Tinha combinado com Felipe de ele vir na sorveteria pintar e desenhar as paredes do fundo, além de fazer uns desenhos na frente e por algum motivo, eu queria que tudo estivesse minimamente organizado.Até porque não era só uma pintura que ia acontecer ali.
Mandei uma mensagem pra ele confirmando, e em menos de cinco minutos ele respondeu: *“Tô indo.”*
Pouco depois das nove, ouvi a sineta da porta tocar.
— Oi, Pedro — disse ele, tímido, entrando com uma mochila nas costas e os olhos ainda meio inchados, talvez de sono, talvez de outra coisa.
— Oi, Felipe. Trouxe suas tintas?
— Sempre. — Ele forçou um sorriso, e eu retribuí com outro. Estava mais magro do que da última vez, mais abatido. Mas ainda assim havia algo delicado nele. Como se, mesmo em ruínas, ainda fosse capaz de criar beleza.
Conduzi ele até o fundo da sorveteria, onde a parede branquinha parecia ansiosa por ganhar vida. Mostrei o espaço, as ideias, deixei ele à vontade.
— Faz do teu jeito. Eu confio.
— Sério?
— Sério.
Ele tirou os materiais, começou a esboçar direto na parede com um lápis. As linhas surgiam delicadas, quase como se a parede estivesse sendo acariciada. Me sentei num banquinho próximo, observando.
— Você pinta há quanto tempo? — perguntei, só pra puxar assunto.
— Desde criança. Era o que me salvava de muita coisa.
— Sei bem como é. Eu fugia pros livros... hoje fugi pra sorvete.
Ele riu fraco.
— E você sempre morou aqui mesmo ?
— Sou de São Paulo! Mas já me sinto pertencente aqui!— Dei uma piscadinha. Ele pareceu não saber se ria ou se se preocupava.
A conversa fluiu por mais alguns minutos. Eu não sei como chegamos naquele assunto, mas foi como se as palavras escapassem por si.
— Tá tudo tão diferente por aqui... Quando cheguei me parecia uma cidade mais calma mas me enganei...Até um cara chamado Gabriel foi assassinado. Fiquei sabendo semana passada! Cê soube ?
Foi como se eu tivesse jogado uma bomba no meio do cômodo.
Felipe parou de desenhar.
Virou pra mim com os olhos arregalados.
— O quê?
— É... dizem que foi a sangue frio. Mas a coisa toda é mal contada. — Pausei, ao notar a expressão dele. — Você o conhecia?
Ele não respondeu.
Apenas caiu de joelhos, como se o corpo não suportasse o peso da memória. Começou a chorar. Não era um choro comum. Era um desespero cru, um soluço compulsivo que fazia o peito dele tremer inteiro.
— Felipe! — me aproximei, assustado.
A porta da frente abriu. Escutei a voz de Wellington, animado como sempre:
— Bom dia, chefe! Trouxe aquele café que você gosta, viu?
Mas a alegria dele durou pouco. Ele viu a cena e arregalou os olhos.
— Oxe, o que tá acontecendo aí?
Mateus veio logo atrás, com uma caixa de reposição nas mãos. Ao ver Felipe no chão, chorando daquele jeito, largou tudo.
— Que porra é essa? — ele se adiantou, olhando pra mim, depois pra Felipe. — O que ele tá fazendo aqui, Pedro?
— Ele veio pintar a parede. Eu não sabia que...
— Você não devia estar aqui, Felipe! — Mateus cortou, com um tom entre a raiva e o medo.
Felipe tentou dizer algo, mas só conseguia chorar, afundado nele mesmo. Wellington ficou em silêncio, sem entender nada.
Eu fiquei no meio dos dois, tentando acalmar as coisas. Mas dentro de mim, uma pulga já tinha subido pra trás da orelha.
Tinha alguma coisa naquela história que ninguém estava me contando.
Felipe ainda chorava quando me abaixei com um copo d’água na mão. Os olhos dele estavam vermelhos, o rosto todo molhado, o corpo tremia. Era como se tudo tivesse explodido por dentro dele de uma vez.
Mateus estava encostado na parede, sério, braços cruzados, como quem guarda um segredo que queria continuar enterrado. Wellington só olhava de um pro outro, com aquela cara de “alguém me explica essa novela”.
