Capítulo 9: Ulisses? - Parte 2

Um conto erótico de Novatinho
Categoria: Gay
Contém 7186 palavras
Data: 02/04/2025 06:18:19

A NOITE DO PRÓLOGO

O cabaré de Sirena não era um puteiro qualquer. A casa era antiga, afastada da rua, protegida por muros altos e dois portões. Um, largo e mais escondido — usado como estacionamento dos clientes VIPs e dos moradores. Outro, menor e discreto, servia como entrada principal para o ambiente.

Depois dos portões, um jardim se espalhava até o salão, com árvores grandes, sombra nas mesas de madeira e luzes frias, com um charme rústico e gasto. Era o tipo de lugar que sussurra promessas — não que as grita.

Mais adiante, a atmosfera mudava. O salão era em desnível, com um bar chamativo que ocupava a parede lateral da porta da casa. As mesas se distribuíam em pontos estratégicos.

As laterais da casa levavam a um quintal usado pra respiro: garotos fumando, olhando pro nada, trocando silêncio como quem negocia com o tempo.

Após o salão, uma porta dava acesso a um vão que separava o salão de onde estava o verdadeiro coração do cabaré: um corredor longo. Ali se encerrava a civilidade e começava o sexo cru. Porta após porta, quartos confortáveis. Suítes de luxo. Outras, nem tanto.

Assim que se entrava no corredor térreo — iluminado por luzes negras —, um sofá encostava na parede à esquerda, a mesma que dava acesso ao andar de cima. Uma escada de alvenaria. A subida era torta: um lance pra esquerda, depois uma curva brusca à direita.

Ninguém subia ali sem permissão. Era um espaço onde o negócio se misturava com a intimidade de quem fazia tudo girar.

Neste andar, ao fim do corredor, havia uma porta: o quarto de Sirena, com acesso à varanda do andar. Antes de chegar até ele, duas outras portas. À esquerda, o quarto de Bianca. À direita, o de Hiroshi.

Os demais quartos eram estreitos demais ou preenchidos demais. Os fixos da casa (as peças) tinham um quarto com duas beliches. Lá era onde Diego, Marcus e outros dois dividiam a intimidade.

Diego e Marcus eram moradores definitivos. Os outros dois, porém, tinham suas residências — mas dificilmente dormiam nelas. As noites eram longas. Então, por mais que voltassem pra casa, a dormida, na maioria das vezes, era no cabaré.

Os outros quartos eram mais imprensados. Havia outros garotos de programa — aliás, vários. Porém, passavam apenas temporadas. Eram rapazes que vinham fazer programa por um ou dois meses, juntavam dinheiro e depois voltavam pras suas vidas. Esses eram chamados de vagantes.

A casa não era sobre euforia. Era sobre excesso. Luz demais, cheiro demais, corpo demais. Um lugar que escondia a podridão sob o brilho. Quem entrava, às vezes saía satisfeito. Mas nunca inteiro.

E naquela noite, entre luzes exageradas e paredes que já tinham visto de tudo, um novo corpo atravessava o jardim.

Ulisses.

Com aparência casual. Olhos que tentavam parecer tranquilos. Tentavam.

Chegou a uma mesa discreta e isolada, como quem não sabia se estava ali por escolha ou distração. Talvez só curiosidade. Talvez outra coisa.

A verdade, por enquanto, só ele e Léo sabiam. O que nos resta...

OBSERVADOR: “Tá, tá! Todo mundo já entendeu. Pula essa parte, que eu quero saber é como eu saí do apê do Davi e vim parar logo aqui no cabaré. Mania de truncar as histórias...”

...é tentar descobrir o que ficou perdido atrás daquele portão.

Ninguém avisou Ulisses, mas ali dentro tudo era encenação. Olhares, frases prontas, mãos que prometem e não pegam. E talvez...

...ele também estivesse interpretando.

***

ULISSES (sentado à mesa, digitando no celular, expressão concentrada)

OBSERVADOR: "Ih, olha ele... fingindo que tá ocupado pra não parecer carente."

MARCUS (chega devagar, mãos nos bolsos, ar casual)

— Bota no modo avião por uns dois minutos. Depois tu volta e diz que o sinal tá uma merda... Aí desliga de vez.

