Ao sair da sala, com um indisfarçável sorrisinho maroto contido por causa beijinho que acabara de mandar para meu maquiador, fui surpreendida por Renata no corredor, me olhando e rindo:
- Posso saber o que foi aquilo?! - perguntou, mal segurando o riso.
- A-aquilo o que? - tentei me fazer de desentendida.
- Aquilo de quase beijar o Ronaldo, flertar flagrantemente e ainda na saída mandar beijinho e dar tchauzinho de miss...
- O que???
Tentei fazer uma cara de espanto misturada com ultraje, mas artes cênicas nunca foram o meu forte, então logo desisti do teatro e admiti:
- Olha, Rê, não sei o que está acontecendo, mas, assim como me prometeste, isto está sendo bem menos enfadonho do que eu havia imaginado.
Renata ficou me olhando meio perplexa. Esboçou uma pergunta, interrompeu-se, olhou para o chão, balançou a cabeça e rindo, disse:
- Enfim... bóra colocar o vestido então, safadinha...
- Só se for agora! - falei aliviada, sabendo que aquela situação estava mais embaraçosa do que o previsto.
Fomos correndo até a salinha onde estavam nossos trajes, onde encontramos Luciana já vestida, fazendo caras e bocas para o espelho:
- Desculpem, meninas, mas vocês demoram demais. Faz meia hora que estou aqui prontíssima para partirmos. Mas antes disso, proponho mais um brinde. Garçom! - gritou, estalando os dedos.
De pronto entrou um atendente do salão, visivelmente ultrajado por estar sendo chamado daquela forma, com uma garrafa de champagne e três taças.
- Lu, você não acha que já bebeu demais? - perguntou Renata, um pouco receosa.
- Não. Acho que bebi de menos. - respondeu, antes de gargalhar.
Renata me olhou meio que indagando o que deveríamos fazer. Eu, com o olhar, respondi que não fazia ideia. Então juntamo-nos à Lu, enchemos nossas taças, brindamos e bebemos.
Aos poucos fui começando a sentir o efeito de todo aquele espumante tomado sem praticamente nenhuma comida. A alegria inebriante do momento expurgou quase que totalmente meus medos e pudores e naquele exato momento foi como se a Larissa, a dama de honra da Renata, finalmente tomasse conta de meu corpo e mandasse o velho Lucas voltar só no dia seguinte - depois da ressaca, quem sabe. Entre brindes, goles, risos e gritos, fomos vivendo aquele momento tão especial, tão íntimo e feminino, como se fôssemos três amigas de infância. Luciana foi então servir-se novamente e, ao constatar a garrafa vazia, ordenou que trouxessem outra. Ao invés de um atendente travestido de garçom, adentrou ao recinto a dona do salão que, visivelmente incomodada, falou que o salão fecharia em breve e que nós sequer estávamos prontas. Como meninas xingadas por uma tia ou mãe por terem feito arte, ficamos um tempo em silêncio, constrangidas, até que Renata, segurando o riso, disse:
- Ok, dona Chandelle... vamos nos vestir e logo sairemos.
- Ótimo. E é Rochelle, moça. Rochelle... não Chandelle.
Luciana gargalhou, seguida por nós duas, que rimos incontidamente. Dona Rochelle saiu do salão bufando, enquanto nós precisamos de cerca de 3 minutos para nos recompormos totalmente.
- Bom, chega... já estou meia-hora atrasada e até mesmo para uma noiva isso é demais. - falou Renata, tentando parecer adulta. Vou lá colocar meu maravilhoso vestido porque a Igreja e meu noivo me esperam.
- You go, girl!!! - bradou Luciana.
E lá foi ela. Fiquei parada terminando minha taça, ao que Luciana indagou:
- E então, Lari. Vai pro casamento enrolada na toalha mesmo?
- E pode?
- Poder pode, só quem não vai gostar muito é o padre, presumo.
- É... então melhor não arriscar. Fui.
E lá fui eu para minha cabenizinha me vestir. Fechei bem a portinha e encarei meu vestido pendurado no cabide. Talvez devido ao constrangimento de antes ou mesmo por não estar assim tão familiarizado com o mundo feminino, não havia notado o quão lindo ele era. Ele era de um lilás sedoso, até a altura dos joelhos com uma generosa fenda na lateral direita; na cintura, ele era bem acinturadinho, com um correntinha de strass como cintinho: uma graça. Antes eu olharia aquela peça com receio ou temor, porém agora, olhando-o de cima a baixo eu só pensava uma coisa: estou louco para vesti-lo! E sem mais delongas, tirei-o do cabide e o vesti.
