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6 - Rotina

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Um conto erótico de Diego
Categoria: Gay
Contém 1465 palavras
Data: 19/07/2026 00:52:04

O trabalho começa a aparecer nas conversas de um jeito lateral, como ele introduz tudo.

Primeiro é um comentário numa noite de semana, eu chegando em casa mais tarde por causa de um relatório que precisava fechar, e Henrique já sentado à mesa esperando o jantar que não estava pronto. Ele não reclama explicitamente. Só olha pro relógio quando eu entro e diz que está com fome há uma hora.

Eu me desculpo, começo a cozinhar.

Depois é outra noite, uma semana depois, eu chegando atrasado de novo. E então ele faz um comentário sobre o quanto ele ganha, sobre o quanto sobra, sobre como não faz sentido eu me desgastar num escritório fazendo café pra pessoas quando poderia estar em casa fazendo as coisas que importam.

- As coisas que importam - eu repito, sem entender direito.

- Cuidar da casa. - Ele diz isso com aquela naturalidade de quem está explicando algo óbvio. - Cuidar de mim.

Eu não respondo. Continuo mexendo na panela.

Mas a frase fica.

Nos dias seguintes ele volta ao assunto de formas diferentes, sempre sugerindo, nunca como ordem direta. Sobre o quanto ele sente minha falta durante o dia, sobre como a casa fica sem cuidado quando fico fora o dia todo, sobre como seria diferente se eu estivesse em casa quando ele chega do trabalho. E uma tarde, num sábado, ele me pergunta quanto eu ganho.

Eu digo.

Ele faz um silêncio que é resposta suficiente.

- Eu cubro isso. Fácil. Você passou a vida inteira servindo gente que nem olha para você. Fica comigo. Deixa que eu cuido de você agora.

Eu sei que ele pode. Sei também que não é sobre dinheiro, que nunca foi. Mas a lógica que ele apresenta tem aquela qualidade que as lógicas dele sempre têm, ela não está errada em nenhum ponto específico que eu consigo apontar, e eu fico olhando pra ela sem conseguir encontrar onde recusar.

Peço as contas na semana seguinte.

Os primeiros dias em casa são estranhos. Acordo no mesmo horário, por inércia, e fico olhando pro teto por uns minutos antes de me lembrar que não tenho pra onde ir.

A rotina se forma, como Henrique estabeleceu agora que eu não iria mais sair pra trabalhar. Acordo cedo, 1h antes dele pelo menos. Tomo banho, me levo todo, faço café, preparo o café da manhã do Henrique e vou pra cama dele, acordo ele com minha boca sugando seu pênis de forma carinhosa. Ele me confessou que o sonho dele era sempre ser acordado dessa forma. Enquanto ele está no chuveiro eu arrumo a mesa, e enquanto ele come eu entro embaixo da mesa e fico mamando ele, às vezes ele quer também fazer sexo e às vezes não, ou às vezes fazemos no chuveiro ou quando ele acorda.

Henrique passou a ser cada vez mais violento tanto no sexo quanto fora dele. Mas no sexo ele algumas vezes exagerava. Me socava com força e me batia, me deixava com marcas que demoravam tantos dias pra sumir que sempre tinham outras mais novas em outras partes do corpo.

Mas ainda assim eu percebia que ele era preocupado comigo. Sempre comprava gelo e deixava no congelador, pomadas para hematomas e remédios para dor. Às vezes ele mesmo cuidava de mim, outras mandava eu mesmo fazer.

Quando ele sai eu limpo a cozinha, arrumо o quarto, passo roupa, faço compras, planejo o jantar.

A casa de Henrique nunca esteve tão limpa.

Ele chega no final do dia e a comida está pronta. A casa está arrumada. A roupa está dobrada. Ele come, descansa, usa o espaço como quem usa um lugar que funciona como deve funcionar, sem precisar pensar em como funciona. E sempre que ele quer, estou à disposição para satisfazer seus desejos.

Às vezes ele chega animado e a noite é boa, ele fala, conta alguma coisa do trabalho, fica próximo, me beija e me dá carinho. Às vezes chega fechado e eu aprendo a não encostar, a servir o jantar em silêncio, a desaparecer pro quarto sem que precise ser dito. E às vezes ele chega muito estressado e só quer gozar e descontar a raiva dele em mim. Eu vou aprendendo a ler o humor dele pela forma que abre a porta, pelo jeito que larga as chaves na bancada.

