No dia seguinte, Juliana levantou-se tarde, espreguiçando-se como uma gata. Tinha planos. Ela pediu ajuda à Cininha, a dona do hotel.
“Preciso de uma costureira.” — Juliana pedia.
— “Pra quê?” — Cininha vergou as sobrancelhas.
“Vou usá-lo hoje, na minha estreia, na Casa das Pétalas” — explicou a pequena.
Cininha comia um biscoito doce, engasgou-se, mas não questionou.
Levou o vestido da moça até Tereza, amiga de longa data, uma costureira das antigas.
Em Campinas.
Magda pediu separação do companheiro de quarenta anos. Frederico saiu de casa, arrastando as malas, cabisbaixo como cachorro enxotado.
Rafael, ferido no orgulho e na alma, decidiu passar um tempo viajando para a Europa. Talvez lá conseguisse esquecer Juliana e a humilhação da cerimônia de casamento.
Nos portais de fofoca, a pergunta dominava as manchetes:
— Cadê Juliana? A noiva infiel, desaparecida do mapa.
Em Curitiba.
Maria do Socorro, dona do bordel, só pensava no lucro. Preparava a Casa das Pétalas para o grande evento. A estreia de Juliana.
No outro lado da rua, quarto do hotel, a estrela do espetáculo encontrava-se serena. Dormiu. Comeu. Ruminou ideias.
No cair da tarde, uma cabeleireira foi chamada para cuidar das madeixas loiras de Juliana. E Tereza conseguiu reparar os danos do vestido.
“Nunca vi mulher tão corajosa como você, senhorita.” — tagarelou a costureira, olhando para Juliana.
Cininha e Tereza ajudaram-na a se vestir. O branco imaculado discrepava com a alma rejeitada. Juliana olhou-se no espelho, e disse: “Passei trinta e seis anos presa numa gaiola, dona Cininha. —Antes das minhas traições, só tive um homem. Não quero ser mulher de um só homem.” — sinalizou a moça.
Cininha e a costureira se olharam, esbugalharam os olhos e sorriram cúmplices.
“Você é adulta. Quem sou eu pra dizer o que é certo ou errado?” — respondeu à dona do hotel.
A noite caiu, a rua em frente ao hotel ebulia. A frente da Casa das Pétalas virou espetáculo. Gente demais. Curiosos. Pervertidos. Sensacionalistas. Repórteres aguardavam.
Juliana desceu. Degrau por degrau. Cada passo dado com muita sofisticação. Anselmo, marido de Cininha, abriu a porta.
Juliana surgiu, deleitosa e fatal. Branca como um anjo, perdida como um demônio. O coração acelerado, porém o semblante soberano.
Na calçada, mais de cem pessoas. Flashes. Cochichos. Gritos.
Maria do Socorro veio ao seu encontro, atravessou a multidão, e chegou, segurou-lhe o braço, como uma mãe entrega a filha ao altar.
“Bem-vinda à Casa das Pétalas.” — Exibiu um sorriso torto. Olhos afiados. — “Seu nome, aqui no bordel, agora será. Juliana LABAREDA.
Juliana não piscou. Aceitou o batismo sem protestar, sabendo que tinha uma labareda entre as pernas e entre as nádegas.
De mãos dadas, atravessaram a rua. O vestido arrastava no chão imundo. Homens tentaram tocá-la, todavia, os seguranças empurraram e davam sopapos nos mais ousados.
Em frente à porta do prostíbulo. Juliana parou e virou para a multidão. Estática. Séria. Serena. Linda como uma princesa.
Virou-se de costas. Pegou a mão de Maria do Socorro.
E adentraram no prostíbulo, como quem entra no próprio destino.
Agora batizada de Juliana Labareda. Ela sentou-se à mesa, cruzou as pernas e acendeu um cigarro, deixando a fumaça escapar pelas narinas bem devagar, expelindo os pecados ao vento.
— “O que vai querer beber, senhorita?” — perguntou o garçom, um sujeito de olhos fundos.
“Uísque, por favor.” — respondeu ela.
“Mande um duplo, pra ela se soltar” — ordenou Maria do Socorro, ao garçom.
Veio duplo. Sem gelo. Sem frescura. O salão era um pandemônio alegre. Os sortudos dançavam. Bebiam. Gargalhavam.
