Laine:
Patrícia me colocou de quatro na borda da piscina, me deixando totalmente nua e passando a me chupar inteira, dedilhando meu grelo e lambendo meu cuzinho deliciosamente. Senti uma língua mais grossa, mais áspera, diferente. Quando tentei me virar, assustada, Patrícia me beijou:
– Relaxe! Só queremos cuidar de você, dar o que você merece. Mostrar que pode ser bom, se feito da forma correta.
Eu toquei o foda-se. Queria ser fodida novamente e sentir toda a emoção da noite anterior outra vez.
Beto me manipulou, mentiu para mim, e tudo isso era até pior do que uma traição confessada rapidamente, em que ele mostrava arrependimento, que eu poderia perdoar facilmente, como perdoei e segui em frente. Mas as mentiras eram demais, a manipulação então, a forma mesquinha que ele arrumou de tentar igualar o mal que me fez, isso era imperdoável, ele merecia uma resposta à altura.
Senti a língua áspera de Paulo tentando ir fundo dentro de mim, mas travei. Sua mão apressada dando um tapa forte na minha bunda, Patrícia tentando me manter submissa, os dois tentando me envolver em sua conversa:
– Relaxa! Você está segura. É com a gente que você deveria estar desde o começo, não com quem só queria te usar.
Comecei a me sentir mal, uma onda de arrependimento, tristeza, nojo de mim mesma, como se eu estivesse me igualando ao Beto, a toda a manipulação e mentiras que permeavam nossa vida naquele momento. Que moral eu teria para exigir alguma coisa se desrespeitasse o único pedido que ele me fez? Não que ele merecesse a minha obediência, mas por mim mesma, por começar a me sentir suja com o que estava fazendo.
Me debatendo, empurrando Paulo com o pé, me livrando do abraço e das carícias de Patrícia, falei firmemente:
– Não! Assim não é certo, não dessa forma. Por favor, parem.
Me levantei e entrei rapidamente na casa, me trancando no quarto que Patrícia havia me emprestado, achando que eu passaria a noite ali. Me vesti e ainda fiquei por algum tempo refletindo sobre o melhor a fazer:
“Eu não quero assim, não com mentiras. Não vou me igualar ao Beto, me tornar a vilã dessa história. Talvez eu esteja enfiando os pés pelas mãos, pensando bobagem e distorcendo os fatos. Preciso entender melhor o que aconteceu entre ele e Carina, avaliar suas reações e só então decidir o que fazer. Acho que é hora de desacelerar um pouco, me sentar com ele e conversar. Acho que fui precipitada ao sair de casa sem dar a chance de ele se explicar”.
Peguei o celular e vi que tinha algumas chamadas não atendidas do Beto. Mandei uma mensagem:
“Estou voltando para casa, precisamos conversar”.
Fui curta e grossa, pois era Beto que me devia explicações, não eu a ele. Pedi novamente um carro de aplicativo e quando me preparava para sair do quarto, ouvi Paulo e Patrícia na sala, falando baixo para que eu não ouvisse. Eles não pareciam nada felizes. Abri a porta bem devagar, tentando não fazer barulho, não para espioná-los, pois estava envergonhada e com medo da reação deles. Dei dois passos no corredor. Paulo estava meio impaciente:
– Você disse que era só eu ir com calma, que ela estava pronta. O que foi aquilo?
Patrícia o repreendeu:
– Fala baixo. Ela pode sair do quarto a qualquer momento. – Era perceptível o nervosismo em sua voz. – Era uma oportunidade que se apresentou mais cedo do que eu esperava, não podíamos deixar passar. Eu achei que ela estava pronta, fiz tudo o que era possível. Talvez fosse melhor ela ficar só comigo antes. Acho que fomos apressados.
Paulo estava mesmo nervoso:
– Eu já esperei demais, já investi demais, estou cansado disso. Dá seus pulos, resolve a situação.
Patrícia tentava acalmá-lo:
– E você acha que eu não? São quase oito anos de espera.
Paulo saiu pisando duro, deixando Patrícia sozinha na sala. Voltei ao quarto e aguardei mais alguns minutos, refletindo sobre o que acabara de ouvir: “como assim ele esperou demais? Investiu demais? Esperou pelo quê? Por mim? Tenho a mais absoluta certeza de que era sobre mim que eles falavam. Será que eu acabei dando falsas esperanças à Patrícia, dando a entender que a queria, brincando com seus sentimentos e depois tirando o corpo fora?” Tinha alguma coisa errada naquela história. Minha intuição me dizia para tomar cuidado.
