A vida tinha nos jogado num buraco sem fundo. Eu, João, 28 anos, alto, moreno, o corpo ainda duro da malhação de outros tempos, mas magro pela fome, tava sem rumo. Minha esposa, Clara, 26 anos, era um contraste cruel com nossa miséria — mesmo faminta, ela era linda, os seios grandes ainda firmes apesar da magreza, as coxas torneadas segurando o formato de antes, a bunda redonda e perfeita que fazia os olhos virarem na rua. Mas os cabelos castanhos tavam sujos, caindo no rosto pálido, e os olhos dela, antes vivos, agora carregavam um vazio que doía mais que a barriga roncando. O desemprego me derrubou, o aluguel venceu, e a rua virou nosso teto — marquises geladas, papelão molhado, o vento cortando a pele como faca. A gente pedia trocados, comia restos, mas o frio e a fome tavam ganhando. Até que ela apareceu.
Era uma noite úmida, o ar pesado cheirando a lixo e podridão, numa rua escura de Belém que a gente evitava por causa dos bêbados e dos ratos que corriam entre os sacos rasgados. Ela saiu de um beco como um espectro, alta, magra como um cadáver ambulante, o rosto afundado coberto por uma maquiagem barata que escorria no calor, os olhos pretos brilhando como buracos sob a luz fraca de um poste torto. O vestido vermelho rasgado balançava nas pernas ossudas, os cabelos pretos embolados caindo nas costas como teias velhas. - Vocês tão com fome, né? - perguntou, a voz rouca, arranhada como se tivesse engolido cinzas, os dentes tortos à mostra num sorriso que gelava o sangue.
Clara tremia ao meu lado, os braços magros cruzados sobre o peito, tentando esconder os seios que a blusa rasgada mal cobria. - Tamo, mas a gente se vira - respondi, seco, puxando ela pra mim, o corpo dela quente contra o meu, o instinto gritando que aquela mulher era um mau presságio.
Ela riu, um som baixo e cortante que parecia raspar as paredes do beco. - Se vira, é? Eu vejo a morte rondando vocês dois. Os olhos dela tão fundos, e tu já tá com cara de defunto. Mas eu tenho uma saída. - Deu um passo à frente, o salto quebrado batendo no chão rachado, o som ecoando como um aviso. - Tenho um puteiro na próxima esquina. Preciso de uma garota nova, e ela - apontou pra Clara com um dedo ossudo, as unhas pretas como garras - é perfeita. Mesmo magrinha, tem um corpo que os homens pagam pra ter.
Clara encolheu os ombros, o rosto virando pra mim, os olhos castanhos cheios de pavor. - Não, João, eu não quero isso... - sussurrou, a voz tremendo, as mãos agarrando meu braço como se eu fosse a última coisa segura no mundo.
Nem morto - cuspi, o sangue subindo à cabeça, os punhos cerrados prontos pra quebrar algo. - Ela não vai virar puta pra ninguém, sua bruxa.
A mulher inclinou a cabeça, o sorriso se alargando, os olhos dela me perfurando como se vissem dentro da minha alma. - Calma, machão. Tem vaga pra tu também. Porteiro. Tu vigia a porta, as janelas, toma conta das meninas. Ela trabalha, vocês comem, dormem com teto. Ou vocês apodrecem aqui, com os cachorros roendo os ossos de vocês quando o frio apertar. Escolhe logo, que eu não tenho a noite toda.
Olhei pra Clara, o estômago roncando tão alto que parecia um trovão, o rosto dela magro mas ainda lindo, os cabelos sujos caindo nos ombros. Ela balançou a cabeça, os olhos marejados, mas eu vi o desespero nela, o mesmo que me comia vivo. - João, a gente não tem mais nada... - murmurou, as lágrimas escorrendo pelas bochechas fundas, e eu senti o chão desabar sob meus pés. Contra cada fibra do meu corpo, assenti, a garganta seca como areia.
Tá bem. Mas eu fico perto dela, entendeu? - falei, encarando a mulher, que riu de novo, o som ecoando na rua como um lamento.
Perto tu vai ficar, porteiro. Vamos ver se aguenta - disse ela, virando as costas e nos guiando pelo beco, os passos dela ecoando na escuridão.