Nos cômodos de cima, a transpiração dos pecantes encharcava corpos e os lençóis. Sexo anal. Boquetes. Gemidos. Risos.
Já no andar inferior, acordes de um bolero contagiante. Maria do Socorro sentou ao lado da estreante. Colocou as mãos sobre a mesa e perguntou: “E então, Juliana Labareda?” — Os olhos da cafetina brilharam como quem contava dinheiro invisível.
— “Cobrarei mil reais por cabeça. Quantos você vai atender hoje? — Ela ergueu a mão para cima, indicando com dois dedos para o relógio de parede. — “Lembrando que cada cabeça terá dez minutos.”
Juliana girou o copo, observando o líquido dourado. Bebeu num gole. Fez as contas.
— “Uns vinte?”
Quem ouviu a fala da moça, se engasgou. Maria do Socorro curvou as sobrancelhas.
— “Vinte é um número alto. Tem certeza?”
“Tenho, acho que vinte está bom.” — Ela tomou outro gole e riu.
A dona do lupanar riu como diabo que ganha aposta. Chamou um dos seguranças e lhe deu a ordem.
— “O preço para tê-la será de mil reais por dez minutos. Organiza a fila, com vinte cabeças. Nem com dezenove ou vinte e um. É vinte, entendeu? Agora vai.”
Lá fora, mais de setenta homens esperavam. Açougueiros, pedreiros, advogados, motoristas de caminhão. Gente que gastaria o salário do mês só pra ter dez minutos de diversão. Mas todos unidos pela mesma causa, a de ter Juliana Labareda na cama.
No salão — os fregueses lambiam os beiços. As putas já a olhavam torto. Juliana virou a rainha do pedaço sem mesmo estrear.
Maria do Socorro sussurrou em seu ouvido:
— “Nada de abaixar a cabeça. Encare todos como uma imperatriz.”
Juliana ergueu o queixo, e encarou cada olhar esfaimado com uma superioridade natural. Acendeu outro cigarro. Expeliu a fumaça devagar, deixando o salão inteiro em suspense. Tomou dois goles de uísque. E então, levantou-se e puxou o primeiro homem que viu para dançar.
O bolero começou. O salão parou. Os músicos se entreolharam, entendendo que era o momento de a estrela brilhar.
Juliana se entregou à dança. Rodopiava. Encostava o peito no peito do cavalheiro da vez. O uísque soltara seu corpo. Cada passo era um convite, um escárnio, um desafio. Quando a música terminou, o salão veio abaixo. Palmas. Assovios. Gritos de aprovação.
As outras mulheres do bordel se mordiam. Maria do Socorro ria.
Preparada para estrear como prostituta. Juliana subiu as escadas ao lado da dona. O quarto estava pronto. Simples, mas digno de estreia.
Cama de casal. Lençóis novos. Um colchão decente — luxo no puteiro. Até um frigobar colocaram.
Do lado de fora, o pandemônio. Os seguranças sujaram as mãos para formar a fila dos vinte sortudos. Os que ficaram de fora urravam.
— “Absurdo! Só vinte?”
— “Isso é marmelada!”
Na porta do bordel, um segurança esbravejou:
— “Só entra quando ela disser! Quem reclamar, sai na porrada!”
Lá dentro, Juliana retocava a maquiagem em frente ao espelho. A pequena se encontrava séria, concentrada. Borrifou perfume no cangote. Olhou o próprio reflexo e sorriu.
“Pode mandar o primeiro.” — comunicou a Maria do Socorro, que desceu as escadas triunfalmente. Parou diante dos homens lá fora e explicou o regulamento:
— “Mil reais adiantado. Dinheiro na mão, pepeca no chão.” Os vinte homens comemoraram. — “Vocês terão dez minutos. Entenderam? Dez míseros minutos” — Tagarelou com o indicador erguida. — “Quando a luz apagar, tem que sair ou vai ser arrancado de lá na porrada” — E então, ela gritou: “Agora sobe o primeiro!”
Juliana, estava prestes a iniciar sua primeira noite como rameira em um bordel no centro de Curitiba. A inquietação era visível em seu rosto, mas a desvelo e a excitação falavam mais alto.
O bordel, conhecido como “A Casa das Pétalas”, era um local famoso por frequentar todo tipo de homens de má conduta daquela cidade.
