O SABOR DE UMA DOCE VINGANÇA ! Cap.19

Um conto erótico de Alex Lima Silva
Categoria: Gay
Contém 2220 palavras
Data: 03/04/2025 21:27:07

Acordei antes do sol nascer, como vinha fazendo há meses. A corrida matinal já era parte de mim, um ritual que me ajudava a manter a cabeça no lugar. Mas naquela manhã, o ar parecia mais denso, como se algo estivesse prestes a acontecer. Conforme meus tênis batiam contra o chão úmido do parque, minha mente vagava entre o passado e o presente, entre a vingança e o desejo de seguir em frente.

Foi então que o vi.

Perto do pequeno lago, uma silhueta conhecida estava sentada, os ombros caídos, a cabeça entre as mãos. Reduzi o passo, franzindo a testa. O cara parecia despedaçado. Quando me aproximei o suficiente, reconheci. Arthur.

O mesmo Arthur que riu de mim, que me empurrou contra paredes de banheiro, que me fez duvidar da minha própria existência. E agora ele estava ali, sozinho, chorando. O destino podia ser irônico às vezes.

Parei ao lado dele, controlando meu tom de voz.

— Tá tudo bem? — perguntei, com um toque de hesitação planejada.

Arthur ergueu o rosto. Os olhos estavam vermelhos, inchados. Por um momento, apenas me encarou, como se tentasse entender por que eu, de todas as pessoas, estava ali falando com ele. Ele abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Limpou o rosto com as costas da mão, respirou fundo e tentou disfarçar.

— Não é nada — disse, a voz falhando no final.

— Não parece nada — retruquei, me sentando no banco ao lado dele. Cruzei os braços e olhei para o lago. — Quer falar sobre isso?

Ele soltou um riso seco, sem humor.

— Desde quando você se importa?

— Talvez eu só esteja tentando ser uma pessoa decente — dei de ombros. — Ou talvez eu só esteja curioso pra saber o que poderia fazer Arthur, o intocável, chorar no meio de um parque às seis da manhã.

Ele respirou fundo, parecia resistir, mas algo nele cedeu.

— Minha vida tá uma merda — murmurou. — Eu… perdi o controle das coisas. Trabalho. Família. Eu nem sei mais quem sou.

O peso das palavras dele preencheu o espaço entre nós. Algo dentro de mim quase quis sentir pena. Quase. Mas isso não fazia parte do plano.

— Isso acontece — falei, minha voz mais baixa. — Às vezes, a gente desmorona.

Arthur olhou para mim, e, de repente, seus olhos se encheram de lágrimas novamente. Antes que eu pudesse reagir, ele se jogou contra mim, me abraçando com força.

Fiquei rígido por um segundo, pego de surpresa. Mas logo meus braços se moveram, hesitantes, deslizando para suas costas em um gesto que deveria ser reconfortante. Ele tremia. Sua respiração estava quente contra minha pele.

— Eu… eu não sei o que fazer — ele sussurrou contra meu ombro, os dedos agarrando minha camisa como se estivesse se segurando em algo concreto pela primeira vez em muito tempo.

Eu abri a boca para dizer algo, mas foi nesse momento que senti. Uma pressão sutil contra minha coxa. Uma rigidez inesperada.

Meu corpo travou.

Arthur, ainda grudado em mim, parecia não ter notado que seu corpo estava reagindo de uma maneira… inusitada. O silêncio entre nós ficou mais denso, carregado de algo que eu não esperava sentir naquele momento. Uma parte de mim quis rir. A outra… bom, a outra estava intrigada.

Pigarreei levemente, mantendo meu tom de voz sob controle.

— Acho que… você tá mais calmo agora, né? — testei, deslizando as mãos lentamente para longe do abraço.

Arthur pareceu perceber naquele instante. Seu corpo enrijeceu, e ele se afastou de repente, passando a mão no rosto, claramente envergonhado. Mas não olhou nos meus olhos.

Apenas sorri, deixando o momento se arrastar. Eu podia sentir o desconforto dele. O embaraço. E, acima de tudo, a tensão no ar.

Arthur ainda tremia, respirando fundo enquanto tentava se recompor. Eu continuei ao lado dele, sentindo o peso do silêncio entre nós. O choro dele havia diminuído, mas ainda estava ali, pairando no ar como um fantasma que se recusava a ir embora.

— Não sei mais o que fazer — ele disse, a voz carregada de frustração. — Tá tudo errado. Nada faz sentido.

Eu levantei uma sobrancelha, observando-o de canto.

— Do que você tá falando?

Ele suspirou, passando as mãos pelo rosto antes de encarar o lago à nossa frente.

— O caso do Gabriel. Eu não tô conseguindo descobrir quem matou ele. Tudo parece levar a lugar nenhum, as pistas não fazem sentido. E, pior… tem algo muito errado acontecendo na cidade.