— Ele era o ex do Gabriel — disse Mateus de repente, rompendo o silêncio. — Felipe. Eles namoraram um tempo... na surdina, claro. Gabriel não era assumido. Ninguém sabia direito. Nem eu sabia, até ele me contar uma vez, bêbado.
Wellington arregalou os olhos, mas ficou calado. Eu só escutava, mantendo o copo firme na mão.
— Gabriel mudou muito depois que começou a namorar com ele, até se afastou dos amigos, eu mesmo, mal conseguia trocar uma ideia com ele!— Mateus deu de ombros, mas o olhar dele dizia mais que mil palavras. — Felipe desapareceu depois do assassinato. Nunca mais vi. Até agora.
Me aproximei e entreguei o copo pra Felipe, que pegou com mãos trêmulas.
— Bebe devagar. Vai te fazer bem.
Ele assentiu, ainda sem conseguir falar. Os olhos dele buscaram os meus com uma dor que me atingiu fundo. Vi ali um tipo de luto que não se explica, um silêncio cheio de lembranças que ninguém entende além de quem viveu.
— Felipe... acho que é melhor deixar a pintura pra depois, né? — falei com calma. — Cê quer conversar um pouco? Esfriar a cabeça?
Ele respirou fundo. Finalmente, conseguiu balbuciar:
— Quero.
— Bora dar uma volta no parque?
Ele assentiu de novo, enxugando os olhos com a manga da blusa. Se levantou devagar, como quem carrega anos nas costas.
— Eu te levo — disse, pegando minha chave e olhando brevemente pra Mateus. — Depois a gente conversa.
— Tá — respondeu ele, baixo, mas ainda com aquela desconfiança no olhar.
Wellington se afastou pro balcão, quieto como eu nunca tinha visto. E eu saí com Felipe.
O caminho até o parque foi quase silencioso, mas diferente do silêncio da dor. Era um silêncio de preparação, como quem vai tirando os tijolos de um muro devagar, só pra ver o que ainda restou do outro lado.
Enquanto a gente andava entre as árvores e o cheiro das flores, Felipe começou a respirar melhor. O rosto dele foi voltando ao normal, como se estar ali, longe de tudo, fosse um remédio.
E eu?
Eu só pensava em como meu plano estava funcionando. Me aproximar de quem conviveu com Gabriel era parte do jogo. Descobrir seus segredos, suas feridas, entender os pontos fracos.
Mas olhando praquele garoto tão quebrado ao meu lado, confesso que pela primeira vez, meu plano pareceu... humano.
E isso me assustou mais do que qualquer lembrança.
Sentamos num banco do parque, sob a sombra de uma árvore antiga. As folhas balançavam devagar com o vento, como se o mundo lá fora tivesse desacelerado só pra aquela conversa acontecer. Eu não apressei Felipe. Ele precisava do tempo dele, e eu sabia que esse tipo de dor não se desentala com pressa.
Ficamos alguns minutos em silêncio até que, sem olhar pra mim, ele começou a falar.
— Quando conheci o Gabriel... ele era muito na dele. Fechado, calado, quase um enigma. Mas foi isso que me atraiu, sabe?
Assenti com a cabeça, tentando não interromper. Os olhos dele estavam distantes, como se estivessem presos a um tempo que não voltava mais.
— Eu achava que era só timidez. Mas era mais. Tinha uma tristeza nele... como se ele tivesse carregando o mundo nas costas. E quanto mais eu tentava entender, mais eu me apaixonava.
Ele respirou fundo, segurando o choro que insistia em voltar.
— No começo, foi lindo. A gente se encontrava escondido, falava por mensagens. Ele tinha medo, muito medo. Dizia que as pessoas não entenderiam. Eu achei que era só insegurança. Mas aí começaram as mensagens...
— Mensagens? — perguntei, devagar.
— Ameaças. Pelo celular. Primeiro eram só palavras. Depois fotos, vídeos... tudo anônimo. Eu insistia pra ele ir à polícia, mas ele nunca quis.
Ele passou a mão no rosto, os dedos trêmulos.