ULISSES (ergue a cabeça, confuso)

(Silêncio.)

MARCUS (sorri de canto, acende um cigarro e puxa uma cadeira)

— Confia, pô. Sempre dá certo... Posso sentar?

OBSERVADOR: "Claro que pode. Ulisses adora uma confusão com cara novo..."

ULISSES (assente, desconfiado)

— Que papo é esse de modo avião? Foi pra mim?

MARCUS (digitando no próprio celular)

— Só dando a moral. Teu boy nem vai sacar.

ULISSES (sorriso leve, mão na perna)

— Boy? E se eu disser que era minha mãe?

MARCUS (olha a tela de Ulisses, sarcástico)

— Ia te perguntar se tua mãe se chama Léo.

ULISSES (tranca a tela, cora, riso nervoso)

— Você é esperto, hein... Mas ele não é meu namorado.

OBSERVADOR: "Começou o teatrinho..."

MARCUS (sem levantar os olhos)

— De boa. Só dei a letra. Se quiser, cola aí. Já dei o toque.

ULISSES (encara Marcus)

— Tá puxando papo comigo, é?

OBSERVADOR: "Olha ele... já abrindo as asinhas."

MARCUS: — Talvez. Mas já tô com cliente hoje.

ULISSES (sorriso discreto)

— Cliente? É GP daqui?

OBSERVADOR: "Não! É só um príncipe encantado doido por você."

MARCUS (olhos semicerrados, sorriso malicioso)

— Ficou curioso, foi?

OBSERVADOR: "Sim! Tá na testa."

ULISSES (defensivo)

— Não! Quer dizer... Você é bonito, mas...

MARCUS (interrompe, casual)

— Tem namorado... blá, blá, blá. Já decorei esse roteiro.

ULISSES: — É sério! Não tô mentindo.

MARCUS: (sorri, bloqueia o celular)

— Nem disse que tu tava. Só falei que esse papo é antigo aqui.

ULISSES (inquieto)

— Mas é comum isso aqui?

MARCUS (inclina-se)

— Me paga uma bebida que eu explico.

ULISSES (assente, sem jeito)

MARCUS (acena pro garçom)

ULISSES: — Nem sei teu nome.

OBSERVADOR: "Ih, já vi esse filme antes com o Léo. Tá reprisando agora?"

MARCUS (lambe os lábios, estende a mão, provocador)

— Marcus, delícia... E você?

ULISSES (estende a mão, tímido)

— Ulisses...

MARCUS (chega perto)

— Como é? Ulisses?

ULISSES (chega no ouvido)

— Isso!

(O garçom traz duas latas, um energético e dois copos. Coloca tudo na mesa.)

OBSERVADOR: "Primeiro energético da noite? Já sei onde isso vai dar."

MARCUS (encara Ulisses, servindo)

— Agora me conta... Como tu veio parar aqui, Ulisses?

OBSERVADOR: "Deixa eu adivinhar... Não vamos ver essa conversa."

***

PRIMOS (DIAS ATRÁS)

Léo deu um passo para trás. O peito apertou. O peso do encontro desceu rasgando o estômago.

A segurança que achava ter se desfez no instante em que viu Axel parado ali.

A expressão de Léo era puro medo. Não medo do julgamento, mas do que aquilo representaria para Axel. Léo sabia que esse dia chegaria, mas ficou desarmado naquele instante.

Naquela noite em que ele e Hiroshi se convenceram de que manipular Ulisses seria uma forma de ativar o senso de proteção de Axel — e assim atraí-lo para o lado de Hiroshi —, Léo propôs um plano de contingência mais ousado. Um plano pra induzir, de vez, a aversão de Axel pelo cabaré.

Eles fariam Axel descobrir que Léo estava usando drogas. Mas não por algo que tivesse acontecido fora dali.

Eles fariam Axel acreditar que o vício tinha começado ali.

O plano era simples — ao menos na superfície. Léo começaria a frequentar o cabaré sozinho, dia após dia, sob o patrocínio de Hiroshi. Lá, se aproximaria de Diego. Sem sexo. Apenas drogas e conversas distraídas. Fingiria ser um usuário recente, em início de queda.