Minha expressão permaneceu neutra, mas por dentro, minha mente trabalhava rápido. Então ele realmente não fazia ideia de quem matou Gabriel. Interessante.

— Algo errado como? — perguntei, mantendo o tom casual.

Arthur balançou a cabeça, como se estivesse tentando organizar os pensamentos.

— Informações sumindo, testemunhas mudando depoimentos… até dentro da delegacia, parece que tem alguém manipulando tudo. Eu não confio mais em ninguém.

Fingi ponderar por um instante antes de soltar um suspiro.

— Você é o delegado, Arthur. Se tem algo errado, você vai resolver.

Ele me olhou, surpreso pela firmeza na minha voz. Pela primeira vez desde que nos reencontramos, parecia realmente me ver. Então, como se agisse no impulso, ele segurou minha mão.

— Obrigado! De verdade. Eu precisava ouvir isso.

Seu toque era quente, os dedos ligeiramente trêmulos, mas a forma como ele segurava minha mão não parecia apenas um gesto de gratidão. E foi nesse momento que aconteceu de novo.

A rigidez contra o tecido da calça dele, a respiração um pouco mais pesada. Meu corpo ficou tenso. Arthur percebeu e, envergonhado, soltou minha mão e passou a própria sobre o próprio corpo, murmurando:

— Merda… desculpa. É que… minha mulher não tá comparecendo ultimamente.

Engoli em seco, desviando o olhar, completamente sem jeito com aquela confissão repentina. Mas Arthur… ele riu.

— Relaxa, cara. Não precisa ficar assim. Não é como se fosse sua culpa.

Eu forcei um sorriso, tentando ignorar o desconforto que rastejava pela minha pele. Mas algo me dizia que aquilo ainda estava longe de acabar.

— Me passa seu número? — ele pediu, casual, como se não fosse nada demais. — Pra uso pessoal. A gente pode trocar umas idéias! Tô precisando de um colega!

Fingi hesitação, mas no fundo, aquilo só tornava o jogo mais interessante. Digitei meu número no celular dele, observando sua expressão enquanto fazia isso. Arthur parecia satisfeito, quase… aliviado. Algo me dizia que ele entraria em contato mais cedo do que eu esperava.

Depois de me despedir, segui para a academia. O treino matinal era parte essencial da minha rotina, algo que me ajudava a manter o foco. Mas, assim que entrei no ambiente cheio de aparelhos e o cheiro característico de ferro e suor, vi alguém que não esperava.

Thales.

Fazia tempo que eu não pensava nele. Gabriel, Mateus e agora Arthur tinham ocupado tanto espaço na minha mente que eu simplesmente… esqueci. Mas ali estava ele, ajustando os pesos de um aparelho, parecendo mais forte do que antes, com aquele mesmo jeito confiante e despretensioso.

Nossos olhares se cruzaram, e ele sorriu de lado.

— Olá ! Bom dia! Tudo bem? Posso te ajudar ?— Ele se aproximou, me analisando. — Querendo pegar pegar pesado na academia?

Cruzei os braços, um sorriso discreto no rosto.

— Algo assim. Você tá trabalhando aqui? Nunca vi você por aqui!

— Comecei há pouco tempo — ele confirmou, dando de ombros. — Ainda tô pegando o ritmo desse lugar, mas tô curtindo. Quer uma ajuda no treino?

A ideia veio na hora. Se Arthur estava começando a se aproximar, não tinha motivo pra não puxar Thales também.

— Na verdade, preciso de um personal. E quero você. — Minha voz saiu firme, sem espaço pra negociação.

Thales arqueou uma sobrancelha, surpreso.

— Sério? Bem, posso encaixar um horário pra você, se quiser.

— Não precisa encaixar nada. Quero um horário só meu. Sem dividir com ninguém.

Ele riu, ajeitando a camisa.

— Que exigente… mas tudo bem, fechamos assim. Esse horário agora pode ser só seu.

Apertei sua mão, firme, sentindo a satisfação crescer dentro de mim. Mais uma peça no tabuleiro. E dessa vez, eu não esqueceria de Thales.

O som das anilhas batendo no chão ecoava pela academia, misturando-se ao barulho das máquinas e à música alta. Eu respirava fundo, sentindo o suor escorrer pelas têmporas enquanto finalizava mais uma repetição sob o olhar atento de Thales.

— Isso aí, Pedro. Mais uma. — Ele encostou de leve na minha lombar para ajustar minha postura. — Mantém o tronco firme e não trava a respiração.

Bufei, forçando mais um movimento antes de soltar o peso com um gemido exausto.

— Você tá querendo me matar, cara — reclamei, passando a toalha pelo rosto.

Thales riu, cruzando os braços.

— Você que pediu um personal que pegasse pesado. Não reclama agora.

Revirei os olhos, mas não consegui segurar um meio sorriso. Ele realmente sabia o que estava fazendo. Depois de mais alguns exercícios, fomos para a recepção da academia, onde acertamos os valores das aulas e trocamos números.