A pequena situava-se ansiosa para estrear nesse novo mundo. E a estreia principiou com a chegada de seu primeiro cliente.
Referia-se a um homem chamado Epílogo. Era um fulano de meia-idade, com um rosto nada atraente, marcado por rugas profundas e uma expressão séria. O elemento vestia um terno surrado, que destoava com a do bordel.
Juliana não se importou com sua aparência; ela estava ali para saciar desejos, não para julgar.
Ao entrar no quarto. Epílogo ficou surpreso ao ver Juliana vestida de noiva. Era um vestido branco elegante, caríssimo que ressaltava suas sinuosidades sensuais. Ele sorriu de alegria, revelando dentes amarelados, e seus olhos cintilaram de desejo.
Juliana aproximou-se dele, deu dois passos. Seu perfume encheu o quarto de um aroma adocicado de sedução.
“Você é linda demais. Nem acredito que serei o primeiro. Posso tocá-la?” — perguntou o feioso.
“Sim, pode me tocar a vontade, senhor” — Juliana permitiu, esboçando um sorriso. Ela não usara nada por baixo, além do vestido. Deixou que ele tirasse o traje cuidadosamente, expondo seu corpo nu.
O sujeito ficou hipnotizado com a visão dos seios fartos e firmes da dama, que o convidava para um deleite proibido. Ele se aproximou e beijou-a apaixonadamente, suas línguas se entrançavam num ritmo agitado. Epílogo tocou o corpo de Juliana, suas mãos ásperas, acariciando suas coxas macias, apertando seus seios com carinho.
Juliana gania suavemente, sentindo o desejo crescer dentro dela.
Ele abaixou a cabeça e mamou um dos seios impaciente, fazendo-a arfar de prazer. Sua boca hábil fazia com que a pequena se sentisse tesuda. Cada toque ou chupão dele era como uma fagulha de prazer.
Juliana, então, tomou a iniciativa e desabotoou a calça encardida de Epílogo, liberando sua rola ereta. Ela se ajoelhou diante dele, segurando a pica do medonho com ambas as mãos, e o olhou nos olhos à medida que o levava à boca.
A sensação do membro de Epílogo em sua boca era intensa. O gosto salgado e o odor forte a excitavam ainda mais. Juliana o sugava com efervescência, usando sua língua para acariciar a glande, enquanto a criatura gemia segurando nos cabelos dela.
“Chupa mais a minha rola, sua puta. Não consigo me lembrar de alguém tão boa quanto você.” — Falou em gemidos, o mal-apessoado, se divertia, sentia o calor da boca da moça, em volta da sua pica nojenta.
Juliana petiscou o membro, chupou as bolas. A desgraçada aumentou a cadência, movendo sua cabeça para frente e para trás, sentindo o membro dele pulsar contra sua língua. Epílogo guiou-a em um ritmo alvoroçado, até que, após dois minutos intensos, entregou-se ao deleite, gozou em sua boca.
Juliana cuspiu aquele leite salgado, saboreando o gosto de sua vingança contra Rafael. Epílogo, exausto, porém com energia de sobra, auxiliou-a a se levantar e a levou até a cama, onde a deitou.
O hediondo pôs um preservativo e posicionou-se de joelhos, abriu-lhe as pernas e penetrou em sua xoxota. Juliana urrou alto, sentindo cada polegada de rola dentro. Epílogo a possuiu com vontade, seus quadris se movimentando em um ritmo ininterrupto.
Logo após, ele a posicionou de quatro e meteu cada milímetro de rola no butico da vagabunda. E assim para terminar. O horrendo deitou na cama e Juliana montou de frente e galgou nele, controlando a cadência, sentindo o prazer crescer dentro de si.
O cômodo se encontrava iluminado por uma lâmpada vermelha, que criava um local sensual. O suor manava pelos corpos entrelaçados, à medida que Epílogo a invadia com força, seus gemidos ecoando pelo quarto. Juliana se agarrava nas próprias cabeleiras, sentia a abundância de prazer tomar conta da sua robustez.
De repente, a lâmpada vermelha apagou e o gozo de Epílogo explodir em êxtase, indicando que o tempo do feioso havia terminado. O sujeito saiu de dentro dela, ofegante e feliz, e se vestiu rapidamente. Juliana se sentou na cama, observando-o se arrumar.
