AMOR DE PESO - 01X22 - A CERIMÔNIA DA CONFUSÃO

Da série AMOR DE PESO
Um conto erótico de Escrevo Amor
Categoria: Homossexual
Contém 4575 palavras
Data: 07/11/2016 20:28:20
Última revisão: 04/03/2025 07:24:50

Antes do conto quero me desculpar, a minha vida tá uma correria. Com as eleições, feriados e afins, não conseguia terminar o conto. Então desculpem mesmo. Espero que entendam. O próximo capítulo de 'Amor de Peso' será na próxima semana. Espero que gostem:

Pai e mãe,

Nunca quis ser uma pessoa ruim nem machucar quem estava ao meu redor. Diogo, Alicia, Brutus, Ramona e Letícia foram afetados por todas as escolhas que fiz.

***

Lá estava eu, deitado no chão sujo da festa. Brutus me levantou, perguntou se eu estava bem e tentou seguir Diogo, mas eu o impedi e disse para deixar quieto. Afinal, eu mereci aquele empurrão. Deveria ter conversado com Diogo desde o primeiro dia em que fiquei com Zedu. Eu não sabia o que fazer. Comecei a chorar.

Manaus trouxe coisas ótimas para mim. Entretanto, veio um combo de confusão. Brutus se provou um ótimo amigo, e andamos até a área externa da casa de Ramona. Sentamos na calçada mesmo. Para minha surpresa, Brutus estava com uma garrafa de vodca na mão.

— Podemos passar o resto da noite aqui? — perguntei, encostando minha cabeça no ombro de Brutus.

— Podemos. Afinal, você quebrou o som do Bernardo. E só por isso ganhou mil pontos comigo — ele respondeu, tomando um gole de vodca.

— O Bernardo? O que tem ele?

— Tentou seduzir a Ramona.

— Aaah, cara, sério? Você e a Ramona?

— E você e o Zedu? Como eu não percebi isso? Grandão, eu sou um lixo de amigo. Não imagino o que tem sido para o Zedu. Desculpa.

— Tudo bem, Brutus. Você é um ótimo amigo — falei, pegando a garrafa de vodca e tomando um gole.

— É engraçado essas merdas que acontecem, né? — ele comentou, rindo e coçando a cabeça.

— Brutus! — exclamei, tomando um gole generoso e fazendo uma careta. — Eu ainda não cheguei na parte engraçada, mas assim que chegar, te aviso — disse, tomando outro gole.

— Ei — ele me repreendeu, tomando a garrafa da minha mão. — Vai devagar, grandão.

Do lado de dentro, Bernardo e Ramona tentavam dar um jeito de ligar a caixa de som, enquanto Letícia passava mal no banheiro e era amparada por Arthur. Alicia, aproveitando a distração de todos, encontrou Zedu escondido no escritório.

A patricinha não conseguia acreditar que Zedu havia se apaixonado por um homem. Ainda por cima, um homem gordo. Aquele fato não entrava na cabeça dela. De repente, Alicia se tornou uma metralhadora de ofensas.

— Zedu, eu nunca fui tão humilhada. E logo com um gay e gordo... um gordo!!! — gritou Alicia, andando de um lado para o outro.

— Cala a boca. Não fala assim dele. A culpa é minha — Zedu tentava manter um tom de voz baixo.

— Vai defender o namoradinho?! Ele é um gordo ridículo. Zedu, pelo amor de Deus, o que as outras pessoas vão pensar? A tua reputação...

— Que reputação? Eu tenho 17 anos, estou no ensino médio e sou gay. Desculpa se te machuquei. Eu não quero mais viver com medo, Alicia. E se você realmente me ama, por favor, apenas aceita.

— Quer saber? Vai à merda, Zedu. Espero que tu sejas infeliz com esse gordo ridículo. Vocês se merecem — disse, saindo do escritório e batendo a porta com violência, deixando Zedu aos prantos.