Meu Uber chegaria em minutos e eu precisava sair do quarto. Saí com tudo, fazendo barulho, anunciando minha presença. Patrícia veio rapidamente ao meu encontro, mas eu não deixei que ela falasse, fui esperta e mais rápida, tomei a palavra:
– Desculpa, amiga! Posso ter dado a impressão errada, mas eu preciso me resolver com o Beto antes de qualquer coisa. Não pense que estou te rejeitando, longe disso, é que eu só quero fazer as coisas direito, para não me arrepender depois. Você entende, né?
Surpresa, Patrícia hesitou, me dando a chance de sair sem maiores problemas:
– Meu Uber chegou, mando mensagem mais tarde.
Dei um beijo em seu rosto, tentando mostrar que estava lidando bem com tudo e saí, sendo acompanhada por ela até a porta. Ela tentava disfarçar sua raiva, seu descontentamento. Entrei no carro e voltei para casa.
{…}
Carina e Alex:
Carina estava realmente brava com o noivo:
– Você só pode estar brincando. O que mais podemos fazer? O cara broxou, a mulher deu piti. Tá na cara que devemos nos afastar ou vai acabar sobrando para a gente.
Alex achava o contrário:
– As coisas não são assim. Você sabe que querendo ou não, somos responsáveis pelo que aconteceu. Você queria o Beto e eu a Laine. Fizemos as coisas da maneira certa, demos nosso melhor, mas precisamos ser responsáveis emocionalmente também.
Carina entendia o que o noivo falava, mas estava realmente preocupada com tudo:
– Lembre-se do que aconteceu com Samanta. Eu não quero passar por isso novamente.
Alex tinha bons argumentos:
– Dessa vez, tanto o Paulo quanto a Patrícia endossaram nossa recomendação. Eles já conheciam o Beto e a Laine. E também, nós temos amizade com a Laine há mais de um ano, trabalho com ela. Diferente da Samanta, que caiu de paraquedas na nossa vida.
Alex concluiu:
– No nosso mundo, eles ainda estão engatinhando. Cabe a nós, já que demos a abertura, tentar ajudar e mostrar que nada está perdido. Eu não posso simplesmente deixar pra lá. Antes de tudo, gosto deles como amigos, não só como possíveis parceiros liberais. Se tiver que escolher, abro mão das aventuras, preservando a amizade que acabamos de começar a construir.
Carina se rendeu, pegando o celular e mandando uma mensagem para a Laine:
“Teimosa, me ligue quando puder, quando tiver um tempinho. Precisamos falar. É importante”.
A intenção de Carina era se explicar, contar detalhadamente como tudo aconteceu e tentar mostrar a ela que nada daquilo era anormal, que a reação de Beto era até esperada para quem ama e ainda está confuso e com medo. Mandou mensagem a ela, e não ao Beto, por entender que, após o surto de Laine em sua casa mais cedo, a acusando de coisas que ela não era culpada, seria bem melhor assim, uma conversa honesta e direta entre mulheres, sem os parceiros envolvidos, com as duas podendo falar livremente, sem pesar as palavras ou precisar de subterfúgios.
{…}
Beto:
Depois da discussão acalorada com a Laine, das acusações que ela fez, mesmo contrariado, eu não tinha muito o que fazer, resolvi dar um voto de confiança. Eu sabia que mesmo sendo impulsiva, tendo a mania de agir sem pensar, ela acabava sempre caindo em si, se arrependendo e voltando para onde pertencia. Laine tem milhares de defeitos, mas a mentira não é um deles.
Confesso que suas palavras me chatearam bastante, e também aquela decisão unilateral, moldando a realidade à sua própria vontade. Nosso acordo era exclusivo ao Alex e a Carina e somente naquela noite. Qualquer coisa além disso, qualquer envolvimento com terceiros, me faria reavaliar profundamente o nosso casamento. Eu sinceramente, não acreditava que ela seria capaz de colocar o que temos em risco.