A minha mãe liga com uma frequência que vai diminuindo porque eu vou atendendo com uma frequência que vai diminuindo.

No começo eu atendo sempre, saio do cômodo onde Henrique está, falo baixo, fico pouco tempo. Ela pergunta se estou bem, pergunta sobre o trabalho - e eu não contei ainda que saí, fico enrolando, digo que está tudo diferente. Ela pergunta se eu apareço no fim de semana, e eu digo que vejo, e depois não apareço.

Numa noite Henrique me ouve falando com ela no quarto e quando eu desligo ele está na porta.

- Sua mãe de novo?

- É, ela liga bastante...

- Você passa a impressão que está sobrando tempo. - Ele diz isso sem agressividade, como observação. - Quando você tem coisa pra fazer você não fica pendurado no telefone.

Eu não respondo.

Na semana seguinte quando ela liga eu não atendo. Mando mensagem dizendo que estou ocupado, que ligo depois. Não ligo depois.

Ela para de ligar com tanta frequência. Depois de um tempo para de ligar.

Eu digo pra mim mesmo que vou resolver isso, que vou ligar, que é temporário. Mas os dias passam com aquela velocidade estranha que os dias têm quando a rotina é sempre igual, e eu não ligo.

Henrique percebeu que minha mãe parou de ligar e parecia muito satisfeitô com isso.

- Diego, eu priorizo muito a família que você construiu comigo. Isso me deixa muito feliz. Temos um ao outro e isso basta.

O erro acontece numa quarta-feira.

Henrique tinha dito, de passagem, na segunda, que queria o paletó cinza passado pra uma reunião na quinta. Eu ouvi, guardei, mas na terça eu fiz a roupa toda e por algum motivo o paletó ficou pra trás - pensei que tinha feito, não tinha feito, o tipo de engano que acontece quando a rotina é muita coisa ao mesmo tempo.

Na quarta à noite ele vai buscar o paletó e eu estou na cozinha quando ouço os passos pesados dele vindos do quarto.

Ele aparece na entrada da cozinha com o paletó na mão, amassado, sem passar.

Eu paro o que estou fazendo.

- Eu pedi isso na segunda - ele diz.

- Eu sei, eu errei, esqueci esse, posso passar agora

— Agora. - Ele repete a palavra já se irritando. - Eu tenho reunião às oito da manhã.

- Henrique, leva vinte minutos, eu passo agora e fica pronto

Ele larga o paletó em cima da bancada da cozinha.

- Sabe o que me cansa? - ele diz, e a voz está baixa agora, controlada, como se contendo o grito que eu sei que ele queria dar. - Eu simplifiquei tudo pra você. Você não precisa trabalhar, não precisa se preocupar com conta, com nada. Eu peço uma coisa. Uma.

- Eu sei, eu errei

- Você sabe o que é fácil demais? - Ele me olha com uma expressão de desprezo, que eu senti de verdade que havia errado feio com ele. — Achar alguém que faça isso como deve ser feito. Alguém que não precise que eu fique repetindo o que eu quero. Se eu quiser esse tipo de descuido eu vou buscar na rua, está cheio.

Eu fico olhando pra ele. Tem várias coisas que acontecem ao mesmo tempo dentro de mim, e nenhuma delas forma frase. Tem raiva, tem vergonha, tem aquele impulso de dizer que não sou empregado, que erro acontece, que ele pode passar o próprio paletó.

Mas embaixo de tudo isso tem outra coisa muito pior, que é o medo de que ele esteja falando sério. De que eu chegue amanhã no quarto e ele tenha arrumado as malas. De que eu vire pra ele e ele já não esteja mais lá.

Esse medo é maior do que tudo.

- Tem razão, não vai acontecer de novo.

- Eu sou duro com você porque sei que você consegue ser melhor. Se eu não me importasse, nem cobraria.

ele tinha razão, é claro.

Pego o paletó. Monto a tábua de passar. A cozinha fica em silêncio enquanto eu trabalho, e Henrique fica sentado na mesa do outro lado, com o celular, e eu passo o paletó com um cuidado que é desproporcional pra qualquer paletó.

Quando termino e entrego, ele pega, examina, dobra no cabide sem comentar.

- O jantar esfriou - ele diz.

- Eu esquento.

Ele sai da cozinha.

Eu fico parado por um momentô com a tábua de passar na mão, e o que estou sentindo agora não é raiva nem vergonha. É determinação. De não errar de novo. De que ele não vai ter motivo pra dizer aquilo outra vez.

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