“Foi incrível. Você é uma mulher especial, dona. Voltarei quando tiver dinheiro. Obrigado por essa experiência.” — disse Epílogo.
Ele saiu do quarto assoviando, feliz, cantarolando, sentindo o cheiro dela em seu corpo. Juliana se levantou, lavou-se e vestiu o vestido de noiva outra vez. Se olhou no espelho, vendo uma nova mulher, confiante e sensual.
Mal tivera tempo de recuperar do primeiro, quando a porta se abriu novamente, testemunhando o segundo cliente da noite.
Um sujeitinho chamado Jeremias. Negro, alto, musculoso e viciado em jogatinas. Tinha um sorriso cínico no rosto. Ao ver Juliana na sua frente, vestida no vestido, seus olhos escureceram de desejo.
“Não perca tempo, meu caro. Quero sentir você dentro de mim.” — Juliana o comunicou, dando as costas para que ele lhe despisse.
O sujeito tirou o vestido de Juliana em desespero e a jogou na cama. Subiu sobre a moça, usando seu corpo com beijos e blandícia.
Suas mãos cheias, grandes e fortes apertavam seus seios, sua língua deslizava o pescoço, deixando um rastro de calor. Juliana cedeu ao gozo, lamuriando e se contorcendo sob seu toque.
Jeremias pôs o preservativo, a virou de lado, posicionando-se atrás dela, e penetrou-a no ânus, fazendo-a gritar de delícia e dor.
Ele a possuía com selvageria, sua cintura se movendo em um curso frenético. Juliana se agarrava aos lençóis, suportando cada polegada dele dentro. O muquifo encontrava-se apinhado de gemidos e murmúrios. Jeremias a dominava, abusando-se de cada curva de seu corpo.
Ele a virou de frente para ele, e Juliana o montou, cavalgou-o, controlando o compasso, vivendo o prazer se intensificar. — Jeremias a segurava pelas ancas, movendo-a em uma cadência chocante, até que, com um grito de alegria, ele estrondou no preventivo, jorrando seu deleite em brasa. Entregando-se ao gozo.
A lâmpada vermelha apagou-se, indicando o fim do tempo de Jeremias. Ele se vestiu rapidamente, deixando Juliana na cama.
Ela queria mais, ainda faltavam dezoito para terminar. Sentia-se poderosa, sabendo que havia proporcionado prazer a dois homens em uma única noite.
Apelidada de Juliana Labareda. Ela continuou a noite, cliente após cliente, cada um com sua história e libido. A linda moça dos olhos verdes se entregou a cada um deles, deixando-os que a explorassem.
Cada encontro era um romance, um bailarico de sexo, que a deixava cada vez mais segura e viciada na sensação de poder que sentia ao satisfazer os elementos.
A noite foi longa, cansativa e intensa. Juliana perdeu a conta de quantas vezes meteram no seu cu. Perdeu a conta de quantas vezes chupou uma rola. De quantas vezes que deitou na cama.
Cada um dos fulanos tocava de uma maneira diferente. Seu corpo foi tratado com carinho por uns e selvageria pelos mais destrambelhados. Todavia, todos tinham algo em comum: a necessidade de meter, gozar e se divertir.
Quando o sol começou a nascer. Juliana situava-se exausta, porém, realizada. Sua primeira noite como prostituta foi um sucesso.
Voltou com dez mil no bolso para o hotel. E ela mal podia esperar para ver o que a próxima noite traria.
Maria do Socorro, dona do bordel, ficou com os outros dez mil, dava pulos de alegria. Juliana tornou-se sua ‘galinha dos ovos de ouro’.
Pela manhã, o país acordou em polvorosa. Nos jornais, nas rádios, nos sites de fofoca, só se falava nela:
A noiva fujona.
A depravada.
A infiel.
Na porta do hotel, uma turba de repórteres suava e se empurrava, cada um querendo dar a manchete mais cretina.
No bordel, o mesmo pandemônio. Era a notícia do ano! E foi assim que os pais de Juliana descobriram seu paradeiro. Pela pior maneira.
Ligaram a TV e lá estava ela, estampada na tela:
“Após fugir do casamento em Campinas, Juliana, agora apelidada como Juliana Labareda, fugiu para Curitiba. Na sua estreia no bordel, atendeu vinte homens em uma única noite.” — disse uma repórter local.
