Nem todo enterro devolve apenas um corpo à terra; alguns sepultam também a vida daqueles que permanecem de pé.
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Há enterros que parecem pertencer apenas à família do morto e há outros que, de algum modo inexplicável, parecem contaminar o próprio lugar onde acontecem. Naquela tarde de outubro, o velho cemitério de Pittsburgh parecia participar da cerimônia com uma discrição respeitosa, como se até o vento, ao atravessar lentamente os ciprestes e arrastar consigo folhas avermelhadas sobre os caminhos de pedra, tivesse aprendido que certos silêncios jamais deveriam ser interrompidos.
O céu permanecia coberto por uma camada uniforme de nuvens claras, incapazes de produzir chuva, mas suficientes para apagar quase por completo a luz do sol. Não fazia frio o bastante para justificar o sobretudo preto que Akira Nakamura vestia; contudo, ele sequer cogitara deixá-lo em casa. Desde que a notícia chegara, alguns dias antes, deixara de distinguir com precisão o que era temperatura, cansaço ou tristeza; tudo lhe parecia fazer parte de uma única sensação contínua, pesada e sem nome, que o acompanhava desde o instante em que compreendera que algumas perdas simplesmente não oferecem ao ser humano a possibilidade de negociação.
Quem o observasse apenas por alguns instantes talvez dissesse que se tratava de um homem admiravelmente sereno. Permanecia imóvel diante do caixão, sem lágrimas, sem gestos desesperados, sem qualquer demonstração exterior de revolta. Bastava, porém, permanecer um pouco mais ao seu lado para perceber que aquela aparente tranquilidade não era coragem, mas esgotamento. Havia dores que arrancavam gritos; outras, mais profundas, retiravam da pessoa até mesmo a capacidade de reagir. Akira experimentava justamente essa segunda espécie de sofrimento.
As mãos permaneciam escondidas nos bolsos do sobretudo não porque o vento estivesse gelado, mas porque um discreto tremor insistia em denunciá-lo sempre que tentava mantê-las à vista. O rosto, naturalmente jovem para seus trinta e quatro anos, parecia endurecido pelas olheiras fundas que denunciavam semanas de sono interrompido, enquanto a barba, feita às pressas naquela manhã, deixara pequenas sombras azuladas ao redor do maxilar. Em circunstâncias diferentes, talvez chamasse atenção pela elegância discreta dos traços orientais ou pela postura naturalmente ereta que todo policial acaba adquirindo ao longo da profissão; naquele momento, entretanto, era apenas um irmão tentando compreender como a vida conseguira tornar-se irreconhecível em tão pouco tempo.
O padre continuava falando. No entanto, Akira não escutava uma única palavra. As orações misturavam-se ao ruído distante da cidade, ao canto ocasional de algum pássaro escondido entre as árvores e ao som quase imperceptível das folhas secas deslizando umas sobre as outras. O mundo continuava funcionando com uma normalidade que lhe parecia ofensiva. Em algum lugar, pessoas riam, faziam compras, reclamavam do trânsito ou planejavam o jantar daquela noite, enquanto ali, diante dele, repousava alguém cuja ausência transformara completamente o significado da palavra futuro.
Foi apenas quando seus olhos voltaram a repousar sobre a madeira escura do caixão que a lembrança surgiu, não como uma recordação cuidadosamente construída, mas como essas imagens que a memória decide devolver sem qualquer aviso.
Os dois eram adolescentes. A sala da antiga casa dos pais permanecia tomada por cabos de videogame espalhados pelo chão, latas de refrigerante abertas pela metade e embalagens vazias de salgadinhos. A janela permanecia aberta, deixando entrar o cheiro de chuva que anunciava mais uma tarde preguiçosa de férias escolares, enquanto a televisão, ligada havia horas, iluminava o rosto dos dois irmãos.
— Você fez isso de propósito... — reclamava o mais novo, sem conseguir esconder o riso.
Akira, quatro anos mais velho, continuava segurando o controle com absoluta calma.
— Fiz o quê?
