Os meses vão passando. A rotina é tão intensa que parece que vivi com Henrique a vida inteira. Mas fazem apenas 2 anos.
Acordo antes dele, sempre. O café, o café da manhã, a mesa arrumada. Enquanto ele toma banho eu arrumo a roupa dele, verifico sua pasta de trabalho, arrumo seu quarto e anoto tudo que preciso comprar, caso ele precise de algo. Sei o seu perfume favorito, o livro que ele gosta, todos os seus gostos sobre todas as coisas. Quando ele sai eu limpo o que ficou, arrumo o que ficou, preparo o que vai ser preciso. Quando ele volta eu sirvo o que fiz.
A casa está sempre limpa. A roupa está sempre dobrada. O jantar está sempre pronto.
Eu aprendi que quando ele chega fechado o melhor é não existir mais do que o necessário. Sirvo sem comentar, sumo quando ele não precisa de mim, apareço quando ele chama e todos os dias o satisfaço na cama, do jeito que ele gosta, fazendo tudo que ele pede, sem reclamar nem questionar nada. Henrique é um homem incrível e só de pensar em perder ele, eu já fico desesperado. Aprendi também a entender seu humor com pequenas coisas, quando tira o paletó de um jeito ou de outro, quando joga as chaves de um lado ou do outro. São sinais que eu nem percebi que estava aprendendo até já ter aprendido.
Às vezes ele chega bem-humorado e a noite é boa, ele fala, conta alguma coisa, fica próximo, me abraça, me beija. Nesses momentos eu me permito ficar à vontade, rir, responder, ocupar um pouco mais do espaço. São os momentos que eu acumulo, que guardo, que pego de volta nos dias que são diferentes.
E tem dias que são diferentes, com frequência. Pelo menos 1 vez por mês eu ia na casa de Rodrigo, limpar e lavar tudo e servir ele como ele pedia. Rodrigo era o melhor amigo de Henrique, aprendi que se deixasse ele feliz, Henrique também ficaria.
A primeira vez que ele traz alguém eu não entendo de imediato o que está acontecendo.
É uma terça à noite, ele chega mais cedo do que o normal, entra na cozinha antes de ir pro quarto, o que não é o costume. Fica na entrada me olhando.
- Vai pra despensa.
Eu olho pra ele.
- Tenho companhia. Fica lá dentro e não faz barulho.
Processo aquilo por um momento.
- Henrique... o que você ta dizendo?
- Diego. - Uma palavra, a voz baixa. - Vai.
Eu vou.
A despensa fica no corredor de serviço, entre a cozinha e a área de serviço. É um cômodo pequeno e escuro, bem apertado, com uma lâmpada que nunca funcionou. Eu entro. Ouço a chave virando na fechadura por fora.
Fico parado no escuro por um momento pensando no que está acontecendo. Até cair a ficha e eu me sentar no meio dos produtos e esperar Henrique terminar e abrir a despensa pra mim.
Ouço a porta da frente se abrindo. Uma voz feminina, que eu não conheço. Henrique respondendo com aquele tom que eu conheço de outras formas - relaxado, presente. O barulho de passos indo pro quarto.
Eu fico ouvindo o que se passa do lado de fora.
Não conto o tempo. Fico ouvindo e não fico ouvindo, a cabeça indo e vindo de um lugar pra outro sem se fixar em nada. Acabo dormindo ali mesmo sentado no escuro.
Quando a chave vira de novo eu já perdi a noção de quanto tempo passou.
- Acabou - ele diz - Limpa o quarto.
Eu saio da despensa.
Enquanto eu arrumo a cama ele está no chuveiro. Quando sai, com a toalha na cintura, para na porta do quarto e me olha trabalhar por um momento. Eu paro.
- Você quer saber por que?
- Quero.
- Porque você não presta na cama, Diego.
Ele me olha com um olhar de desprezo e ao mesmo tempo de decepção. Eu nem sei o que dizer com essa resposta.
- Não é novidade pra você, você sabe disso. Um homem como eu não pode ficar dependendo de alguém que não dá conta. Então eu resolvo do jeito que precisa ser resolvido.
- Mas Henrique eu faço tudo como você pede, eu me esforço tanto pra te fazer feliz...
- A culpa é sua. - Ele diz isso com a mesma naturalidade com que diria qualquer fato. - Se você fosse o que deveria ser eu não precisaria de mais ninguém. Mas você não é. Então vai ser assim.
Ele tira a toalha e a pendura. Seu corpo perfeito ali na minha frente, ele me olhando como se o que tivesse acabado de dizer, fizesse total sentido.
- Mas eu continuo aqui. Continuo com você, apesar disso tudo, porque tem outras coisas que você faz bem. Você deveria agradecer por isso. Agradecer por um homem como eu ainda namorar alguém como você. Ou você acha que você conseguiria um cara assim pra você? Nós dois sabemos que não.
Eu fico olhando pro lençol. Eu sei que ele está certo. Um homem como ele nunca se interessaria por alguém como eu. A verdade dói, e ainda penso em como ele foi se interessar. Por isso preciso fazer qualquer coisa pra manter Henrique comigo, porque eu o amo mais que tudo na minha vida.
- Você está me ouvindo? - ele pergunta.
- Estou.
- Então termina de arrumar isso.
Ele vai pro banheiro secar o cabelo.
Eu termino de arrumar o quarto.
Vira rotina. Cada vez mais frequente.
Quando ele passa pela cozinha antes do horário normal e não vai direto pro quarto, eu já sei. Paro o que estou fazendo, vou pra despensa, espero. Às vezes é pouco tempo, às vezes é muito. Fico sentado no chão entre as prateleiras sem ter nada o que fazer a não ser esperar Henrique terminar de transar seja lá com quem for para depois eu limpar tudo e fingir que nada aconteceu.
São homens às vezes. São mulheres outràs vezes. Eu sei pela voz quando consigo ouvir, e nem sempre consigo ouvir.
O que ele disse naquela primeira noite não precisa ser repetido. Ficou. Se eu quiser continuar com ele, tenho que aceitar isso.
Uma noite ele está sentado na beira da cama me observando enquanto eu trabalho. Eu estou recolhendo o que sobrou no criado mudo quando ele fala:
- Você sabe que é meu. Mesmo quando tem outro aqui. Você sabe disso.
- Sei.
Ele me olha por um momento, depois aponta pra camisinha usada e ainda com seu esperma dentro, que está em cima da cama.
- Então prova. Bebe meu esperma de dentro dessa camisinha usada. Que eu usei pra comer outro cara e gozei muito fazendo isso.
Eu fico olhando pra ele. Pra o que ele está apontando. Pra ele de novo.
- Tá esperando o que? Bebe logo. E quero ver você chupando a camisinha até não sobrar nada.
Eu faço o que ele pediu.
Quando termino ele me olha com uma expressão de superioridade que sempre teve.
- Agora termina de limpar.
Eu termino.