— Um dia... ele apareceu em casa sangrando. Tinha levado um tiro no braço. Disse que era assalto, mas eu vi nos olhos dele que não era. Foi uma ameaça que passou dos limites.
— E mesmo assim ele não denunciou?
— Não. Disse que se fizesse isso, pioraria. Que essas pessoas sabiam demais. Que ele tinha medo... de morrer. — Ele fechou os olhos. — E morreu do mesmo jeito.
A dor na voz dele era cortante. Fiquei quieto, deixando ele seguir no tempo dele.
— Gabriel sofreu muito na adolescência. Apanhava em casa. Dizia que ninguém nunca o amou de verdade. Que só sabia se esconder. A cabeça dele era uma bagunça. Às vezes ele me amava, no minuto seguinte me afastava. A vida adulta dele foi um reflexo disso tudo. Caos. Medo. Silêncio.
— E você não pensou em chamar a polícia,ajudá-lo de alguma forma ?
Felipe sorriu triste, os olhos cheios d’água.
— Eu quis ajudá-lo, mas ele não quis ser ajudado. Me pedia pra ficar perto,mas que era pra ter cuidado ou ia acabar me machucado também. E talvez... talvez ele tivesse razão.
Eu olhei pra ele com outra visão. Felipe não era só uma peça no meu jogo. Ele era um pedaço vivo da história de Gabriel. Um que ainda doía, que ainda sangrava.
E pela primeira vez desde que voltei pra essa cidade, eu senti algo além da vingança.
Senti empatia.
— Obrigado por confiar em mim — falei. — Você não tá sozinho, Felipe.
Ele me olhou com um olhar que eu conhecia bem: o de quem nunca ouviu isso antes.
Eu precisava saber mais. Havia algo naquela história que não fazia sentido, e a intuição me dizia que Felipe sabia de coisas que talvez nem tivesse percebido o quanto eram importantes.
— Felipe — comecei, enquanto a gente andava devagar pela trilha de terra batida. — Por que o Gabriel disse que você também podia acabar se machucando?
Ele parou. Ficou olhando pro chão como se tentasse achar ali a melhor forma de responder. O vento passou devagar, mexendo as folhas como um sussurro.
— Porque ele achava que tinha alguém me vigiando também — respondeu, sem rodeios.
Senti um arrepio na espinha.
— Como assim?
Ele deu de ombros, como se não quisesse dramatizar, mas o olhar denunciava o medo.
— Uma vez ele me mandou mensagem de madrugada. Tava assustado. Disse que alguém tinha tirado uma foto nossa num beco perto do mercadinho, onde a gente costumava se encontrar escondido. Eu nem vi quando tiraram. Ele disse que a imagem tinha chegado no celular dele com um aviso: “Você não devia andar com esse aí. Vai acabar igual você.”
— E você?
— Achei que fosse blefe, sabe? Mas o Gabriel... ele sabia quando algo era real. E ele tinha medo. Me pediu pra parar de falar com ele por um tempo, pra me proteger. Mas eu não queria, Pedro. Eu amava demais ele.
Felipe respirou fundo e se sentou de novo no banco de madeira mais próximo.
— Quando ele morreu, eu fiquei sem chão. Mas juro, não pensei em nada disso no começo. Só... dor. Mas aí, uns quatro dias depois do enterro, eu saí pra comprar pão à noite e percebi um carro branco me seguindo.
Senti o estômago embrulhar.
— Você conseguiu ver quem era?
— Não. Mas fiquei assustado. Mudei o trajeto, entrei por ruas que não eram do meu caminho e o carro continuou atrás. Depois sumiu. No dia seguinte, achei um bilhete no portão da minha casa. “Você devia ter ido com ele.” Escrito com letras recortadas de jornal, igual a coisa de filme.
— E você não foi à polícia?
Ele riu. Um riso seco, desesperançoso.
— Eu? Um garoto gay, sozinho, falando que tá sendo perseguido por alguém que matou meu ex-namorado? Ia ser ridicularizado. Não tinha provas, não tinha ninguém do meu lado. Me tranquei em casa por uns dias, depois fui embora da cidade.
— E agora voltou?
