"Algumas pessoas entram em nossa vida pela porta da frente; outras reaparecem justamente quando acreditávamos tê-las deixado do lado de fora da memória."
Akira passou o restante daquela manhã convencendo a si mesmo de que conseguiria agir com absoluta naturalidade. Não conseguiu.
Sempre que erguia os olhos dos relatórios espalhados sobre a mesa, encontrava Damiano caminhando pela sala, conversando com outro investigador ou consultando algum documento no quadro de ocorrências. Não havia nada de ostensivo em seus gestos, nenhuma provocação, nenhum sorriso exagerado, e talvez fosse justamente essa ausência de intenção aparente que mais o desestabilizasse. O italiano parecia agir como se a madrugada que haviam dividido meses antes fosse apenas uma lembrança distante, dessas que o tempo transforma em curiosidade.
Akira, entretanto, lembrava-se de detalhes que preferia esquecer. Não do apartamento, nem da cama, mas da tranquilidade com que aquele homem o olhara ao abrir a porta, como se recebesse um velho conhecido, e da estranha sensação de segurança que experimentara por algumas horas, algo que não sentia desde antes da morte de Riku. Era uma lembrança inconveniente. E, por isso mesmo, insistente.
Pouco antes das dez horas, o capitão surgiu na sala carregando uma pasta volumosa.
— Nakamura, Bianchi, venham aqui.
Os dois ergueram os olhos ao mesmo tempo e caminharam até a sala do capitão.
— Temos um caso novo e quero vocês nele.
A pasta caiu sobre a mesa. Tratava-se do homicídio de um empresário encontrado morto em um galpão abandonado às margens do rio Monongahela. Não havia testemunhas, a arma do crime desaparecera e as primeiras equipes não conseguiam estabelecer um motivo plausível.
— Considerem isso o primeiro trabalho da nova dupla. — Disse com um sorriso discreto.
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Durante o trajeto até a cena do crime, o silêncio dominou a viatura. Akira mantinha os olhos na rua. Damiano dirigia com uma serenidade quase irritante. Mas foi ele quem rompeu o silêncio.
— Você continua preferindo observar antes de falar.
Akira virou o rosto.
— Como?
Damiano sorriu de lado.
— Naquela noite... você também agiu assim.
Akira desviou o olhar para o para-brisa.
— Achei que não tocaríamos nesse assunto.
— E não vamos.
Houve uma pequena pausa.
— Só queria dizer que fico feliz por reencontrá-lo.
A resposta demorou. Quando veio, foi quase um sussurro.
— Também fiquei surpreso.
Damiano não insistiu. Voltou a dirigir. E Akira percebeu que aquele homem possuía uma qualidade rara: sabia respeitar o silêncio dos outros. Foi a primeira vez que pensou que talvez tivesse julgado Damiano depressa demais.
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A investigação ocupou toda a tarde. Enquanto outros policiais procuravam vestígios no galpão, Akira observava o cenário quase sem se mover, deixando que os olhos percorressem lentamente cada detalhe. Damiano aproximou-se.
— Encontrou alguma coisa?
Akira apontou discretamente para uma fileira de marcas de lama próximas à parede.
— Essas marcas não pertencem aos policiais.
Damiano ajoelhou-se ao lado delas e sorriu.
— Agora entendo por que o capitão fala tanto de você.
Era um elogio simples. Sem exagero. Mesmo assim, Akira sentiu algo se mover dentro de si. Talvez porque fazia muito tempo que não ouvia alguém reconhecer seu trabalho com tanta naturalidade. Talvez porque viesse justamente do homem que ele tentava esquecer. Ou talvez porque, pela primeira vez desde o funeral de Riku, alguém o olhasse não como um homem quebrado, mas como o excelente investigador que sempre fora.
Quando deixaram o galpão, o sol já desaparecia atrás das pontes de Pittsburgh. Damiano destravou o carro e apoiou um braço sobre o teto.
— Está com fome?
Akira franziu a testa.
— Achei que fosse para casa.
— Eu também.
Damiano sorriu.
— Até perceber que seria um desperdício terminar nosso primeiro dia de parceria apenas com um aperto de mão.
Akira permaneceu em silêncio. Por fim, abriu um sorriso discreto, quase imperceptível, mas verdadeiro.
— Conheço um restaurante italiano perto daqui.
— Então hoje você escolhe.
Damiano fechou a porta da viatura.
— Amanhã será minha vez.
Os dois seguiram juntos pela avenida iluminada pelo fim da tarde, sem imaginar que aquela conversa aparentemente banal seria o primeiro passo de uma história capaz de transformar para sempre a vida de ambos.
Damiano abriu a porta do carro para que Akira entrasse primeiro, mas, por um instante, não se afastou. O espaço entre os dois era mínimo. Pequeno o suficiente para que Akira percebesse o cheiro leve de café e couro vindo dele. Pequeno o suficiente para que o silêncio deixasse de ser apenas silêncio. Damiano sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário.
— Você ainda faz isso — murmurou.
