Para Daniel.
Dante ficou imóvel.
Tomás sentiu o corpo de Dante endurecer ao seu lado, como se a resposta tivesse atravessado não apenas o homem, mas o sangue dele.
— Você fechou Daniel fora? — Dante perguntou.
— Não. Dentro.
O silêncio que veio depois pareceu pior que qualquer ruído da parede.
Lúcia respirou fundo, mas a respiração falhou no meio. Sentou-se devagar, como se as pernas não a sustentassem mais. A câmera de César estava sobre a mesa entre eles, escura, pesada, cheia de uma presença que nenhum objeto deveria ter.
Tomás não disse nada. Ainda.
Havia perguntas demais, mas algumas tragédias exigiam que a pessoa culpada escolhesse por onde começar.
Lúcia tocou a borda da fotografia com a ponta dos dedos.
— Vocês viram a festa. Viram Raul sair. Viram Daniel tentar ir atrás.
Dante respondeu:
— Vi.
— Então você viu o que eu fiz.
— Não vi.
— Porque a memória também se protege.
Lúcia recolheu as mãos para o colo.
— Quando Raul entrou no elevador, Daniel foi atrás. Ele teria entrado também. Teria se jogado dentro daquela cabine como quem se joga num incêndio, porque Daniel amava Raul com uma violência que não cabia no corpo dele. Eu sabia disso. Todo mundo sabia. Raul fingia que não, Daniel fingia que não, mas a festa inteira sabia.
Dante respirava pela boca.
Tomás notou a mão dele fechada sobre a mesa.
— E você impediu — Dante disse.
— Sim.
— Por quê?
Lúcia olhou para ele.
— Porque Sérgio disse que, se Daniel entrasse, o elevador não levaria só os dois.
Tomás sentiu a nuca esfriar.
— Levaria quem?
— Todos.
A palavra ficou no apartamento.
Todos.
Lúcia continuou:
— Sérgio disse que o anfitrião tinha aceitado Raul no lugar de Daniel. Que era uma troca. Um por um. Raul sabia. Daniel não. Se Daniel entrasse depois, a troca quebraria. E quando uma troca quebrava... o prédio cobrava de quem estivesse perto.
— E você acreditou nele? — Dante perguntou.
A voz dele já não era apenas raiva. Era dor.
— Eu tinha vinte e poucos anos, Dante. Estava bêbada, assustada, cercada de gente que podia ser presa, exposta, espancada, destruída. Havia homens casados ali. Mulheres que não podiam ser vistas. Gente que perderia emprego, família, casa, nome. Sérgio sabia de todos. Tinha fotos. Tinha endereços. Tinha as nossas fraquezas dobradas em envelopes.
Tomás olhou para a fotografia.
A jovem Lúcia segurando a porta.
Não parecia uma traidora ali. Parecia alguém que havia envelhecido no instante exato em que a foto foi tirada.
— Você segurou a porta para salvar os outros — Tomás disse.
Ela olhou para ele.
— Foi o que eu disse a mim mesma durante quarenta e sete anos.
Dante se levantou.
— Mas Daniel sobreviveu?
Lúcia fechou os olhos.
— Por um tempo.
— Então não salvou.
— Eu sei.
A frase saiu tão quebrada que até Dante calou.
Lúcia enxugou o rosto com as costas da mão, tomando cuidado para não borrar o batom. O gesto era absurdamente cotidiano diante da culpa.
— Depois que Raul entrou no elevador, Daniel tentou correr atrás. Eu segurei a porta do apartamento. André me ajudou. Outros também. Daniel gritava o nome dele. Batia na madeira. Eu ouvia. Eu ainda ouço. Quando finalmente abrimos, o corredor estava vazio. O elevador tinha ido embora. Daniel nunca mais foi o mesmo. Nenhum de nós foi.
Tomás sentou-se diante dela.
— E César?
O rosto de Lúcia endureceu de outro modo.
— César era fraco.
— Isso não responde.
— Responde quase tudo. César queria ser artista, queria ser desejado, queria ser admitido em salas onde não pertencia. Descobriu que, com uma câmera, as pessoas tinham medo dele. Então confundiu medo com importância.
— E você deixou ele fotografar.
Lúcia assentiu.
— Essa foi minha primeira culpa.
Dante olhou para ela.
— Por quê?
Ela demorou.
— Porque eu pedi.
Tomás franziu a testa.
— Você pediu para César fotografar as festas?
— Pedi.
— Mesmo sabendo o risco?
— No começo, não era chantagem. No começo, parecia memória.
A voz dela mudou. Ficou mais baixa, mais distante.
— Vocês precisam entender uma coisa. Hoje todo mundo fotografa tudo. Comida, rua, rosto, beijo, cama, viagem, solidão. Naquela época, certos corpos não deixavam prova. Certos amores só existiam enquanto estavam acontecendo. Depois sumiam. Ninguém guardava. Ninguém escrevia. Ninguém dizia: isso também foi vida.
Tomás sentiu a frase tocar algo dentro dele.