— Você escolheu justamente o personagem mais forte.
— Eu escolhi o que sempre escolho.
— Então troca comigo.
— Nem pensar.
O garoto fingia indignação por alguns segundos, cruzava os braços e fazia uma expressão tão exageradamente ofendida que bastava um olhar para que ambos começassem a rir outra vez.
No fim de cada partida, porém, havia um pequeno ritual que nenhum dos dois sabia exatamente quando começara.
O vencedor entregava o controle ao outro.
— Sua vez.
Era apenas uma frase. Duas palavras. Tão simples que jamais lhes ocorrera atribuir qualquer importância. Naquela tarde, porém, enquanto observava o caixão à sua frente, Akira compreendeu que certas lembranças só revelavam seu verdadeiro significado muitos anos depois, quando já não era possível voltar para vivê-las outra vez.
Um ruído seco interrompeu seus pensamentos. A primeira pá de terra atingira a tampa do caixão. Depois veio outra. E mais outra. Cada impacto parecia produzir um eco desproporcional ao próprio som, como se a realidade insistisse em repetir, uma última vez, aquilo que sua mente ainda se recusava a aceitar.
Ali, poucos metros abaixo de seus pés, estava Riku Nakamura, seu irmão. O menino que jamais conseguira guardar um segredo por mais de dois dias, que ria alto durante os filmes de terror porque dizia sentir mais medo do silêncio do que dos monstros e que insistia em telefonar apenas para perguntar se Akira ainda lembrava daquela velha promessa de um dia viajarem juntos ao Japão, terra que ambos conheciam apenas pelas histórias contadas pelos pais.
Agora não haveria viagem. Não haveria outra ligação. Não haveria outra partida.
A terra continuava caindo. Estranhamente, Akira percebeu que ainda não chorava. Não porque fosse forte, mas algumas dores, quando finalmente atingem a profundidade necessária, deixam de encontrar lágrimas suficientes para se manifestar.
Pouco a pouco, as pessoas começaram a afastar-se da sepultura. Alguns parentes aproximaram-se em silêncio para depositar flores; colegas de trabalho limitaram-se a um discreto aperto de mão; uma senhora idosa, cuja identidade Akira sequer conhecia, segurou-lhe o braço por alguns segundos antes de desejar que Deus confortasse seu coração. Ele agradeceu com um leve movimento da cabeça. Não havia respostas adequadas para aquele tipo de gentileza. Talvez porque também não existissem perguntas capazes de explicar uma perda daquela dimensão.
Quando o cemitério já se encontrava quase vazio, uma voz conhecida interrompeu novamente o silêncio.
— Achei que você fosse embora antes.
Akira virou-se devagar. O capitão aproximava-se pelo caminho de pedra com a mesma discrição que sempre demonstrara ao entrar numa cena de crime. Os cabelos grisalhos balançavam ao sabor do vento, e a expressão firme, que costumava intimidar criminosos durante interrogatórios, parecia agora carregada por uma compaixão silenciosa que ele jamais soubera demonstrar com palavras.
Durante alguns instantes, ambos permaneceram olhando para a sepultura recém-fechada. Nenhum dos dois parecia disposto a romper aquele silêncio antes da hora. Porque havia momentos em que conversar não diminuía a dor. Apenas a tornava mais audível.
O capitão foi o primeiro a desviar os olhos da sepultura. Respirou lentamente, como quem organizava as palavras antes de dizê-las, embora soubesse, pela experiência acumulada em tantos anos de polícia, que existiam ocasiões em que nenhuma frase era suficientemente boa para aliviar o sofrimento de alguém.
— Como você está?
A pergunta escapou quase como um reflexo. Akira demorou alguns segundos para responder. Não porque buscasse a resposta mais adequada, mas porque, desde a morte de Riku, descobrira que já não sabia medir o próprio estado de espírito. Havia manhãs em que acordava convencido de que finalmente começava a aceitar a perda; bastava, porém, encontrar uma fotografia esquecida ou ouvir uma música qualquer para que toda aquela falsa estabilidade desaparecesse como fumaça. Por fim, permitiu que um sorriso breve, cansado e quase imperceptível surgisse no canto da boca.