A mãe desmaiou na hora. O pai atirou um copo da tela da televisão e a quebrou. Mas já era tarde. O país inteiro já sabia.
De volta a Curitiba.
No hotel, Maria do Socorro teve que reforçar a segurança. Dois homens fortes foram postos na porta do quarto de Juliana, tamanha foi a repercussão.
Do lado de fora, a polícia foi chamada para conter os mais exaltados. Queriam vê-la. Tocá-la. Insultá-la. Os repórteres gritavam perguntas. Juliana, da janela, não abriu a boca.
— “Dona Juliana, algum arrependimento?”
Silêncio.
— “A senhorita pretende continuar aqui pra sempre?”
Silêncio.
— “A família já entrou em contato?”
Silêncio.
Juliana fumava um cigarro e ria. Deixava o mundo enlouquecer sozinho.
Em Campinas, Frederico encontrava-se curioso. Sentado na poltrona de couro da presidência da construtora, ele decidiu: “Foda-se, vou pra Curitiba! — disse a si.”
Enquanto isso, em Curitiba, Juliana reinava. No hotel, no bordel, no país inteiro. Virou uma entidade. Um fetiche. Um pecado ambulante. Os presentes chegavam sem parar. De um lado, lingeries baratas, bijuterias de camelô. Do outro, joias de verdade, perfumes importados. Os endinheirados faziam propostas sórdidas. — Queriam exclusividade. Queriam ter Juliana Labareda só para eles.
Maria do Socorro, gananciosa, apostou suas fichas na moça. O preço subiu. Antes, mil. Agora, dois mil reais. E ainda assim, a lista de clientes foi ocupada em minutos, antes mesmo do meio-dia.
No leito, Juliana gargalhava. Se divertia vendo os marmanjos se engalfinharem por ela. Até Cininha, dona do hotel, quis lucrar.
— “Escuta, Labareda… Pra que atravessar a rua? Atendam-nos aqui mesmo. Mais conforto e dinheiro pra você, e dinheiro pra mim.”
A proposta não era ruim. Mas Maria do Socorro ficou sabendo
e não gostou.
“Escute aqui, sua velha trambiqueira! A Labareda é minha funcionária! Minha estrela!” — tagarelou a dona do bordel.
As duas se encararam. Trocaram insultos. Quase saíram na porrada. — Só não rolaram no chão puxando cabelo porque foram apartadas por Anselmo e Beto.
E Juliana? Ela acendeu um cigarro. Pegou um bombom da caixa de presente. E esperou a briga acabar. Sentada na beira da cama, perna cruzada. Juliana pegou um bombom da caixa de presente, abriu a embalagem e deu a primeira mordida. Então, ela decretou:
— “Atenderei uma noite na Casa das Pétalas e a outra noite aqui no hotel.”
Silêncio. Maria do Socorro e Cininha se entreolharam. Nenhuma disse nada. Juliana aproveitou a mudez e fincou a bandeira:
— “Também quero ser sócia do hotel e do bordel. Caso contrário, procuro outro lugar.”
Pá! A sentença foi dada. Cininha, sempre ligeira, aceitou na hora.
— “Fechado, eu aceito!”
Maria do Socorro foi a menos empolgada. Engoliu o orgulho a seco.
— “Não estava nos meus planos ter uma sócia…, mas aceito.”
Era isso ou perder a estrela. Juliana expôs um riso, lambeu os dedos sujos de chocolate e finalizou:
— “Hoje atenderei lá. E amanhã, aqui no hotel.”
Estava resolvido. E naquela noite, enquanto o bordel se preparava para recebê-la, vinte vagas estavam ocupadas.
Labareda levantou, acendeu um cigarro e foi fumar na janela. Lá embaixo, na rua, ao menos oito repórteres queriam uma declaração, um aceno, qualquer coisa para virar notícia.
O dia morreu, cedeu lugar à noite. No relógio. Vinte e duas horas. Era a segunda noite da rameira no bordel.
Pronta para arrasar corações. A moça surgiu na escadaria do hotel. Linda. Cheirosa. Maquiada. Trajava um vestido vermelho curto e sensual.
Cininha se abanou, hipnotizada.
— “Você está maravilhosa, mulher.”
Juliana desceu os degraus, como quem desce para o inferno.