Era hora de eu parar de ceder aos caprichos da Laine, eles estavam me fazendo mal. Era hora de eu retomar o controle e deixar de ser apenas um espectador da minha própria vida, parar de reagir ao que era jogado para cima de mim e me tornar o dono da ação.
Por algumas horas, sozinho em casa, ensaiei mentalmente tudo o que eu queria falar, as coisas que precisavam ser ditas e quando pensava em ir atrás da Laine, meu telefone tocou. Surpreso, atendi:
– Alex? Tudo bem, cara?
Ele parecia apreensivo:
– Na medida do possível, amigo. Escuta, Carina e eu gostaríamos de conversar com vocês. É importante, nos sentimos responsáveis e queremos desfazer o gosto amargo que ficou da noite anterior. Podemos ir até aí?
Tentei ser o mais direto possível:
– Eu agradeço a sua generosidade, amigo, mas dessa vez, vou recusar. Não entenda mal, mas certas coisas precisam ser resolvidas internamente. E outra, Laine nem está aqui. Eu agradeço, de coração, mas a única conversa importante para mim agora, é com a Laine. Espero que você entenda.
Alex entendeu:
– Tudo bem, mas se precisar, estamos aqui. Não hesite em nos chamar.
Me despedi e desliguei. Liguei para a Laine em seguida, mas ela não atendeu. Tentei mais algumas vezes e nada. Liguei para o Paulo e também para Patrícia e, assim como a Laine, nenhum dos dois atendeu. Comecei a ficar preocupado, a imaginação criando suas próprias teorias, a raiva tomando o lugar da preocupação … tomei um banho rápido, me arrumei e quando estava entrando no carro, decidido a ir buscar a Laine, uma mensagem entrou:
“Estou voltando para casa, precisamos conversar”.
Confesso que aquelas poucas palavras, mesmo secas, frias, diretas, tiveram o poder de me acalmar. Respirei fundo e voltei para dentro. Mandei uma mensagem à minha sogra, dizendo que buscaria o pequeno mais tarde, que tinha surgido um imprevisto. Achei melhor não dizer que Laine e eu estávamos mal. Já tínhamos problemas demais e envolver mais pessoas não iria ajudar em nada. Ela concordou e não fez mais perguntas.
Um pouco mais aliviado, comecei a ter fome. Estava a muitas horas sem comer e para esperar a volta da Laine, resolvi cozinhar. Mesmo prevendo uma conversa tensa, um agrado não seria de todo ruim, podendo até amenizar um pouco da tensão. Conheço a Laine e tenho a certeza de que ela também, muito provavelmente, deveria estar sem comer.
Eu tinha tudo o que precisava em casa: ovos, bacon, parmesão e principalmente, espaguete massa fresca. Perfeito! Espaguete à carbonara, o prato preferido da Laine. Minha intenção? Agradar, lógico. Tanto na vida quanto nos negócios, estratégia é essencial. Esse pequeno gesto, uma simples refeição preparada com amor, mostraria a minha real intenção, o meu desejo de me reconciliar com a minha esposa.
Cozinhei a massa, vigiando para um ponto perfeito, um pouco antes do “al dente”, e também fritei bem o bacon. Assim que a escorri, me preparando para adicioná-la à mistura de ovos, Laine chegou. Ela parecia mais triste do que brava, cabisbaixa, caminhando em minha direção:
– Olha, eu estou muito, mas muito …
Ela sentiu o cheiro da comida, os ovos cozinhando no calor da massa e sorriu para mim. Um sorriso meio sem graça, é verdade, mas de qualquer forma, um sorriso:
– Isso é um golpe baixo. Acha que vai me subornar com a minha comida favorita? – Ela roubou um fio de macarrão e enfiou na boca. – Falta sal.
Fui honesto:
– Não é suborno. Te conheço e sei que não deve ter comido nada até agora. – Acertei. – Se senta, eu te sirvo.
Laine me encarava desconfiada. Expliquei:
– Eu também não comi nada até agora. Discutir de barriga vazia só vai piorar as coisas. Temos muito o que falar.
Servi uma porção caprichada para ela e também abri um vinho. Em virtude da gordura e da quantidade de gemas usadas, há quem imagine que o vinho tinto é mais indicado, mas o ideal é um bom vinho branco, como o Chardonnay. Ele possui a acidez e o corpo necessários para fechar um casamento perfeito com aquele prato clássico. Ensinamento que aprendi com um Sommelier italiano, numa viagem de negócios.
