A máquina um não perdoa. Olhar-me no espelho às cinco da manhã, com o cabeça totalmente raspada, foi como ver um desconhecido. Meus traços pareciam ainda mais expostos, desprotegidos.
Quando passei pelo portão do quartel daquela vez, já não era mais o Michel civil; eu era o Recruta 114. Fomos escoltados direto para o alojamento principal, um galpão imenso com cheiro de naftalina, desinfetante barato e ferro. Fileiras duplas de beliches de ferro se estendiam até sumir de vista, com armários metálicos estreitos ao lado de cada uma. Em cima do colchão de lona de cada beliche, estava o nosso fardamento: a calça camuflada pesada, a gandola, o cinto de lona com fivela de latão, meias verdes grossas e os coturnos rígidos, que mais pareciam blocos de concreto.
O Sargento Rocha entrou no alojamento como um furacão, batendo a porta de ferro com força.
— Atenção, bando de paisanos! — o rugido dele fez o teto de zinco vibrar. — Os senhores têm exatamente três minutos para estarem fardados, com o coturno amarrado e em forma no pátio principal! Três minutos! O tempo já está correndo! Mexam-se, suas tartarugas!
O caos se instalou. 150 homens começaram a arrancar suas roupas civis ao mesmo tempo, trombando uns nos outros, xingando em sussurros. Eu senti um nó na garganta. Ficar nu ou de cueca no exame médico já tinha sido horrível, mas ali, no meio daquela correria de corpos, a vergonha me paralisou por alguns segundos. Tentei me enfiar no canto entre o armário e o beliche para me trocar.
Pelo canto do olho, vi Gustavo tirar a camiseta de um jeito espalhafatoso, exibindo o peito largo. Ele me olhou e soltou uma risada rasteira.
— Olha lá, a moça tá com vergonha de se trocar perto de homem — Gustavo zombou alto, enquanto vestia a calça camuflada com uma agilidade impressionante. — Anda logo, ô boneca, se o sargento te pegar atrasado a gente vai pagar junto!
O pânico acelerou minhas mãos, e esse foi meu erro. Minhas mãos começaram a tremer. A calça camuflada era dura, o tecido novo e áspero resistia aos meus movimentos. Quando tentei passar o cinto pelos passadores, errei a ordem. Para piorar, o cadarço do coturno parecia um enigma. Eu tentava passar o cordão pelos ilhoses metálicos, mas meus dedos suados escorregavam.
— Um minuto! — berrou Rocha na porta, cronômetro na mão.
Os outros recrutas já fechavam os botões das gandolas e corriam em direção à saída, atropelando-se. Gustavo passou por mim, já completamente fardado, dando um tapa pesado no meu armário que fez o metal ecoar.
— Se fodeu, Michelzinho — sussurrou, correndo para a porta.
— Tempo esgotado! Fora! Todo mundo para o pátio! Em forma! — o sargento gritava, empurrando os últimos que saíam.
Eu ainda estava sentado na borda do beliche inferior, com um coturno calçado e desamarrado e o outro na mão. A gandola estava aberta, revelando minha camiseta cinza por baixo. O alojamento, antes barulhento, afundou num silêncio sepulcral. Só restavam os meus batimentos cardíacos acelerados e os passos pesados do Sargento Rocha caminhando na minha direção.
Cada pisada do coturno dele no chão de cimento batido parecia o anúncio de uma execução. Ele parou bem na minha frente. Senti a sombra dele me cobrir. Não tive coragem de olhar para cima.
— Recruta 114 — a voz dele não era mais um grito; era um tom baixo, mais assustador. — Olhe para mim quando eu estiver falando com você.
Levantei o rosto devagar. O maxilar do sargento estava trincado, os olhos semicerrados de puro desdém.
— Sim, senhor... — gaguejei.
— Você acha que isso aqui é a casa da sua mãe, Recruta? Você acha que o Exército Brasileiro vai esperar a senhorita terminar de se maquiar e se vestir com calma para podermos defender o país?
— Não, senhor. Eu me enrolei com o coturno...
— Cale a boca! Eu não pedi uma explicação! — ele explodiu, a centímetros do meu rosto, me fazendo piscar com o jorro de voz. — Olhe para você. É um farrapo. É um inútil. Me diga,Por que diabos você escolheu servir? Por que não inventou uma doença, um atestado, qualquer palhaçada de civil frouxo para ficar em casa pintando as unhas? Você é um lixo de recruta que não consegue vestir a porra de uma calça e amarrar uma bota em três minutos! É um peso morto!
As palavras dele cortavam como navalha. A humilhação de ser chamado de inútil, de ouvir aquela voz me reduzindo a nada, fez meus olhos arderem. Eu apertei os dentes com tanta força que meu maxilar doeu, lutando com todas as minhas forças para não deixar nenhuma lágrima escapar. Se eu chorasse ali, minha vida estaria oficialmente terminada.