Ao seu lado, a dona do hotel. Atrás, Beto, o faxineiro. Anselmo, mais adiante, escancarou a porta. Do outro lado de fora, na calçada, os seguranças de Maria do Socorro já a esperavam.
E a multidão? Se acotovelava. Se espremia. Os comuns e os jornalistas gritavam, tentavam arrancar qualquer palavra da noiva infiel. Juliana, altiva, soberana, nada disse. Só sorriu. Só acenou adeusinho. Atravessou a rua.
No interior da Casa das Pétalas, um bolero lamentoso tocava no salão. Quem conseguiu o convite, entrou. Quem não conseguiu, quis arrombar a porta, tomou socos dos seguranças.
Maria do Socorro esperava-a no meio do salão.
— “Bem-vinda, Labareda.”
Risonha, a rameira pediu vinho. Sentou-se. Bebeu. Dançou. Conversou rápido com os convidados. E quando o relógio bateu onze e meia, subiu as escadas. Era hora de trabalhar.
Ontem, a ralé. Hoje, os endinheirados. Empresários. Advogados e Engenheiros. Toda a canalhada graúda, de charuto e brilhantina.
Desembolsaram 3 mil reais por dez míseros minutos. O que Juliana Labareda tinha? Qual era o mistério da mulher de olhos verdes? Ninguém sabia.
No salão, as outras mundanas se mordiam de inveja. Rosnavam, cochichavam, reviravam os olhos. Nenhuma jamais faturou tanto em uma única noite. E Juliana? Serena. Dona da situação, sentada à beira da cama, perna cruzada, cigarro entre os dedos, bebericando um vinho como se fosse madame. Ergueu o queixo e ordenou:
— “Peça para entrar o primeiro.”
Maria do Socorro pestaneou. Ajeitou a blusa, desceu os degraus.
“Pague antes e suba” — Ordenou a biscate.
Na fila, os engravatados suavam, ansiosos. O aposento do prazer estava aberto.
À medida que esperava o primeiro. Juliana encontrava-se sentada, calma como um monge. Seu corpo havia descansado o dia inteiro para a segunda noite. Todavia, estava determinada a atender a todos.
O primeiro cliente da noite. Lupércio já a aguardava durante horas no salão principal. Era um advogado, esbelto, olhos escuros, que a observava com apetite.
Ao se aproximar, a cortesã notou a respiração arfante do cliente e um sorriso caviloso se formou nos beiços. Eles trocaram algumas palavras. Uma breve conversa para quebrar o gelo, mas logo a inquietação dele tomou conta do seu corpo.
“O que o senhor deseja esta noite? — indagou Juliana, sorrindo, brincando com a libido do homem, sabendo da resposta.
Seus olhos percorreram cada curva do corpo de Juliana.
“Quero você, toda você. Quero meter em você. Labareda.” — falou o cliente, mordiscando os lábios, como um lobo faminto.
Sem demora. Juliana iniciou a despir-se morosamente, deixando seu vestido cair no chão, expondo a lingerie preta sensual. A moça se aproximou de Lupércio, que a beijou e pegou no colo, sentindo o doce do seu perfume e a maciez de suas coxas contra seu corpo.
Juliana riu, uma risada provocante. Lupércio a depositou delicadamente na cama, seus olhos brilhavam. Começou a despir-se, revelando um corpo musculoso, antes de se juntar a ela na cama.
O sujeito a despiu das lingeries. A puta deitou-se nua, expondo seu corpo curvilíneo, seios fartos, coxas apetitosas e uma xoxota em brasa. Lupércio curvou-se e incitou a chupar seus seios com pressa, sugando levemente, à medida que suas mãos tocavam as curvas de seu corpo. A meretriz gemia, seus dedos enroscando-se nos cabelos escuros dele.
“Ah, sim… chupa, meu amor.” — declarou a sem-vergonha.
Lupércio desceu seus beijos pelo abdômen de Juliana, parando na borda de sua buceta. Ele deslizou os dedos sob a pele, sentindo a umidade que já se formava. Juliana arqueou as costas, afastando uma perna da outra, oferecendo-se a ele.
“Caiu de boca… quero sentir sua boca em mim.” — ordenou a pequena, sorrindo, toda oferecida na cama.
Lupércio obedeceu, mergulhou a cabeça entre as pernas dela e iniciou a passar a língua por sua vulva inchada e sedenta. Ele saboreou seus lábios carnudos. Sua boca deslizou por toda a extensão, provocando ganidos altos e incontroláveis.