— Ainda não consegui descobrir.
O capitão assentiu lentamente. Aquela resposta lhe pareceu muito mais honesta do que qualquer "estou bem" que pudesse ouvir.
O vento voltou a soprar entre as árvores, fazendo algumas folhas atravessarem o espaço entre os dois homens antes de desaparecerem sobre a grama úmida. Akira acompanhou o movimento delas por alguns instantes, talvez porque fosse mais fácil observar folhas levadas pelo vento do que continuar encarando o lugar onde, dali em diante, descansaria a única pessoa que conhecia todas as versões de si mesmo.
Foi o capitão quem voltou a falar.
— A licença foi aprovada.
Akira não demonstrou surpresa. Na verdade, esperava aquela decisão desde a semana anterior, quando quase provocara um acidente ao atravessar um cruzamento olhando para um homem que, por alguns segundos, lhe parecera Riku caminhando pela calçada.
Jamais comentara o episódio com ninguém. Sentira vergonha. Um detetive treinado para observar detalhes confundindo um desconhecido com o próprio irmão morto. Talvez fosse mesmo hora de parar.
— Não discuti a decisão da chefia — continuou o capitão. — Para ser sincero, fui eu quem insistiu.
Akira permaneceu em silêncio. Conhecia aquele homem havia mais de dez anos. Sabia que suas palavras jamais eram escolhidas ao acaso e que, quando ele assumia uma responsabilidade daquela natureza, era porque acreditava sinceramente estar fazendo a coisa certa.
Mesmo assim, doeu. Não porque estivesse sendo afastado do trabalho, mas porque, pela primeira vez desde que ingressara na polícia, alguém olhava para ele não como um investigador, mas como um homem incapaz de investigar qualquer coisa.
O capitão percebeu.
— Você sabe que isso não muda o que penso a seu respeito.
Akira ergueu discretamente o rosto.
— Você continua sendo o melhor detetive que já trabalhou comigo.
Fez uma pausa.
— Só que, neste momento... você não conseguiria resolver nem o próprio sofrimento.
A frase permaneceu suspensa entre eles. Estranhamente, Akira não se sentiu ofendido. Havia uma sinceridade desarmante naquela constatação, e talvez a amizade entre os dois existisse justamente porque nunca precisaram mentir um para o outro. Depois de tantos anos trabalhando lado a lado, aprendiam a reconhecer quando o silêncio dizia mais do que qualquer relatório.
O capitão aproximou-se um passo. Pousou a mão sobre seu ombro e olhou nos olhos antes de abraçá-lo. O gesto foi firme, quase paternal.
— Vá para casa. Durma. Coma alguma coisa. Faça terapia. Fique bravo comigo, se precisar. Mas não volte antes de conseguir olhar para uma cena de crime sem procurar o rosto do seu irmão entre as vítimas.
Akira sentiu um nó apertar-lhe a garganta. Era a primeira vez naquele dia que alguém pronunciava o nome invisível daquilo que realmente lhe acontecia. Não era apenas tristeza, era medo. Medo de continuar vivendo num mundo em que Riku já não existia.
O capitão retirou lentamente a mão de seu ombro. Antes de ir embora, porém, voltou-se uma última vez.
— Ele teria orgulho de você.
Akira não respondeu. Esperou até que a figura do capitão desaparecesse entre os túmulos antigos e os ciprestes balançando ao vento. Só então tornou a aproximar-se da sepultura. Abaixou-se lentamente. A terra ainda estava fofa, escura, úmida. Estendeu a mão e deixou que os dedos afundassem alguns centímetros naquele solo recém-revolvido, como se ainda pudesse encontrar algum vestígio do irmão naquele último gesto. Fechou os olhos. Respirou profundamente.
— Eu devia ter percebido...