— Agora que tá feito, não tem desculpa pra faltar — Thales disse, guardando o celular no bolso. — Esse horário é só seu.

Assenti, sentindo um misto de cansaço e satisfação. Depois de um aperto de mão, me despedi e segui direto para o restaurante onde Flávio já me esperava.

Assim que me aproximei da mesa, ele fez uma careta exagerada.

— Meu Deus, Pedro! — Ele levou a mão ao nariz, rindo. — Você tá fedendo! Podia ter tomado um banho antes de vir me ver.

Soltei uma risada, puxando a cadeira para sentar.

— Para de drama. Eu vim direto porque você disse que tava morrendo de fome. E olhe que nem é meio dia ainda!

Ele revirou os olhos, pegando o cardápio.

— Tá, tá… eu perdoo. Mas se sentir um cheiro estranho na comida, já sei de quem é a culpa.

Revirei os olhos, rindo.

— Você me ama mesmo assim.

Flávio apoiou o queixo na mão, sorrindo de canto.

— Infelizmente, sim. Mas, por via das dúvidas, a gente passa na sua casa depois do almoço pra você tomar um banho decente.

Sacudi a cabeça, rindo. Flávio sempre tinha um comentário afiado na ponta da língua, mas eu gostava disso. Era parte do que fazia nosso relacionamento tão divertido. E depois de um treino daqueles, eu realmente merecia um almoço e, talvez, um banho antes de qualquer outra coisaEu estava no meio do meu prato quando o celular vibrou sobre a mesa. Flávio, sentado à minha frente, falava animado sobre alguma fofoca, de um cliente que ele atendeu na sua loja, mas minha atenção se desviou para a tela do telefone. Assim que vi o nome que aparecia na notificação do WhatsApp, senti um frio percorrer minha espinha.

Felipe.

Ex de Flávio. Ex de Gabriel. E, agora, um nome crucial no meu jogo.

Eu tinha demorado semanas para conseguir o contato dele. Foi um trabalho meticuloso, encaixando peças, puxando fios soltos até encontrar alguém que tivesse seu número. E agora ele finalmente me mandava uma mensagem. Meu coração bateu mais rápido, não de nervosismo, mas de antecipação.

— Você tá me ouvindo, Pedro? — A voz de Flávio me trouxe de volta. Ele franziu a testa ao me ver encarando o celular. — Quem é?

Levantei os olhos para ele, rapidamente apagando qualquer expressão do meu rosto.

— Nada importante — menti, dando um gole no suco para disfarçar. — Só um contato de trabalho.

Flávio estreitou os olhos, desconfiado, mas não insistiu. Peguei o celular e abri a conversa.

**Felipe:** Oi? Quem é?

Minha mente trabalhou rápido. Não podia demonstrar meu real interesse, muito menos levantar suspeitas. Então fui pelo caminho mais seguro.

**Eu:** Oi, Felipe. Meu nome é Pedro. Consegui seu contato porque soube que você é pintor e tô precisando de um serviço. Ainda trabalha com isso?

Segundos depois, ele digitava uma resposta. Olhei de relance para Flávio, que continuava alheio, focado no próprio prato.

**Felipe:** Sim, ainda pinto. Mas como conseguiu meu número?

**Eu:** Um amigo em comum me passou. Disseram que você tinha se mudado, mas que era um dos melhores daqui.

Deixei o elogio no ar, esperando que ele mordesse a isca. E funcionou.

**Felipe:** Eu saí da cidade por um tempo, mas voltei ontem. Ainda tô me ajeitando.

Era minha oportunidade.

**Eu:** Bom, então talvez eu tenha te encontrado na hora certa. Você poderia passar na minha sorveteria no fim da tarde? Podemos conversar sobre o serviço e eu te mostro o espaço.

O tempo que ele demorou para responder me fez prender a respiração por um segundo. Mas então a notificação apareceu na tela.

**Felipe:** Ok. Onde fica?

**Eu:** No centro, perto da praça principal. Nos encontramos lá às 17h?

**Felipe:** Beleza.

Bloqueei o celular, sentindo um leve sorriso se formar em meus lábios. Finalmente, depois de tanto esforço, eu teria Felipe na minha frente. E com ele, talvez, algumas respostas sobre Gabriel.

— Você tá com uma cara estranha — Flávio comentou, me olhando de soslaio. — Sério, Pedro, o que foi?

Ergui os olhos para ele e sorri.

— Nada demais. Só negócios.

Ele revirou os olhos.

— Sei. Mas, olha, espero que seu negócio envolva um banho antes da gente sair daqui.

Ri, pegando o celular novamente, mas desta vez apenas para distrair Flávio. Minha mente já estava longe dali, focada no verdadeiro encontro que me aguardava no fim do dia.

Continua...

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