Com o tempo, deixaria Diego ver a tatuagem. Aquela tatuagem. A mesma arte que, sem saber, ligava tudo.

Diego reconheceria. Não só pela imagem, mas por algo que ficou preso nele desde antes — um detalhe esquecido, uma memória atravessada. Procuraria Hiroshi, tentando ligar os pontos. E Hiroshi, com seu teatro de sempre, confirmaria que estava com Léo.

Mas seria inútil.

O plano que visava empurrar a culpa do vício para o cabaré desmoronaria sem aviso. Porque ninguém ali sabia o que Diego guardava. Nem o que aquela tatuagem significava de verdade — para ele.

Mas o destino agiu certo para alguns — e para outros, não. Ulisses, depois do primeiro contato com Léo, passou a vê-lo mais vezes. E dessas idas e vindas, surgiu uma verdade. Uma verdade que só os dois sabiam.

Ver Axel ali, naquele momento, não estava na equação. Léo não sabia como reagir.

***

A NOITE DO PRÓLOGO

(Algum tempo se passou. Ulisses conseguiu fisgar Marcus com sua história, entre goles de cerveja.)

MARCUS (leve sorriso debochado, relaxado)

— Então quer dizer que tu namora, tá esperando um cara que te deu um perdido... mas tá aqui tomando umas comigo.

(Pausa breve.)

— Tá esperando mesmo esse cara, Ulisses? Ou no fundo torce pra ele não vir?

ULISSES (franze a testa)

— Como assim?

MARCUS (gira o copo devagar, olhando o líquido)

— Tem cara que marca encontro já esperando levar bolo.

OBSERVADOR: "Tá vendo? Não sou o único que sacou que ele tá torcendo por esse bolo."

ULISSES (quase rindo, desconforto leve)

— Não sou desse tipo, não.

MARCUS (sorrindo, amigável)

— Relaxa, tu se julga demais.

OBSERVADOR: "Ele não. Quem julga aqui sou eu. E já dei meu veredito."

ULISSES (encara Marcus)

— Tu acha que é fácil assim? Me deitar com qualquer um?

MARCUS (ergue as sobrancelhas)

— Fácil?

(Sorri, pensativo.)

— Melhor nem dar minha opinião, mas tu mesmo disse que o cara já cantou a pedra sobre teu namorado ser mulherengo.

ULISSES (desvia o olhar)

— Disse. Mas não quero acreditar nisso.

MARCUS (olhar sugestivo)

— Talvez já tenha acreditado. Tu tá aqui, né?

ULISSES (voz baixa)

— Eu... só quero que seja natural.

MARCUS (inclina-se levemente, mais sério)

— Natural? Tu namora um cara que só serve pra cansar teu queixo e ainda precisa do melhor amigo dele pra resolver o serviço? Isso é natural?

OBSERVADOR: "Se não fosse trágico, era cômico."

ULISSES (olha sério, tom pesado)

— Não fala assim... Eu confiei em você.

(Silêncio.)

MARCUS (encara o copo, voz calma)

— Pode continuar enrolando, mas a verdade tu já sabe.

OBSERVADOR: "E não só ele. Todo mundo sabe. Menos o Davi, coitado."

ULISSES (cabeça baixa, mão no queixo)

— Mas eu amo o Davi.

(Aperta o joelho discretamente.)

MARCUS (ergue a sobrancelha, leve ironia)

— Ah, então teu boy tem nome? Davi, né?

(Breve silêncio.)

ULISSES (vira o rosto)

— Não quero falar dele aqui.

OBSERVADOR: "Claro. Tem coisa mais interessante na mesa agora..."

MARCUS (voz baixa, quase pensando alto)

— Tem coisa que só cai a ficha quando alguém fala alto.

ULISSES (olhar pesado)

— Então fala, Marcus.

OBSERVADOR: "Precisa mesmo? Ele quer ouvir só pra aumentar o fogo."

MARCUS (olha pro bar ao longe, direto)

— Tu já meteu o chifre no cara... Mesmo sem ter ido pra cama com ninguém ainda.

ULISSES (recua levemente, olhos arregalados)

MARCUS (arqueia a sobrancelha)

— Qual foi? Por que o susto?