Lúcia continuou:
— Eu olhava aqueles homens dançando, Raul rindo, Daniel tentando não olhar para ele, André inventando nome novo toda noite, Helena cantando baixinho na cozinha... e pensava: se ninguém guardar, vão dizer que nunca existimos.
— Helena? — Tomás perguntou.
Lúcia ficou imóvel.
Aquele nome havia escapado.
Dante percebeu também.
— Quem era Helena?
Lúcia olhou para a janela. A manhã lá fora parecia clara demais para certas confissões.
— A mulher que eu amei.
Tomás não falou.
Dante também não.
Lúcia sorriu sem alegria.
— Surpresos?
— Não — Tomás respondeu. — Só esperando você continuar.
Ela pareceu agradecer com os olhos.
— Helena trabalhava numa boate perto da República. Cantava quando deixavam, servia mesa quando precisava. Tinha voz rouca, cabelo enorme, uma risada que fazia todo homem vaidoso se sentir dispensável. Ela ia às festas porque Raul gostava dela. Eu ia porque gostava dela mais do que deveria.
A sala ficou mais silenciosa.
— César nos fotografou uma vez — Lúcia disse. — Eu e Helena na cozinha. Não era nada demais para quem não sabia ver. Duas mulheres perto demais, uma mão encostada na cintura, uma boca quase no ouvido. Mas Sérgio sabia ver. Sérgio sempre sabia onde doía.
Tomás entendeu.
— Ele te chantageou.
— Disse que mandaria a foto para a família dela. Helena estava noiva de um homem que a família tinha escolhido. Ela ia fugir. Comigo, talvez. Ou sem mim. A gente falava como se fosse possível.
Lúcia riu baixo, com tristeza.
— Naquela noite, Sérgio me mostrou a foto. Disse que, se eu não ajudasse, Helena pagaria primeiro. Depois eu. Depois todos.
— Ajudar como?
— Abrindo a porta quando ele batesse. Depois, fechando quando ele mandasse.
Dante voltou para perto da mesa.
— E Daniel?
— Daniel foi o preço que eu disse a mim mesma que precisava pagar para todos os outros sobreviverem.
— Inclusive Helena.
Lúcia assentiu.
— Inclusive Helena.
— Ela sobreviveu?
Lúcia não respondeu de imediato.
E isso já era resposta.
— Sumiu de São Paulo dois meses depois — disse. — Ou foi levada. Ou fugiu sem mim. Ou morreu com outro nome. O Copan não me devolveu essa parte.
Dante fechou os olhos.
Por alguns segundos, ninguém falou.
A culpa de Lúcia deixara de ser simples. E talvez por isso doesse mais. Não havia vilã. Havia uma mulher jovem, assustada, apaixonada, encurralada por homens que entendiam o valor de um segredo. Havia uma porta fechada para salvar alguém que, no fim, talvez não tivesse sido salva. Havia uma vida inteira tentando transformar covardia em sacrifício, sacrifício em memória, memória em aviso.
Tomás olhou para a câmera de César.
— Por que ela apareceu agora?
Lúcia limpou o rosto.
— Porque vocês encontraram o 1313.
— Sérgio disse que a câmera mostra quem abriu.
— Mostra mais que isso.
Dante perguntou:
— O quê?
Lúcia tocou na câmera, mas retirou a mão rápido, como se o objeto estivesse quente.
— César fotografou a casa de máquinas na noite em que desapareceu.
Tomás sentiu a chave do quarto e o botão com a letra S pesarem no bolso.
— E o filme ainda está aí?
— Se o prédio quis devolver a câmera, é porque quer que vocês vejam alguma coisa.
— Ou quer nos levar para baixo — Dante disse.
Lúcia olhou para ele.
— Também.
Dante balançou a cabeça.
— Não.
Tomás virou-se.
— Dante.
— Não vamos descer porque um prédio assombrado deixou uma pista conveniente em cima da mesa.
Lúcia riu baixinho.
— Você tem mesmo o sangue de Daniel. Acha que se recusar a entrar numa porta impede a porta de aparecer dentro de você.
Dante encarou-a.
— A senhora não tem direito de falar dele.
— Não. Não tenho. Mas talvez seja por isso que eu precise.
A câmera disparou sozinha.
O flash tomou a sala.
Desta vez, Tomás não fechou os olhos a tempo. A luz entrou nele branca, violenta, e por um segundo viu a sala do 1307 como se as décadas estivessem sobrepostas: o sofá atual e as almofadas de 1979; a mesa de agora e os copos antigos; Dante ao seu lado e Daniel atrás dele; Lúcia idosa sentada, Lúcia jovem em pé, ambas chorando sem som.
Quando a luz cessou, uma nova fotografia saiu pela parte inferior da câmera.
Impossível, porque aquela câmera não era instantânea.
Mas nada ali pedia permissão à técnica.
A imagem se revelou devagar.
Primeiro, sombras.
Depois, concreto.
Depois, cabos grossos descendo do teto.
Uma sala de máquinas.
No centro, uma porta metálica.
