UMA GAROTA CHAMADA NAJA HOLLANDER
Aldo atravessava a rua em direção à rodoviária de Xaxim quando uma moto freou bruscamente às suas costas. O som do pneu cantando no asfalto o fez saltar. Ao se virar, viu o condutor tombar com o veículo. Correu para ajudar.
O piloto, sentando-se no chão com dificuldade, removeu o capacete, revelando um rosto de traços marcantes: olhos verdes intensos e cabelos ruivos cortados curtos. Uma pequena argola de prata enfeitava a aba de seu nariz.
— Você se machucou? — perguntou ele, agachando-se.
Ela levou a mão ao flanco direito, contraindo as feições. — Dói um pouco aqui.
— Quer que eu chame uma ambulância?
— Não, não precisa. Só me ajude a erguer a moto e a me sentar ali.
Aldo a amparou, levantou o veículo pesado e o estacionou junto ao meio-fio. Em seguida, voltou para junto da jovem, que já descansava em um banco de concreto em frente ao saguão.
— Eu quase te atropelei — disse ela, tentando recuperar o fôlego.
— Está tudo bem. Acontece.
Ela o fitou com atenção, semicerrando os olhos. — Você não é o Aldo, primo da Rebeca?
— Sim. E você?
— Fui colega da Rebeca e da Sandra no colégio. Sou a Naja. Vi vocês no baile do clube, no último fim de semana.
— Você estava lá? Por que não se juntou a nós?
— Estava com outro grupo. Moro em Chapecó, mas já vivi aqui. Vim visitar uma tia e aproveitei as festas da cidade.
— É a primeira vez que conheço alguém com esse nome. Naja.
— Naja Hollander — ela sorriu, um canto da boca mais elevado que o outro. — Meu pai era descendente de árabes e me deu o nome da avó dele. Significa "aquela que brilha" ou "aquela fadada ao sucesso". E eu estou batalhando por isso. Nada cai de graça nas nossas mãos, não nasci para ficar esperando a fortuna bater à porta.
Aldo olhou para o relógio de pulso; o ponteiro se aproximava perigosamente do topo.
— Tenho que embarcar para Porto Alegre. Já está quase na hora, preciso ir.
— Pode ir. Ficarei bem, não se preocupe.
— Então tá. Se cuida!
Ele entrou no saguão e correu direto ao guichê. O relógio na parede marcava 22h10. O ônibus das 22h já havia partido. O próximo sairia apenas à meia-noite. O jeito era mofar na rodoviária.
Sentou-se em um banco de plástico azul. Dez minutos depois, Naja surgiu no saguão, mancando levemente e mascando chiclete com uma lentidão hipnótica.
— Pensei que já tivesse ido! — exclamou ela.
— Perdi o ônibus. Agora, só à meia-noite.
— Olha, eu estou voltando para Chapecó agora de moto. Quer uma carona? De lá você consegue conexão direta para Porto Alegre a qualquer hora e não precisa mofar nesse banco.
Aldo considerou a oferta. Ganharia tempo e escaparia do tédio. — Acho que vou aceitar. Obrigado.
Naja sorriu. — Então, vamos. Só preciso passar na casa da minha tia para pegar o celular que esqueci. Fica no caminho.
Aldo pegou o capacete reserva e acomodou-se na garupa. A moto era robusta e potente, e Naja pilotava com uma agressividade surpreendente. Minutos depois, deixaram o perímetro urbano, pegaram a rodovia e, subitamente, ela entrou em uma estrada de terra secundária, que logo se estreitou em uma trilha cercada por vegetação. A noite estava escura, sem lua; o mundo de Aldo havia se reduzido ao que o farol da moto revelava: a mata fechada engolindo o caminho.
Logo chegaram a uma casa isolada. Por um instante, um calafrio correu pela espinha de Aldo. Temeu uma emboscada, mas Naja não parecia uma criminosa. A queda na rodoviária fora real... não fora?
Ela desceu e prendeu o capacete no guidão. A casa era de madeira, pintada de um branco descascado. Havia uma réstia de luz atrás da veneziana de uma das janelas e outra na varanda, onde uma cadeira de balanço vazia dividia espaço com uma samambaia morta.
— Só vou pegar o celular e já volto.
Ele desceu e olhou ao redor. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo coro dos grilos. Naja retornou rapidamente. Trazia o celular em uma mão e uma garrafa de água na outra.