O amor pode superar vários preconceitos. Por exemplo, Arthur é cheio de frescura, mas, enquanto a namorada vomitava no banheiro, ele segurava os cabelos dela. Letícia estava fora de si. Queria dançar, só que sua situação não cooperava.

— Arthur, pega o meu remédio. Estou com dor de cabeça. Está na bolsa — pediu Letícia, sentando no chão do banheiro.

Segredos não são bons para os relacionamentos. Zedu e eu aprendemos isso da pior maneira. Arthur ficou surpreso ao ver o frasco de seu remédio na bolsa da namorada. Então, percebeu os sintomas dos efeitos colaterais do medicamento.

Ele segurava o cabelo de Letícia enquanto ela vomitava no banheiro. Ela disse que estava com muita dor de cabeça e pediu para o namorado pegar seu remédio. Arthur abriu a bolsa de Letícia e encontrou seu frasco de remédio.

— O que significa isso?

— O quê? — Letícia, ainda no chão, não conseguia olhar para Arthur, pois sua visão estava turva.

— O que você está fazendo com o meu remédio? — perguntou Arthur novamente, dessa vez, com um tom mais urgente.

— Você deixou na minha bolsa, então tomei por causa da minha dor de cabeça. Que remédio é esse?

— Letícia, você está muito bêbada e toda vomitada. Vamos? — Ele guardou o remédio no bolso e ajudou a namorada. — Vou te levar para o quarto da Ramona.

— Eu não estou bêbada — reclamou Letícia, levantando-se com dificuldade.

— Imagina, Joana Cana Brava.

"Quem acredita sempre alcança", como diria o saudoso Renato Russo. Após quase uma hora tentando reconectar os cabos dos aparelhos de som, Bernardo e Ramona decidiram se divertir. Minha amiga correu para a pista de dança quando tocou Raise Your Glass, da Pink.

Engraçado como o estresse pode ser diluído através da dança. Um fato sobre Ramona? Ela amava seus amigos e tudo, eu disse tudo, a afetava. Então, usava a música para aliviar a tensão. Bernardo teve dificuldades para acompanhar seu ritmo, mas não desistiu.

Finalmente, ele conseguiu conectar os cabos que eu desliguei, mas, depois do barraco, as pessoas preferiram comentar do que se divertir. Ramona foi para a pista de dança com o DJ para tentar animar o povo.

— Gente, ainda estou surpresa com Zedu e Yuri — comentou Ramona, após arrasar na pista de dança.

— Isso é um problema para você? — ele perguntou.

— Claro que não. Eu amo os dois. Quero que sejam felizes — afirmou Ramona, pegando um copo de caipirinha e tomando um gole.

— Ramona — Zedu pegou no ombro da amiga. — Você viu o Yuri?

— Zedu — Ramona percebeu uma alteração no olhar do amigo. — Ei, calma — pediu, limpando as lágrimas de Zedu. — Vamos para o escritório do papai.

Eu não tinha mais nada para fazer além de encher a cara. O Brutus foi primordial nessa missão, pois conseguiu mais álcool. Enquanto abríamos uma garrafa de vinho, Alicia apareceu e começou um pequeno barraco.

Sabe aquele momento em que você está tão bêbado que esquece como se fala? Alicia me xingava de todos os nomes possíveis e imagináveis. Eu apenas concordava com a cabeça e, vez ou outra, bebia um pouco de vinho. O Brutus fazia caras e bocas.

— Pode ficar com ele. Vocês dois se merecem. Espero que peguem AIDS. Espero que morram. — esbravejou Alicia antes de me dar um tapa no rosto. — Vai pro inferno, Yuri. — Disse isso ao se dirigir a um carro preto, provavelmente um Uber.

Como forma de consolo, o Brutus me entregou outra garrafa de vinho. Sentamos e voltamos a falar sobre nossas vidas amorosas complicadas. Tá, o Brutus é devagar. Se eu fosse bonito como ele, já teria feito da Ramona minha namorada. Apesar de bêbado, procurei dar bons conselhos para o meu amigo fortinho.