Sobre ela, uma placa:
S.
E diante da porta, escrita com a letra de Raul:
Quem fechou por fora precisa abrir por dentro.
Lúcia empalideceu.
Dante pegou a foto.
— Não.
— Sim — Lúcia disse.
— A senhora não vai.
— Vou.
— Isso não é redenção.
— Eu sei. Redenção é palavra grande demais para gente pequena como eu.
— Então por quê?
Ela levantou-se.
Pela primeira vez, pareceu não apenas velha, mas firme.
— Porque Daniel gritou meu nome naquela noite. Antes de gritar Raul pela última vez. E eu fingi que não ouvi.
Ninguém respondeu.
Lúcia foi até a porta.
— Agora eu vou ouvir.
Desceram às duas e cinquenta e sete da manhã.
O Copan dormia de um jeito inquieto. O corredor do décimo terceiro andar estava vazio, mas não calmo. As lâmpadas pareciam cansadas. As portas fechadas guardavam respirações, televisões baixas, sonhos, brigas, febres, amantes, insônias. Um prédio nunca dorme inteiro, Tomás pensou. Sempre há alguém acordado em algum lugar, e talvez seja isso que mantém os fantasmas alimentados.
Lúcia usava um casaco escuro sobre o vestido e sapatos baixos. O batom, reaplicado, era quase uma armadura. Dante levava a câmera de César. Tomás carregava o botão antigo com a letra S, a chave do 1307 e a fotografia da porta metálica.
Quando chegaram ao elevador de serviço, a porta já estava aberta.
A cabine esperava.
Pequena.
Metálica.
Com o espelho manchado ao fundo.
Tomás sentiu o corpo recusar.
Lembrou-se de Raul no reflexo. Da festa. Da mão de Dante segurando a sua. Do beijo no escuro. Do aviso: não aceite dançar com o homem atrás de você.
Lúcia olhou para a cabine como quem reencontra um animal que a mordeu na juventude.
— Ele era menor — disse.
— O elevador? — Tomás perguntou.
— O medo.
Dante entrou primeiro, como sempre fazia quando queria parecer mais seguro do que estava. Tomás entrou depois. Lúcia por último.
As portas se fecharam.
O painel tinha os números normais apagados. Apenas um espaço vazio brilhava no lugar onde o botão S deveria estar.
Tomás tirou o botão do bolso.
— Acho que é aqui.
Dante segurou seu pulso.
— Espera.
— O quê?
Dante olhou para Lúcia.
— Se a senhora souber de mais alguma coisa que possa nos matar, seria elegante contar agora.
Lúcia sorriu sem humor.
— Meu filho, se eu soubesse tudo que podia matar vocês, eu teria aberto uma funerária, não uma caixa de lembranças.
Tomás encaixou o botão.
Ele entrou com um clique perfeito.
A luz da cabine apagou.
O S acendeu em vermelho.
O elevador desceu.
Não como antes.
Antes, havia queda, falha, vertigem. Agora era diferente. Lento demais. Profundo demais. Como se a cabine não atravessasse apenas andares, mas camadas de tempo. O som dos cabos vinha de longe, um lamento metálico. O espelho embaçou sozinho.
— Não olhem — Dante disse.
Lúcia riu baixo.
— Agora você dá ordens como se o prédio obedecesse.
Tomás manteve os olhos no chão.
A mão de Dante encontrou a dele.
Desta vez, não houve hesitação.
Os dedos se entrelaçaram no escuro estreito da cabine, e aquele gesto simples fez Tomás respirar melhor. Havia algo profundamente erótico, embora contido, naquela mão firme segurando a sua no lugar onde o medo queria separá-los. Não era o erotismo do corpo exposto, mas o da presença. Da promessa silenciosa de não soltar. Do calor passando de uma palma para outra como uma linguagem mais antiga que qualquer confissão.
Lúcia percebeu.
— Daniel teria gostado de vocês — disse.
Dante não respondeu.
Tomás apertou a mão dele.
O elevador parou.
As portas se abriram.
O cheiro veio primeiro.
Graxa, poeira quente, ferro antigo, mofo, eletricidade, água parada. Um cheiro de lugar que não recebia visitas, apenas manutenção e medo.
Do lado de fora havia um corredor estreito de concreto bruto. Lâmpadas fracas piscavam no teto. Cabos corriam pelas paredes como veias escuras. Em algum lugar, máquinas trabalhavam com um ritmo lento, pesado, quase cardíaco.
Tum.
Pausa.
Tum.
Pausa.
A casa de máquinas respirava de outro jeito.
Não como a parede do quarto. Não como um homem atrás do concreto.
Respirava como edifício.
Os três saíram.
O chão vibrava sob os pés. Tomás olhou para trás. A porta do elevador continuava aberta, mas já não mostrava a cabine. Mostrava um corredor escuro onde deveria haver metal.
— Isso é normal? — ele perguntou.
Dante olhou.
— Vou fingir que você não usou essa palavra.
Lúcia caminhou à frente.
— Não se afastem.