OBSERVADOR: "Susto? Ah tá, sei bem... Esse é dos que fingem susto pra disfarçar a excitação. Tá aí todo arrepiadinho."

ULISSES (sorri tímido)

— Não, nada não. Foi engraçado o jeito que tu falou.

MARCUS (despreocupado, irônico)

—Joga a piada aí na mesa. Me faz rir tambem.

OBSERVADOR: "Lá vem o golpe baixo... A vergonha do Ulisses faz mais falta pra ele do que a audição faz pra o Davi."

***

PRIMOS (DIAS ATRÁS)

Axel não moveu um músculo. Só ficou ali, encarando Léo sem revelar o que sentia. Não havia como. Pena, compaixão, ódio, amor, cuidado — tudo ao mesmo tempo. Mas um sentimento se sobressaía.

Culpa.

Era isso que o alimentava. Proteger o primo fora urgente por um tempo, anos atrás, a ponto de fazê-lo esquecer que aquele impulso de proteção era, na verdade, o cérebro disfarçando a motivação real.

Fuga.

Fugir de Léo talvez fosse mais sobre escapar de si mesmo. Do desejo que talvez fosse algo maior. Porém, ali, naquele momento, o desejo já tinha ido embora. O amor, não.

Axel avançou em direção a Léo, que instintivamente recuou. Mas Axel foi mais rápido: agarrou o cós da cueca dele. Puxou.

— Tá me tirando? Me larga, caralho! — rosnou Léo, segurando o braço dele.

Axel não disse nada. Apenas sustentou o olhar, fixo e inabalável. Puxou de novo, com mais força. E, dessa vez, conseguiu ver. Foi rápido, mas suficiente.

"Me Chupa", gravado na pele.

Axel congelou.

Léo se afastou num tranco, puxando a cueca de volta, o peito inflando de raiva.

Axel continuou em silêncio. Não disse nada. Não naquela hora.

Só ficou ali. Parado. Respirando fundo. Suspirou, sentou-se no sofá e apoiou os cotovelos nos joelhos. Os olhos fixaram em Léo, que estava de costas para ele.

Léo desligou a televisão. E, ainda sem conseguir dizer uma palavra, se jogou na poltrona. O silêncio tomou o ambiente por um tempo.

Léo desviou o olhar na direção do primo.

— Vai nessa, vai! Fala logo.

***

A NOITE DO PRÓLOGO

MARCUS (entendendo a situação, sorriso mais aberto, interrompendo empolgado)

— Saquei! Tu quer que o cara te coma falando putaria no teu ouvido, né? Aí vai saber que não é teu boy.

OBSERVADOR: "Parabéns, Ulisses. Se supera a cada minuto."

ULISSES (hesitante)

— Você é sempre assim... direto?

MARCUS (sorri de canto, relaxado)

— Só quando vejo que enrolar não cola.

(pausa breve)

— Só mandei a real que tu precisava ouvir.

(pausa curta)

— Ou que tá doido pra dizer...

ULISSES (respira fundo)

— É... Acho que você tá certo.

MARCUS (tragada lenta, olhos cravados em Ulisses)

— Claro que tô.

(pausa)

— O cara já é corno.

(pausa provocativa)

— E tu ainda nega?

OBSERVADOR: "Nega não, pô! Assume logo. Marcus já cansou desse joguinho barato."

ULISSES (inclina-se pra frente, curioso)

(Silêncio.)

MARCUS (acende outro cigarro, tranquilo)

— Que foi?

ULISSES (meio nervoso)

— Teus olhos... são azuis. Nem tinha notado.

OBSERVADOR: "Olha lá... Cantadinha clássica entrando em cena."

MARCUS (sorrindo de canto)

— Tentando mudar de assunto, é?

ULISSES (sem graça)

— Talvez... mas é verdade.

MARCUS (olhar de malícia)

— Ou tu só tá começando a se soltar...

(Silêncio desconfortável.)

MARCUS (voz baixa, provocativa)

— E se esse Léo te comer... tu acha que resolve?

ULISSES (olhar baixo)

— Acho que sim... porque... eu vou ouvir.