Lupércio era um exímio devorador de buceta. Juliana se contorcia de prazer sob seus cuidados. Ele sugava seu clitóris, inseria dedos em sua vulva quente, utilizando-a até que a moça alcançasse o orgasmo.
Em seguida, o primeiro orgasmo. Juliana virou-se de quatro, oferecendo sua bunda redonda e firme. Lupércio não vacilou, pôs um preservativo na rola e posicionou-se atrás dela e, com uma única deslocação, penetrou-a.
“Ahn… me fode!” — murmurou rouca, sentia a glande esticar no feofó.
Lupércio agarrou estoicamente nas ancas de Juliana, impondo uma cadência frenética. A cama rangia a cada bote, e os chios de ambos retumbavam pelo quarto. O corpo de Juliana sacolejava no leito. Sentia cada polegada do membro de Lupércio dentro de si.
“Mais… mais rápido!” — rogava ela, tomando pica no butico.
O sujeito atentou ao pedido, avolumando a ligeireza e a força de suas estocadas. Juliana sentia seu corpo tremelicar, à beira de outro orgasmo. O ciclano, num grunhido, atingiu seu apogeu, abarrotando o preservativo com seu esperma tórrido.
Após o coito, Lupércio retirou-se, urinou, vestiu-se e, antes de deixar o cafofo do amor, disse: “Voltarei muito em breve, meu amor.”
Deixou o quarto, exultante. Juliana deitou-se no leito esbaforida, descabelada, alegre, risonha. Tiveram que esperar.
Um tempo depois, a porta se abriu novamente e um homem mais velho, de cabelos branquinhos e um olhar charmoso, entrou no aposento. Era Mário, 73 anos. Médico aposentado. Um cliente conhecido por frequentar há anos a Casa das Pétalas.
Ao adentrar no quarto da rameira, ficou boquiaberto:
“Bravo, bravíssimo.” — Aplaudiu empolgado. “És a mulher mais bela com quem cruzei na vida.” — A elogiou.
Juliana, que estava marcando os beiços em frente ao espelho, sorriu, depois gargalhou. De cara, gostou dele.
“Por favor, sente-se. Qual é o seu nome?” — perguntou a meretriz.
Mário se sentou, Juliana incitou a começar a despir-se, todavia, o velho, disse: “Meu nome é Mário. Por favor, pare, não tire a roupa, deixe que cuido disso.”
O ancião ergueu-se da poltrona, devagar. Deu a volta, aproximou-se. — Juliana, indolente como uma gata no sol, abriu os braços, oferecendo-se sem pudor. O velho despiu-a como quem abre um presente raro. Primeiro os ombros, depois o ventre, até a deixar inteira, nua, uma escultura de carne e pecado.
Mãos encarquilhadas, dedos gulosos. Tocou-a com reverência de devoto. Nas mamas, demorou-se. Beliscou os bicos. De leve.
Juliana, dramatizando o instante, fez cara de dor, esmoreceu e murmurou, entre um suspiro e um gemido: “Ai… doeu.”
Mário aproximou-se, acarinhando o corpo de Juliana. Ele beijou seu pescoço, descendo até seus seios, mamando, lambendo um pouco em cada um. Juliana suspirava, sentindo a boca do sujeito sugar os bicos de suas mamas.
“Chupa meu pau, meu anjo.” — pedia ele.
Juliana acatou, ajoelhando-se no tapete, tirando as calças do cliente, pegando na rola ereta de Mário em sua mão. Ela o acariciou, sentia a textura macia e quente, antes de levá-lo à boca. Sua língua dançava ao redor da glande, provocando-lhe gemidos de prazer.
“Uhh… sua boca faz estragos, garota. Você é esplêndida.” — elogiou, em gemidos.
Após satisfazer Mário com sua boca de veludo, Juliana deitou-se na cama e separou as pernas. Ele se posicionou, pronto para penetrá-la.
Mário passou seis minutos deslizando a pica dentro dela com civilidade. Movia-se lentamente. Juliana enroscava as pernas em volta da cintura dele, puxando-o para mais perto.
“Mais… me fode, Mário. Seu tempo está chegando ao fim.” — Ela o avisou gemendo.