— Eu não consegui seguir a vida. Tentei recomeçar, mas tudo me puxava de volta pra cá. Pra esse lugar maldito onde tudo aconteceu. E talvez seja hora de tentar de novo. Começar pequeno, pintar paredes, dar algum sentido pra minha rotina.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. A dor de Felipe era tão densa que parecia ocupar espaço. Eu quase podia tocá-la.
— Você acha que o Gabriel sabia quem era?
— Acho que ele tinha desconfianças. Às vezes falava de um homem mais velho, influente. Dizia que tinha se metido com gente perigosa sem saber. Mas nunca me disse nome. Era como se tivesse medo até de pronunciar.
Minha mente começou a girar. Homens influentes. Silêncio. Medo. Gabriel. Felipe. A perseguição. E tudo isso se encaixava perfeitamente com o que eu vinha tentando montar nos últimos meses.
— Felipe, se eu te dissesse que quero descobrir quem fez isso... você me ajudaria?
Ele me olhou com os olhos marejados, mas com uma força diferente agora. Havia raiva ali, dor transformada em impulso.
— Ajudaria, sim. Mas quero saber: por quê? Por que você se importa?
Sorri de leve, sem revelar tudo.
— Porque tem coisas que não podem ficar impunes. E porque, no fundo, todo mundo precisa de justiça. Nem que seja só pra poder dormir em paz. - Menti na cara dura!
Ele ficou me encarando por alguns segundos, depois assentiu, devagar.
— Então conta comigo, Pedro. Eu não tenho mais medo.
Eu e Felipe ainda caminhávamos de volta do parque quando a voz de alguém atrás de nós cortou o silêncio com um tom seco e amargo.
— Felipe?
Paramos. Felipe virou primeiro, e o choque estampado no rosto dele foi quase tão forte quanto a raiva contida nos olhos de quem falava.
Flávio.
Estava de braços cruzados, encostado no carro como quem esperava algo acontecer. O jeito dele, meio relaxado e meio ameaçador, me acendeu todos os alertas. Eu precisava saí daquela situação antes que Flavio suspeitasse de algo!
— O que tá acontecendo aqui? — ele perguntou, encarando Felipe com olhos que pareciam ver através da pele.
Antes que Felipe respondesse, eu dei um passo à frente.
— Eu contratei o Felipe pra pintar umas paredes lá na minha sorveteria — disse, com a voz firme. — Ele tem talento, e eu queria algo diferente, artístico. É só isso.
Flávio estreitou os olhos. Felipe abaixou a cabeça e saiu, visivelmente abalado, andando apressado na direção da sorveteria.
Antes que eu pudesse ir atrás, senti a mão de Flávio me puxar com força pelo braço.
— Espera aí — ele rosnou. — O que tá acontecendo de verdade?
Fiquei surpreso pela força dele, e por um momento, confesso, me assustei. Havia algo nos olhos de Flávio que misturava possessividade e desespero.
— Que foi? Por que você se importa tanto com o ex? — perguntei, tirando o braço com força. — Tá com medo de perder alguma coisa?
Ele deu um sorriso cínico, mas os olhos estavam carregados.
— Você não conhece o Felipe como eu conheço. Ele tem cara de bom moço, mas tá longe de ser isso. E você... — ele apontou o dedo no meu peito — ...tá com uma cara de quem tá aprontando alguma coisa. E eu quero saber o que é.
— E se eu tiver? — provoquei, com a voz baixa. — Vai fazer o quê?
Ele não respondeu. Ficou só me encarando como se estivesse tentando me decifrar. O silêncio entre nós era denso. Gente passando na rua nem reparava no que se desenrolava ali, mas eu sentia como se o tempo tivesse parado.
— Cuidado com o que você puxa, Pedro. Às vezes a corda enforca o próprio curioso — disse ele, dando um passo pra trás.
Soltei um riso leve, meio sarcástico.
— E você devia parar de se preocupar com o passado. Tá parecendo que você ainda sente algo por ele.
Virei as costas e caminhei até a sorveteria. O sangue ainda corria rápido nas minhas veias. Quando entrei, Felipe já estava no fundo, mexendo nos pincéis com a mão trêmula.
Flávio ficou do lado de fora, parado, observando.
E eu? Eu só pensava que, de algum jeito, minha teia estava se armando melhor do que eu imaginava. Mas, ao mesmo tempo, os fios estavam ficando perigosamente apertados.