— A senhora já esteve aqui? — Tomás perguntou.
— Não acordada.
A resposta não ajudou.
O corredor se abriu em uma sala imensa.
Tomás não sabia se aquele espaço poderia existir dentro do Copan. Talvez não. Talvez fosse grande demais, profundo demais, antigo demais. Havia motores, polias, cabos grossos, painéis elétricos, portas metálicas, escadas que subiam para lugar nenhum e desciam para mais escuro ainda. A arquitetura parecia misturar décadas diferentes: peças modernas, engrenagens antigas, tijolos expostos, concreto bruto, placas enferrujadas.
Nas paredes, dezenas de portas.
Portas de apartamentos.
Tomás reconheceu algumas.
Mas havia outras com números impossíveis. 0. 22BS-13. Uma delas tinha apenas um nome gravado: RAUL.
Dante viu também.
— Não abre — Tomás disse.
Dante não se moveu, mas seus olhos ficaram presos à porta.
De dentro dela vinha música baixa.
A mesma da festa.
Lúcia se aproximou de outra parede. Ali havia um quadro enorme de metal, cheio de fichas penduradas. Como um arquivo antigo de condomínio. Cada ficha tinha um nome, um número, uma palavra.
Tomás leu algumas:
CÉSAR ARANHA — OLHO.
RAUL MONTENEGRO — PERMANÊNCIA.
DANIEL NOGUEIRA — MEMÓRIA.
LÚCIA — PORTA.
HELENA — CANÇÃO.
ANDRÉ — NOME.
SÉRGIO VALENÇA — FOME.
Dante puxou uma ficha.
TOMÁS AZEVEDO — ENTRADA.
O silêncio que veio depois não foi total. As máquinas continuavam batendo ao fundo. Tum. Pausa. Tum. Como um coração grande demais.
Tomás pegou a ficha da mão dele.
— Não gosto disso.
Dante procurou no quadro.
Encontrou outra.
DANTE NOGUEIRA — SANGUE.
Lúcia fechou os olhos.
— Ele está escrevendo vocês.
— Ele quem? — Tomás perguntou.
A resposta veio de trás deles.
— O prédio não escreve. O prédio arquiva.
Os três se viraram.
César Aranha estava perto de uma escada metálica, com a câmera pendurada no pescoço.
Ou o que sobrara dele.
Não parecia exatamente morto. Parecia mal revelado. O rosto existia em partes: um olho nítido, a boca borrada, a testa atravessada por manchas escuras, como fotografia queimada. As mãos tremiam. A roupa era de 1979, mas coberta de poeira recente. Ele olhava para a câmera que Dante segurava como um homem olha para o próprio coração fora do peito.
— César — Lúcia disse.
Ele sorriu com dificuldade.
— Lúcia.
A voz dele arranhava.
— Você envelheceu.
Ela respondeu:
— Você não.
— Punição adequada para um vaidoso.
Tomás deu um passo à frente.
— Foi você que tirou as fotos.
— Muitas.
— Para Sérgio.
— No começo, para mim.
— E depois?
César olhou para a sala enorme ao redor.
— Depois a câmera começou a pedir.
Dante ergueu a câmera.
— Essa?
César recuou.
— Não aponte para mim.
— Por quê?
— Porque agora ela mostra demais.
Tomás olhou para ele com raiva contida.
— Você destruiu pessoas.
César abaixou os olhos.
— Sim.
A confissão simples o desarmou por um segundo.
— Só isso?
César ergueu o rosto.
— Você queria o quê? Uma desculpa elegante? Eu poderia dar várias. Que eu tinha medo. Que Sérgio me usou. Que todos queriam ser fotografados antes de quererem esconder as fotografias. Que eu também era sozinho. Que eu queria entrar naquela beleza e só consegui ficar atrás da lente. Tudo verdade. Nada inocenta.
Lúcia olhava para ele com uma tristeza seca.
— Você entregou Helena.
César fechou os olhos.
— Eu sei.
A voz dela falhou:
— O que fizeram com ela?
Ele demorou.
— Ela fugiu.
Lúcia parou de respirar.
— Mentira.
— Fugiu — César repetiu. — Sozinha. Para Santos primeiro. Depois para o Rio. Cantou com outro nome. Morreu velha.
Lúcia levou a mão à boca.
O choro que não tinha som antes agora veio como um golpe interno. Não alto. Não dramático. Apenas uma vida inteira perdendo o direito de imaginar o pior.
— Ela viveu? — Lúcia perguntou.
César assentiu.
— Viveu.
— Feliz?
César olhou para ela com uma piedade tardia.
— Às vezes.
Lúcia fechou os olhos e chorou de verdade.
Tomás sentiu o próprio peito apertar. Havia crueldade naquele consolo. Saber que Helena vivera não devolvia nada. Mas retirava de Lúcia uma culpa que ela alimentara por décadas. Talvez os fantasmas não libertassem; talvez apenas redistribuíssem a dor.
Dante voltou ao essencial.
— Onde está Daniel?
César olhou para a porta com o nome RAUL.
