— Haley, tome cuidado, eles podem nos escutar — sussurrou a noviça ruiva, os olhos azuis fixos na fresta da porta entreaberta do quarto de irmã Sheila. Seus dedos finos agarravam a maçaneta fria, hesitantes em abrir mais a passagem.
Dentro do quarto, a cena era mais íntima do que elas imaginavam. Barnes, o detetive grisalho com rugas de preocupação marcando o rosto, estava ajoelhado ao lado de irmã Sheila. A freira, geralmente tão reservada, tinha um leve rubor nas bochechas enquanto ele segurava sua mão. Seus sussurros eram baixos e inaudíveis do corredor, mas a proximidade e o toque carregavam uma intensidade inesperada. O único foco de luz era a chama vacilante de uma vela grossa, agora depositada sobre o tapete desbotado ao lado da cama. As sombras dançavam pelas paredes, distorcendo seus contornos e criando uma atmosfera carregada de segredos.
— Haley, por favor, vamos embora daqui — implorou Anny, sua voz um murmúrio abafado. Com seu corpo mais robusto, ela se esforçava para se espremer ao lado da amiga, tentando também espiar através da abertura estreita. O esforço a fazia ofegar levemente. — Eles parecem bem... próximos.
A noviça ruiva mordeu o lábio inferior, dividida entre a curiosidade e o receio de serem descobertas. A intimidade entre o velho detetive e a irmã Sheila era surpreendente e levantava inúmeras perguntas em sua mente.
— Aquele canalha... Ele me disse que só estava saindo comigo — Haley murmurou, a voz embargada pela raiva e pela decepção.
Ela apertou os olhos com força, tentando conter as lágrimas que ameaçavam cair. Uma pontada aguda de traição atravessou seu peito. Em seguida, abriu os olhos e encarou Anny, que parecia completamente alheia ao seu sofrimento, os olhos arregalados e fixos na cena dentro do quarto de irmã Sheila. Um brilho de fascínio, quase mórbido, pairava em seu rosto.
Ao desviar o olhar para a amiga novamente, uma onda de vertigem atingiu Haley. Por uma fração de segundo aterradora, a figura de Anny pareceu se distorcer. Enormes chifres retorcidos brotaram de sua cabeça, seus olhos brilharam em um vermelho incandescente, e a pele de seu rosto pareceu liquefazer, revelando algo grotesco por baixo.
Um arrepio gelado percorreu a espinha de Haley, e seu estômago se contraiu em um nó de puro terror. Ela piscou com força, e a visão horripilante desapareceu tão rápido quanto surgiu, deixando apenas a imagem familiar de sua amiga um pouco acima do peso, absorta na fresta da porta. Mas a sensação de frio intenso persistiu, como se uma brisa gelada tivesse varrido o corredor.
— Vamos embora, esse detetive vai se ver comigo — Haley sibilou, a raiva voltando com força para encobrir o medo. Ela agarrou a mão de Anny com firmeza, puxando-a para longe da porta. A amiga hesitou por um instante, como se despertasse de um transe, antes de se deixar conduzir.
Quando as duas estavam quase alcançando a curva do corredor, uma pequena luz amarelada surgiu no final do corredor oposto. Era Jonan, o coroinha franzino, segurando sua velha lamparina a óleo, o rosto sonolento e confuso por ter sido acordado. A luz trêmula da lamparina lançava sombras alongadas e dançantes pelas paredes de pedra fria do convento.
Ele se aproximou das meninas lentamente, a pequena chama da lamparina tremulando em sua mão e iluminando seu rosto infantil e sério. Ambas as garotas o encararam, cada uma com seus próprios pensamentos agitados.
Anny sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas não de medo. Sua mente vagou para a última vez em que estivera com Jonan naquele pequeno quarto secreto nos fundos da sacristia. As lembranças eram turvas, envoltas em uma névoa de excitação proibida e uma ponta de submissão. As coisas que ele a obrigara a fazer, os sussurros roucos, o toque furtivo... Uma onda de calor percorreu seu corpo, despertando sensações há muito reprimidas.
— Oi, estranho — Haley disse com desdém, os braços cruzados sobre o peito. Ela o avaliou de cima a baixo com um olhar frio e desconfiado. Quando seus olhos encontraram os de Jonan, percebeu uma palidez quase doentia e uma intensidade incomum para um garoto tão jovem.