Devido o espartilho e o sutiã com enchimento, temi que ele pudesse ficar estranho ou que tais peças o deixassem marcado, porém, para minha surpresa (e extrema satisfação) parecia que não havia absolutamente nada embaixo deles além de mim. Devido à falta de intimidade com esse tipo de roupa - e também devido às minhas erormes unhas postiças - pedi ajuda para fechar o zíper atrás.
- Hello!!! Alguém pode ajudar a fechar meu vestido? Lu? Rê??? Alguém?
- Calma, bem! Já vai... - disse Renata, fechando e rindo. Deixa eu ver como você ficou, amiga.
E então, ela se afastou e me olhou com ternura:
- Que tal? - perguntei, realmente querendo um elogio dessa vez.
- Linda. Absolutamente linda.
- Obrigada, Rê. Também, pra ser dama de honra de uma noiva linda como você, tem que se puxar.
Ela então puxou a barra das saias com ambas as mãos e fez aquele gesto de agradecimento clássico feminino.
- Vamos? - falei empolgada.
- De pantufas, bem?
- Hahaha... aff... meus confortáveis e nada dolorosos sapatos. Claro.
Abri a caixa e em vez do sapatos que havia treinado dias a fio havia um par diferente: eram peep toes lilases, meia patas, com glitter extremamente brilhante, e com uma fivelinha delicada.
- Gostou? - indagou Renata rindo.
- A-MEI! - disse empolgada, com total sinceridade.
Calcei-os e, apesar de estar já familiarizado com saltos, estranhei um pouco:
- Sim, o salto desse é um pouco maior. Mas quem treinou com salto 10 anda fácil com salto 12, amiga.
- É o que veremos. - disse, tentando demonstrar segurança.
- Desculpe não avisar antes, mas só consegui esses hoje. Ademais, além de eles serem lindos, era preciso esses centímetros a mais pois o teu par tem quase 1,90m de altura e assim o casal ficaria mais parelho.
- Casal? - olhei para ela.
- Ah... modo de dizer. O par, que seja.
- Ok...
- Então bóra que já atrasamos por demais.
- Já é!
Os primeiros passos naqueles saltos realmente foram titubeantes - sobretudo por estar levemente alcoolizada pelas taças de champagne ao longo do dia -, porém antes de deixar o salão eu já estava me sentindo confiante. Confiante não: poderosa. Pronto, falei.
E poderosas fomos nós, desfilando até a limusine que nos aguardava de portas abertas com dois belos e bem vestidos chofers.
- Boa noite, madames.
- Boa noite! - falamos em coro.
- Com licença - disse um deles, estendendo a mão para que eu sentasse.
Peguei sua mão com delicadeza e sentei:
- Obrigada.
- Não há de quer, madame.
Madame. E não é que gostei de ser chamada assim?
O mesmo ritual para Luciana e Renata e lá fomos nós. O trajeto não era longo, mas foi feito com calma pelo motorista.
- Estou nervosa, amigas! - falou Renata, quase tremendo.
- Mas por que, menina? - indagou cheia de confiança Luciana, dona da situação.
- Ai, Lu, vai que algo dá errado... vai que eu tropece... vai que ele diga não...
- Hahahahahaha... querida! Vai dar tudo certo. E se ele disser não, a gente faz a festa igual e você pega o convidado mais gato da festa e casa com ele.
Renata então riu. Olhou para o chão, olhou para Luciana e agradeceu. Luciana realmente fazia jus àquele posto - muito mais do que eu, diga-se de passagem.
- Vai dar tudo certo, Renata. - tentei colaborar.
Renata então me olhou com ternura. Não foi difícil identificar um olhar de profundo agradecimento dela para comigo e por tudo o que estava fazendo por ela. Ela então balbuciou um 'obrigada' insonoro, mas carregado de sentimento, ao que eu respondi com o mais terno olhar que poderia dar.
- Chegamos, meninas! - anunciou o motorista, parando a limusine.
