Ele fala do sítio pela primeira vez numa quarta à noite, de passagem, como quem menciona um lugar que existe mas não precisa ser explicado. Diz que tem um terreno a uns 70 km daqui, que vai lá de vez em quando, que vai no fim de semana seguinte.
- Você vem - ele diz.
Não é pergunta.
Na sexta à tarde ele me espera na frente do meu prédio com o carro ligado. Não avisa que está chegando, manda uma mensagem só com "desce". Eu desço com a mochila que fiz às pressas depois do trabalho, ainda de roupa de escritório, e ele olha pra mim de cima a baixo antes de eu entrar.
- Isso que você trouxe é o quê?
- Mochila. Roupa pra dois dias, algumas coisas
- Parece que você vai pra escola. - Ele sai com o carro sem esperar resposta.
Saímos da cidade pelo trânsito de sexta. Ele fica em silêncio a maior parte do trajeto, às vezes atende ligação, a voz tomando o carro como sempre toma. Eu olho pela janela, vejo a cidade dando lugar a rodovia, a rodovia dando lugar a mata fechada, e fico pensando no que será aquele fim de semana, longe de tudo, só nós dois.
Os últimos quinze minutos são numa estrada de terra. Quando chegamos já está quase escurecendo.
O sítio não é o que eu esperava. Não é grande, não tem nenhum daqueles equipamentos que aparecem em foto de casa de campo. É uma construção simples de alvenaria, bem conservada, cercada de mata que aperta dos três lados. Silêncio de verdade - sem carro, sem vizinho, sem nenhum barulho de fundo.
Henrique entra na casa como entra em qualquer lugar que é dele. Abre as janelas, liga o ventilador de teto, abre a geladeira, avalia o que tem. Eu fico na entrada com a mochila no ombro.
- Fecha a porta - ele diz, de dentro.
Eu fecho.
- Tem coisa na geladeira que eu trouxe na última vez. Faz alguma coisa pra janta.
Eu olho pra cozinha, que é pequena, com os armários de madeira escura e o fogão de quatro bocas. Não pergunto o que ele quer. Abro a geladeira, avalio o que tem, e começo a fazer o que consigo com o que tem.
Enquanto eu cozinho ele está em algum lugar da casa, ouço os passos no assoalho, uma torneira, o barulho da televisão sendo ligada. Não aparece na cozinha uma vez sequer.
Quando a comida fica pronta eu coloco na mesa e vou chamá-lo. Ele vem, senta, avalia o pratô com uma expressão neutra, come sem comentar.
- Melhor você não comer, não quero que você me suje, porque hoje tô com muito tesão então se prepara pra noite toda.
No fim, ele empurra o prato e diz:
- Amanhã capricha mais.
Levanta da mesa e vai pra sala.
Eu fico com os pratos sujos na minha frente por um momento. Depois começo a lavar.
Quando termino ele me chama e manda que eu ajoelhe e fique mamando ele enquanto assiste um programa de esportes na tv. Como sempre, engulo seu pau inteiro como ele gosta, as mãos sempre ocupadas massageando as bolas dele ao mesmo tempo. Em alguns momentos ele segura minha cabeça e mete com mais força, me fazendo engasgar. Quando isso acontece ele tira minha cabeça do pau dele e me dá um tapa bem forte no rosto. Eu caio no chão e fico sem entender o que aconteceu.
- Isso é pra você aprender a mamar direito o seu homem. Viado meu não engasga, tem que engolir minha rola inteira sempre e sem reclamar.
Pedi desculpa e voltei a mamar, com mais cuidado agora, tentando não engasgar. Depois de um tempo, me mandou ficar de 4 no chão mesmo, cuspiu na entradinha e foi forçando sua rola enorme pra dentro, mesmo estando acostumado a aguentar Henrique quase todos os dias, sempre doía muito quando ele me penetrava e ele parecia gostar muito dessa dor que me causava.