E agora, Flávio estava no meio delaFechei a última trava da porta da sorveteria, ouvindo o som seco do trinco se encaixando. Wellington já tinha ido embora fazia um tempo, e Mateus acabara de sair também, acenando antes de desaparecer na curva da rua. A noite estava morna, o céu limpo, e a cidadezinha começava a silenciar.
Suspirei, cansado. Subi na moto, ajustei o capacete e girei a chave, mas antes que pudesse acelerar, uma voz conhecida me parou.
— Pedro.
Olhei pro lado. Flávio. Parado ali, de braços cruzados, meio ofegante como se tivesse vindo direto de algum lugar com pressa.
Revirei os olhos, já esperando outra daquelas conversas tortas.
— O que foi agora? — perguntei, tirando o capacete devagar. — Se veio fazer escândalo, deixa pra amanhã. Hoje não tô com paciência.
— Eu só quero conversar. Só isso meu bem — ele respondeu, mais calmo do que antes. — Sobre hoje mais cedo... Eu fui meio grosso. Desculpa.
Não era o tipo de cara que pedia desculpas com facilidade, dava pra ver no jeito dele, mas havia um certo peso na voz. Ainda assim, permaneci com um pé atrás.
— É, foi sim — disse. — E tudo por causa do Felipe. Cê tá agindo como se ele fosse um criminoso, e eu estivesse armando um assalto à cidade só por ter contratado o cara pra pintar umas paredes.
Flávio deu um meio sorriso amargo, olhando pro chão antes de erguer os olhos de novo.
— Eu namorei com ele, Pedro. Eu sei do que ele é capaz. Ele parece calmo, doce, meio perdido... mas ele é manipulador. Frio. Sabe se fazer de vítima como ninguém. Quase me enlouqueceu naquela época. Você não tem ideia.
Cruzei os braços.
— E mesmo assim ficou com ele por quanto tempo?
— Quase um ano. E só saí disso quando percebi que eu não conseguia mais confiar nele nem nas coisas que ele dizia. Tudo era meio distorcido, tudo tinha um duplo sentido. E agora ver ele aqui, do nada, se aproximando de você...
— Eu contratei o Felipe pra pintar. Só isso. O resto é drama da sua cabeça.
Flávio se aproximou um pouco mais. Estava sério, o tom da voz mais firme.
— Só que tem uma coisa em você... — ele disse, apontando com o queixo. — Uma coisa que não bate. Você tá calmo demais, gentil demais. Parece que tá controlando o que diz. E eu conheço esse tipo de comportamento.
— Que tipo?
— O tipo de quem tá escondendo alguma coisa.
Pisquei, absorvendo aquilo por um segundo. Senti o sangue gelar por um instante, mas logo me recompus, forçando um sorriso irônico.
— E o que você acha que eu tô escondendo, Flávio? Vai me dizer que também virou detetive agora?
Ele ficou em silêncio. Os olhos tentando ler alguma coisa em mim.
— Ainda não sei — respondeu, por fim. — Mas vou descobrir - Senti a mão dele segurando a minha. Firme. Quente. — Pedro… — ele disse, a voz baixa, carregada de algo entre raiva e preocupação. — Eu me preocupo com você, por mais que você ache que não. Não sei o que tá acontecendo, mas… tem algo aí que não tô conseguindo ignorar.
Virei o rosto devagar e encarei ele por alguns segundos. Vi nos olhos dele aquela mistura de dúvida, ressentimento e algo mais profundo que ele não queria admitir. Tirei o capacete e desci da moto num movimento só.
— Fica calmo, Flávio — falei, sem hostilidade. — Você sempre chega com tudo, tentando entender o que não tá pronto pra saber.
Ele abriu a boca pra responder, mas antes que dissesse qualquer coisa, dei um passo à frente e, num impulso, beijei ele.
Foi um beijo rápido, intenso. A raiva virou desejo. A tensão virou entrega. Ele retribuiu com a mesma urgência que eu sentia por dentro, como se os dois estivessem tentando calar tudo que não sabiam como dizer.
Quando o beijo terminou, ele respirou fundo, os olhos ainda nos meus.