— Procurando.
— Raul?
— Não. A si mesmo antes de perder Raul.
— E Sérgio?
O rosto borrado de César se contraiu.
— Sérgio está no 1313 porque vocês o acordaram. Mas parte dele nunca saiu daqui.
— Ele queria tomar o lugar do anfitrião — Tomás disse.
César riu baixo.
— Sérgio queria ser desejado sem precisar amar ninguém. Achou que isso era poder.
— E não era?
— Era fome. Fome não governa. Fome consome.
As máquinas bateram mais forte.
Tum.
Tum.
Tum.
César olhou para o alto.
— Vocês não deviam ficar.
— Precisamos saber como tirar Raul daqui — Dante disse.
— Não tiram.
Tomás respondeu:
— Então precisamos saber como impedir que Sérgio use o 1313.
— Também não impedem sem abrir o arquivo.
— Que arquivo?
César apontou para uma porta metálica ao fundo da sala. Sobre ela, a placa da fotografia:
S.
— Lá dentro estão os contratos.
— Contratos? — Tomás perguntou.
— Toda entrada tem registro. Toda saída tem preço.
Lúcia aproximou-se.
— Quem fechou por fora precisa abrir por dentro.
César olhou para ela.
— Você entendeu tarde.
— Mesmo assim, entendi.
— Vai doer.
Lúcia sorriu com uma dignidade triste.
— Já doeu. Agora talvez sirva para alguma coisa.
Foram até a porta metálica.
Dante tentou abri-la. Não conseguiu.
Tomás tirou a chave do 1307 do bolso. A chave que aparecera de madrugada. A mesma que abrira o fundo falso do armário. Encaixou na fechadura.
Não girou.
Lúcia estendeu a mão.
— Deixe.
Tomás entregou.
Ela segurou a chave por um instante, como se segurasse a própria juventude. Depois encaixou novamente.
Desta vez, girou.
A porta abriu.
Do outro lado havia um corredor curto, revestido de espelhos.
Tomás sentiu o impulso de recuar.
Dante segurou sua mão.
— Não olha muito tempo.
— Ótimo conselho para um corredor de espelhos.
César ficou do lado de fora.
— Eu não entro.
— Por quê? — Tomás perguntou.
— Porque já entrei demais.
Lúcia foi primeiro.
Os espelhos não refletiam apenas os três. Refletiam versões. Lúcia jovem segurando a maçaneta. Dante criança diante de uma mesa de família onde ninguém dizia o nome de Daniel. Tomás sozinho num quarto qualquer, iluminado pela tela do celular, esperando uma mensagem de alguém que não escreveria. Dante adulto olhando uma fotografia antiga do tio-avô e sentindo, sem admitir, que buscava a si mesmo.
Tomás tentou não olhar.
Mas os espelhos sussurravam.
Tomás.
A voz era a do elevador.
Gentil.
Escura.
Próxima.
Tomás.
Dante apertou sua mão.
— Estou aqui.
As palavras foram pequenas, mas seguraram Tomás no presente.
No fim do corredor havia uma sala circular.
As paredes eram cobertas de gavetas. Centenas. Talvez milhares. Cada uma com uma etiqueta. No centro, uma mesa de madeira antiga. Sobre ela, um livro enorme, aberto. As páginas se moviam sozinhas, viradas por um vento que não existia.
Atrás da mesa, estava o anfitrião.
Não tinha rosto fixo.
Era alto, magro, vestido com uma espécie de terno escuro que parecia feito de sombra e poeira. Às vezes parecia homem. Às vezes parecia vários. O rosto mudava como reflexo em água suja: César por um segundo, Sérgio por outro, Raul jovem, Daniel chorando, Dante de olhos fechados, Tomás dormindo. O corpo dele era feito de ausências organizadas.
Quando falou, a voz não veio de sua boca.
Veio das gavetas.
Das paredes.
Dos cabos.
Do concreto.
— Lúcia voltou.
Ela ergueu o queixo.
— Voltei.
— Quem fecha aprende.
— Quem aprende abre.
O anfitrião pareceu sorrir sem boca.
— Ainda gosta de frases, menina do batom vermelho?
Lúcia tremeu, mas não recuou.
Tomás sentiu o olhar da entidade pousar nele.
Era uma sensação física. Como uma mão fria por dentro da pele.
— Entrada — disse o anfitrião.
Dante se colocou à frente.
— Não.
A entidade virou o rosto indefinido para ele.
— Sangue.
O ar ficou pesado.
— A família Nogueira sempre chega com atraso — disse o anfitrião. — Daniel chegou tarde para Raul. Você chegará tarde para ele.
Dante endureceu.
Tomás segurou sua mão.
— Não escuta.
— Mas ele escuta — a entidade disse. — Escuta desde criança. Escuta cada silêncio que a família deixou em volta de Daniel. Escuta a vergonha herdada. Escuta a pergunta que ninguém respondeu. Escuta porque sangue é corredor. E corredor traz som.
Dante fechou os olhos.