Mas dessa vez foi diferente, no sítio ele parecia outra pessoa, mais relaxado e que poderia ser quem ele realmente era.
Durante a penetração, ele começou a me socar, nas costas, na bunda e até no rosto. Pedi pra ele não fazer isso pois estava doendo, sua resposta veio seca e com mais um soco, ainda mais forte, na minha costela:
- Cala a boca e aguenta seu macho calado.
Eu nunca tinha visto Henrique assim tão violento, mas eu já o amava demais e aceitei que ele era assim.
Um tempo depois, Henrique veio trazendo uma bolsa de gelo enrolada em um pano, sentou do meu lado e colocou no meu rosto.
- Segura, isso vai ajudar a desinchar.
Depois começou a me apalpar onde ele tinha batido antes, perguntando se estava dolorido.
- Está doendo um pouco mas tá tudo bem Henrique...
Ele saiu por um momento e logo voltou com uma pomada para hematomas.
- Vou te dar um banho e depois vou passar isso em você, vai melhorar. E também, Diego, eu mandei você ficar quieto. Se tivesse me ouvido, não estaria assim.
- Eu sei Henrique, me desculpa.
- Você sabe que eu sou forte. Precisa parar de me provocar.
Então, me abraçou e disse:
- Mas ninguém vai cuidar de você como eu cuido.
Então tomamos banho juntos, Henrique foi um homem extremamente carinhoso e cuidadoso aquele dia. Que homem incrível ele era, mesmo tendo passado um pouco do limite, ainda queria cuidar de mim.
No sábado de manhã eu acordo antes dele, pelo costume de acordar cedo para o trabalho, e fico por uns minutos deitado ouvindo o silêncio daquele lugar. É um silêncio diferente, mais pesado e mais limpo ao mesmo tempo. Quando me levanto, a casa ainda está quieta.
Faço café, ponho a mesa, espero.
Henrique aparece uns vinte minutos depois, sem camisa, com uma calça de moletom e aquela rola enorme e grossa bem marcada que parece maior de manhã. Ele senta, olha a mesa, pega a xícara.
- Cadê o pão?
- Não vi pão na geladeira.
Ele me olha por um segundo com uma expressão que eu já aprendi a identificar - não é raiva ainda, é o antecedente da raiva, aquela frieza que antecede.
- Tem no armário de cima, do lado do fogão. Da próxima vez você abre os armários antes de me dizer que não tem.
- Desculpa.
Ele não responde. Eu me levanto, abro o armário, pego o pão, coloco na mesa. Sento de novo. Ele serve pra si, come, mexe no celular. Não tem conversa. Quando termina, levanta sem olhar pra mim.
- Hoje você limpa a casa toda. Banheiro e cozinha bem feito.
Passa por mim e sai pela porta dos fundos. Ele mandou construir uma academia simples mas funcional pra ele ali, com todo o equipamento que precisa.
Eu fico com a xícara na mão ouvindo os passos dele sumindo no terreno lá fora.
Passo boa parte da manhã limpando. A casa não está suja, mas limpo do mesmo jeito. Varrer, passar pano, esfregar o banheiro, organizar as coisas que estavam fora do lugar. É um trabalho que eu conheço bem, que faço no meu apartamento sem pensar, mas aqui tem um peso diferente que eu não consigo dizer exatamente. Não é humilhante de um jeito que eu consiga apontar. É só que eu estou fazendo, e ele está lá fora fazendo outra coisa, o sábado passa assim.
Em algum momento ele entra pra pegar água, olha em volta com aquele olhar de avaliação que ele tem pra tudo, e sai sem dizer nada.
Continuo limpando. Após o almoço fui lavar a louça e Henrique voltou pra parte de fora, sem dizer nada.
À tarde ele aparece na porta da cozinha enquanto eu ainda estou terminando de lavar tudo.
- Tem uma lagoa uns 200 metros atrás da casa. Vou nadar. Vem.
Eu paro tudo e o sigo.