— Eu quero dormir na sua casa hoje — disse, quase num sussurro.
Fiquei um segundo parado. O coração batendo rápido. Depois, com um leve sorriso de canto, falei:
— Então sobe na moto.
Ele obedeceu sem dizer uma palavra, subindo atrás de mim. Quando aceleramos pela rua silenciosa, senti as mãos dele firmes na minha cintura.
Mas dentro de mim, a calmaria não era completa.
Flávio queria respostas.
Só que eu também queria as minhas. Porque por trás da preocupação dele, havia algo que ele não estava dizendo. E se ele queria descobrir meus segredos… mal sabia ele que eu também estava tentando desvendar os dele.
Chegamos no meu apartamento e Flávio tirou a camiseta e se jogou na cama como se estivesse carregando o peso do mundo nas costas. Eu o observei por alguns segundos antes de fazer o mesmo, deitando ao lado dele, os dois encarando o teto, sem dizer nada.
Por alguns minutos, o silêncio pareceu confortável. Mas então, senti algo estranho: o corpo dele tremia levemente. Virei o rosto, e foi aí que vi. Flávio estava chorando. As lágrimas escorriam silenciosas, como se ele tivesse tentando segurá-las até o último segundo.
— Flávio...? — perguntei, me virando de lado. — O que tá acontecendo?
Ele cobriu o rosto com as mãos, respirando fundo como se lutasse contra alguma coisa que crescia por dentro.
— Tá acontecendo de novo… — murmurou, entre os soluços.
— O quê?
Ele demorou um pouco pra responder. Quando tirou as mãos do rosto, seus olhos estavam vermelhos, o rosto molhado.
— Isso aqui… esse vazio… essa angústia no peito… Eu achei que tava bem, Pedro. Eu juro que achei.
Sentei na cama, tentando entender melhor.
— Flávio… me fala o que tá acontecendo. Você não tá sozinho aqui, tá me ouvindo?
Ele respirou fundo e encarou o teto de novo, como se tivesse medo de me olhar nos olhos.
— Eu tenho depressão — disse, a voz baixa, mas firme. — Já faz um tempo. Anos, na verdade. Tem épocas que parece que some, que eu consigo viver como se fosse qualquer outra pessoa. Mas aí, do nada, volta. Como um soco no estômago. E… — a voz dele falhou — eu já tentei me matar.
O quarto ficou em silêncio. Um silêncio pesado. Eu não esperava aquilo. Fiquei olhando pra ele, sentindo o coração apertado.
— Quando? — perguntei, quase num sussurro.
— Ano passado. Ninguém sabe. Ou quase ninguém. Achei que se eu apagasse tudo, ia ser mais fácil. Mais simples. Mas… eu não consegui. Parte de mim ainda queria viver. Só não sabia pra quê.
Ele fechou os olhos, talvez com vergonha, talvez pra segurar mais lágrimas.
— Flávio… — me aproximei, passando a mão no braço dele. — Você é forte pra caramba por estar aqui. Por falar isso. E eu não tô dizendo isso por dizer. Tô dizendo porque tô vendo você agora. Porque você não tá sozinho. Eu tô aqui.
Ele virou o rosto devagar, me olhando nos olhos pela primeira vez desde que começou a chorar. Havia algo despedaçado ali, mas também uma esperança frágil.
— Eu não quero ser um peso pra ninguém, Pedro.
— E você não é. Eu também já carreguei coisas demais sozinho. Eu sei como é. E se a gente não puder dividir essas dores com ninguém, a gente afunda. Então… se tiver que chorar, chora. Se tiver que falar, fala. Mas se esconde não, tá?
Ele assentiu, engolindo em seco. Me aproximei mais, deitando ao lado dele e puxando ele devagar pra perto. Flávio se aconchegou no meu peito, os braços em volta da minha cintura, o choro agora mais calmo.
E naquela madrugada, enquanto o mundo dormia lá fora, a gente ficou ali — dois corpos tentando se manter inteiros, duas almas costuradas pela dor e por um silêncio que, dessa vez, não era solidão.
Era cuidado.
Era início.
E por mais que eu ainda suspeitasse que Flávio escondia algo… naquele momento, tudo que importava era isso.
Continua...