Dentro do escritório, era a vez de Ramona aconselhar Zedu. Ele chorou, abraçado à amiga. Aos prantos, garantiu que não tinha a intenção de machucar ninguém. E adivinha como Ramona decidiu lidar com a situação? Álcool.

— Toma. — Ela entregou a garrafa para Zedu. — Essa é boa.

— Valeu. — Zedu tomou e não fez careta. — Os olhos do Diogo... — Bebeu mais um gole. — Ele estava muito decepcionado.

— Infelizmente, algumas pessoas saíram machucadas, Zedu. — Ramona pegou a garrafa, tomou um gole, fez careta e respirou fundo. — Por que vocês não contaram para a gente?

— Medo, eu acho. Medo de que as coisas mudassem. O Brutus surtou quando descobriu que o Yuri era gay.

— Agora, a pergunta que não quer calar: como? — questionou Ramona, pegando na mão de Zedu.

— Eu amo o Yuri. Amo desde a primeira vez que o vi. Estávamos praticando slackline na praça quando ele passou de carro por nós. Parecia triste, a cabeça pressionada contra o vidro. Ele estava lindo. — Pegou a garrafa e bebeu novamente.

— Zedu... Isso faz quase seis meses. — Ramona lamentou, triste por não ter percebido a luta interna do amigo. — Posso te contar um segredo?

— Claro.

— Eu sou apaixonada pelo Brutus. — anunciou Ramona, intrigada pelo riso que Zedu soltou.

— Alerta de spoiler: ele te ama também. — revelou Zedu, arrancando um sorriso tímido de Ramona.

— Sério?

— Sim. Só não entendo o que falta para vocês ficarem juntos. Não aguento mais ouvir o Brutus falar sobre você.

— Bem... Espero que ele me convide para o baile.

— Ramona. — Zedu falou com a voz rouca. — Obrigado.

— Pelo quê?

Zedu pulou e abraçou Ramona de uma forma tão pura que a amiga não conseguiu segurar as lágrimas. Os dois choraram por quase dois minutos. Zedu confessou que estava com medo de enfrentar sua família, então Ramona lhe deu o melhor conselho possível.

— Zedu, entenda uma coisa: todo mundo tem o seu tempo. Se você não está preparado, ninguém pode te julgar. Além disso, seus pais te amam. Eles vão entender. Se quiser, podemos ir com você. Lembre-se: você não está sozinho. — Ela disse, limpando as lágrimas de Zedu e beijando sua testa.

Mesmo com o contratempo, a festa continuou até altas horas. Ramona, Bernardo e Arthur tentaram organizar tudo da melhor forma possível. Bebidas jogadas no chão, vômito de todos os tipos, vidros quebrados e o sofá detonado... Sim, minha amiga prometeu que jamais daria outra festa na vida.

No dia seguinte, acordei com uma dor de cabeça fora de série. Por alguns minutos, esqueci tudo o que tinha acontecido, mas a realidade, a doce realidade, sempre bate mais forte. O Brutus me usou como travesseiro, pois desmaiei no sofá, Ramona descansava encolhida em um canto da sala e Bernardo estava jogado no chão.

Ainda zonzo por causa da ressaca, Zedu saiu cambaleando da casa de Ramona. Ao entrar em casa, encontrou a mãe preparando o café. Gentilmente, Teodora pediu para ele se sentar à mesa antes de subir para o quarto. O coração de Zedu acelerou, quase se tornando uma bateria de escola de samba.

Um pouco desconfortável, ele sentou na cadeira e ficou observando a mãe servir seu café. "Ela me ama", pensou Zedu, na esperança de receber uma reação positiva de Teodora. Enquanto tomava um gole do café, ele não resistiu e começou a chorar.

— O que foi, meu filho? — Teodora perguntou, assustada com a reação de Zedu.

— Nada. — Ele mentiu, levantando-se e indo em direção ao quarto.

