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Garoto do EB / Ep 14

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Um conto erótico de Michel
Categoria: Gay
Contém 2292 palavras
Data: 01/08/2026 19:31:22

— Michel? Você tá aqui? — a voz do Emiliano soou da entrada do alojamento.

Meu sangue congelou nas veias.

O som dos passos dele se aproximando pelo corredor foi o suficiente para o Martins reagir com a velocidade de um bote. Com um movimento rápido e ensaiado, ele deu um pulo para fora da cama, ajeitou a camiseta verde-oliva num puxão só e se afastou dois passos da minha beliche, assumindo uma postura impecável antes mesmo de o Emiliano dobrar a esquina do corredor.

Eu me ajeitei na cama, o peito subindo e descendo rápido, tentando disfarçar a descarga de adrenalina enquanto sustentava o olhar cínico do Martins.

Emiliano apareceu no corredor trazendo uma garrafa térmica. Ao ver o Martins ali, ele parou no mesmo instante, surpreso.

— Martins? — Emiliano piscou. — O que você tá fazendo aqui no alojamento do Terceiro?

— Fui encarregado de dar uma vistoria nos armários do fundo do bloco, Emiliano — Martins respondeu de primeira, com a voz aveludada, perfeita e acolhedora. Ele apontou com a cabeça na minha direção. — Vi o Michel aqui deitado e resolvi passar pra ver se a febre dele tinha voltado. Ele me pareceu bem tonto agora pouco.

— Ah... entendi — Emiliano disse, o olhar amolecendo na hora. Ele deu um passo à frente. — Eu... eu vim trazer um pouco de chá gelado pra ele. Fiquei preocupado.

— Um gesto bonito — Martins elogiou, dando um tapinha amigável no ombro do Emiliano ao passar por ele. O toque fez os olhos do Emiliano brilharem de orgulho. Martins parou no batente da porta e virou o rosto para me encarar. O olhar era de uma vitória silenciosa

— Cuida bem dele, Emiliano. Pelo visto, o Michel precisa de muita atenção aqui dentro... e nem sempre sabe aceitar ajuda das pessoas certas.

— Pode deixar, Martins — Emiliano respondeu, quase num suspiro. — Até mais tarde...

Martins me deu um último sorriso torto e sumiu pelo corredor.

Emiliano caminhou até a minha beliche, colocou a garrafa na cabeceira e serviu um copo, me entregando com um ar de reprovação.

— Tá vendo, Michel? — Emiliano balançou a cabeça, sentando na ponta da cama vizinha. — O cara veio aqui no meio do serviço dele só pra ver como você tava. E você lá no refeitório me dizendo que ele era perigoso... Você tá criando coisa na sua cabeça, cara. O Martins é um dos caras mais prestativos do Batalhão.

Peguei o copo de chá, mas não abaixei a cabeça dessa vez. Sustentei o olhar do Emiliano com firmeza.

— Emiliano...— respondi, o tom baixo, mas sem um pingo de hesitação. — Você tá olhando pra casca. Tá tão desesperado por uma referência aqui dentro que compra qualquer sorriso de canto de boca.

Emiliano me encarou, pego de surpresa pela minha reação.

— Ele acabou de vir aqui saber se você tava bem, Michel! Que motivo ele teria pra fingir isso?

— O mesmo motivo que faz um caçador jogar farelo no chão — retruquei, tomando um gole do chá e colocando o copo de lado. — Ele quer você na mão dele. E quer que eu pareça o louco da história toda vez que tentar te avisar. Mas quer saber? Guarda o chá. Me desculpa por hoje cedo no almoço se pareceu que eu tava estressado à toa... mas abre o olho. Quando você perceber quem ele é de verdade, só espero que não seja tarde demais.

Emiliano ficou em silêncio por alguns segundos, incomodado com a minha segurança. Ele se levantou da cama sem dizer mais nada, apenas pegou a garrafa e saiu do alojamento com passos apressados.

Na manhã seguinte, mesmo dispensado das atividades físicas pesadas, me recusei a ficar mofando na beliche. Vesti a farda e fui para a arquibancada pequena da área de instrução do pátio principal, no pátio os três pelotões estavam reunidos sob o sol da manhã para o treinamento de montagem e desmontagem do fuzil FAL 7,62mm.

O clima era de pura rivalidade. O Tenente Brito e o Sargento Rocha e o Mello, observavam da mureta com cronômetros em mãos.

— Atenção, tropa! — a voz do instrutor ecoou pelo pátio. — Para demonstrar o padrão de velocidade e precisão, quero um representante de cada pelotão na mesa!

— Primeiro Pelotão: Recruta Martins! — chamou o instrutor. — Segundo Pelotão: Recruta Lisandro! — Terceiro Pelotão: Recruta Vítor!

A tropa se agitou. Vítor deu um passo à frente com o queixo erguido, ajeitando as mangas da farda. Lisandro assumiu a posição central, compenetrado. E Martins caminhou até a primeira mesa com uma calma irritante, cumprimentando os oficiais com um aceno perfeito de cabeça.