OBSERVADOR: "Ah não, pronto. Vem poesia de corno agora."

MARCUS (rindo, balançando a cabeça)

ULISSES (desconfiado)

— Tá rindo de quê?

MARCUS (sorriso sacana, inclinando-se perto)

— Que tu não precisa esperar o Léo. Advinha: eu falo. E faço tu falar também.

OBSERVADOR: "Tá vendo aí, galera? Ulisses tá pedindo pra se perder."

ULISSES (baixa o rosto, depois encara Marcus, hesitante)

— Me dá um cigarro, Marcus?

OBSERVADOR: "Aham... Cigarro. Isso foi um 'sim', Ulisses?"

***

PRIMOS (DIAS ATRÁS)

Axel escaneou o ambiente de novo. Soltou um suspiro baixo.

— Da última vez que eu vim aqui, não tinha videogame.

Léo limpou o nariz com o antebraço e, com a mente acelerada, procurou uma resposta rápida.

— Comprei, ué.

Axel inclinou levemente a cabeça.

— Comprou?

Léo confirmou com a cabeça.

— E pagou com aqueles seus vídeos… ou foi com o sacrifício de Hiroshi?

O estômago de Léo revirou. As palavras de Axel bateram como um tapa na cara. Sua mente girava, tentando entender como Axel sabia dos vídeos. Sentiu a boca seca, o coração acelerado, buscando desesperadamente uma explicação coerente.

Mas ele não teve tempo de responder.

Viu Axel se levantar e dar alguns passos em direção à mesinha de centro. Axel desceu o olhar, devagar, até o prato de pó exposto. Fileiras grossas, alinhadas.

Se aproximou sem pressa. Se inclinou. Passou o dedo na borda do prato, recolhendo um pouco da droga. Levou até a língua e esfregou contra o céu da boca. Estalou a língua, pensativo.

— É da boa... — murmurou, balançando a cabeça devagar. — Muito boa.

Léo franziu a testa. Algo ali estava errado.

Axel lambeu os lábios lentamente, como quem confirma o gosto. Então, olhou direto para Léo, com os olhos semicerrados.

— E eu acho que é a que eu vendo... — suspirou. — Eu sei.

O silêncio veio mais pesado.

Léo travou o pensamento quando viu Axel erguer o prato. Observou a droga como se fosse um detalhe insignificante.

— Eu sei de onde tá vindo esse pó.

Léo congelou. O tempo desacelerou.

Axel, sem hesitar, foi até a janela com o prato na mão. E virou. Despejou tudo.

O vento levou o pó tão rápido quanto levou o silêncio de Léo — que só percebeu a raiva crescendo quando o prato bateu de volta na mesa.

— QUE PORRA É ESSA, FILHA DA PUTA?!

A voz saiu trincada, grave, cheia de ódio. O corpo inteiro retesou.

— CÊ TÁ MALUCO, CARALHO?!

Avançou um passo.

— JOGOU MINHA PARADA FORA, PORRA?! CÊ TÁ ACHANDO QUE É QUEM?!

Axel, dessa vez, mudou a expressão. Foi aí que ele entendeu: para Léo, o valor dele estava aquém da cocaína.

***

A NOITE DO PRÓLOGO

ULISSES (sorriso tímido)

— E o que é que você acha, Marcus?

MARCUS (bebe energético, olhar provocativo)

— Tem gente que ama no silêncio...

(abaixa o copo sem desviar o olhar)

— ...mas goza no grito.

ULISSES (engole seco, mantendo o olhar)

— Você fala como se soubesse o que eu tô sentindo.

OBSERVADOR: "Não precisa saber, Ulisses. Tá tudo na tua cara. Nem olha pros lados que vai passar vergonha."

MARCUS (gesto leve, sincero)

— E é por isso que tô falando o que acho.

ULISSES (passa a mão no rosto, pensativo)

— E agora... o que eu faço?

MARCUS (encara direto)

— Decide logo. O relógio não espera.

(Silêncio.)

— Não posso te dar esse amor aí...

(pega o copo, tom sugestivo)

— ...mas posso dar o que tu realmente precisa.

OBSERVADOR: "Tu sozinho? Sei não. Vai precisar de reforço pra arrancar essa máscara — já tá trincando."