Por uma fração de segundo perturbadora, Haley jurou ter visto o mesmo brilho vermelho nos olhos de Jonan que havia testemunhado na sua breve e aterradora alucinação de Anny. Sua respiração falhou por um instante, e o vento gelado pareceu retornar, eriçando os pelos de seus braços. "É só coisa da minha cabeça, o cansaço e o susto estão me pregando peças", tentou se convencer, franzindo a testa.
— Blame gostava de noviças como vocês — Jonan falou pausadamente, sua voz surpreendentemente grave para sua idade, cada palavra carregada de uma estranha ênfase. Seus olhos percorreram as duas meninas, fixando-se em cada uma por um momento prolongado, como se as estivesse avaliando. A menção de "Blame" pairou no ar, carregada de um significado sinistro que Haley não conseguia decifrar, mas que instintivamente a fez sentir um calafrio percorrer seu corpo. O nome soava como uma acusação silenciosa, um prenúncio de algo sombrio.
— Do que você está falando, seu esquisito? — Haley retrucou com rispidez, estreitando os olhos desconfiados para Jonan. Seu tom era carregado de impaciência e um crescente desconforto com a estranha conversa.
— Ele está falando de Erik Blame, um assassino em série terrível que viveu aqui neste convento há muitos anos — Anny interveio, apertando a mão de Haley com mais força do que o necessário. Seus dedos estavam frios e ligeiramente trêmulos, e havia um brilho peculiar em seus olhos, uma mistura de medo e uma excitação quase palpável. Ela parecia conhecer essa história, talvez sussurrada nos cantos escuros do convento ou lida em algum livro proibido.
Jonan prosseguiu, ignorando a hostilidade de Haley e o nervosismo de Anny, sua voz mantendo aquele tom grave e pausado que parecia deslocado em um garoto de sua idade:
— Erik Blame não era apenas um homem mau. Ele foi... possuído. Por um espírito antigo que ronda este lugar há muito, muito tempo. Um espírito faminto, que só pensa em luxúria e depravação. Ele se alimenta dos desejos impuros, das fraquezas da carne. Todos que moram aqui, freiras, padres, noviças, todos são envolvidos por essa influência sombria. Mas apenas alguns... apenas aqueles com a alma mais suscetível... podem realmente senti-lo dentro de seus corpos, permitindo que ele os use como vasos. — Um sorriso fino e esquisito curvou seus lábios quase inexpressivos, um sorriso que não alcançava seus olhos pálidos e intensos, e que fez um novo arrepio percorrer o corpo de Haley. Havia algo naquele sorriso, algo de malévolo e presunçoso, que a perturbava profundamente.
Embora uma parte de Haley, no fundo, sentisse um calafrio percorrer sua espinha ao ouvir as palavras sombrias de Jonan, ela se recusava a demonstrar qualquer sinal de medo diante daquele garoto impertinente. Para ela, Jonan não passava de um moleque atrevido, provavelmente obcecado por histórias macabras e tentando assustá-las para se sentir importante. "Um taradozinho de nada", pensou com desdém, apertando os lábios em uma linha firme.
— Saia da nossa frente, seu pirralho idiota. Você não me assusta nem um pouco — Haley sibilou, seu tom carregado de escárnio. Ela agarrou o braço de Anny com mais força, puxando-a para que saíssem dali o mais rápido possível. Anny, no entanto, parecia ter enraizado os pés no chão, seus olhos arregalados fixos em Jonan com uma expressão de temor reverente. Ao contrário da amiga cética, Anny acreditava em cada palavra proferida pelo garoto. Ela podia sentir uma presença fria e insidiosa pairando ao redor deles, um arrepio sutil na pele, a sugestão de sussurros nas sombras. O espírito lascivo de Erik Blame lhe parecia uma ameaça real e iminente.
Haley precisou usar mais força para arrastar Anny, que relutantemente se moveu, ainda com o olhar fixo em Jonan. Ao passarem pelo garoto, ambas sentiram uma onda de frio intenso envolvê-las, como se tivessem atravessado uma cortina de gelo. Não era apenas o medo das palavras de Jonan, mas uma sensação física e perturbadora que percorreu suas espinhas. Uma mistura complexa de apreensão e uma excitação estranha e proibida tomou conta delas. As bochechas de ambas coraram levemente, um rubor quente contrastando com a frieza que sentiam.
