Capítulo IV
— Quem é você? Onde é que eu estou? Cadê ela…
Fui cortado pela voz dura de Epona:
— Cala a boca, Potro! Fico feliz que acordou, mas cala essa porra de boca! Já passou da hora que eu podia te soltar. Vai passar a noite aí mesmo. Tem água e feno fresco. É melhor dormir em silêncio.
O sotaque dela era carregado, o português escorregando o tempo todo para o espanhol. Mesmo assim, o tom não deixava espaço para dúvida. Eu estava sedento. Quando me aproximei do pote e estendi as mãos, ela falou sem nem me ver:
— Potro não usa mãos. Se eu te pegar usando as pernas como braços sem permissão, você vai se arrepender amargamente.
Congelei, pote já nas mãos.
— Bota isso no chão. De quatro. Bebe com a língua. Agora. Quero ouvir você lambendo como um cachorro.
Hesitei por um segundo. A humilhação queimou meu rosto. Mesmo assim, obedeci. Ajoelhei, curvei o corpo e comecei a lamber a água. Era difícil, lento, humilhante. Parte da água escorria pelo meu queixo e pescoço. Eu me sentia ridículo. Patético. Meu pau, no entanto, ficou duro o que aumentou ainda mais o desconforto da palha encostando e riscando a cabeça.
Epona riu do outro lado da porta.
— Bem que a Ártemis disse que você aprende rápido. Toma sua água e dorme, potro. Amanhã cedo começa sua primeira aula de verdade.
Ela se afastou enquanto eu ainda lambia o pote. Usar só a boca e a língua para beber é degradante. A gente só percebe o quanto os braços nos tornam poderosos quando nos tiram deles. Cada movimento que antes era simples vira esforço e vergonha.
(Caligrafia diferente, talvez de Epona, talvez de Ártemis)
“Cada membro a mais que a presa possui é uma ilusão de potência. O que deveria ser liberdade se converte em prisão e ansiedade. Muitos caminhos, muitas escolhas, muitos dramas pequenos. As presas sofrem porque ainda acreditam que são donas de si. Se passassem dez vezes mais tempo tentando beber água apenas com a boca, talvez entendessem o que é estar vivo de verdade.”
Usei a palha para secar o rosto e me deitei de barriga para cima. Comecei a tirar os resquícios de palha do pênis. Fazia dias que eu não gozava. Qualquer toque já deixava a ereção latejando. Congelei. Lembrei da ordem dela. Parei imediatamente. Por maior que fosse o desejo, tudo ali parecia organizado, quase ritualístico. O sono veio logo depois— Acorda, Potro! Já amanheceu!
Levantei bruscamente e quase bati a cabeça no teto baixo.
— Vamos, Potro, acorda logo!
Meu pau estava duro, mas não de tesão — era vontade de mijar, quase insuportável.
— Bom dia, Epona! Levantei já.
— Que bom que está desperto. Vou abrir a porta. Você vai sair devagar, entendeu?
— Certo.
— Olha lá, hein. Se tentar se levantar, os cachorros vão avançar.
A pressão na bexiga aumentava a cada segundo.
— Precisamos fazer as coisas com padrão, Potro. Esse é o único jeito de você virar Cavalo.
— Certo!
Epona riu baixinho.
— O que foi que disse, potrinho?
— Certo!!!
— Está falando em cima das minhas falas agora? Quem você pensa que é?
A dor estava ficando insuportável.
Epona soletrou devagar:
— P-e-ç-a d-e-s-c-u-l-p-a-s. Agora.
— Desculpa, Epona…
— Devagar. De novo.
— Des-cul-pa…
— Tá perdoado. Agora pega o pote de água com a boca e sai. E olha: se você se mijar, vai dormir no seu próprio mijo por três dias. É a regra.
Comecei a suar frio. Tentei ser rápido, mas era impossível. Quando peguei o pote com a boca, o jato quente escapou. Urina espirrou pela palha, molhando minhas pernas e o chão. O cheiro subiu forte, ácido. Eu tremia de vergonha.
Epona abriu a porta. Seu silêncio foi pior que qualquer grito.