— José Eduardo? — Teodora o chamou, seguindo-o e segurando seu braço. — Meu filho, o que houve? Aconteceu alguma coisa?

Cansado de carregar um fardo tão pesado, Zedu abraçou a mãe e chorou. Nos últimos dias, ele se sentiu um verdadeiro lixo por esconder seus sentimentos.

Com calma, Teodora pegou na mão do filho e o levou para a sala. Sentou-se e fez Zedu deitar em seu colo. Com toda a delicadeza do universo, acariciou os cabelos do filho e lembrou-se da época em que ele era apenas um bebê.

— Zedu, você sabe que pode contar tudo para a mamãe, né? — Teodora queria garantir que o filho confiasse nela. — Então, conta, por favor, o que você fez?

— Mãe, desculpa. Eu... eu sou gay.

Três letras. Três letras que, para algumas pessoas, podem ser insignificantes, mas que, para José Eduardo, significavam o mundo. Por um segundo, Teodora parou de acariciar os cabelos dele. Zedu esperou uma bronca ou uma ameaça.

Assim como o filho, Teodora tinha expressões fáceis de desvendar. Ela tirou os óculos de grau, limpou a garganta e deu um beijo na testa dele. Esse gesto, um simples gesto de amor, fez Zedu chorar como uma criança. Seu fardo já não parecia tão pesado, e uma ponta de esperança surgiu no horizonte.

— Há quanto tempo você sabe disso?

— Mãe, eu sempre soube, mas evitava. — Zedu confessou pela primeira vez.

— E a Alicia?!

— Eu meio que contei para ela. — Zedu levantou-se e pegou na mão de Teodora. — Mãe, desculpa. Você não vai me expulsar de casa ou pedir para eu esconder meus sentimentos, vai? Eu não sei se conseguiria.

— Bem, meu filho, não vou negar que estou surpresa. Eu... eu não imaginava que você fosse gay. Mas, por favor, pare de chorar. Estou do seu lado. Você é um jovem amoroso, bom estudante, responsável e só me deu alegrias. Ser gay não é uma vergonha.

— Tenho medo da reação do papai — explicou Zedu, ainda segurando as mãos da mãe.

— Tudo isso vai se resolver no seu tempo. Agora, quero que você se sente à mesa e tome seu café. — Ela se levantou e estendeu a mão para Zedu. — Você sempre será o meu bebê, não importa o que aconteça.

— Obrigado, mãe.

Enquanto Zedu estava feliz, eu caminhava para casa com ressaca... moral. Entrei sem chamar a atenção de ninguém. Minha tia bateu na porta e, como sempre, perguntou se estava tudo bem. Apenas respondi que sim e avisei que dormiria o dia todo. Na verdade, chorei a maior parte do tempo. A expressão do Diogo me pegou de jeito. Por que tive que mentir? Ele merecia a verdade.

No almoço, desci e encontrei todos na sala de jantar. Eles estranharam minha expressão e fizeram diversas perguntas. Depois que meus irmãos subiram para seus quartos, contei a verdade para a tia Olívia, que desaprovou a reação de Diogo.

— Eu não tiro a razão dele — tentei amenizar o ato do Diogo. — Tia, eu fui o culpado. Poderia ter evitado tudo sendo verdadeiro.

— E o Zedu?

— Não sei. Ele se preocupa tanto com a reação dos outros... Eu o entendo, já estive nesse lugar de dúvida.

— Quer que eu faça algo?

— Eu joguei a merda no ventilador, então preciso limpar. Não se preocupe, eu estou bem. Obrigado por ficar do meu lado, mesmo quando estou errado — agradeci, abraçando-a.

Saí tão apressado da casa de Ramona que nem me despedi. Ela e alguns convidados tiveram que limpar a casa em tempo recorde. Na hora do almoço, Brutus a convidou para um restaurante regional. Eles comentaram sobre o escândalo que protagonizamos na festa.

— Ramona, eu sei que você está preocupada com a minha reação por causa do Yuri e do Zedu, mas estou de boa, juro. Não imagino o que está passando na cabeça deles, porém, eles têm 100% do meu apoio.