O puteiro era um túmulo vivo, uma casa velha de dois andares na esquina seguinte, as paredes descascadas pingando umidade, o neon vermelho piscando “Meninas da Noite” num letreiro torto que zumbia como moscas. O cheiro era um soco — suor rançoso, perfume barato, sexo velho e mofo misturados num ar que parecia grudar na pele. O chão pegajoso agarrava as solas dos nossos sapatos gastos, e o som abafado de gemidos e risadas vinha de trás das portas fechadas. Dona Rosa, como ela se apresentou, nos levou pra dentro, os olhos dela nos medindo como se fôssemos carne no açougue.
Primeiro, comida - disse ela, jogando dois pratos de lata na mesa da cozinha, uma mistura aguada de arroz, feijão e um pedaço de frango seco que parecia mais osso que carne. Clara hesitou, os olhos fixos no prato, mas a fome venceu — ela pegou a colher com as mãos trêmulas e comeu rápido, o caldo escorrendo pelo queixo. Eu fiz o mesmo, o gosto rançoso descendo pela garganta, o estômago agradecendo mesmo com o nojo.
Agora, banho - dona Rosa ordenou, apontando pra um banheiro no fundo, uma caixa de concreto com um chuveiro enferrujado e um sabonete gasto. Clara foi primeiro, a porta rangendo enquanto ela entrava, o som da água caindo misturado ao choro baixo que eu sabia que ela tentava esconder. Quando saiu, o cabelo molhado pingava, o corpo magro enrolado numa toalha fina que mal cobria as coxas. Eu fui depois, a água fria cortando a sujeira da rua, mas não o peso que carregava no peito.
Dona Rosa voltou com roupas. Pra mim, um terno velho, preto, puído nas mangas, mas limpo, com uma camisa amarelada e um cinto rachado. - Teu uniforme, porteiro. Tu vigia a porta da frente e as janelas dos quartos. São oito meninas, oito buracos, e tu garante que ninguém entra sem pagar - disse ela, me entregando uma lanterna pequena e uma chave enferrujada. - Se vacilar, te jogo na rua com ela, e aí vocês viram comida de urubu.
Pra Clara, ela jogou um pacote — uma lingerie preta nova, de renda barata, com detalhes vermelhos, e um vestido curto de cetim que brilhava sob a luz fraca. - Veste isso, garota. Teu primeiro cliente vem hoje - falou, a voz cortante, e Clara pegou as roupas com as mãos trêmulas, os olhos baixos, o rosto pálido como cera.
Onde eu fico? - perguntei, a voz rouca, tentando segurar o pavor que subia pela espinha.
Ali - dona Rosa apontou pra um canto na entrada, uma cadeira bamba de madeira ao lado de uma mesa torta, uma janela pequena e suja que dava pro corredor dos quartos. - Dali tu vê tudo. São oito portas, oito janelas pras meninas. Vigia, ouviu? Se alguém pular, tu leva a culpa.
Sentei na cadeira, o terno apertando nos ombros, a lanterna na mão enquanto dona Rosa levava Clara pro quarto no fim do corredor. Mas antes, ouvi um barulho — gemidos altos, risadas brutas vindo de um dos quartos. A janela ao meu lado dava pra dentro, e eu vi. Uma das meninas, uma morena magra com cabelos longos, tava de joelhos no chão, três homens ao redor dela. Um era gordo, suado, metendo na boca dela enquanto segurava o cabelo como rédea, o pau grosso entrando e saindo, a baba escorrendo pelo queixo dela. Outro, magro e tatuado, fodia ela por trás, as mãos batendo na bunda dela, o som ecoando no quarto. O terceiro, um careca de olhos fundos, se masturbava ao lado, rindo enquanto gozava no rosto dela, o líquido branco pingando no chão sujo. Ela não chorava — movia o corpo como máquina, os olhos vazios, uma profissional que tinha desistido de sentir.
Eu virei o rosto, o estômago embrulhando, mas dona Rosa tava lá, o rosto na minha cara. - Tá vendo? É assim que funciona. Tua mulher vai aprender rápido - sussurrou, o hálito dela fedendo a cigarro e morte, antes de desaparecer no corredor.