ULISSES (olhar desviado, coça a nuca)

— Seria cruel demais fazer isso.

OBSERVADOR: "Cruel? Ah, parceiro... O que já passou pela tua cabeça é bem pior."

MARCUS (apaga o cigarro, relaxado)

— Cruel é relativo. Já atendi cliente com vida certinha lá fora...

(pausa)

— ...chega aqui, faz o que tem que fazer e volta pra casa como se nada tivesse acontecido.

(toca o braço de Ulisses, sorri)

— É só carne, pô. Esse amor aí... tá só na tua cabeça.

OBSERVADOR: "O discurso do Marcus: vendendo carne barata e fingindo que é filé."

ULISSES (sorriso discreto, sem mostrar os dentes, nervoso)

— E se eu topar...? Como funciona?

OBSERVADOR: "Topar? Como se não tivesse decidido antes de entrar."

MARCUS (se inclina levemente, voz casual)

— Duzentos e cinquenta, até tu gozar.

(sorri direto)

— Cinquentinha se for só oral.

ULISSES (levanta a sobrancelha, surpreso)

— Só isso? A noite toda?

OBSERVADOR: "Virou Black Friday do sexo? Que ingenuidade é essa, Ulisses?"

MARCUS (ri rápido, recostando na cadeira)

— Claro que não. É o valor da hora... ou até tu chegar lá.

ULISSES (gira o copo, tentando parecer tranquilo)

— E se... não rolar?

MARCUS (toma um gole, sorriso malandro)

— Relaxa, sempre tem um jeito...

(pausa provocadora)

— Mas duvido que tu precise.

OBSERVADOR: "Também duvido. Do jeito que tá salivando aí..."

ULISSES (mexendo nos dedos, olhos baixos)

— Não sei se tenho coragem...

OBSERVADOR: "Coragem? Ô se tem. E vontade, então..."

MARCUS (sorriso leve, cúmplice, se levanta ajeitando o cigarro)

— Então bora dar um jeito nisso.

(dá dois passos, para de lado, provocativo)

— Tem um brother meu com umas paradinhas que te destravam.

(pausa curta, tom leve)

— Coisa simples. Só pra tu parar de pensar e fazer o que já quer.

(encara Ulisses direto)

— Confia em mim... Eu entendo você melhor que tu mesmo.

(sai pelo salão e desaparece pela porta)

OBSERVADOR: " Esse teatrinho tá perto do último ato. E eu sei bem quem vai cair primeiro."

***

PRIMOS (DIAS ATRÁS)

Axel foi ao extremo ao ver Léo desfigurado pela raiva. Aquilo não era comum. Nem entre os piores usuários que ele já tinha visto. Era o limite. A linha invisível sendo cruzada bem diante dos olhos.

Baixou o rosto, os olhos fixos no chão. E, sem querer, lembrou das palavras de Luiz:

"Ele vai perder o controle se tu jogar a droga fora."

As lágrimas começaram a escorrer, mas o rosto não se alterava. Choro seco. Involuntário. Como se o corpo estivesse se desfazendo sozinho.

Axel inspirou fundo.

— Eu não quero que tu acabe como um noiado.

Léo tremeu. De ódio. Os olhos queimavam. Sentiu um aperto no peito ao reconhecer a dor misturada ao desprezo na voz do primo.

— Não fala esse nome… por favor… não faz isso comigo, não.

Axel ignorou o surto. Quando ergueu o rosto, Léo petrificou. Não esperava ver Axel chorando. Hesitou por um segundo. Depois cruzou os braços, como se tentasse se proteger de algo que nem entendia.

Murmurou baixo:

— Tu vacilou jogando minha parada fora.

Axel permaneceu em silêncio. Só encarava. Firme.

— Você quer ajuda?

Léo riu. Um riso de desgosto. Balançou a cabeça, devagar.

— O tempo de tu me ajudar já passou.

Axel engoliu seco. A vontade de pedir desculpas passou como um vulto, rápida e inalcançável. Não conseguiu. Então fez o que ainda estava ao alcance.

Enfiou a mão no bolso, sem pressa. Puxou dois sacos de pó. Se aproximou de Léo — ainda estático. Colocou os pacotes na mão dele.