As palavras saíram quase sem voz. Não eram dirigidas a Deus nem a Riku, muito menos a si mesmo. Eram apenas o reconhecimento tardio de uma culpa que ainda não possuía forma definida, mas que já começava a ocupar todos os espaços de sua consciência. Porque, quando alguém que amamos morre de maneira inesperada, a primeira pergunta raramente é "quem fez isso?". A primeira costuma ser muito mais cruel. "Como eu não percebi?"
Akira permaneceu ajoelhado durante mais alguns minutos. Depois levantou-se devagar, ajeitou o sobretudo e caminhou em direção ao estacionamento sem olhar para trás. Talvez porque soubesse que, se olhasse mais uma vez, encontraria forças para permanecer ali até o anoitecer. Talvez porque, no fundo, ainda acreditasse que algumas despedidas só terminavam quando tínhamos coragem de dar o primeiro passo na direção contrária.
Ele ainda não tinha. Mas caminhou assim mesmo.
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Os primeiros dias de licença passaram quase despercebidos. Akira deixou de consultar o relógio com a frequência de antes e, pouco a pouco, também perdeu o hábito de distinguir as segundas-feiras dos domingos, como se o calendário tivesse deixado de exercer qualquer autoridade sobre sua rotina. O despertador continuava programado para tocar às seis da manhã, por força de um costume adquirido ao longo de tantos anos de polícia, mas quase sempre era desligado sem que ele abrisse completamente os olhos, apenas para que o apartamento voltasse a mergulhar no silêncio que, desde o enterro, se tornara o verdadeiro morador daquele lugar.
Havia qualquer coisa de profundamente melancólico na ordem em que mantinha a casa. A cama era arrumada todas as manhãs com precisão quase militar, as louças jamais permaneciam sobre a pia por mais de alguns minutos e nenhum objeto parecia fora do lugar. Ainda assim, bastava permanecer alguns instantes dentro do apartamento para perceber que aquela organização não nascia da tranquilidade, mas de uma tentativa desesperada de conservar algum controle sobre uma vida que, de repente, escapara completamente de suas mãos.
A cozinha, por exemplo, continuava cheirando a café fresco todas as manhãs, embora a cafeteira preparasse sempre duas xícaras por força do hábito. A segunda permanecia esquecida sobre a bancada até esfriar completamente, momento em que Akira a despejava na pia quase sem perceber o gesto. Nunca havia dividido aquele apartamento com Riku e, no entanto, a ausência do irmão parecia ocupar todos os cômodos, como se o luto fosse capaz de inventar memórias que jamais existiram. Talvez fosse esse o aspecto mais cruel da saudade. Ela não se limitava a preservar o passado; às vezes, fabricava futuros que nunca aconteceriam.
Na terceira semana de afastamento, atendendo mais à insistência do capitão do que à própria vontade, Akira compareceu à primeira sessão com o psiquiatra indicado pelo departamento. O consultório ocupava um dos andares mais altos de um edifício moderno no centro de Pittsburgh, de onde se podia avistar o encontro dos rios que cortavam a cidade. Em outros tempos, ele provavelmente teria apreciado aquela vista. Naquela manhã, porém, sequer se aproximou da janela.
O médico apresentou-se com simplicidade, pediu que se sentasse e aguardou. Akira permaneceu em silêncio. Não havia resistência naquele comportamento, nem orgulho. Apenas lhe parecia estranho resumir a própria dor a palavras, como se nomeá-la fosse suficiente para diminuí-la. O médico compreendeu isso desde os primeiros minutos e decidiu não insistir.
Durante quase toda a consulta, conversaram sobre assuntos banais. O trânsito da cidade. O frio que chegaria dentro de poucas semanas. O excesso de trabalho na polícia. Somente quando o horário já se aproximava do fim, o psiquiatra fez uma única pergunta.
— Qual é a última lembrança feliz que você tem do seu irmão?
Akira demorou a responder. Curiosamente, não lhe veio à mente nenhuma fotografia, nenhuma viagem ou qualquer ocasião extraordinária. Lembrou-se apenas de Riku deitado no sofá da casa dos pais, muitos anos antes, reclamando que havia perdido outra partida de videogame. Sorriu pela primeira vez desde que entrara no consultório. Foi um sorriso pequeno, quase infantil.