— Eles acham que a gente não aprovaria?

— Sim. Deixei claro para o Yuri que o Zedu é meu irmão e que nunca o deixaria de lado — garantiu Brutus, deixando Ramona toda orgulhosa. — Os comentários na escola vão ser pesados, precisamos ficar ao lado deles, principalmente do Zedu.

— Disse tudo. Tenho certeza de que a Alicia vai fazer algo.

Na história dos heróis, os vilões sempre se escondem em um lugar secreto para armar contra os mocinhos. Naquela tarde de domingo, João, Lucas e Alicia se reuniram para colocar um plano em ação. Algo que me prejudicaria diante de todos na escola.

A ideia era aproveitar a premiação que aconteceria na segunda-feira. Eles pensaram em várias possibilidades de me humilhar até que Alicia sugeriu uma brincadeira que viu em um filme antigo. João e Lucas ouviram cada palavra com atenção; estavam dispostos a acabar comigo... Quer dizer, quase todos.

— Cara, o Yuri pode se machucar. A gente pode fazer outra coisa — sugeriu Lucas, vendo que João estava obcecado por mim.

— O gordo merece sofrer — afirmou João, batendo na mesa com a mão direita.

— Queridos João e Lucas, meu motivo para vingança é óbvio, mas onde vocês entram nessa história? — perguntou Alicia, pois não via motivo para tanto ódio.

— Odiamos aquele gordo. Isso basta.

— Enfim, acho que deveríamos chamar o Diogo. Afinal, ele também foi traído — sugeriu Alicia. — Vou mandar uma mensagem para ele.

Sim, eu não sabia, mas havia reunido um fã-clube com um único objetivo: acabar comigo. Alicia contou todo o plano para Diogo, que demorou a responder, mas, no fim, topou ajudar na armação de João. O que um coração machucado não faz, né?

Algumas pessoas dizem que a ignorância é uma bênção. Eu não tinha ideia do que me esperava, então, até aquele momento, minha única preocupação era acabar com a ressaca. Desci para a cozinha e tomei um litro de água. Em seguida, fui para a sala e comecei uma sessão solo de cinema.

Depois de muito zapear pelos canais, decidi conectar meu celular e assistir a uma animação da Disney. Escolhi A Princesa e o Sapo porque adoro a história da Tiana, uma das minhas princesas favoritas. O Richard chegou de um aniversário e se juntou a mim. Não demorou para a Giovanna aparecer.

Cantamos todas as músicas do filme. Minha preferida é Quase Lá, um solo perfeito. Na canção, Tiana explica para a mãe que vai correr atrás dos seus sonhos e que nada ficará em seu caminho. Eu queria tanto ter essa coragem e determinação...

— Tiana nunca decepciona — comentou Giovanna quando o filme acabou. — Ei, seus bobões. Vocês já decidiram? — perguntou, nos deixando sem entender.

— O quê? — respondeu Richard, confuso.

— Vocês sabem. As férias estão chegando. A gente vai para a casa da vovó?

— Não! — Richard e eu respondemos juntos, o que fez Giovanna rir.

— Ainda bem — disse ela, levantando-se do sofá e parando à minha frente. — Não aguentaria.

— A titia tem nossa guarda total. Então, fiquem despreocupados — afirmei.

Não deve ser fácil abrir mão dos seus sonhos por causa da família. Eu sabia que o maior desejo da tia Olívia era fazer um intercâmbio, mas, após a morte dos meus pais, ela precisou ser adulta e cuidar de nós. Acho que nunca conseguirei expressar minha gratidão, então tento sempre ajudar em casa. Como naquela tarde, quando, apesar da ressaca, fiquei de babá dos pestinhas.

Afinal, depois de uma semana de trabalho, tia Olívia merecia curtir o namorado. Eles decidiram jantar fora e, mais uma vez, a titia pagou a conta do restaurante. No caminho de volta, Carlos parecia um pouco impaciente.