Os dedos de Léo sentiram o frio da pele de Axel enquanto ele fechava sua mão sobre os pacotes.

Léo arregalou os olhos, incrédulo. Viu Axel dar as costas, se afastando devagar. Indo embora.

— O que é isso, porra?

Axel respondeu sem olhar:

— O que tu precisa agora. Tua fuga.

***

A NOITE DO PRÓLOGO

(Diego e Marcus chegam à mesa sem cerimônia. Diego puxa a cadeira de forma relaxada, senta-se ao lado de Ulisses, pernas abertas, cotovelos sobre a mesa. Encarada direta, sorriso meio torto.)

DIEGO (ergue dois dedos pro garçom, olhos em Ulisses)

— Duas... e um energético. Capricha aí, chefia.

OBSERVADOR: "Caprichar em quê? No energético ou na conta?"

ULISSES (riso rápido, olhos baixos)

DIEGO (analisa Ulisses com descaro)

— Não vai me dizer o nome dessa gracinha, não?

MARCUS (acende outro cigarro)

— Ulisses, mano.

DIEGO (inclina-se com interesse)

— Ulisses? Hum... Nome bonito pra um cara bonito.

OBSERVADOR: "Se apertar mais um pouco, sai até poesia barata."

MARCUS (tragando com calma)

— Ele tá meio enrolado com umas dúvidas...

DIEGO (ri baixo, apoiando o queixo na mão)

— Que nada. Essa dúvida aí evapora.

ULISSES (levanta o olhar brevemente)

DIEGO (pisca devagar, dá um tapa leve na coxa de Ulisses, deixa a mão perto)

— Nem precisa beber tanto. Tu tá precisando é de outra coisa.

OBSERVADOR: "Outra não. Outras. De preferência duas. Cês me entendem."

(Ulisses não reage. Imóvel.)

DIEGO (aperta a coxa com firmeza, voz baixa, tom carregado)

— Para de pensar. Deixa a maldade entrar.

OBSERVADOR: "Maldade já entrou, parceiro... E já fez foi morada."

ULISSES (desvia o olhar, coça a nuca; voz baixa, sem firmeza)

— Não sou da maldade... Não...

OBSERVADOR: "Claro que não, Ulisses. Tu é santo igual a mim."

MARCUS (ri pelo nariz, balança a cabeça)

— Relaxa, Ulisses. O cara só veio te dar uma moral.

ULISSES (olhar desconfiado, voz baixa)

— Então... tu que vende?

(Silêncio. Marcus abaixa os olhos.)

DIEGO (perde o sorriso por um segundo; força outro)

— Também.

ULISSES (olhos no copo)

— Como assim...? Tu é que nem o Marcus?

DIEGO (olha pra Marcus; vacila, recompõe. Voz seca)

— Relaxa... o papai aqui tem o que você precisa.

OBSERVADOR: "O papai tá cheio de marra. Pena que a confiança é do tamanho do pavio dele."

ULISSES (ri curto, encara Marcus)

— Aí, ai...

DIEGO (trava o maxilar, olhos semicerrados)

— Tá rindo de quê?

ULISSES (encara a mesa)

— Foi mal, cara... É que tu parece mais modelo que qualquer outra coisa.

(Pausa. Clima pesa.)

OBSERVADOR: "Olha lá, tocou na ferida. O gostosinho não é de ferro."

DIEGO (desvia o olhar, aperta a borda da mesa; força um sorriso, olhos duros)

— Então vai querer o quê?

OBSERVADOR: "Olha o ego do moço ferido. Se não cuidar, ele chora."

ULISSES (fala devagar, sem tirar os olhos da mesa)

— Tu disse que tinha o que eu precisava.

(DIEGO não responde. Olhar fixo.)

MARCUS (intervém rápido, tentando aliviar o clima)

— É que ele quer saber o que você já usou.

ULISSES (franze a testa, demora a entender; encara Diego, hesitante)

— O que você recomenda?

DIEGO (trinca os dentes, força um sorriso sarcástico)

— Pergunta pro Marcão aí... Ele que manja.

OBSERVADOR: "Ih, jogou a responsa pro amigão. Fugiu rápido da treta."