O sujeito aumentou a cadência, seus golpes se tornaram mais parrudos. Juliana zunia, seu corpo tremia. Mário a beijava, mordiscava os beiços, à medida que a penetrava com totalidade.
“Uhh… vou gozar!” — Ele avisou a ponto de estourar.
Juliana uivou, suas paredes contraíram em torno da pica de Mário, levando-o ao deleite. Ele grunhiu, despejando seu sêmen no preservativo. O velhote desabou sobre ela, esbaforido, esgotado.
Quando a luz apagou, ele se levantou, vestiu-se e deixou o quarto.
A noite estava meramente começando, e Juliana ainda tinha muitos clientes a atender. Ela se levantou, tomou um banho de gato para se refrescar e preparou-se para a próxima rodada de prazer.
Nos quartos adjacentes, gemidos. Juliana entregou-se ao terceiro homem. Ela foi penetrada por todos os ângulos, chupou, foi chupada. Explorou o sexo anal e oral. Com o quarto cliente, seu ânus, sua vagina e sua boca trabalharam incansavelmente.
Quando voltou a atender o quinto cliente da noite. O dormitório foi uma consonância de gemidos de delícia. Juliana entregou-se completamente a um homem obeso. Perdendo a conta de quantos vezes foi estocada pelo sujeitinho.
Seu corpo já se encontrava exausto, e ainda faltavam quinze cabeças.
Quando Juliana Labareda pediu para entrar o sexto cliente, um silêncio estranho baixou sobre o quarto. A maçaneta girou devagar.
Um homem de terno preto. Um chapéu largo, sombra no rosto. — Entrou, fechou a porta e trancou. Juliana franziu a testa. Algo naquele sujeito era familiar e sinistro. O coração acelerou. A boca secou. O homem ergueu o rosto. E então, o baque. Frederico. O ex-sogro. O pai de Rafael. O mundo parou por um segundo.
Ele sorriu com ódio antigo.
— “Oi, cretina.”
E então, a arma. Juliana esbugalhou os olhos, paralisada.
— “NÃO! PARE” — gritou, o pavor escalando a garganta.
O segurança, lá fora, ouviu o grito. Correu. Chutou a porta. Tarde demais.
BANG!
O primeiro tiro rasgou o vestido, entrou no peito.
BANG!
O segundo varou o ventre, estilhaçando costelas.
BANG!
O terceiro foi um golpe de misericórdia, um beijo de chumbo na barriga. Juliana caiu como um corpo jogado ao mar. No chão, o vestido vermelho virou um poço de sangue. A visão turvou, a dor era uma lâmina em brasa.
Frederico, satisfeito, vingado, triunfante, olhou o corpo da ex-nora agonizando no tapete barato.
— “Essa é minha vingança, sua ordinária.”
E então, encostou a pistola na têmpora.
BANG!
A cabeça explodiu como um balão cheio demais. Dois cadáveres na Casa das Pétalas. O segurança arrombou finalmente a porta. Tarde.
No salão, o baile parou. As putas, nos quartos ao lado, gelaram. Os clientes subiram feitos urubus farejando carniça. Maria do Socorro se descabelou. Do outro lado da rua, no hotel, Cininha soube da tragédia no segundo seguinte. Os repórteres invadiram o bordel como ratos atrás de um cadáver fresco.
Pronto. A notícia do dia seguinte estava feita. A polícia chegou, mas não havia mais ninguém pra prender. Na internet, um estouro.
“EX-SOGRO MATA A EX-NORA A TIROS NO PROSTÍBULO!”
“JULIANA LABAREDA, A RAMEIRA QUE CHOCOU O BRASIL, É ASSASSINADA!”
“DO ALTAR PARA O BORDEL, DO BORDEL PARA O CAIXÃO.”
Em Campinas, Magda viu pela TV. Gelou. Desmaiou. Em Ribeirão Preto, na casa dos pais, Pilar também desmaiou no tapete da sala. Geraldo, pai da rameira, desabou num choro desesperado.
E Rafael? Rafael soube da tragédia em Paris. Pegou o primeiro voo de volta. O corpo de Frederico voltou para Campinas. Foi sepultado sob vaias. O de Juliana, para Ribeirão Preto. Foi sepultada com aplausos. Fãs na beira da cova jogavam rosas e choravam.
O fim de uma história suja.
O fim de Juliana Labareda.
Acabou.
Fim.