Olhando pela janela, pude ver a Igreja lindamente adornada por flores e luzes. Um espetáculo:
- Nos vemos no altar, linda - disse, Luciana, e me puxou pela mão.
- Até daqui a pouco, Rê. - e fui.
Descemos e do lado de fora dois rapazes - lindos, me permitem dizer - aguardavem próximos ao nosso veículo:
- Oi. Você deve ser Luciana...
- Sim, sou... e você deve ser Fábio.
- Acertou.
- E você... Larissa?
- Ela mesma. E você...
- Ramiro.
- Sim... Ramiro... já ia dizer.
Um breve momento de silêncio constrangedor, sabiamente interrompido por Luciana:
- Então, você é meu par, Fábio?
- Olha, não sei se isso está pré-determinado, mas pode ser. Além do mais, o Ramiro quando viu vocês chegando disse de pronto 'a ruiva é minha'. Então acho que o par dele será a Larissa...
- Fabio! - disse Ramiro, sem esconder o constrangimento.
Eu ri. Constrangida, meio sem-graça, mas ri. Não havia como não ficar lisonjeada em ser escolhida de pronto assim, ainda mais em detrimento a outra mulher linda como Luciana:
- Por mim, pode ser. Já que vocês já decidiram mesmo - falei, tentando tornar aquela cena menos constrangedora.
Então, meio desajeitadamente, demos os braços cada uma para seu par, alinhamo-nos na entrada da Igreja e entramos naquele passo pausado, como casais fazem nessas cerimônias.
Chegando lá, Luciana e Fábio foram para a esquerda do altar, ficando então Ramiro e eu à direita no púlpito. Ficamos algum tempo em silêncio, ouvindo aquele leve conversar desencontrado dos convidados na Igreja.
- Você é muito linda.
- O que? - perguntei, aproximando meu ouvido de Ramiro.
- Você... é muito linda.
- Ah... obrigada...
Alguns segundos de silêncio.
- Você também é muito lindinho.
- Obrigado.
Não falei para parecer educada, mas por absoluta e inegável sinceridade: Ramiro era lindinho mesmo.
- Você tem namorado?
- Não... estou encalhada. - arrisquei brincar.
- Hahaha... linda assim, só porque quer.
- Então você, lindinho assim, deve ter namorada, presumo. - perguntei, mais interessado do que deveria.
- Até ontem tinha. Estou encalhado já faz algumas horas.
E rimos.
Aos poucos a conversa foi se tornando menos cerimoniosa e mais interessante. Como aquela noiva tardava em vir, seguimos nós matando o tempo, cada vez mais à vontade com a presença um do outro. No começo foi difícil para mim inventar certas respostas, como de onde eu era, alguns gostos e tudo mais, mas logo a personagem pareceu ganhar vida e era quase como se eu respondesse a verdade em algumas respostas fictícias. Enfim, finalmente, fomos interrompidos pelo imponente som da marcha nupcial nos alto-falantes da igreja.
Olhei meio eufórica para Ramiro que pareceu um tanto decepcionado, como se não quisesse que interrompessem nossa conversa. Pra falar a verdade também estava gostando da interação, mas não posso negar que, tal qual todas as convidadas da festa, estava eufórica em ver a noiva, linda, adentrando à Igreja.
E então lá veio Renata. Linda. Parecia um anjo... nunca vi noiva mais linda em toda a minha vida. Olhei para Luciana e ela olhava com olhos marejados, visivelmente emocionada. Então minha vista embaçou: eu não acredito, mas estava prestes a chorar:
- Não acredito que você vai chorar... - falou jocoso, Ramiro.
- Foi apenas um cisco - respondi com a voz embargada.
Então senti ele me abraçar por trás, apertando meu corpo com ternura, delicadamente. Congelei. Não sabia como lidar com aquilo. O que fazer? Então, como se meu congelar fosse um consentimento (talvez fosse), senti Ramiro encostar levemente seu rosto em minha nuca, o que me fez arrepiar inteirinha. Então, sem pensar, apenas reagindo àquilo, recostei minha cabeça levemente pra trás, enconstando nele, trazendo sua mão que apertava a minha até minha boca e dando um leve beijo, ao que ele respondeu dando um leve beijinho em minha orelha, com direito a sutil mordidinha no lóbulo.
Ok, era oficial: eu estava excitada com aquilo tudo e simplesmente não havia como negar.
CONTINUA...