Tomás sentiu os dedos dele tremerem.
Então uma porta se abriu na parede circular.
Atrás dela, Daniel Nogueira estava de pé.
O Daniel de 1979.
Camisa azul, rosto cansado, olhos destruídos.
— Dante — ele chamou.
Dante deu um passo.
Tomás segurou.
— Não.
Daniel olhou para Tomás.
— Deixe ele vir.
A voz era igual à de Dante e, por isso, quase insuportável.
Dante sussurrou:
— Daniel.
— Você queria me encontrar — Daniel disse. — Então venha.
Dante deu outro passo.
Tomás entrou à frente dele.
— Não assim.
Daniel olhou para ele com dor.
— Você não sabe o que é carregar uma história que nunca te contaram.
— Não sei. Mas sei quando uma história está usando sua dor como coleira.
A entidade riu.
O som veio das gavetas batendo.
Uma por uma.
Daniel mudou. Por um segundo, o rosto dele perdeu nitidez. Tomás percebeu. Aquilo não era Daniel inteiro. Era uma memória com a voz dele. Uma isca feita de verdade suficiente.
Dante também percebeu.
— O que você quer? — Dante perguntou à entidade.
— O que todos querem.
— Diga.
A entidade se aproximou da mesa.
— Continuar.
As páginas do livro pararam.
Sobre elas havia nomes.
Raul Montenegro. Daniel Nogueira. César Aranha. Sérgio Valença. Lúcia. Helena. André. Outros. Muitos outros. Ao lado de cada nome, uma palavra, um preço, uma data, uma porta.
Tomás procurou e encontrou seu próprio nome.
TOMÁS AZEVEDO — ENTRADA DISPONÍVEL.
Sentiu náusea.
Dante viu e fechou o livro com força.
A sala tremeu.
— Não toca no arquivo — a entidade disse.
A voz perdeu a gentileza.
Lúcia avançou.
— Eu abri a porta. Eu fechei a porta. O que você quer de mim?
O anfitrião virou-se para ela.
— Você já pagou.
— Não.
— Pagou com lembrança.
— Não chega.
— Nunca chega. É por isso que vocês voltam.
Lúcia olhou para a porta onde Daniel aparecera.
— Daniel.
A figura de Daniel ficou mais nítida.
— Lúcia — ele disse.
Ela chorou de novo, mas permaneceu de pé.
— Eu ouvi você gritar.
Daniel não respondeu.
— Eu ouvi e segurei a porta mesmo assim.
O rosto dele se contraiu.
— Por quê?
— Porque eu tive medo. Porque Sérgio me ameaçou. Porque eu quis salvar Helena. Porque eu quis salvar todos. Porque eu era pequena demais para aquela escolha e fiz mesmo assim. Mas a verdade é que, quando você gritou, eu sabia que estava te condenando a sobreviver.
Daniel olhou para ela com uma tristeza sem ódio.
— Eu bati até minha mão sangrar.
— Eu sei.
— Raul me chamou uma vez antes da porta do elevador fechar.
— Eu sei.
— Você me deixou ouvindo.
Lúcia quase caiu, mas Tomás segurou seu braço.
— Me perdoa — ela disse.
Daniel permaneceu em silêncio.
A entidade se inclinou, interessada, como se o perdão fosse um mecanismo raro.
Por fim, Daniel falou:
— Eu não sei se consigo.
Lúcia assentiu, despedaçada.
— Tudo bem.
— Mas eu não quero mais que você segure essa porta.
Ela fechou os olhos.
— Então eu abro.
Daniel olhou para Dante.
— E você.
Dante ergueu o rosto.
— Sim?
— Não faça da minha dor uma herança. Ela já morou tempo demais na nossa família.
Dante ficou sem fala.
Daniel olhou para Tomás.
— E você, escritor.
— Eu?
— Não transforme todos nós em tragédia bonita.
Tomás sentiu a frase como uma ordem.
— Não vou.
— Vai querer. Escritor sempre quer. Resista.
A entidade bateu a mão sobre o livro.
A sala escureceu.
— Chega.
As gavetas começaram a abrir e fechar sozinhas. Papéis voaram. Fotografias caíram no chão. Vozes surgiram de todos os lados: risos, gemidos abafados, discussões, portas batendo, nomes falsos, orações, ameaças, declarações de amor ditas baixo demais.
Tomás sentiu algo puxá-lo para trás.
Não era mão.
Era falta.
Uma falta enorme, moldada exatamente no formato de seus desejos mais íntimos. A vontade de ser visto. A vontade de ser escolhido. A vontade de ser desejado sem pressa, sem abandono, sem o depois frio das mensagens não respondidas. A entidade não oferecia horror. Oferecia permanência.
— Fique — disse ela. — Eu guardo o que os outros gastam.
Tomás sentiu a sala girar.
Dante o chamou:
— Tomás!
Mas a voz dele parecia longe.
A entidade se aproximou.
— Aqui, nenhum desejo envelhece. Nenhum amor vira rotina. Nenhum corpo perde a fome. Você sabe escrever sobre fantasmas porque sempre quis ser inesquecível para alguém.