— Minha tia já está dormindo. Está com muita pressa?
— Quanto mais cedo sairmos, melhor. Tenho que trabalhar amanhã cedo.
— Quer um gole? É água mineral. Estava na geladeira.
O calor da noite fizera a sede apertar. Aldo tomou dois goles generosos.
— No que você trabalha? — ela perguntou, guardando a garrafa.
— Sou escriturário em um escritório de contabilidade — respondeu ele, limpando a boca com as costas da mão.
Ela começou a falar sobre sua vida, sobre os pais no Paraná e como a relação difícil em casa a levara para Chapecó. Aldo, porém, parou de ouvir. Uma sonolência súbita e avassaladora o atingiu. Seus pálpebras pesaram toneladas. A voz de Naja tornou-se um eco distante, distorcido. Suas pernas fraquejaram, o chão sumiu e sua consciência se apagou em um mergulho frio na escuridão.
Quando acordou, a desorientação era total. Demorou para processar o que seus sentidos informavam. Notou, horrorizado, que estava completamente nu, preso por tiras grossas de couro a uma antiga cadeira reclinável de dentista, com o estofado puído. Seus pulsos e tornozelos estavam imobilizados de forma profissional.
Naja estava sentada em um caixote diante dele, observando-o com uma passividade gélida. O lugar era uma sala empoeirada, iluminada apenas por uma lâmpada fraca e amarelada pendurada por um fio descascado no teto manchado de infiltração.
— Está confortável? — perguntou ela, levantando-se e aproximando-se devagar. — Deve estar se perguntando o porquê disso tudo.
Ela fez uma pausa, curvou-se sobre ele e espetou o indicador com força na testa de Aldo. O tom de voz mudara; era duro, cortante.
— Eu não gosto de ser contrariada. Nem de ser desprezada. Estou acostumada a ter o que desejo. Lembra da festa? Eu olhava para você o tempo todo. Eu me oferecia com os olhos, e você se fez de desentendido. Me ignorou.
Ele olhou ao redor, o coração martelando no peito, o pânico subindo pela garganta.
— Não adianta fazer escândalo. Estamos completamente isolados; ninguém vai ouvir você gritar.
— Eu não... eu não fiquei com você porque estava acompanhado — justificou ele, a voz trêmula, quase um sussurro. — Você viu que eu estava com outra garota.
— Mas eu sou melhor do que ela — Naja respondeu, a vaidade transbordando nos olhos verdes. — Muito mais bonita. Muito mais mulher. Como você mesmo pode ver.
Sem qualquer hesitação, Naja despiu-se. Girou lentamente sob a luz amarela, exibindo o corpo bem torneado, a pele clara e o púbis raspado. Aproximou-se da cadeira e começou a tocá-lo. Aldo sentiu um arrepio de puro terror, mas a biologia traiu sua mente: apesar do medo que congelava sua alma, ele não conseguiu impedir a ereção.
— Sabe, eu li que massagens nos testículos aumentam a testosterona. Que maravilha — desdenhou ela, com um sorriso cínico.
Ela abriu um pequeno pote de plástico que estava sobre uma mesa lateral e lambuzou o membro dele com mel silvestre.
— Eu sempre quis fazer isso — murmurou, inclinando-se para sugá-lo.
O prazer físico disparou pelo corpo de Aldo, distorcendo-se em uma terrível confusão mental em meio ao cativeiro. Naja então montou sobre ele, guiando-o para dentro de si. Agarrou a cabeça dele com as mãos, cravando as unhas em seu couro cabeludo, e o beijou com selvageria enquanto movia os quadris com força.
Após o ápice, ela permaneceu ofegante por alguns segundos sobre o peito dele. Afastou-se, limpou-se friamente e voltou segurando uma seringa com um líquido translúcido.
— O que é isso? O que você vai fazer? — Aldo implorou, tentando debater-se contra o couro.
Ela não respondeu. Injetou o conteúdo diretamente na coxa dele. Antes que o pânico total se instalasse, a mente de Aldo apagou novamente.
Ao despertar pela segunda vez, a posição mudara. Estava preso de bruços sobre uma mesa de madeira rústica, inclinado para a frente, com o rosto pressionado contra as tábuas ásperas e os braços esticados e amarrados à frente. Continuava nu, exposto em uma posição de extrema vulnerabilidade e humilhação.
Naja reapareceu no seu campo de visão periférico. Continuava nua, mas agora ostentava uma prótese peniana de borracha preta acoplada a um arnês de couro no quadril.
