Ler os outros contos vai ajudar a entender o contexto.
As coisas nem sempre acontecem da forma como a gente imagina. Talvez uma das maiores vantagens em ser gay é que, em regra, você não procria acidentalmente.
Paulo acordou com o celular tocando, tomou um susto, afinal ninguém faz ligações hoje em dia. Não era nenhuma operadora oferecendo planos, era Isac.
- Paulo, eu não sei o que fazer. Júlia está gravida!
Já tinham se passado três semanas desde a bendita festa. As coisas em casa estavam tranquilas para Paulo e ele já estava com as malas prontas para ir para a cidade, na segunda-feira faria matrícula na faculdade e já ficaria para o início do curso.
A programação toda incluía Isac, com quem Paulo dividiria o apartamento próximo à universidade. Ao menos era o que Paulo acreditava até ali.
- Como assim, velho?! Júlia está grávida? Vocês estavam fudendo sem camisinha?
- Não, cara, eu só comi na festa! A gente continuou se falando por mensagem, mas a gente nem se viu.
- Meu Deus, Isac! E como você ficou sabendo disso?
- Ela me mandou mensagem, falando que fez o teste de farmácia e deu positivo. Tem duas semanas que ela anda meio doente e não era doença, Paulo! Eu tô muito lascado.
Paulo não sabia exatamente o que falar ao primo. O horizonte se formou rapidamente em sua cabeça. A mãe de Isac era uma beata terrível, que mais vivia a igreja do que em outro lugar, provavelmente faria o primo se casar com Júlia, quando soubesse da gravidez.
- Vem aqui em casa, Isac, a gente pode conversar e você se acalma.
- Não posso, cara, eles estão vindo aqui em casa. Júlia disse que a mãe dela já está sabendo e estão vindo aqui, eu vou entrar em desespero, Paulinho, que merda cara.
Paulo soube do desfecho da história no almoço do mesmo dia. Sua avó, num misto de felicidade em ter o primeiro bisneto e tristeza pelo neto não ir mais para a faculdade, falou que Isac ia se casar com a filha do dono da farmácia. Júlia estava grávida e as duas famílias concordaram com o casamento. Isac não iria mais para a cidade fazer faculdade, porque teria uma família para sustentar e iria trabalhar com o pai na fazenda.
O último encontro de Isac com Paulo, antes da mudança, foi no domingo.
Isac tinha o semblante mais triste que Paulo já tinha visto até ali.
- Paulinho, me perdoa por não estar indo com você. Fiz merda. Agora tenho que ser responsável.
- Poxa Isac, não fica assim, cara. As coisas vão se ajeitar e você vai conseguir fazer faculdade em breve. Sei que vai dar certo.
Os dois trocaram um abraço e se despediram. Paulo não acreditava que o primo fosse ficar bem, pelo menos não no curto prazo, mas a vida continua e ele iria para a cidade na segunda-feira cedinho.
Tiago havia mandado mensagem pedindo desculpas por não ter conseguido marcar nada de despedida, mas a situação em sua casa tinha ficado muito caótica com a gravidez da irmã e ele estava tentando ajudar para que o caos não piorasse.
A noite de sono foi das mais agitadas. Como seria sua vida nos próximos 5 anos? O que faria para arrumar um colega ou uma colega de quarto para dividir as despesas, agora que Isac não dividiria mais o apartamento com ele? Eram tantos questionamentos que as horas de sono foram poucas.
Na segunda-feira de madrugada a família em peso estava na rodoviária. Paulo com suas malas se despedia de todos. A ausência de Isac fez com que ele ficasse levemente triste, mas a felicidade de todos ao redor fez que com que as coisas ficassem mais leves.
Em poucos minutos estava sentado no ônibus, uma viagem de quatro horas o esperava e um mundo novo também.
[continua]