— Ao meu sinal... preparar... JÁ! — o apito soou.

O barulho seco do metal batendo contra as mesas de madeira tomou conta do pátio. Os três operavam com uma velocidade impressionante. Lisandro era rápido, mas hesitou um segundo ao desencaixar o pino do receptor.

Vítor estava voando. As mãos dele moviam as peças com uma precisão cirúrgica, o Terceiro Pelotão começou a vibrar em voz baixa. Ele montou o ferrolho, encaixou a tampa da caixa de culatra e já ia puxar a alavanca de manejo...

Mas o Martins era um monstro de execução. Sem fazer um único movimento desnecessário, quase de olhos fechados, Martins travou o último pino, puxou a alavanca com um estalo limpo e bateu a palma da mão na mesa.

— PRONTO! — Martins bradou, voz firme e límpida.

Dois segundos depois, Vítor bateu a mão na mesa. Lisandro finalizou logo em seguida.

— Primeiro Pelotão: 18 segundos! — anunciou o instrutor. — Excelente desempenho, Martins! É esse o padrão que eu quero ver no Batalhão!

O Primeiro Pelotão vibrou alto. Martins virou-se para a tropa, abrindo um sorriso largo de vencedor. Ele olhou diretamente para o Vítor, dando um tapinha condescendente no ombro dele ao passar:

— Quase lá, Terceiro. Na próxima vocês treinam mais.

Vítor trincou os dentes, a mandíbula travada de raiva, mas manteve a postura diante dos oficiais. Martins me procurou na multidão com o olhar e me deu uma piscadela debochada, esbanjando a moral que acabou de ganhar com o comando.

No horário do almoço, caminhei para o refeitório. Martins estava na mesa central, cercado por recrutas do Primeiro Pelotão — incluindo Emiliano, que o ouvia fascinado.

Peguei minha refeição e me sentei em uma mesa no canto.

​Vítor entrou no salão com a cara feia, a mandíbula ainda trincada pela derrota na instrução. Ele pegou a bandeja dele e se dirigiu à mesa do Terceiro Pelotão. O azar foi que o Gustavo já estava lá, encostado na cadeira com aquele ar típico de deboche e superioridade.

​Assim que Vítor puxou a cadeira para sentar, Gustavo soltou um risinho baixo, alto o suficiente para os recrutas ao redor ouvirem.

​— É, Vítor... 20 segundos — Gustavo provocou, balançando a cabeça com uma falsa pena. — Falou tanto a semana inteira que ia atropelar todo mundo, mas na hora do 'vamos ver', engoliu a poeira do Martins sem nem ver de onde veio. O que custava ter treinado mais a mãozinha antes de ir lá passar vergonha na frente dos oficiais?

​Vítor parou no meio do movimento. Ele soltou a bandeja de metal sobre a mesa com um estalo violento de talheres contra o alumínio, que fez várias mesas ao redor se calarem.

​— Cala essa boca, Gustavo — Vítor rosnou, o olhar queimando de ódio, inclinando o corpo sobre a mesa. — Tá abrindo essa boca pra falar o quê? Você nem coragem de se voluntariar teve, seu merda!

​Gustavo deu uma gargalhada curta, reclinando o corpo na cadeira e cruzando os braços, provocando até o limite.

​— Não me voluntariei porque sabia que se fosse pra representar o pelotão e passar vergonha, a gente já tinha você pra cumprir essa função...Mas aqui geral sabe que sou o melhor, o melhor tempo continua sendo o meu.

​Aquilo foi o pavio curto que faltava.

​Vítor deu um passo em direção ao Gustavo.

​— Ah é?! Quero ver se você vai conseguir se destacar amanhã no teste do Rocha, vou te deixar comendo poeira seu vacilão, quero ver se lá você vai ter esse gogó todo — Vítor esbravejou, encarando o Gustavo a centímetros do rosto.

​— QUE PORRA É ESSA AQUI?! — uma voz cavernosa e ensurdecedora rasgou o ar do refeitório, fazendo o silêncio ser absoluto no mesmo segundo.

​O Sargento Rocha cruzou as mesas como uma tempestade. Ele caminhou a passos largos e pesados até a mesa, a fisionomia tão fechada que parecia prestes a explodir. Os outros recrutas se encolheram em suas cadeiras, travados.

​Vítor e Gustavo se calaram de forma instantânea, batendo a continência com as mãos trêmulas e a respiração descontrolada.

​— Os senhores acham que isso aqui é feira livre? — Rocha parou a um palmo da cara dos dois, a voz baixa e carregada de uma ameaça mortal. O olhar dele alternou entre a confusão de suco derramado na mesa e os rostos alterados de Vítor e Gustavo. — Pelo visto, os recrutas têm energia de sobra pra sobrarem em palhaçada no refeitório, mas na hora da disciplina parecem duas mocinhas mimadas.

​— Sargento, ele me provocou— Vitor disse, o tom em puro ódio.