Enquanto ela comia, uma garfada atrás da outra, mal parando para respirar, perguntei:
– Você acredita mesmo que eu seria capaz das coisas que me acusou? Seja honesta comigo, pois toda a nossa conversa depende da sua resposta.
Laine largou o garfo sobre o prato, pensou por alguns segundos e então me encarou:
– Sinceramente Beto, eu não sei. – Ela apoiou a cabeça nas mãos, tentando esconder os olhos marejados. – Eu jamais imaginei que você pudesse me trair, mas aconteceu, né? Como posso confiar? Tudo agora é suspeito.
Suas palavras me atingiram com força. Eu, até aquele momento, acreditei que apenas o amor era suficiente para resolver qualquer atrito entre nós. Em momento nenhum me coloquei no lugar dela. Eu precisava estar mais atento aos sinais. Me aproximei, me sentando ao seu lado e pegando em suas mãos. Senti cheiro de álcool nela, mas preferi não falar nada. Ela não parecia bêbada ou alterada:
– Eu sei que pode parecer apenas uma desculpa, mas eu realmente não tenho nenhuma memória do que aconteceu. Tento me lembrar, forço a memória, mas para mim, é irreal, parece que não é verdade. Mais do que ninguém, eu me sinto arrasado por ter machucado você. Mas não é com essas atitudes impulsivas, desconfiando de tudo, tomando decisões unilaterais que vamos conseguir resolver as coisas.
Laine voltou a me encarar, limpando uma lágrima que escorria por sua bochecha:
– Eu preciso ser honesta também. Aconteceu uma coisa na casa da Patrícia. Por favor, ouça tudo o que eu tenho a dizer, não interrompa ou eu vou perder a coragem.
Senti calafrios de pavor subindo por minha espinha, mas nem tive tempo para me preparar. Laine começou a contar:
– Eu estava muito brava por você ter me abandonado, pelas desculpas que você deu …
– Não foram desculpas, era a verdade, o que aconteceu.
Laine me fez sinal para não interromper, respirou fundo e voltou a dizer:
– Patrícia foi enchendo minha cabeça contra Carina, me contando as coisas que aconteceram no grupo deles antes da gente aparecer e por mais que eu tentasse resistir, cada coisinha acabava se mostrando verdade. Até a tal da Samanta foi Carina que trouxe para o grupo. – Laine respirou fundo mais uma vez, tentando se manter firme. – Uma vez tudo bem, aconteceu com o Júlio. Mas duas? Essa Samanta foi atrás de você também. Isso não é coincidência. Como ela poderia saber? É claro que foi a Carina. Como eu poderia lidar com isso? Tudo acontecia bem do jeito que a Patrícia previu.
Me afobei de novo:
– Se era isso, você deveria ter convers …
Laine se estressou:
– Por favor! Me deixa terminar. Isso é só o começo, ainda vai piorar muito.
Me calei e ela continuou:
– Briguei com a Carina ao acordar e saber que você não estava lá para mim, fiz acusações e me sinto mal, arrependida. Mas poxa, você me abandonou, descumprindo o que combinamos. Como você acha que eu me senti quando soube que você tinha ido embora? Você deveria ter entrado no quarto e me levado junto com você. Ou ter deixado a Carina entrar. E principalmente, se não estava pronto, deveria ter dito não. Mesmo a contragosto, eu teria respeitado o seu tempo.
Não consegui me segurar e a interrompi:
– Como assim, a contragosto? O que quer dizer com respeitado o meu tempo?
Laine foi completamente honesta:
– Já que estamos colocando as cartas na mesa, não vou enrolar. Eu gostei muito de estar com o Alex. Foi bom. Diferente de estar com você, claro, pois nós nos amamos, fazemos amor, não apenas sexo. Ninguém nunca vai ser melhor do que você para mim. Com o Alex foi sexo, somente isso. Não existe o mínimo risco de eu me apaixonar por ele ou por qualquer outro. É você que eu amo.
Fui honesto também, abrindo o meu coração:
– E se eu disser que não quero mais? Que esse estilo de vida não é para mim? Você está disposta a abrir mão disso pelo nosso casamento?
