Eu decidi que vou dancar com Bira.
Ele é uma boa pessoa, deveria dar uma chance de conhecê-lo.
Eu pego a mão dele e seguro e enrosco a outra mão pelo abdômen dele e digo: Eu adoraria!
Ele então se abraça a mim e eu a ele e começamos a dançar agarradinhos no ritmo da música lenta e ideal para o sentimento que parece estar nascendo ali. Pisei algumas vezes sem querer nos pés dele enquanto dançávamos. Ele fazia uma feição de dor, mas continuava com o seu sorriso estampado no rosto. Um amor ele, né?!
Quando a música acabou nós estávamos com a cabeça no ombro um do outro. Então sinto uma das suas mãos descer pela minhas costas. Até aí tudo bem até que desliza-a até a minha bunda, e começa a apertar.
Apesar de ter curtido a mão dele na minhas nádegas, novamente uma orientação da minha vó vem a minha mente: "Mas tome cuidado! Você sabe que pode sofrer preconceito ou ser cantado". Eu quero partir pro sexo, mas eu quero amor primeiro. Fazer sexo sem fazer amor é apenas vontade! Hora de impor limites.
EU: Bira, por favor, não faça isso.
BIRA: Eu sei que você quer! Vamos nos divertir, não precisa significar nada.
Como é que é? Então quer dizer que o sexo pra ele é só diversão? Eu me imagino fazendo amor com um cara, não apenas sexo. Parece meio piegas se apegar ao amor em tempos de sexo e prazer, mas esse sou eu, que prezo o amor antes do sexo. E não acredito que Bira me transformou em um objeto de prazer sexual temporário!
Me soltei dele, mas ele se pôs em minha frente.
EU: Por favor Bira, me deixa ir embora. - Bira voltou a segurar os meus braços com força, como que tentasse me impedir de sair dali. Mas ele estava bêbo bêêbo...
BIRA: Para de frescura e bora pra minha casa. Eu te enrabar gostoso e você vai tomar vara e vai receber leitinho quente...
Quem era ele e o que fez com o Bira que conheci no ônibus? Se antes eu tava surpreso com a atitude dele, agora eu estou com um nojo imenso e a lembrança da minha infância que tanto lutei para esqueçer voltou. Começei a chorar compulsivamente.
Olhei para ele com o ódio mais profundo que possuia no meu coração e saí daquela boate, sem dizer mais nenhuma palavra.
As pessoas que estavam ao redor de Bira e de mim pararam de dançar e começaram a acompanhar a "cena". Saí daquela boate tão humilhado quanto uma vítima de estupro de vunerável. Eu sentei no passeio da boate e desabei em lágrimas, como se elas me ajudassem a aliviar a dor que estava sentindo.
Escuto vozes familiares se aproximando de mim. Era a Hellen e o Juan.
HELLEN: Paulo! ... Oh Paulo, me desculpa pelo que aconteceu. Eu deveria ter te acompanhado na boate. Fui uma péssima companhia.
Eu só fazia chorar. Hellen se aproximou e sentou-se ao seu lado e comecou a me abraçar ali no chão mesmo. Pela primeira vez me senti protegido nos braços de alguém diferente da minha avó. Juan fez o mesmo comigo, só que se sentado do lado oposto de Hellen. E ficou assim por quase quinze minutos: os dois me abraçando e tentando me acalmar, me proteger daquela situação que passou dentro daquela boate.
Não conseguia nem raciocinar direito, só a dor me dominava. Depois dos quinze minutos, eu já tinha me acalmado. Pedi pra Hellen que não me levasse para casa, para que a minha vó não me visse naquele estado deplorável. Então ela me leva para a casa dela. Eu entrei com a ajuda do Juan e fui para um quarto com uma cama grande. Me deitei e acabei dormindo, depois de alguns minutos soluçando.
Acordei na mesma manhã, já que era de madrugada que cheguei lá. Eu acordei sendo abraçada por Hellen, que era abraçado por Juan. Com cuidado, consegui sair dos braços dela e saí do quarto. Fiquei surpreso ao olhar: estava em um casarão, uma mansão requintada para ser mais preciso.
Fiquei dizendo "Uau" baixo quando olhava para o ambiente, a decoração e os móveis e eletrodomésticos. A Hellen, ou a sua família, era rica.
Eu descia por uma escadaria que ligava os quartos para a sala, no térreo.
Quando estava na sala de estar, eu vi umas empregadas ajeitando a mesa na sala de jantar. Quando me viu, uma delas falou comigo:
EMP01 - O senhor é o Paulo?
EU: Sim, sou.
EMP01 - A Hellen pediu para avisar que iria acordar tarde, por isso já deixou pronto o seu café da manhã.
EU: Obrigado.
A empregada me levou até a sala de jantar. Nossa! A sala de jantar dela é maior que a minha casa. Fiquei impressionsado com tamanho luxo. Mas precisava tomar café. Assim o fiz.
Depois liguei para a minha vó e avisei que dormi na casa de uma amiga. Ela entendeu e já me esperava em casa. Então me despedi dos empregados e saí da mansão. E fui para um ponto de ônibus para voltar pra casa.
Peguei o ônibus de uma empresa diferente da que ele rodava. Ainda chocado pelo que aconteceu, mas acho melhor pensar nisso em casa, para não voltar a chorar dentro de ônibus.