Tomás fechou os olhos.
A frase era cruel porque tocava verdade.
Dante segurou seu rosto com as duas mãos.
— Olha para mim.
Tomás abriu os olhos.
Dante estava ali.
Não perfeito. Não eterno. Não jovem para sempre. Apenas vivo. Assustado. Quente. Com olhos escuros cheios de medo e escolha.
— Ele está mentindo — Dante disse.
— Não totalmente.
— Eu sei.
Essa resposta, mais do que qualquer negação, salvou Tomás por um instante.
Dante aproximou a testa da dele.
— Eu não posso prometer permanência. Nem final bonito. Nem que eu não vou ter medo. Mas eu estou aqui agora. Com você. E isso é nosso, não dele.
Tomás respirou.
O agora.
Era menor que a eternidade.
Mas era real.
Tomás segurou a camisa de Dante, puxou-o para perto e o beijou.
Não foi um beijo de fuga. Foi âncora.
A boca de Dante respondeu com urgência, mas também com cuidado. O calor dele atravessou a sombra. As mãos firmes em seu rosto, os dedos na pele, o peito próximo, a respiração dividida: tudo devolveu Tomás ao próprio corpo. Não havia vulgaridade naquele gesto. Havia vida. Vida comum, limitada, mortal, preciosa justamente porque podia acabar.
A entidade recuou.
— Desejo também me pertence — ela disse.
Tomás afastou-se de Dante, ainda ofegante.
— Não quando escolhe voltar.
Dante virou-se para a mesa e pegou a câmera de César.
César aparecera na porta da sala circular, pálido.
— Não fotografe sem saber o preço.
— Qual é?
— A câmera mostra o que quer ser escondido. Mas também prende um pedaço de quem vê.
Dante olhou para Tomás.
Tomás assentiu.
Lúcia ficou diante da porta de Daniel.
— Eu abro — ela disse.
A porta atrás de Daniel se escancarou.
De dentro veio música. A festa. Raul rindo. O elevador. O grito de Daniel. Tudo ao mesmo tempo.
A entidade avançou.
Dante ergueu a câmera.
— Agora.
O flash explodiu.
A luz foi branca, absoluta, viva como relâmpago dentro do concreto.
O anfitrião gritou.
Mas não com uma voz. Com muitas.
Vozes de homens esquecidos, mulheres apagadas, amantes interrompidos, moradores solitários, velhos sem visita, jovens sem nome, corpos que passaram pelo Copan e deixaram no prédio aquilo que não puderam levar.
Por um segundo, Tomás viu a entidade de verdade.
Não era demônio.
Não era homem.
Era acúmulo.
Uma fome nascida de tudo que fora escondido por tempo demais.
Segredos sedimentados até criarem vontade própria.
O flash abriu um buraco de luz no peito da sombra.
De dentro dele, caiu uma gaveta.
Pequena.
Metálica.
Com a etiqueta:
SÉRGIO VALENÇA — CONTRATO.
Dante pegou.
A entidade tentou avançar, mas Lúcia entrou no caminho. Pequena, velha, de batom vermelho, tremendo inteira, mas de pé.
— Não.
O anfitrião parou.
— Porta — disse.
Lúcia respondeu:
— Hoje, não.
Daniel apareceu atrás dela. Não a tocou. Mas ficou.
A sala começou a desabar sem cair. As paredes esticavam, as gavetas batiam, os espelhos rachavam. César gritou da entrada:
— Saiam!
Dante segurou a gaveta de metal. Tomás segurou Dante. Lúcia segurou a chave. Correram pelo corredor de espelhos enquanto as versões refletidas deles se quebravam uma a uma.
No último espelho, Tomás viu Sérgio.
Não no 1313.
Ali.
Preso atrás do vidro.
Belo, pálido, furioso.
— Isso não é de vocês — ele disse.
Dante ergueu a gaveta.
— Então venha buscar.
Tomás puxou Dante antes que Sérgio sorrisse.
Correram pela sala de máquinas.
As portas de apartamentos batiam nas paredes. A porta RAUL abriu por um segundo. Tomás viu dentro dela uma janela, uma cama, uma camisa branca no chão, e Raul sentado no parapeito, fumando, olhando para ele.
— Tomás! — Raul chamou.
Tomás parou.
Dante puxou sua mão.
— Não.
Raul sorriu, triste.
— Você viu a festa. Agora veja o depois.
A porta começou a fechar.
Antes que desaparecesse, Raul disse:
— Eu não fui o primeiro.
A porta bateu.
O elevador de serviço estava aberto à frente.
Entraram quase caindo. Lúcia primeiro, depois Tomás, depois Dante. César ficou do lado de fora, segurando a própria câmera contra o peito, embora a câmera estivesse com eles. Ou talvez agora houvesse duas. Ou talvez fantasmas sempre guardassem versões dos objetos que os condenaram.
— César! — Lúcia gritou.
Ele olhou para ela.
— Diga a Helena que eu sinto muito.