Clara entrou no quarto, a porta rangendo atrás dela, e eu fiquei ali, a lanterna na mão, o coração batendo como tambor. A janela do quarto dela tava logo à direita, o vidro embaçado me dando uma visão torta do que vinha. O primeiro cliente chegou rápido, um vulto na entrada que fez o chão tremer com os passos. Ele era um monstro — uns 40 anos, mais alto que eu, ombros largos como um touro, os braços grossos cobertos de tatuagens desbotadas que pareciam cicatrizes de guerra. O peito peludo saía de uma regata suja, o rosto bruto coberto por uma barba rala, os olhos pretos brilhando com uma fome doentia que me gelou o sangue. Ele jogou notas amassadas nas mãos de dona Rosa, o dinheiro sujo de terra e suor, e ela apontou pro quarto de Clara com um sorriso torto. - Primeira da noite, novinha. Se comporta, hein, Zé - disse ela, a voz rouca cortando o ar, mas ele só riu, um som grave e sádico que ecoou na casa.
Ele entrou, a porta rangendo como um grito, e eu me inclinei pra janela do quarto, o vidro embaçado me dando uma visão torta do que acontecia lá dentro. Clara tava de pé, tremendo, a lingerie preta caindo de um ombro, os seios grandes quase saltando do tecido, as coxas torneadas brilhando com o suor do medo. O cara, Zé, nem falou — agarrou ela pelo braço com uma mão enorme, as unhas pretas cravando na pele branca enquanto a jogava na cama, o colchão velho rangendo sob o peso dela. - Tira essa porra, vadia - grunhiu, a voz como um trovão baixo, rasgando a lingerie com um puxão bruto, o tecido se desfazendo nas mãos dele. Os seios dela pularam livres, os mamilos rosados duros de pavor, e ela tentou recuar, o corpo magro se encolhendo contra a cabeceira, os olhos castanhos arregalados.
Não, por favor, eu não quero... - chorou ela, a voz quebrando em soluços, as mãos tentando cobrir o peito, mas ele a pegou pelos cabelos, os dedos grossos enrolando os fios castanhos como cordas, puxando a cabeça dela pra trás com força. - Cala essa boca ou eu te faço engolir meu pau até tu sufocar - rosnou, o hálito fedendo a cachaça e cigarro batendo no rosto dela. Clara soluçou mais alto, as lágrimas escorrendo pelas bochechas magras, mas ele não tinha piedade. Abriu a calça com uma mão, o cinto caindo no chão com um estalo, e o pau saiu livre — um troço descomunal, grosso como meu antebraço, veiudo, pulsando com uma raiva que parecia viva, a cabeça inchada brilhando na luz fraca do quarto.
Eu bati na janela, o vidro tremendo sob meus punhos, o sangue quente nas veias. - Para, seu filho da puta! - berrei, a voz rouca de raiva, mas dona Rosa apareceu do nada, o rosto ossudo na minha cara, os olhos pretos me perfurando como facas. - Fica quieto, porteiro, ou te corto fora daqui e ela vai sozinha pra rua - sibilou, o hálito dela um veneno que me fez recuar. Voltei pra cadeira, as mãos cerradas, o coração rasgando enquanto via tudo.
Zé cuspiu na mão, esfregou no pauzão e agarrou as coxas de Clara, abrindo ela com brutalidade, os dedos afundando na carne enquanto ela gritava, o som rasgando o quarto como um lamento. Ele meteu sem aviso, o pau arrombando ela num golpe seco, o corpo dela arqueando na cama, os olhos arregalados de dor, a boca aberta num grito que não saía. - Caralho, que buceta apertada, tua vadia é nova mesmo - grunhiu ele, batendo os quadris contra ela com uma força animal, o som molhado da carne contra carne misturado aos soluços dela. Ele segurou os seios dela, apertando com violência, os dedos afundando na pele branca, os mamilos esmagados enquanto metia, o colchão rangendo como se fosse desabar.