Laine manteve sua postura:
– Não sei, Beto! E falo sem intenção de enrolar ou de ganhar tempo. Eu estou realmente magoada com você, com a traição, com a forma que você me abandonou na casa da Carina e do Alex. Eu acabei mentindo para mim mesma sobre ter lhe perdoado. Ainda dói, ainda machuca. Ainda existem muitas perguntas sem respostas.
Laine desmoronou na minha frente, chorando alto, chegando a soluçar. Tentei abraçá-la, dar um pouco de conforto, deixando que ela colocasse toda a tristeza para fora. Apenas fiquei ao seu lado, sem dizer nada. Após longos minutos, ela se recuperou:
– E eu nem cheguei na pior parte ainda. Por favor, quero que escute com atenção, sem me julgar. Preciso confessar logo, colocar pra fora do meu peito.
Me afastei dela, preocupado, incapaz de prever o que viria pela frente. Laine se levantou, andando de um lado para o outro da cozinha, esfregando as mãos, muito nervosa:
– Patrícia me acalmou na casa dela, concordando com qualquer coisa idiota que eu falasse contra você e a Carina. Ela começou a me servir bebidas, uma atrás da outra, tentando me fazer passar do limite.
Laine virou de uma vez sua taça de vinho e fez um pequeno exercício de respiração, puxando o ar e soltando rapidamente, criando coragem para prosseguir:
– Ela me seduziu, me beijou, chupou meus seios e até enfiou os dedos em mim …
Precisei me levantar também:
– Como assim, Laine?
– Eu estava revoltada com você, fora de mim, acabei deixando ela ir em frente …
Quando eu achava que as coisas não poderiam ser piores, a porrada veio:
– Estávamos na piscina, bebendo e conversando e ela foi me induzindo, tentando me submeter, tampando minha visão ... Senti uma língua diferente, mais áspera e quando dei por mim, Paulo estava bem atrás, assumindo o lugar …
Explodi de vez:
– Que porra você tá falando, Laine? Essa foi a minha única condição e você a descumpre na primeira oportunidade?
Laine me encarou sem desviar os olhos, assumindo postura de confronto:
– Muito pelo contrário. Eu o chutei, mandei que parasse e saí de perto dos dois. Eu não sou você, eu jamais o trairia.
– E o que você fez com a Patrícia, não é traição? Me acusou, mas acabou fazendo o mesmo.
Ela se assustou, entendendo sua atitude:
– Eu parei com tudo antes que entrasse por um caminho sem volta. Percebi que estava passando do limite. Não fiz por você, fiz por mim, pelo nosso pequeno. Eu jamais conseguiria olhar para ele se me tornasse alguém tão detestável. Só eu sei a dor que você me causou. Patrícia me enganou, me induziu, mas eu consegui resistir, diferente de você. Eu não me entreguei ao Paulo, jamais o faria. Ele é nojento, asqueroso, repugnante, se acha demais.
Eu já estava fora de mim:
– Então ele te tocou sem o seu consentimento? É isso? Nós vamos à polícia agora.
Vendo meu estado quase psicótico, Laine tentou me acalmar:
– Para! Não aconteceu nada, eu não deixei. Ele é seu patrão, você precisa do emprego.
Eu estava furioso:
– Eu arrumo outro emprego, sou bom no que faço. Eu jamais aceitaria trabalhar com um traíra, ainda mais um que tenta se aproveitar da minha esposa.
Laine me abraçou, me forçando a ouvir o que ela tinha a dizer:
– Olha pra mim, ainda tenho uma coisa muito importante para contar.
Acabei sendo um babaca, desdenhando:
– Ainda tem mais? Já não foi o suficiente?
Laine não deixou barato:
– Presta atenção, deixa de ser infantil.
Ela me fez sentar novamente e se postou ao meu lado, tentando me acalmar:
– Eu ouvi uma conversa muito estranha entre os dois. Paulo dizendo para a Patrícia que está cansado de esperar, ela dizendo o mesmo. Paulo disse para ela se virar, dar seu jeito, e pelo contexto, acho que estavam falando sobre a gente.
Me levantei e peguei as chaves do carro, mas antes de sair, fui direto com a Laine:
– Me espera aqui. Para o seu próprio bem, se ainda me considera o seu marido, não saía de casa. Vou resolver isso e é já.