— Eu quero ouvir, Recruta! Por que você está aqui se é incapaz de cumprir uma ordem simples? — ele pressionou, a voz carregada de nojo.
— Eu vim... cumprir meu dever, senhor — respondi, a voz firme apesar do tremor interno.
Rocha deu uma risada amarga, deu um passo para trás e cruzou os braços.
— Seu dever? Você vai ser o dever dos seus companheiros, que vão ter que carregar suas costas porque você é lerdo. Você tem exatamente sessenta segundos para terminar de colocar essa farda. Se quando eu chegar no pátio você não estiver na última fileira, você vai passar a noite limpando as privadas deste batalhão com uma escova de dentes. Mexa-se, porra!
Ele deu meia-volta e saiu pisando firme. No segundo em que ele cruzou a porta, desabei em cima do coturno. Amarrei os cordões com uma fúria cega, fechei os botões da gandola de qualquer jeito e saí correndo pelo corredor de cimento, ajeitando o gorro na cabeça enquanto engolia o choro e a raiva.
Quando cheguei ao pátio de asfalto, o sol da manhã começava a esquentar. O contingente estava dividido em três pelotões. Corri o mais discretamente que pude e me enfiei na última fileira do pelotão da extremidade esquerda. Assim que me posicionei, olhando para a nuca do recruta à minha frente, percebi onde estava.
Duas fileiras à frente, a silhueta imponente e abusada de Gustavo era inconfundível. Ao lado dele, seus amigos riam baixinho de alguma coisa. Eu tinha caído exatamente no mesmo pelotão que ele.
O oficial à frente do nosso pelotão deu um passo à frente. Ele era diferente do Sargento Rocha; ostentava as insígnias de Tenente. Era um homem de meia-idade, com uma postura impecável, olhar severo, mas uma calma calculada. Seu nome era Tenente Brito.
— Pelotão! Sentido! — comandou Brito. O estalo dos calcanhares batendo juntos ecoou pelo pátio. — A partir de hoje, os senhores são o Terceiro Pelotão da Primeira Companhia de Fuzileiros. Mas aqui dentro, nós respondemos por outro nome. Nós somos os Cães de Caça.
O Tenente caminhou lentamente pelas fileiras, inspecionando o fardamento de cada um.
— Os Cães de Caça não recuam, os Cães de Caça não cansam e os Cães de Caça caçam em matilha. Se um falhar, todos falham. Hoje, começaremos pelo básico do básico: ordem unida. Vamos aprender a marchar como soldados, e não como um bando de ganso bêbado.
O sargento auxiliar começou a ditar o ritmo. “Esquerda... Esquerda... Direita, Esquerda...”
A marcha militar parece simples assistindo de fora, mas o sincronismo exige uma coordenação absurda. O braço oposto à perna tem que subir até a altura do peito, a palma da mão estendida, o calcanhar batendo firme no chão ao mesmo tempo. No começo, o pelotão parecia um desastre. Recrutas pisavam nos calcanhares dos outros, erravam o pé, braços batiam de forma desordenada.
Gustavo, que tanto contava vantagem, estava todo travado. Ele marchava com os ombros duros, parecendo um robô sem óleo, errando constantemente o comando de "Esquerda" e quase caindo quando tentava corrigir o passo.
Eu, por outro lado, descobri um ritmo em mim que nem sabia que existia. Talvez pela urgência de não chamar atenção negativa de novo, talvez pelos anos focado em manter uma postura rígida na rua para me defender, eu comecei a me concentrar no som do bumbo invisível do comando. Esquerda, direita, esquerda. Meus braços subiam no ângulo exato. Meu corpo encontrou o balanço perfeito entre a rigidez militar e a fluidez do movimento. Eu não errei um único passo.
O Tenente Brito caminhava ao lado do pelotão em movimento, observando com os braços para trás. De repente, ele ergueu a mão.
— Pelotão... Alto!
Todos pararam, a maioria de forma desajeitada.
— Recruta 114, dê três passos à frente — a voz do Tenente Brito ecoou.
Meu coração congelou. Pensei que de alguma forma eu tinha errado e seria punido novamente. Dei os três passos, saindo da formação, sentindo todos os olhares cravados nas minhas costas.
Brito caminhou até mim, parando ao meu lado. Ele olhou para o pelotão e depois para mim.
— Olhem para o Recruta 114 — disse o Tenente, a voz alta e clara. — Os senhores estão há duas horas tentando entender o que é sincronia e parecem um bando de ciclistas sem corrente. O 114 compreendeu o espírito da ordem unida. Postura ereta, braço estendido na altura correta, batida firme. Ele marchará à frente do pelotão no próximo bloco para servir de balizamento para os senhores. Muito bem, Recruta. Voltar para a forma.
— Sim, senhor! — respondi, e juro que por um segundo a sensação de humilhação da manhã diminuiu um pouco.