Lúcia chorou.
— Eu não vou vê-la.
César sorriu com sua boca borrada.
— Aqui embaixo, ninguém sabe o que ainda vai abrir.
As portas se fecharam.
O elevador subiu.
Desta vez, nenhum reflexo apareceu.
Nenhuma música.
Nenhuma voz.
Apenas os três respirando como sobreviventes que ainda não tinham certeza de que haviam sobrevivido.
Dante segurava a gaveta contra o peito. Tomás segurava a mão dele. Lúcia estava encostada à parede da cabine, olhos fechados, rosto molhado, batom vermelho intacto como uma última teimosia.
O elevador parou no décimo terceiro.
Quando as portas abriram, o corredor de 2026 parecia absurdamente comum.
Luz amarela.
Tapetes.
Portas fechadas.
Cheiro de comida requentada em algum apartamento.
Voltaram ao 1307.
Só então Dante colocou a gaveta sobre a mesa.
Ninguém quis abrir de imediato.
Tomás foi até a cozinha, pegou água, bebeu. A mão tremia. Dante percebeu e veio até ele.
— Você está bem?
Tomás riu baixo.
— Essa pergunta precisa ser aposentada.
Dante tocou seu rosto.
— Tomás.
O nome, de novo.
Sempre o nome.
Tomás fechou os olhos por um instante e encostou a testa no ombro dele. Dante o recebeu com os braços, sem urgência, sem pergunta. O abraço foi mais íntimo que muitos beijos. Tomás sentiu o cheiro da camisa dele, o calor do corpo, a mão subindo por suas costas. Permitiu-se ficar ali. Não como alguém salvo. Como alguém acompanhado.
Lúcia observava da sala.
— Vocês dois vão me matar de tanto adiar o óbvio.
Tomás riu contra o ombro de Dante.
Dante também, embora baixo.
A leveza durou pouco.
A gaveta metálica abriu sozinha.
Dentro havia um único papel.
Um contrato.
A folha era antiga, mas a tinta parecia fresca. No alto, o nome de Sérgio Valença. Abaixo, cláusulas escritas em uma linguagem que mudava conforme Tomás tentava ler. Jurídica. Bíblica. Poética. Predatória.
Dante leu em voz alta apenas as partes que se deixavam fixar.
— “Ao ocupante do 1313 será permitido intermediar entradas, desde que alimente o edifício com desejo não vivido, nome não dito e porta não aberta.”
Tomás sentiu frio.
Dante continuou:
— “A permanência de Raul Montenegro substitui temporariamente a cobrança sobre Daniel Nogueira.”
Lúcia levou a mão à boca.
— Raul se ofereceu mesmo.
Dante virou a página.
— “O intermediário Sérgio Valença não poderá deixar a estrutura enquanto não for desejado voluntariamente por aquele nomeado Entrada.”
Tomás ficou imóvel.
Dante parou de ler.
Lúcia olhou para Tomás.
— Não.
Dante pegou a folha com força.
— Ele precisa que Tomás o deseje.
Tomás lembrou-se do toque frio de Sérgio no rosto, da voz baixa, da beleza calculada, da forma como ele sabia falar exatamente com a falta.
Sentiu nojo.
Mas também medo.
Não de desejar Sérgio como homem. Disso não. O medo era mais sutil: desejar a resposta que ele oferecia. Desejar a compreensão. Desejar a porta. Desejar o que ele prometia saber sobre todas as feridas ainda abertas.
Dante percebeu.
— Ele não vai ter você.
Tomás olhou para ele.
— Não fala como se eu fosse uma coisa que se toma.
Dante absorveu a correção.
Abaixou a voz.
— Ele não vai ter a sua escolha.
Tomás assentiu.
Melhor.
A gaveta tremeu.
A última linha do contrato apareceu sozinha.
Quando a Entrada recusar a Fome, a Fome buscará o Sangue.
Dante empalideceu.
No mesmo instante, a porta do 1305, no corredor, bateu com força.
Uma vez.
Depois outra.
Depois outra.
Dante virou-se.
Tomás segurou sua mão.
— Não.
Do corredor, veio a voz de Daniel.
Mas não a memória doce da casa de máquinas.
Uma voz ferida.
Desesperada.
— Dante! Abre!
Dante fechou os olhos.
A porta do 1305 bateu novamente.
— Dante, por favor!
Lúcia sussurrou:
— Não é Daniel.
A voz veio outra vez.
Agora misturada com a de Raul.
— Meu amor, abre.
O rosto de Dante se quebrou.
Tomás segurou-o pelos dois braços.
— Olha para mim.
Dante abriu os olhos.
— Ele vai usar todos.
— Então fica comigo.
A porta do 1305 estalou como madeira antiga.
Do quarto do 1307, a parede começou a respirar.
No contrato, mais uma frase surgiu, lenta e escura:
Toda casa de máquinas precisa de um coração.
E, pela primeira vez desde que Tomás chegara ao Copan, todas as luzes do apartamento se apagaram ao mesmo tempo.