— O que meu bebê tem? — quis saber tia Olívia, fazendo uma voz infantil.

— Nada — respondeu Carlos, sem tirar os olhos do tráfego.

— Carlos, pode confiar em mim. O que está acontecendo?

— Essa situação — Carlos parou por um minuto, mas foi cortado pela titia.

— Qual situação?

— Você está gastando seu dinheiro comigo.

— Sério? — questionou tia Olívia, pensando bem antes de responder. — Carlos, eu não sou uma donzela em perigo. Não vejo problema em pagar uma conta, muito pelo contrário, isso só mostra que sou independente.

— Eu sei, mas você é minha namorada.

— Vamos fazer assim: que tal a gente rachar as contas? — sugeriu tia Olivia.

— Fechado. Não quero que você pense que sou um homem das cavernas. Amo ver sua independência, apenas queria te agradar também. Afinal, estamos em um relacionamento.

***

No dia seguinte, peguei carona com a tia Olivia. Não queria ver meus amigos, principalmente o Zedu. Cheguei cedo à escola e avistei Alicia conversando com a tia Ray, a zeladora. Passei direto, entretanto, senti o raio de ódio mortal que ela lançou contra mim. Para piorar a situação, esbarrei em João na porta do auditório.

— Olha só, se não é o balofo pegador. Só para avisar que eu não fico com obesos — desdenhou João, com seu típico comportamento escroto.

— Sério, João? Vai querer perturbar logo de manhã?

— Estou de bom humor hoje — disse, passando e esbarrando em mim. — Espero não pegar nenhuma DST.

— Ridículo — respirei fundo e segui para um dos assentos disponíveis. — Quero que esse dia acabe logo — pensei, enquanto pegava o celular e lia várias mensagens dos meus amigos. — Caramba. Eles esperaram por mim.

Como disse mais cedo, um coração ferido pode fazer coisas ruins. Diogo chegou e procurou Alicia. Ele pediu que eu não me machucasse com a brincadeira. Eles foram surpreendidos por João, que já havia preparado a armadilha. O único preocupado o suficiente para desistir era Lucas. Ele implorou para João desistir, mas a resposta foi negativa.

— Você é fraco, Diogo. Até o idiota do Lucas desistiu do plano. O Yuri merece pagar pelo nosso sofrimento. Ele será humilhado na frente de todos! — esbravejou Alicia, que estava com sangue nos olhos.

— Já posicionamos tudo. Quando você fizer o lance, Alicia, eu solto o cartaz — explicou João, soltando um riso nervoso.

— Que cartaz? — questionou Diogo, ficando preocupado com a magnitude do trote.

— Você vai ver.

Aliviado com a aceitação da mãe, Zedu apareceu disposto a fazer as pazes comigo. Ele não queria mais viver uma mentira. Foram 17 anos se escondendo, se privando de amar e ser amado. Não existe sentimento pior do que o medo. E aquilo não fazia mais parte da vida dele.

Evitei tanto os meus amigos que acabei esbarrando com eles quando saí para tomar água. Sabe aquele momento constrangedor em que ninguém fala nada, mas todos se olham? Eu sei. Brutus até tentou quebrar o gelo, mas a piada não funcionou. Respirei fundo, contei até três e abri meu coração para eles.

— Antes que vocês digam alguma coisa... é... vocês foram os primeiros amigos que eu consegui fazer de verdade. Amigos que não me julgaram por causa do meu peso e nem da minha sexualidade. Eu sinto muito. Desculpem se machuquei alguém com as minhas mentiras, eu não queria.

— Ei, grandão. Respira. Calma — pediu Brutus, pegando no meu ombro e apertando.

— Yuri, infelizmente aprendemos com os erros. Você não confiou na gente, mas somos seus amigos — garantiu Letícia, me abraçando. — Mas quem diria, hein, você e o Zedu? Quero ser madrinha.

— Obrigado, pessoal. Vocês são os melhores, mas não tenho nada com o Zedu. Acho que nunca teremos.