A trilha até a lagoa é curta mas fechada, a mata apertando dos dois lados, o chão irregular de raiz e pedra. Henrique vai na frente, abrindo o caminho com o corpo largo, sem olhar pra trás pra ver se eu estou acompanhando.
A lagoa é pequena, de água escura e parada, cercada de árvore por todos os lados. A luz que entra é oblíqua e verde. É bonita de um jeito que não tem muito a ver com conforto.
Henrique para na beira, tira a camiseta, os tênis, o short, a cueca, tudo com a naturalidade de quem está sozinho, e entra na água.
Eu fico na beira olhando.
- Entra - ele diz, sem virar.
- Eu não trouxe sunga.
Ele vira então. Me olha com uma expressão de irritação.
- Volta lá na casa. No armário do quarto, do lado esquerdo, tem uma caixa com coisas que ficaram da Gabriela. Tem biquíni lá. Pega a parte de baixo e vem.
Eu fico parado por um segundo.
- Henrique
- Eu não vou ficar esperando. - A voz não sobe, mas fica mais curta, mais seca. - E não tenho interesse nenhum em ficar olhando pras suas partes, ainda mais com o cinto de castidade que você ta usando, você fica muito ridículo. Pega a calcinha do biquíni e vem nadar.
Eu volto pela trilha até a casa. Abro o armário, encontro a caixa, remexo até achar. É uma calcinha de biquíni preta fio dental, tamanho que não é o meu, fica bem pequena e apertada. Fico olhando pra mim no espelho do banheiro por um momento, sem entender exatamente o que estou vendo, e depois saio.
Quando volto pra lagoa ele está lá, nadando de costas, devagar. Não olha quando eu chego. Eu entro na água sem dizer nada.
A água está fria e escura e não dá pra ver o fundo. Eu fico na parte rasa por um momento até Henrique virar e me olhar, e então eu entro fundo o suficiente.
Henrique se aproxima, me abraça, me segura na água me protegendo da parte mais funda.
- Você ficou muito bonito assim. Eu gosto quando você deixa de ser tão resistente.
Henrique me beija e ficamos ali, aproveitando o momento e conversando banalidades.
Quando ele decide que é hora de sair, sai. Eu saio atrás.
No caminho de volta, na trilha, ele não fala. Só quando chegamos perto da casa ele para sem avisar e eu quase bato nele.
- Amanhã você lava as roupas antes da gente ir embora - ele diz. - A máquina é na área dos fundos.
Continua andando.
No domingo de manhã eu lavo as roupas dos dois enquanto ele toma café e lê alguma coisa no celular na varanda. Depois faço o almoço, sirvo, lavo a louça. Ele passa a manhã no terreno, volta suado, toma banho e quando senta pra comer, diz:
- Nada de comida pra você hoje, pra aprender a cozinha direito, essa comida está horrivel.
Tento argumentar, mas de repente sinto sua mão estalando forte no meu rosto.
- Cala a boca, enquanto eu falo você só ouve. Agora entra embaixo da mesa e me mama enquanto eu acabo de comer.
Meio assustado ainda, faço o que ele manda, mesmo depois de terminar, ele continua na mesa até gozar na minha garganta. Engulo tudo como sempre.
Na hora de fechar a casa, eu carrego as malas. Ele carrega nada.
No carro, já na estrada, ele fica em silêncio por um longo tempo. Então diz, sem tirar o olho da frente:
- Todo mês a gente vem.
Não é combinado. É informado.
Eu olho pela janela. Os setenta quilômetros de mata e estrada que nos separam da cidade começam a passar no sentido contrário, e eu fico pensando que aquele fim de semana foi a primeira vez que eu entendi alguma coisa que antes eu só sentia. Que longe da cidade, sem testemunha, sem o enquadramento do trabalho e dos amigos e do apartamento, o que existe entre mim e Henrique tem uma forma diferente. Mais clara, de certo modo. Mais difícil de ignorar.
Não sei se quero ignorar, mas amo muito aquele homem e só me resta me adequar a ele.