Ela se posicionou atrás dele. Aldo sentiu o peso do corpo dela pressionando suas nádegas.
— Você já provou o que eu tenho de melhor — a voz dela ecoou em seu ouvido, fria como gelo. — Agora, vai provar o meu desprezo.
— Você é louca! Pelo amor de Deus, para com isso! — Ele lutou contra as amarras, cortando a pele dos pulsos, em vão.
— Vai doer só no início — disse ela, empurrando o corpo para a frente.
Aldo urrou. Um grito rasgado de dor física e humilhação absoluta ecoou pelas paredes da sala. Naja foi rápida e metódica; deu três estocadas violentas e se afastou. "O que vem agora?", ele pensou, chorando contra a madeira, antes de sentir a picada familiar de uma nova agulha em sua nádega. Escuridão, outra vez.
Acordou em um lugar sufocante, apertado. Não conseguia se virar, esticar os braços ou erguer os joelhos. Pelo tato das mãos estendidas, percebeu as paredes de madeira áspera e estreita acima de seu rosto: estava em um caixão. O terror claustrofóbico o invadiu, o ar parecia faltar, até que a tela de um celular, deixado aceso ao seu lado, brilhou. Havia uma mensagem de texto aberta:
"Não tenha medo, você não está debaixo da terra. É só um corretivo pelo seu desprezo na festa. O que eu queria de você, eu já tive. Agora, me esqueça. Se fizer força, conseguirá sair, como a Beatrix Kiddo no filme do Tarantino. Adeus."
Ele testou a tampa do caixão com as palmas das mãos e os joelhos. A madeira cedeu levemente. Com um empurrão desesperado, nascido do puro instinto de sobrevivência, a tampa arrebentou, revelando que o caixão estava apenas pousado no chão da mesma sala empoeirada. A casa estava vazia. Vestiu-se às pressas com as roupas que haviam sido deixadas em um canto e correu pela trilha sob a luz do amanhecer. Na rodovia, trêmulo e sujo, conseguiu carona com um caminhoneiro.
— O senhor vai para Porto Alegre? — perguntou Aldo, com os dentes batendo.
— Sim, sobe aí, rapaz.
Durante as primeiras horas de viagem, o motorista estranhou sua inquietação extrema na cabine. — O que foi, meu jovem? O assento está ruim? Está desconfortável?
Aldo engoliu em seco, sentindo uma pontada de dor profunda na região lombar. — Não... não é nada. Está tudo bem.
Semanas depois, Aldo encarava o gelo derretendo em um copo de refrigerante em um bar de Chapecó, alheio ao barulho do ambiente. Rui, seu melhor amigo, o observava com uma mistura de preocupação e ceticismo.
— Cara, você se apaixonou por essa maluca? É isso? — perguntou Rui, repetindo a questão pela terceira vez.
Aldo hesitou. Havia desabafado com o amigo, mas omitira a parte da prótese de borracha e do estupro por pura vergonha, moldando a história como um sequestro de sadomasoquismo.
— Claro que não, Rui! Você não entendeu. Eu a encontrei ontem. Ela está trabalhando em um restaurante executivo bem no centro. Era ela, Naja Hollander, usando o uniforme de garçonete da casa.
— E você falou com ela? chamou a polícia?
— Claro que não! Ficou maluco? Depois do que ela fez comigo?
— Mas vem cá... você não curtiu a transa? — Rui deu um sorriso de canto. — Uma ruiva daquelas...
— A parte do sexo foi uma coisa, Rui! — Aldo alterou a voz, atraindo olhares das mesas vizinhas. Abaixou o tom, tenso. — Mas ela me dopou! Me trancou em um caixão! Eu achei que ia morrer sufocado, enterrado vivo! Você tem noção do que é isso?
Rui mudou de postura, percebendo a gravidade no olhar do amigo. — Essa parte do caixão você não tinha detalhado antes, cara... Isso é doentio.
Aldo suspirou, passando as mãos pelo rosto. — Naja... que nome maldito.
— Significa "aquela que brilha", mas também é o nome de uma das cobras mais venenosas do mundo — comentou Rui.
— Pois é. E ela é exatamente assim: traiçoeira. Por isso eu preciso da sua ajuda para dar o troco. Quero pegá-la na saída do trabalho, trancá-la em um lugar escuro, um freezer velho ou um porão abandonado. Só quero que ela sinta o mesmo pânico de morte que eu senti. Nada mais.