Laine tentou me segurar, mas eu não deixei:
– Estou falando sério! Se eu chegar e você não estiver aqui, é bom nem voltar. Chega de disse me disse, nós vamos resolver nossa vida de uma vez, hoje.
Saí sem olhar para trás, entrando no carro e acelerando. Cheguei rapidamente à casa do Paulo. Ele deve ter me visto pelas câmeras, pois veio sorridente ao meu encontro. Assim que ele abriu o portão, sorrindo, parecendo debochar de mim, sorri de volta, devia estar parecendo um psicopata. Ao invés de conversar, de exigir uma justificativa para o que ele tentou fazer com a Laine, apenas o soquei. Um único e poderoso cruzado de direita, que explodiu na lateral do seu rosto.
Ele caiu como um saco de estrume, levando a mão ao rosto, com Patrícia correndo em nossa direção, gritando. Paulo tentou dar uma de desentendido:
– Tá maluco, Beto? Que porra é essa?
Me abaixando, apontei o dedo em sua cara, fazendo com que ele se encolhesse buscando proteção:
– Nunca mais encoste na minha mulher. Eu e você paramos por aqui. Acha que eu sou idiota, que não entendi a intenção de vocês?
Paulo me olhava com ódio, se recuperando da bordoada:
– Você vai se arrepender por ter feito isso. Me aguarde.
Enquanto Patrícia o ajudava a se levantar, ela tentou falar comigo:
– Foi a sua mulher que veio atrás de nós, que se insinuou, o que ela achou que iria acontecer?
Minha vontade era socá-la também, mas me controlei:
– Eu te conheço, biscate! Por que acha que nunca deixei a Laine se aproximar tanto de você? Lavínia, quando era viva, sempre me alertava sobre você …
Paulo sabia que fisicamente era mais fraco do que eu, sua única opção era me expulsar:
– Saí da minha casa, seu babaca. Volta pra sua esposa, aquela lá, pra puta, é só questão de tempo.
Tentei partir para cima dele de novo, mas os seguranças já estavam a postos, me impedindo de chegar até ele. Um dos seguranças perguntou ao Paulo:
– O senhor quer que a gente o contenha até a chegada da polícia?
Paulo, voltando a sorrir debochado, me encarou:
– Não! O deixem ir. Eu lido com esse idiota de outra maneira. Ele não perde por esperar.
Entrei no meu carro, ainda sem me dar conta da gravidade das minhas ações. Aquele soco, assim como Paulo prometera, iria me custar muito, muito caro.
Enquanto eu dirigia de volta para casa minha adrenalina começou a baixar, minhas mãos tremiam e eu suava frio. Achei que teria um piripaque e fui obrigado a encostar o carro para deixar aquela sensação ruim passar. Meu telefone começou a tocar, uma chamada de vídeo e eu o atendi no susto, sem pensar direito, apenas tentando me concentrar em alguma outra coisa qualquer que desviasse meu foco dos pensamentos sombrios.
– Alô! Beto. Pode falar? – Ela sorria, feliz por me ver.
Tentei disfarçar o que sentia:
– Oi, Fernanda! Tudo bem? Por que me ligou?
Ela foi direto ao assunto:
– Então, amigo, vi que nossas empresas serão parceiras em uma licitação pública e queria marcar um horário para a gente se sentar e conversar, alinhar as ideias, nossos objetivos. Conversei com o Paulo ontem na festa do Júlio e da Silvana e ele me disse que toda parte administrativa e operacional é você que decide.
Precisei ser honesto com ela:
– Olha Fernanda, infelizmente, esse não é mais um assunto que me diz respeito. Eu não trabalho mais para o Paulo, não vou poder te ajudar com isso.
Ela percebeu que eu não estava bem, mas sorriu ao saber que eu estava livre no mercado:
– Não sei se a chamada está ruim, mas você está bem abatido, pálido. O que aconteceu? Quer conversar pessoalmente? Estou de bobeira.
Querer eu até queria, mas eu tinha outras preocupações:
– Desculpe, mas eu preciso voltar para casa. Não vou mentir, pois confio em você: meu casamento está por um fio, preciso me resolver com a Laine. Podemos nos encontrar em outro momento?