​— SILÊNCIO! — Rocha cortou no ato, o urro fazendo a estrutura de metal do salão ecoar. — Eu não quero saber quem começou, quem terminou ou qual das duas dondocas tá com o orgulho ferido!

​Rocha colocou as mãos nas costas, encarando os dois de cima a baixo com o puro desprezo de quem não tolera indisciplina.

​— Já que o Terceiro Pelotão tá com esse excesso de disposição, eu vou dar uma ocupação digna pra vocês dois — Rocha decretou, cada palavra caindo como uma marretada. — Três dias de faxina pesada. Vão lavar a graxa dos caminhões da garagem, limpar os banheiros do pavilhão central e esfregar o pátio de formaturas de ponta a ponta. Se eu encontrar uma folha fora do lugar ou um fiapo de sujeira... os três dias viram uma semana, e assim sucessivamente. Fui claro?!

​— SIM, SARGENTO! — Vítor e Gustavo responderam em uníssono, a voz baixa e engolindo o orgulho.

​— Cumpram a punição assim que terminarem de comer. E se eu ouvir mais um pio vindo dessa mesa, vão os dois pro alojamento direto pra pagar flexão! — Rocha deu meia-volta, marchando de volta para a saída com passos firmes.

​Dei uma olhada de relance. Gustavo e Vítor se sentaram devagar, sem trocar mais uma palavra sequer, o clima entre eles fervendo de um ódio contido.

Assim que o rancho começou a esvaziar, me levantei da mesa sem fazer alarde. Vi Gustavo saindo sozinho pela lateral do refeitório, arrastando os passos em direção ao alojamento com o indicador estralando de pura raiva da punição.

Apressei o passo, cortando caminho pela galeria coberta até alcançá-lo no corredor dos alojamentos — um trecho estreito e quase deserto àquela hora, onde a sombra das pilastras de concreto nos escondia do pátio principal.

— Gustavo! — chamei em tom baixo, mas firme.

Ele parou de estalo e se virou, com o rosto ainda queimando de raiva e os ombros rígidos.

— O que é, Michel? — ele rosnou, cruzando os braços.

Aproximei-me rapidamente, reduzindo a distância entre nós dois até sentir o calor que emanava do peito dele. Olhei para os dois lados do corredor antes de encarar o Gustavo diretamente nos olhos, sem dar espaço para o deboche dele.

— Você é idiota ou o quê, Gustavo? — soltei a bronca num sussurro áspero, a voz carregada de uma frustração contida. — Fazer uma provocação idiota no meio do refeitório? Na frente do Rocha, do Mello e para a metade do Batalhão?! Você tá jogando a sua moral no lixo!

Gustavo franziu a testa, surpreso com a minha rispidez, mas a mandíbula dele continuou travada.

— O Vítor tava se achando o dono do pelotão... — ele começou a retrucar, inflamado.

— E você deu exatamente o que o Martins queria! — interrompi, dando um passo a mais e encostando-o levemente contra a parede de alvenaria. Minha mão subiu e segurou a gola da gandola dele com força. — O Martins tá lá fora adorando ver o Terceiro Pelotão se despedaçar sozinho! O Vítor tá cego de raiva e você fica alimentando essa palhaçada só pra provar que tem o melhor tempo? Três dias de faxina pesada, Gustavo! É isso que você ganha por não saber segurar a língua!

Gustavo abriu a boca para responder, a raiva estampada no olhar, mas parou ao sentir a proximidade do meu corpo. A respiração dele pesou, desordenada, alternando entre a raiva do momento e o choque de me ter ali, tão perto e tão assertivo.

— Você precisa parar de dar munição pra esses caras — murmurei, abaixando a voz até virar um sopro quente contra o rosto dele.

Antes que ele pudesse formular qualquer ironia ou rebater a bronca, puxei-o pela gola num movimento rápido e firme. Colei meus lábios aos dele num beijo intenso, impaciente e faminto — um choque elétrico para calar a boca dele e descarregar toda a tensão que vinha sufocando a gente desde o início do dia.

O corpo do Gustavo travou por um milissegundo antes de ele relaxar contra a parede, a mão dele subindo rápido para segurar a minha cintura com força, devolvendo a pressão do beijo com o mesmo desespero contido. Foi rápido. Questão de segundos.

Parti o beijo de estalo, me afastando um passo e soltando o tecido da farda dele. Gustavo ficou encostado na parede, arfando levemente, os lábios entreabertos e os olhos ligeiramente desorientados, sem rastro daquele ar debochado de minutos atrás.

Ajustei a minha farda num puxão rápido e olhei fundo nos olhos dele, recuperando a postura de recruta em um piscar de olhos.

— Agora vai lavar os caminhões — ordenei baixo, com um vestígio quase imperceptível de sorriso no canto dos lábios. — E mantém essa boca fechada até a poeira baixar.

Dei meia-volta e caminhei pelo corredor antes que qualquer um aparecesse, deixando o Gustavo ali sozinho, tentando recuperar o ar e o juízo.

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