Rui empurrou a cadeira para trás, balançando a cabeça. — Não conte comigo para isso, Aldo. O que ela fez foi crime, mas o que você quer fazer é sequestro e cárcere privado. Vai acabar mal, você vai rodar. Esquece essa mulher e vai procurar um psicólogo.
Aldo fingiu concordar para encerrar o assunto, mas a obsessão já havia criado raízes profundas em sua mente. O trauma havia se transformado em uma sede doentia de retaliação. Nos dias seguintes, passou a vigiar a rotina de Naja. Descobriu onde morava e que agora dirigia um Celta vermelho velho. O bom senso havia sido completamente obliterado.
Às 7h30 de uma manhã nublada, quando Naja estacionava o carro no pátio dos fundos do restaurante, Aldo — vestindo um casaco pesado e uma máscara de esqui — a abordou antes que ela saísse do veículo. Sacou uma pistola preta e a apontou contra o vidro.
— Cala a boca ou eu te mato agora! Destrava a porta e vai para o banco do carona! — ordenou, com a voz forçadamente grossa.
Sob a mira da arma pressionada contra a sua nuca, Naja manteve uma calma assustadora. Ele a obrigou a ligar para o gerente do restaurante usando o viva-voz, inventando uma crise de dor de dente para justificar a ausência. Em seguida, Aldo assumiu o volante e a conduziu por quase quarenta minutos até a periferia da cidade, parando em um complexo de prédios em ruínas que outrora servira como um frigorífico industrial.
Lá dentro, o cenário era desolador: ganchos enferrujados pendiam de trilhos no teto alto e um cheiro persistente de mofo e decomposição impregnava o ar. Ele a empurrou em direção a uma das antigas câmaras frias desativadas.
— Tira a roupa — ordenou ele, mantendo a pistola em riste, a voz abafada pela máscara.
Naja obedeceu lentamente, peça por peça, sem demonstrar o pânico que Aldo esperava. Seus olhos verdes vasculhavam o ambiente, calculando cada distância, cada chance de reação. Aldo, fascinado e perturbado pela visão daquele corpo sob a luz fraca que entrava pelas frestas do teto, apontou para uma argola de ferro chumbada na parede da câmara.
— Prenda seus pulsos nas algemas que estão ali. Agora!
Ela obedeceu, erguendo os braços e prendendo-se, ficando totalmente vulnerável. Aldo a observou por um longo segundo. O plano era trancá-la ali na escuridão por algumas horas. Ele deu um passo para trás e bateu a pesada porta de ferro, deixando-a no breu.
No entanto, assim que o trinco ecoou no galpão vazio, o arrependimento o atingiu como um soco no estômago. O suor frio escorreu pelo seu rosto por baixo da lã da máscara. Ele olhou para as próprias mãos trêmulas. Não era um criminoso, não era um monstro. Era apenas um homem estraçalhado pelo ego e pelo trauma. Não conseguiria deixá-la ali. Decidiu abortar a loucura e libertá-la.
Ao puxar a alavanca e abrir a porta novamente, ele arrancou a máscara, jogou a pistola no chão de cimento e caiu de joelhos, derrotado.
— Então decidiu se vingar, seu Aldo? — a voz de Naja ecoou de dentro da câmara fria, acompanhada por um sorriso ironicamente calmo.
Ele paralisou, erguendo os olhos. — Como... como sabia que era eu?
— Essa mancha de nascença escura no dorso da sua mão direita te entregou no primeiro segundo em que apontou a arma — ela riu, balançando os braços algemados. — Ficou com saudades de mim, foi? Ou ficou com saudades daquilo? Vai, limpa as minhas pernas. Anda, ajoelha e chupa.
Aldo, psicologicamente quebrado e dominado pela aura de controle que ela emanava, arrastou-se de joelhos até ela. Mas, antes que pudesse tocá-la, um som mecânico, agudo e ensurdecedor ecoou pelo galpão abandonado:
Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!
O barulho de um motor a combustão arrancou os dois daquela bolha doentia. Aldo levantou-se num salto e correu até a entrada da câmara. No extremo oposto do salão do frigorífico, um vulto maciço vestindo um macacão amarelo de borracha encardido avançava lentamente. A luz do sol revelava a poeira em suspensão e o brilho violento de uma serra circular industrial ligada nas mãos da figura. Manchas de sangue fresco, que Aldo não havia notado antes, decoravam a parede próxima. Aquele lugar não estava totalmente abandonado; era o abatedouro de um maníaco real.