— Como assim? — quis saber Ramona.

— Somos muito diferentes. Enfim, o mais importante nessa história sempre será a amizade de vocês.

É tão bom ter amigos. Brutus estendeu a mão para frente e pediu para fazermos o mesmo. Em seguida, declarou que a nova regra de ouro do grupo seria a verdade. Como eu amo essas pessoas. Eles conseguiram me cativar, cada um com seu jeito especial. Acabei fazendo uma nota mental, escolhendo a qualidade de todos eles.

***

Brutus: bobalhão e medroso, mas com um coração de ouro.

Ramona: amorosa e dona do sorriso mais acolhedor que já vi.

Letícia: não mede esforços para ver a felicidade dos amigos.

***

Nosso momento ternura foi interrompido pela dona Ray, que nos colocou dentro do auditório por causa da cerimônia. Zedu evitava falar com as pessoas, afinal, ele era o assunto do momento nos corredores da escola. Ele trombou com Diogo. Eles ficaram se encarando por um tempo. Então, Zedu tentou dizer algo, mas não conseguiu.

— Ei, José Eduardo — soltou Diogo ao passar ao lado de Zedu. — Se eu fosse você, cuidaria melhor do Yuri. Ele corre risco no auditório.

E então ele seguiu na direção oposta.

— Correndo risco? Namorado? — Zedu parou por um tempo e conseguiu juntar todas as peças da mensagem de Diogo. — Yuri!!! — ele exclamou, correndo em direção ao auditório.

Os alunos homenageados ganharam uma fileira exclusiva. Zedu se aproximou de mim, mas eu fiquei nervoso. Ele se abaixou e disse que precisava conversar comigo. Pedi para resolvermos a situação após a cerimônia. Nós nos assustamos quando a diretora da escola deu início à programação.

O aviso de Diogo despertou o lado protetor de Zedu. Ele sabia que algo aconteceria, mas o quê? Usando toda a sua habilidade de espião, Zedu pegou a câmera de um dos alunos que registrava o evento. A diretora fez um discurso eterno sobre responsabilidade e escolhas. Confesso que, apesar de longo, aquele discurso mexeu comigo.

***

Dois saltos em uma semana

Eu aposto que acha que isso é muito inteligente, não é, garoto?

Voando em sua moto

Observando todo o chão abaixo de você desabar

Você se mataria por reconhecimento

Se mataria para nunca, jamais parar

Você quebrou outro espelho

Está se transformando em algo que não é

***

Sabe quem é o melhor aluno em matemática, português e inglês? Eu. A diretora chamou o meu nome. Os alunos que estavam ao meu lado me parabenizaram. O Zedu prestava atenção em cada um dos meus movimentos. Subi ao palco e recebi três medalhas. Como se a vergonha já não fosse suficiente, a diretora decidiu que os alunos precisariam discursar.

Que situação embaraçosa. Os alunos pareciam impacientes. Vamos ser realistas, né? Ninguém quer passar parte do dia preso em um auditório, ainda mais para ver outros alunos serem homenageados. Pensei nas palavras que queria usar, pois não tinha preparado um discurso legal.

— Oi? — falei perto do microfone, e minha voz ecoou pelo auditório. Eu queria sumir, mas o Yuri corajoso resolveu aparecer. — Mudar para Manaus foi a coisa mais radical que já fiz na vida. Esta terra tão calorosa me recebeu de braços abertos, e pude conhecer o verdadeiro significado da palavra amizade. Sei que muitas pessoas me julgam por causa do meu peso. Houve uma época em que acreditei nos comentários maldosos, que diziam que uma pessoa gorda nunca teria amigos ou encontraria o amor. Mas precisei viajar mais de quatro mil quilômetros para perceber que aquelas pessoas estavam erradas. Hoje, tenho amigos maravilhosos e uma família acolhedora. Eu não sou perfeito, longe disso. Já errei e machuquei pessoas que estão neste auditório. No entanto, errar é humano, e aprendi bastante nos últimos meses. Bem, acho que é isso. Obrigado aos professores e colegas.