Clara chorava alto, as lágrimas cortando o rosto, as mãos agarrando o lençol sujo enquanto o corpo magro tremia sob ele. Ele virou ela de bruços com um safanão, a cara dela afundada no travesseiro fedorento, e montou nela por trás, o pauzão entrando fundo, rasgando ela enquanto puxava os cabelos pra trás, o pescoço dela exposto, os soluços abafados. - Chora, puta, chora que eu fodo mais forte - rosnou, batendo na bunda dela com a mão aberta, a pele ficando vermelha, as marcas dos dedos brilhando no escuro enquanto ele metia, o ritmo selvagem, os gemidos dele graves e doentes. O pau entrava e saía, grosso e cruel, a boceta dela esticada ao limite, o corpo dela quicando na cama a cada estocada, os seios balançando, a bunda linda marcada pelas mãos dele.
Ele segurou os quadris dela, levantando ela de quatro, as coxas abertas tremendo enquanto metia, o pauzão batendo fundo, o som molhado ecoando no quarto. - Toma, sua cadela, toma tudo - grunhiu, os dentes cerrados, o suor pingando do peito peludo dele nas costas dela. Clara gritava baixo agora, a voz rouca, o choro virando suspiros quebrados enquanto ele a arregaça sem parar, o corpo dela cedendo ao peso dele, os seios esmagados contra o colchão. Ele gozou com um urro, enchendo ela, o líquido quente escorrendo pelas coxas torneadas dela, o corpo dela colapsando na cama, o rosto molhado de lágrimas, o cabelo grudado na testa.
Zé se levantou, limpou o pau na lingerie rasgada e jogou mais notas no chão, rindo enquanto vestia a calça. - Boa foda, novinha. Dona Rosa, essa aqui eu quero de novo - gritou, a porta batendo atrás dele, o cheiro de sexo e cachaça ficando no ar como um veneno. Clara ficou lá, jogada, o corpo magro coberto de marcas, as coxas abertas, o rosto enterrado no travesseiro, o choro baixo cortando o silêncio.
Mas a noite não acabou. Dona Rosa entrou no quarto, o rosto ossudo iluminado pela luz fraca, e jogou outra lingerie pra Clara — branca, rendada, ainda mais curta. - Levanta, garota, tem mais dois pra hoje - disse, a voz cortante como uma lâmina. Clara tentou se mexer, o corpo tremendo, mas dona Rosa a puxou pelo braço, forçando ela a ficar de pé. - Tu quer comer amanhã ou não? Anda logo.
O segundo cliente era um magrelo de uns 30 anos, pele queimada, olhos fundos e mãos nervosas. Ele não era grande como Zé, mas fodia com uma raiva contida, agarrando os seios dela enquanto metia, os dedos finos cravando na carne, os gemidos dele agudos como um animal ferido. Clara mal reagia, os olhos vidrados, o corpo mole na cama enquanto ele batia nela por trás, gozando rápido e saindo sem falar nada, jogando o dinheiro na mesa.
O terceiro era um gordo suado, barriga caindo sobre a calça, o rosto vermelho de cachaça. Ele riu enquanto montava nela, o peso esmagando ela contra o colchão, o pau curto mas grosso entrando e saindo enquanto ele babava no pescoço dela, as mãos gordas apertando a bunda dela até deixar marcas. - Boa, magrinha, aguenta bem - grunhiu, gozando com um gemido rouco, o suor dele pingando nela enquanto ela tremia, o choro abafado no travesseiro.
Quando o último saiu, dona Rosa voltou, jogando 500 reais em notas sujas na cama pra Clara e 100 pra mim na mesa da portaria. - Bom trabalho, porteiro. Dormem ali no canto, tem um colchão velho. Amanhã tem mais - disse ela, desaparecendo no corredor, o vestido vermelho balançando como um pano ensanguentado.
Entrei no quarto, o coração apertado, e encontrei Clara enrolada no lençol sujo, o corpo marcado, os olhos vazios encarando o teto. - João... - sussurrou, a voz morta, e eu a puxei pro peito, o terno fedendo a suor enquanto a abraçava, o terror do que vi queimando nos meus olhos. Levamos o colchão pro canto da portaria, o chão frio sob nós, e dormimos ali, o corpo dela tremendo contra o meu, o som dos gemidos das outras meninas ecoando pelos quartos como fantasmas.
Amanhã ia ser pior. O puteiro era nossa jaula agora, e eu sabia que o que vinha pela frente ia nos quebrar mais que a noite que passou. Clara segurou minha mão, os dedos fracos apertando os meus, e eu fechei os olhos, o peso do terror me engolindo enquanto tentava esquecer o que vi pela janela.