— O que está acontecendo aí fora? — gritou Naja, a voz finalmente carregada de urgência.
— Tem alguém aqui... Um louco com uma serra! — Aldo correu de volta, pegou a chave no bolso e abriu as algemas de Naja com as mãos sacudindo de pavor. — Vamos, temos que correr!
Eles saíram da câmara fria bem no momento em que o gigante de macacão amarelo bloqueava a saída principal. Instintivamente, Naja se desvencilhou de Aldo, avistou a pistola que ele havia descartado no chão, jogou-se sobre o cimento, empunhou-a e disparou três vezes contra o peito do invasor.
Clack! Clack! Clack!
Apenas o som metálico do percussor batendo em falso.
— É uma réplica! É de brinquedo, caramba! — gritou Aldo, agarrando-a pelo braço e puxando-a em direção aos fundos.
Tentaram uma porta de metal que dava para o antigo setor de carregamento, mas ela estava completamente emperrada pela ferrugem. O maníaco se aproximava a passos lentos, mas implacáveis, o ruído estridente da lâmina giratória abafando os batimentos cardíacos dos dois. No desespero do recuo, Naja tropeçou em uma pilha de caixotes de plástico e caiu. O assassino ergueu a serra, mirando o pescoço dela.
Em um ato de puro reflexo, Aldo agarrou um pedaço de tijolo maciço no chão e o arremessou com toda a força. O projétil atingiu em cheio a têmpora do gigante.
O monstro vacilou por um segundo, o sangue escorrendo por baixo do capuz de borracha, e voltou seus olhos sem vida contra Aldo. Avançou contra ele. Ao tentar esquivar-se, Aldo tropeçou nos trilhos do chão, bateu a parte de trás da cabeça na quina de uma mesa de metal e desabou, a visão obscurecida por flashes de luz e uma tontura avassaladora.
Naja, nua, ágil e movida pelo puro instinto de sobrevivência que definia seu nome, viu sua oportunidade. Ignorando as roupas e o perigo, ela se ergueu, localizou um gancho de ferro maciço — usado para pendurar carcaças de gado — que corria por um trilho suspenso logo acima do assassino.
Com um salto, ela agarrou a corrente do gancho pesado, puxou-o para trás com toda a força de seu corpo e o lançou para a frente como um pêndulo mortal. O mecanismo de roldanas deslizou pelo trilho de ferro com um estalo seco. O gancho pontiagudo atingiu a lateral do crânio do maníaco, penetrando a órbita do olho direito e destruindo a massa encefálica.
O gigante desabou para a frente como uma árvore cortada. Na queda catastrófica, suas mãos espasmódicas soltaram a serra ainda ligada em alta rotação. O maquinário ricocheteou no chão de concreto e atingiu as próprias pernas do assassino, decepando músculos e ossos em um jorro violento de sangue arterial. O motor finalmente engasgou e morreu.
O silêncio voltou a reinar no frigorífico, quebrado apenas pela respiração arfante de Naja. Ela caminhou até Aldo e o ajudou a se levantar, puxando-o pelo braço.
— Ele... ele morreu? — perguntou Aldo, a voz trêmula, olhando o rastro de destruição no chão.
— Não quero ficar aqui para descobrir se ele tem irmãos — respondeu Naja, fria, embora estivesse pálida.
Correram em direção ao estacionamento externo. Naja vestiu-se rapidamente dentro do Celta enquanto Aldo se apoiava na lataria do carro, a mão na nuca, sentindo o sangue do corte na cabeça.
— Me perdoa... — sussurrou ele, olhando para o chão. — Foi uma ideia estúpida. Eu enlouqueci. Só queria que você sentisse o mesmo medo que eu senti naquele caixão.
Naja girou a chave na ignição, fazendo o motor do Celta roncar. Ela o encarou pelo vidro aberto por alguns segundos, a expressão indecifrável de sempre retornando ao seu rosto de olhos verdes. Então, ela puxou Aldo pela gola da camisa e selou o momento com um beijo longo, intenso, que misturava o gosto de suor, ferro e adrenalina.
— Tudo bem, contábil — disse ela, afastando-se com um sorriso de canto. — Agora entra aí. Vamos cuidar desse galo na sua cabeça antes que você desmaie de novo, seu bobo