— O quê?
— Finge que não percebe quando alguém está te observando.
Akira não respondeu de imediato. Porque, naquele momento, percebeu que não era apenas observado. Era lido.
Damiano inclinou levemente a cabeça, como se estivesse prestes a dizer algo mais pessoal — algo que não cabia naquele contexto de trabalho, nem naquele primeiro dia de parceria. Mas não disse. Em vez disso, apenas abriu um sorriso curto, quase contido, e deu um passo para trás, quebrando a proximidade.
— Vamos jantar, detetive Nakamura.
E, pela primeira vez naquele dia, Akira sentiu que, apesar da complexidade do caso, havia algo estranhamente reconfortante na presença do homem ao seu lado.
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O restaurante ocupava a esquina de uma rua estreita do bairro de Shadyside, longe do movimento intenso do centro. Não era sofisticado o bastante para impressionar alguém, nem simples a ponto de parecer improvisado. Havia fotografias antigas da Toscana espalhadas pelas paredes de tijolos aparentes, garrafas de vinho alinhadas em prateleiras de madeira escura e uma iluminação baixa que fazia as conversas parecerem naturalmente mais íntimas.
Damiano cumprimentou o proprietário pelo nome.
— Você vem sempre aqui? — perguntou Akira, acomodando-se à mesa.
— Sempre que quero comer bem e evitar lugares barulhentos.
Akira arqueou discretamente uma sobrancelha.
— Achei que italianos fossem obrigados a dizer isso de qualquer restaurante italiano.
Damiano soltou uma breve risada.
— Nós realmente somos.
Foi a primeira vez que Akira o ouviu rir daquela maneira. Não era uma gargalhada. Era um riso baixo, contido, que desaparecia tão rapidamente quanto surgia, como se estivesse acostumado a economizar até as próprias demonstrações de alegria.
O garçom aproximou-se. Damiano pediu um vinho tinto. Akira recusou educadamente.
— Ainda evita bebida?
A pergunta veio sem julgamento.
— Faz alguns meses.
Damiano apenas assentiu, mas não perguntou o motivo nem comentou a resposta. Apenas mudou de assunto. E, curiosamente, foi justamente esse cuidado que fez Akira sentir vontade de explicar.
— Eu estava bebendo demais depois da morte do meu irmão.
Damiano permaneceu em silêncio. O nome de Riku não foi mencionado. Não era necessário. As palavras bastavam. Durante alguns segundos, apenas o tilintar distante dos talheres ocupou o espaço entre eles. Então Damiano falou, olhando para a própria taça.
— Perdi meu pai quando tinha vinte e três anos.
Akira ergueu os olhos. Era a primeira informação realmente pessoal que recebia dele.
— Morreu de infarto.
Damiano girou lentamente o vinho.
— Achei que existissem despedidas para as quais a gente pudesse se preparar. Descobri que não existem.
Akira não respondeu. Mas, pela primeira vez desde que voltara ao trabalho, sentiu que não era o único homem naquela mesa carregando cicatrizes invisíveis.
A conversa mudou naturalmente para assuntos mais leves. Falaram sobre filmes policiais, sobre cafés espalhados por Pittsburgh, sobre a dificuldade de encontrar um bom espresso nos Estados Unidos e até sobre futebol, assunto no qual Damiano admitiu entender muito menos do que qualquer italiano deveria. Akira percebeu que ria mais do que imaginava ser capaz. E isso o assustou um pouco.
Havia semanas em que mal conseguia sustentar uma conversa de cinco minutos com o psiquiatra. Agora, sem perceber, já estava há mais de uma hora diante daquele homem.
Quando deixaram o restaurante, a noite havia tomado conta da cidade. As pontes iluminadas refletiam-se nas águas escuras dos rios, enquanto uma brisa fria atravessava as ruas quase vazias. Os dois caminharam em silêncio até o estacionamento. Não era um silêncio constrangedor. Era o tipo de silêncio que duas pessoas dividem quando descobrem que não precisam preencher cada segundo com palavras.
Antes de entrar no carro, Damiano olhou rapidamente para Akira.
— Obrigado por aceitar o convite.
Akira demorou um instante para responder.
— Acho que eu é quem deveria agradecer.
Damiano sorriu discretamente.
— Então estamos empatados.
No caminho de volta, Akira observava a cidade pela janela. Sem que percebesse, sua atenção já não estava nas luzes de Pittsburgh. Estava na voz calma do homem que dirigia ao seu lado, na forma como ele parecia compreender os silêncios sem exigir explicações e, sobretudo, na estranha sensação de paz que sua presença provocava. Há muito tempo Akira não permitia que alguém se aproximasse tanto.
Ao fechar a porta do apartamento naquela noite, Akira compreendeu uma coisa: fazia muito tempo que alguém não lhe despertava vontade de voltar a vê-lo no dia seguinte. Sorriu discretamente para si mesmo. Era um pensamento simples e inofensivo. E justamente por isso não percebeu que, às vezes, é assim que as grandes mudanças começam.
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