Quando voltei para o meu lugar, passei por Gustavo. O rosto dele estava vermelho de raiva. O "casca-grossa" do bairro tinha acabado de ser passado para trás pela "mocinha" que ele tanto humilhava. Ele soltou um estalo de língua audível quando passei por ele, os olhos injetados de puro ódio.
Após o almoço — um bandejão de arroz, feijão e uma carne dura que engoli sem sentir o gosto —, tivemos trinta minutos de manutenção antes de voltarmos para a instrução de armamento. Fui até o alojamento buscar um pano para limpar meu coturno, achando que o local estaria vazio.
Errei.
Assim que passei pela porta de ferro, vi que Gustavo estava lá no fundo, perto do beliche dele. Ele estava sozinho. O silêncio do alojamento deserto me deu um calafrio instantâneo. Pensei em dar meia-volta, mas seria demonstrar fraqueza demais. Entrei e caminhei até o meu armário, fingindo que ele não existia.
— Olha só quem tá aqui — a voz de Gustavo ecoou pelo galpão vazado, cheia de veneno. — O soldadinho exemplar do Tenente. A mocinha marchou bonito, né?
Eu não respondi. Abri meu armário e peguei o pano.
— Tô falando com você, ô esquisito — Gustavo disse, aproximando-se.
Eu me virei. Ele parou a poucos metros de mim. De repente, com um movimento deliberado e lento, Gustavo levou as mãos à fivela do cinto da sua calça fardada. Ele a soltou com um estalo metálico agudo que ecoou no silêncio. Depois, começou a desabotoar a gandola, tirando-a e jogando-a no beliche.
Em seguida, sem tirar os olhos dos meus, ele baixou a calça camuflada e a cueca de uma vez só, ficando completamente nu na minha frente.
A atitude dele foi tão abrupta e agressiva que eu dei um passo atrás, batendo as costas contra o meu armário de metal. Senti minhas bochechas queimarem instantaneamente. Uma vergonha avassaladora me cobriu da cabeça aos pés. Eu tentei desviar os olhos para o chão, para o lado, para qualquer lugar que não fosse o corpo dele.
Gustavo deu um passo à frente, completamente confortável com a própria nudez, usando-a como uma arma de dominação e intimidação. Ele cruzou os braços, ostentando um sorriso cruel e superior ao ver meu embaraço.
— Que foi, Michelzinho? Ficou vermelhinho por quê? — ele zombou, a voz mansa e carregada de malícia. — Você não queria ver homem de verdade? Tá assustada, é, mocinha? Olha bem. Isso aqui é corpo de soldado. Você pode até saber marchar igual uma bonequinha de desfile, mas nunca vai ser um de nós. Você não passa de um viadinho enrustido que não aguenta olhar na cara de um homem sem tremer as pernas.
A humilhação era física. Eu me sentia encurralado, violado pela audácia e pela crueldade dele. Minha respiração ficou curta. Eu queria sumir, queria que o chão se abrisse. Ele sabia exatamente onde doía. Ele usava a própria masculinidade como uma ferramenta para me esmagar, para me lembrar que, naquele mundo, eu era o intruso.
— Sabe o que eu acho? — Gustavo continuou, dando mais um passo, a nudez quase tocando o meu espaço. — Acho que você não vai durar o campo de instrução. Quando a gente estiver no meio do mato, no escuro... você vai pedir arrego. E se você der um pio sobre mim para o sargento, eu quebro a tua cara no meio, tá me ouvindo?
Eu engoli em seco, as mãos apertando o pano de limpeza até os nós dos dedos ficarem brancos. Eu estava morrendo de vergonha, o estômago revirado de nojo e humilhação, mas no fundo daquela opressão, a mesma teimosia do dia anterior faiscou. Juntei todas as minhas forças, levantei o olhar — focando estritamente nos olhos dele, recusando-me a olhar para baixo — e sustentei o contato visual.
— Eu não tenho medo de você, Gustavo — menti, com a voz trêmula, mas audível.
Ele soltou uma gargalhada alta, ecoando pelo teto de zinco, e se virou de costas para pegar uma toalha no armário, ignorando completamente a minha presença como se eu fosse um inseto insignificante.
Saí do alojamento quase correndo, o ar puro do pátio batendo no meu rosto quente. Eu tremia da cabeça aos pés. A humilhação tinha sido profunda, uma demonstração de poder primitiva e asquerosa. Mas enquanto eu caminhava em direção à próxima instrução, ajeitando a farda no meu corpo, eu percebi uma coisa: Gustavo estava incomodado. O elogio do Tenente Brito tinha atingido o ego dele. A nudez e a humilhação no alojamento eram o jeito dele de tentar recuperar o controle.
Ele achava que tinha me quebrado. Mas o que ele não sabia é que eu já tinha passado a vida inteira sobrevivendo a homens como ele. A farda pesava no meu corpo, o coturno ainda machucava meu calcanhar, e o ano seria um inferno. Mas eu ia aguentar. Eu ia fazer cada um daqueles "Cães de Caça" engolir o próprio latido.