Haley, mesmo em sua descrença inicial, não pôde ignorar a intensidade do olhar de Jonan ao passarem por ele. Naquele breve instante, percebeu que havia algo mais naquele menino pálido e magro do que aparentava. Ele não era mais apenas um garoto inofensivo contando histórias de terror; havia uma aura sinistra ao seu redor, uma sugestão de conhecimento oculto e talvez... poder.
Ambas caminhavam apressadamente pelo corredor frio e mal iluminado, os passos ecoando no silêncio opressor do convento. Mas o nome "Erik Blame", proferido por Jonan com aquela estranha convicção, parecia vibrar em suas mentes como uma nota dissonante, um sussurro proibido que se recusava a ser silenciado. Haley ainda segurava firmemente a mão de Anny, sentindo os dedos da amiga tremerem ligeiramente. Não era apenas o tremor do medo; havia algo mais sutil, mais complexo naquela vibração. O olhar distante de Anny, perdido em pensamentos que Haley não conseguia decifrar, denunciava uma luta interna, um desejo confuso e incipiente que começava a despertar dentro dela. E, para sua própria surpresa e crescente perturbação, Haley percebia que também estava sentindo algo semelhante, uma curiosidade sombria misturada a uma vaga sensação de excitação proibida.
— Ele está mentindo, não é? Tudo invenção de um garoto entediado — Haley murmurou, mais para si mesma do que para Anny, sua voz hesitante quebrando o silêncio. Ela apertou a mão da amiga, buscando um conforto que ela própria não sentia completamente.
— Eu... não sei, Haley — respondeu Anny, a voz saindo mais baixa e hesitante do que pretendia. Seus olhos estavam fixos no chão de pedra, evitando o olhar da amiga. Um rubor intenso coloria suas bochechas, e Haley sabia que não era apenas o frio penetrante que emanava das paredes antigas do convento. Havia algo mais, uma agitação interna que a perturbava e a atraía ao mesmo tempo, como uma borboleta noturna fascinada pela chama.
Atrás delas, o som lento e constante dos passos de Jonan ecoava pelo corredor de pedra, quebrando o silêncio tenso. Ele não havia se apressado, mas sua presença se tornava cada vez mais palpável, como uma sombra que se alonga sorrateiramente. Ele estava ali, inegavelmente perto demais para o conforto de Haley.
— Vocês sentem isso, não sentem? — Jonan perguntou, sua voz grave e surpreendentemente madura para sua idade, carregando uma nota quase divertida, como se compartilhasse um segredo sujo.
Instintivamente, Haley se virou para encará-lo. Ele estava mais próximo do que ela imaginava, a distância entre eles encurtando de forma quase imperceptível. Jonan segurava a lamparina a óleo baixa, perto do chão, fazendo com que a chama tremeluzente projetasse sombras dançantes e grotescas em seu rosto pálido e anguloso, distorcendo suas feições infantis e conferindo-lhe uma aparência sinistra. Seus olhos, tão escuros que quase se fundiam com as pupilas, pareciam sugar a luz da lamparina, sustentando o olhar de Haley com uma intensidade fria e um desafio silencioso, como se soubesse algo que ela não sabia e se deleitasse com isso. Havia uma confiança perturbadora em seu olhar, uma certeza que a fez questionar sua própria convicção de que ele era apenas um garoto tentando assustá-las.
— Sentimos o quê exatamente, seu engraçadinho? — Haley retrucou, erguendo o queixo em um gesto de desafio forçado. Ela tentava manter a compostura, mas a atmosfera carregada e o olhar penetrante de Jonan a deixavam cada vez mais desconfortável.
— O espírito faminto. A presença dele neste lugar... e talvez... dentro de vocês — Jonan respondeu, sua voz agora mais baixa, quase um sussurro carregado de segundas intenções. Ele deu um passo lento e deliberado à frente, invadindo o espaço pessoal de Haley. Havia uma corrente elétrica sutil percorrendo seu corpo, uma sensação estranha e quase... convidativa.
Anny, por outro lado, deu um passo hesitante para trás, como se fugisse de algo invisível. Sua respiração estava curta e irregular, o peito subindo e descendo rapidamente. Os olhos fixos em Jonan brilhavam com uma mistura de terror e uma curiosidade quase insuportável.
Jonan percebeu a reação de ambas e um sorriso lento e presunçoso curvou um canto de seus lábios finos. Era um sorriso de quem detém um segredo poderoso, de quem compreende exatamente a batalha silenciosa que se travava dentro de cada uma delas. Ele parecia saborear o desconforto e a crescente perturbação das duas noviças.