***

Não me deixe chapado

Não me deixe seco

Não me deixe chapado

Não me deixe seco

Calando-se na conversa

Você será aquele que não pode falar

Todo o seu interior cai em pedaços

Você apenas se senta aí, desejando que ainda pudesse fazer amor

Eles são aqueles que vão te odiar

Quando você achar que decifrou o mundo

Eles são aqueles que cuspirão em você

Você será aquele que estará gritando

***

Os alunos aplaudiram. Eles aplaudiram o meu discurso. Falei de coração aberto, e eles aplaudiram. Cara, os últimos meses da minha vida foram uma loucura. Primeiro, o meu caso com o Léo. Depois, a paixão não correspondida do Diogo. E, por último, mas não menos importante, o amor pelo Zedu.

Enquanto era acolhido pelos meus colegas de classe, Alicia se posicionou atrás do palco. Ela se lembrou da noite em que me viu beijando o Zedu. No coração dela, o único sentimento que existia era ódio. A pior parte? Eu não tirava a razão dela, só não chegaria ao extremo de me vingar.

— Esse gordo vai pagar! — exclamou Alicia, pegando uma corda e puxando.

***

Não me deixe chapado

Não me deixe seco

Não me deixe chapado

Não me deixe seco

É a melhor coisa que você já teve

A melhor coisa que você já, já teve

É a melhor coisa que você já teve

A melhor coisa que você já teve se foi

***

O João pode ser um idiota, mas é engenhoso. Ele preparou uma armadilha digna de Esqueceram de Mim. Ao puxar a corda, Alicia acionou uma série de mecanismos que derrubaram um balde cheio de gosma verde e camisinhas usadas na minha cabeça.

— Yuri!!! — gritou Zedu.

No mesmo momento, um cartaz se abriu no meio do auditório:

"YURI, GORDO E VIADO. CUIDADO, SE FICAR COM O YURI, USE CAMISINHA."

Os alunos ficaram em choque. O único que ria era o João, mas, aos poucos, alguns alunos começaram a rir também.

Eu não conseguia enxergar nada. A meleca verde dificultava minha visão. Dei dois passos, mas acabei escorregando. Fiquei deitado no chão e abracei a humilhação. A diretora tentou me ajudar, mas acabou se caindo no chão. O silêncio mortal durou pouco, e o auditório virou uma baderna.

***

Não me deixe chapado

Não me deixe seco

Não me deixe chapado

Não me deixe seco

Não me deixe chapado

Não me deixe chapado

Não me deixe seco

***

— Me perdoa, Yuri. — Diogo pediu aos prantos, sentado do lado de fora do auditório.

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Comentários

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cara não sei o que é mais lindo, teu gosto musical ou tua criatividade haha nota dez radiohead e oasis melhores bandas

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Acho que de todos os lugares da internet esse é o último que eu achava que encontraria uma música do Radiohead, hahaha. the bends: melhor album!

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Nossa, vc me matou do coração com essa sua ausência, viu !! Não faz amis isso com seus leitores

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Cara seu conto está incrível muito bem escrito você tá de parabéns👏 mas agora eu acho que o Yuri tem que tomar uma posição e ser mais objetivo ter mais certeza do que ele quer! Beijos você tá de parabéns💋

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GRANDE IDIOTA ESSE DIOGO. YURI TEM QUE DEIXAR DE SER BABACA E VIVER A VIDA AO LADO DO SEU AMOR QUE É O ZEDU. O RESTO QUE SE DANE. AS PESSOAS FALAM POR BEM OU POR MAL. ENTÃO DANE-SE. PARE DE TER AUTO PIEDADE YURI. ISSO TÁ FORA DE MODA. O NEGÓCIO É IR A LUTA. CABEÇA ERGUIDA.

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nota DEZ cara, já estou ansioso pelo proximo capitulo.

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