— Ele odiava perder — disse, baixando os olhos. — Mas odiava ainda mais quando eu fingia que ia deixá-lo ganhar.
O psiquiatra sorriu também, sem dizer palavra alguma. Às vezes, compreendia-se uma pessoa muito mais pelo tipo de lembrança que ela escolhia guardar do que pelos grandes acontecimentos de sua vida.
Ao deixar o consultório naquele dia, Akira caminhou sem destino pelas ruas do centro durante quase uma hora. O vento soprava com mais intensidade do que nas semanas anteriores, obrigando os pedestres a fecharem os casacos enquanto atravessavam as pontes e as avenidas movimentadas de Pittsburgh, mas ele mal percebia a mudança da temperatura. Desde a morte de Riku, aprendera que existiam frios que vinham de lugares muito mais profundos do que o clima seria capaz de alcançar.
Naquela noite, jogado no sofá usando apenas uma calça azul claro de um pijama, ele ligou a TV em algum canal qualquer e começou a assistir a um filme que já estava pela metade. Depois, mudou para outro canal, que mostrava uma cena de sexo quase explícita, que o fez ficar quase dolorosamente excitado. Era a primeira vez que ficava daquele jeito, exceto pelas poucas ereções matinais que estava tendo. Então um pensamento lhe passou pela mente. Ele se levantou e se arrumou. Pela primeira vez desde o funeral, se dirigiu a um lugar que não fosse o consultório do psiquiatra. Em uma das principais avenidas do centro da cidade, entrou numa boate, a mais famosa de Pittsburgh.
Não havia qualquer impulso romântico naquela decisão, tampouco o desejo de socializar. O que o conduziu até ali foi uma necessidade muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais difícil de admitir: durante algumas horas, queria apenas esquecer sua dor.
As luzes coloridas escondiam os rostos com a mesma facilidade com que a música abafava perguntas inconvenientes. Ali, ninguém parecia interessado em conhecer o passado de ninguém, e essa ausência de curiosidade lhe oferecia um conforto inesperado.
Sentou-se numa banqueta de frente ao bar e observou o ambiente enquanto tomava um copo de gin. Foi então que seus olhos encontraram os de um desconhecido.
O homem estava sentado próximo ao balcão, segurando um copo de bebida entre os dedos, como se observasse a pista antes de decidir misturar-se à multidão. Era visivelmente mais alto que Akira, tinha a pele negra de um tom profundo que refletia discretamente as luzes azuladas do ambiente e um físico robusto, construído por anos de disciplina na academia e nos esportes. Os ombros largos preenchiam naturalmente a camisa escura, as mangas dobradas revelavam antebraços fortes e definidos, e a barba curta, cuidadosamente aparada, reforçava uma expressão serena que contrastava com a agitação da boate. Não havia qualquer arrogância em sua postura. Apenas uma confiança silenciosa.
Durante alguns segundos, limitaram-se a sustentar o olhar um do outro acima da borda dos copos. Não trocaram palavras. Também não parecia necessário. Às vezes, dois desconhecidos reconhecem um no outro o mesmo desejo de permanecer anônimos, e essa cumplicidade basta para encurtar qualquer distância.
O homem inclinou discretamente a cabeça. Akira respondeu com um gesto semelhante. Logo depois, ambos desapareceram entre as pessoas que dançavam em direção ao banheiro da boate.
Dentro da última cabine, o homem o aguardava, já masturbando seu pênis ereto que saía pela abertura do zíper de sua calça jeans. Akira entrou na cabine ao lado antes para urinar, algo que sempre fazia antes de fazer sexo, pois a sensação de bexiga cheia o atrapalhava. Saiu dali e entrou na cabine ao lado, quando viu que os outros dois homens que ali estavam saíram do banheiro.