— Ele nos observa nas sombras, espreitando os corações. Ele busca aqueles que são... mais permeáveis à sua influência, mais suscetíveis aos seus desejos sombrios — Jonan continuou, sua voz agora um fio de veludo na quietude do corredor.
Ele ergueu a mão lentamente, os dedos pálidos e finos estendidos como se fossem acariciar a face de Haley. A mão parou a poucos centímetros de sua pele, o calor emanando dela, mesmo sem o toque, fazendo com que Haley prendesse a respiração involuntariamente. Uma corrente elétrica percorreu seu corpo, despertando uma sensação estranha e confusa, um misto de repulsa e uma curiosidade inegável.
Anny observava a interação tensa, mordendo o lábio inferior com força, os olhos arregalados e fixos na mão pairando perto do rosto de Haley. Um turbilhão de emoções conflitantes a agitava. Uma voz em sua mente gritava para que corresse dali, para que fugisse daquela atmosfera carregada e da presença perturbadora de Jonan. Mas seus pés pareciam estar colados ao chão, e uma força invisível a mantinha paralisada, como uma presa hipnotizada pela serpente.
Jonan inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, estudando as duas noviças com um interesse genuíno e quase científico. Seus olhos escuros percorriam seus rostos, detendo-se nas reações sutis, no rubor das bochechas, na dilatação das pupilas. Ele parecia ler seus pensamentos mais íntimos, seus desejos ocultos.
— Eu posso mostrar mais sobre ele... sobre o que ele quer... sobre o que vocês realmente querem — sussurrou Jonan, sua voz rouca e insinuante, as palavras carregadas de uma promessa sombria e tentadora. A proximidade e o tom confidencial fizeram o coração de Haley palpitar mais rápido, enquanto Anny sentia um uma mistura de medo e uma excitação inegável.
Haley sabia que não deveria querer ouvir aquilo. Não deveria sentir aquela ponta de curiosidade sombria, aquele desejo proibido de desvendar os segredos por trás daquela história sinistra e daqueles olhos penetrantes que pareciam sondar sua alma. Mas, contra toda a lógica e o bom senso que ainda lhe restavam, ela assentiu levemente, um movimento quase imperceptível de cabeça.
E Anny, com os olhos fixos em Jonan com uma intensidade quase hipnótica, fez o mesmo, um aceno mais hesitante, mas igualmente afirmativo.
E assim, lá estavam eles: Haley, Anny e Jonan, reunidos no pequeno quarto secreto. O ar estava pesado com o cheiro de mofo que emanava do velho piano desafinado encostado na parede, e a luz fraca que entrava pela cortina empoeirada mal iluminava o interior. No centro do cômodo, a cama de solteiro evocava memórias vívidas na mente de Anny, lembranças de encontros furtivos e sensações proibidas. Haley observava Jonan, o menino à sua frente com aquele olhar enigmático, e sentia uma atmosfera carregada de uma tensão palpável se instalar no ambiente. Era uma tensão estranha, um misto de apreensão e uma excitação crescente que parecia surgir do nada, envolvendo os três em um laço invisível e incompreensível.
Uma energia incomum pareceu pairar no ar, envolvendo os três como uma brisa quente e inesperada. Jonan, com um jeito que parecia transcender sua pouca idade, moveu-se em direção às duas garotas. Haley e Anny, como se guiadas por uma força invisível, permitiram-se serem levadas pela corrente daquele momento singular. A voz de Jonan parecia ter ganhado uma nova ressonância, mais profunda e insinuante, e seu corpo franzino parecia ter se transformado sutilmente, revelando músculos firmes sob a túnica, uma força que surpreendeu Haley com um brilho de admiração em seus olhos.
Em um abandono mútuo, Haley e Jonan se aproximaram, seus corpos encontrando-se em uma dança inesperada. Enquanto isso, Anny, deitada na cama, sentia os lábios suaves de Haley explorando sua pele, um toque que despertava sensações adormecidas. Era uma experiência surpreendente para todos, especialmente considerando a antiga animosidade entre Haley e Jonan. Ali estavam eles, em um encontro inusitado, entregues a uma exploração dos sentidos que parecia transcender suas desavenças passadas. Jonan estava certo, havia uma atmosfera inegavelmente estranha naquele lugar, uma energia que parecia influenciar seus desejos de maneiras misteriosas.