Fernanda entendeu, mas não perdeu a oportunidade:
– Olha só, promete que antes de falar com qualquer um, vai ouvir minha proposta primeiro? Eu quero você comigo, Beto. Sei que está pensando em coisas mais importantes no momento, mas eu jamais me perdoaria se deixasse essa oportunidade passar, sabendo que você está livre.
Me senti lisonjeado:
– Eu prometo. Agora preciso ir. Tchau!
Antes de desligar, ela ainda disse:
– Sabe que pode contar comigo, né? Estou aqui por você. Você não precisa passar por nada sozinho, é pra isso que servem os amigos.
Agradeci, desliguei e voltei a rodar, não demorando a chegar em casa.
{…}
Laine:
Do jeito que o Beto saiu de casa, eu imaginei que algo muito ruim pudesse acontecer. Eu disse, lá começo dessa história, que Beto, apesar de ser um homem avesso a confrontos, ele não é nenhum manso, incapaz de se defender. Beto é como uma panela de pressão, ele pode ser levado ao limite e liberar a tensão aos poucos, mas quando levado ao extremo, quando se vê sem opções de escapar ao confronto, ele explode, causando uma verdadeira destruição ao seu redor.
Não demorou para o meu telefone tocar. Era Patrícia. Fiquei receosa, mas resolvi atender. Nem tive chance de falar, pois Patrícia estava histérica do outro lado da linha:
– O que foi que você disse ao Beto? Depois de tudo o que eu fiz por você? Eu cuidei, acalmei, me preocupei … é assim que você me paga? Com mentiras e calúnias? Do jeito que o Beto chegou aqui, parece que o Paulo a violentou, que abusou de você …
Tentei me defender:
– Eu só disse o que aconteceu, contei a verdade ao meu marido, o que a gente quase fez, como Paulo chegou do nada …
Patrícia gritava comigo:
– Como você pôde fazer isso, mentir assim? Beto agrediu o Paulo, o deixou machucado. Vocês vão pagar por isso, ouviu? Você, principalmente, a causadora de tudo isso.
Cansei das acusações e desliguei na cara dela, bloqueando seu número em seguida. Só então percebi a mensagem de Carina:
“Teimosa, me ligue quando puder, quando tiver um tempinho. Precisamos falar. É importante”.
Não sei por que, mas senti que precisava responder, me reaproximar dela e tentar entender suas suspeitas sobre a Patrícia. Confrontando a versão das duas, analisando o que cada uma disse sobre a outra, talvez eu pudesse tirar alguma coisa que preste de tudo aquilo que estava acontecendo. Em qual das duas eu podia realmente confiar? Respondi:
“Tudo bem, mas não hoje. Estou resolvendo minha vida com o Beto. Falamos amanhã, ou durante a semana”.
Começava a anoitecer e finalmente Beto voltou. Ele estava diferente, não era mais aquele homem triste que voltou do México. Ele estava sério e impassível. Fui ao seu encontro:
– É sério que você socou o Paulo? Você está maluco? E o seu trabalho? Como fica agora?
Beto me olhou com olhos frios:
– Preste bastante atenção nas minhas palavras. Eu não sou seu dono, nem posso lhe obrigar a obedecer. Você é uma mulher adulta, inteligente e dona de si. Está na hora de fazer uma escolha: Eu ou a vida liberal.
Tentei protestar:
– Você mesmo disse que as coisas não são assim, que não devemos tomar decisões de forma unilateral …
Beto estava realmente decidido:
– Eu não estou decidindo por você. Muito menos impondo o que você deve fazer. Estou te dando o direito de escolher, é você que vai tomar a própria decisão. Eu já sei o que quero e não vou mais me deixar influenciar ou ser pressionado. Eu errei com você, admito e assumo esse erro, mas não posso, e nem quero, viver a minha vida, a nossa vida, como refém eterno dessa situação. Ou seguimos em frente como um casal, exclusivos um do outro, ou seguimos separados.
Eu não sabia o que dizer, como argumentar. Beto ainda não tinha terminado:
– Pense bem, pondere, reflita. Não precisa me responder agora. Eu entendo sua atração por esse mundo, pois por um curto período, também me deixei envolver. Eu vou entender, mesmo que não concorde, se você demorar alguns dias para me responder.
Beto voltou a pegar a chave do carro:
– Estou indo buscar o pequeno. Vai comigo?
Continua ...