Assim como o outro, ele também já estava ereto. Tão logo fechou a porta, ele simplesmente segurou na cabeça do homem levando-o ao seu pau. O homem era muito habilidoso com a boca e com a língua, deixando Akira rapidamente próximo do gozo. Mas, como queria sexo com penetração, trocou de lugar com o homem e lhe retribuiu o boquete. Enquanto chupava o enorme pau de 21 cm daquele desconhecido, ele não pensava em mais nada, apenas no prazer que estava sentindo.
Levantou-se e tirou da carteira um preservativo e encapou seu pau com precisão. Cuspiu no cu daquele homem e começou a penetrá-lo, forçando devagar até entrar por completo. O desconhecido mordia a mão para não gritar de dor e de prazer. Seu pau balançava a cada estocada que recebia.
Do lado de fora, outros homens entravam para lavar o rosto ou as mãos, outros para usar o mictório, outros entravam conversando alto e rindo... alguns percebiam que na última cabine havia gente transando. Mesmo com esse movimento do lado de fora, Akira e o desconhecido continuavam em sua transa intensa, sem se importar com nada, nem quando um dos caras fez um comentário alto. O homem apenas sorria, sem parar de rebolar no pau de Akira.
Akira acelerou suas estocadas enquanto masturbava seu parceiro. Este gozou primeiro, esguichando esperma na parede e no vaso sanitário. Akira gozou logo em seguida, enchendo a camisinha com grande quantidade de porra, afinal há semanas ele não ejaculava.
Quando terminaram, Akira se limpou e ajeitou sua calça. Saiu como se nada tivesse acontecido, indo direto à pia para lavar suas mãos. Um homem nos seus 50 e poucos anos que estava na pia ao lado olhou para ele de canto de olho e balançou a cabeça em sinal de reprovação quando viu o outro homem que saiu da mesma cabine. Akira e o homem saíram do banheiro cada um para um lado, sem ao menos saberem o nome um do outro, e nunca mais se viram.
Quando voltou para casa, já perto do amanhecer, percebeu que não conseguia recordar com precisão o rosto daquele homem. Lembrava-se apenas do perfume amadeirado, da firmeza tranquila com que sustentara seu olhar, do prazer regado a adrenalina dentro da cabine, mas também da sensação, ao fechar a porta do apartamento, de que a tristeza permanecia exatamente onde sempre estivera.
Ainda assim, repetiu aquele ritual nas semanas seguintes. Vieram outras sextas-feiras. Depois alguns sábados. Às vezes também uma quarta-feira qualquer, quando o apartamento lhe parecia excessivamente silencioso.
Os homens mudavam. Mudavam os cabelos, os sotaques, os perfumes e as histórias que jamais chegavam a ser contadas. Todos permaneciam desconhecidos antes, durante e depois do sexo, porque Akira compreendia, ainda que nunca admitisse em voz alta, que aquelas madrugadas existiam justamente para não deixar lembranças. Aquilo jamais lhe trouxe felicidade. Também não lhe provocava culpa. Era apenas uma forma imperfeita de sobreviver.
Talvez cada ser humano encontre, diante da dor, uma maneira particular de continuar respirando. Alguns mergulham no trabalho. Outros procuram respostas na religião. Há quem escolha o isolamento. Akira, sem perceber exatamente quando aquele hábito se instalara, passara a esconder o próprio luto entre luzes de neon, música alta e encontros destinados a durar menos do que uma madrugada.
O curioso era que, apesar de tudo, nunca voltava para casa arrependido. Também nunca voltava feliz. Voltava apenas um pouco mais cansado e aliviado e, naquele momento da vida, dormir algumas horas sem sonhar com o irmão já lhe parecia um pequeno milagre.
Foi somente algumas semanas depois, quando aquela rotina já lhe parecia tão previsível quanto o caminho entre seu apartamento e a boate, que o destino resolveu alterar discretamente as regras do jogo.
Numa noite que prometia ser igual a todas as outras, Akira atravessou novamente a porta do mesmo estabelecimento sem imaginar que, entre dezenas de rostos desconhecidos, encontraria o único homem que jamais conseguiria esquecer.
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