MARCUS (coça a nuca, quase sussurrando)

— Vê aí se ele encara a neve, Diego.

DIEGO (sorri de canto, enfia a mão no bolso; tira um sachê pequeno e segura entre dois dedos)

— Tá aí. Cinquentinha pra tu sentir o drama.

OBSERVADOR: "Cinquenta conto e um passaporte direto pro inferno. Tá caro ou tá barato, Ulisses?"

ULISSES (desvia o olhar, inseguro)

— Isso é o quê? Aquele que cheira?

DIEGO (encara Ulisses; expressão firme)

— Da mais pura.

ULISSES (olha entre Diego e Marcus; nervoso, mas decidido)

— Então me dá aí.

ULISSES (entrega o dinheiro, pega a chave do bolso e aspira o pó, meio desajeitado)

MARCUS (alternando o olhar entre Ulisses e Diego, intrigado)

DIEGO (olhos fixos em Ulisses)

— E aí, curtiu, Ulisses?

ULISSES (olhar vago, voz arrastada)

— Acho que sim... É estranho. Nunca fiz isso antes.

OBSERVADOR: "Nunca fez, é? Tá bom... Então já nasceu sabendo."

DIEGO (cruza os braços na mesa, inclina o corpo; fala baixo, se aproximando mais do que deveria)

— Só um toque, parceiro... Não fica cheirando aqui no salão, não.

ULISSES (estreita os olhos, levemente desconfiado)

— Ué... achei que já tinha visto alguém fazendo isso aqui.

DIEGO (ri curto, lança um olhar de cumplicidade falsa)

— Ah, mas aqueles são clientes da casa. A Sirena faz vista grossa.

(pausa)

— Cliente novo... melhor evitar. Vai por mim. Não dá confiança demais logo de cara.

ULISSES (assente devagar, segurando firme a beira da mesa)

— Entendi...

DIEGO (dá um tapinha leve no ombro, quase carinhoso — mas encenado)

— Vai no banheiro. Faz tua onda tranquilo. Lá ninguém te enche.

OBSERVADOR: "Vai lá, Ulisses. Cai nessa conversinha de amigo. Quero só ver o resultado."

MARCUS (ergue brevemente o olhar, nota o gesto de Diego; volta pro celular, concentrado nas mensagens de Matheus e Hiroshi)

ULISSES (levanta devagar, hesitante; caminha pros fundos)

DIEGO (acompanha com os olhos até ele sumir; só então encara o copo na mesa e passa a mão sobre ele, como espantando um mosquito)

OBSERVADOR: "Olha lá, vai aprontar. E não é pouco, não."

DIEGO (murmura, quase inaudível; sorriso venenoso no rosto)

— Isso... Devagarzinho a gente chega lá.

OBSERVADOR: "Pronto, confirmou. Esse maluco é venenoso pra caralho."

***

PRIMOS (DIAS ATRÁS)

Axel fez uma pausa antes de sair. Respirou fundo. Algo o segurava ali, impedindo-o de simplesmente ir embora e abandonar Léo naquele estado

Léo não queria aceitar que tinha magoado o primo. Achava que, reagindo daquela forma, talvez fizesse Axel enxergar mais do que aquilo que estava lá. Mas Axel via. Léo só achava que havia mais pra ver.

Axel deu um meio sorriso, sem humor, e soltou um pouco do peso da respiração. Então perguntou:

— Hiroshi tá apoiando isso tudo?

Léo sorriu, aflito.

— Que porra é essa? Tá falando todo certinho agora... voltou a estudar, foi?

Axel sorriu torto e virou a cabeça.

— Eu tô mudando. Aprendi a me adaptar, Léo.

Léo inclinou a vista.

— Que porra é essa, mano? Cadê o Leleco? Tá me tirando…

Axel sentou no sofá e, em silêncio, coçou a cabeça.

— Engraçado que tu nunca gostou desse apelido. E agora vem com esse papo…

Léo ficou de cócoras na mesinha de centro, brincando com os saquinhos de pó. Axel ignorava o impulso inconsciente do primo em usar.

— Fala, Léo. Onde entra o Hiroshi nessa história?

Léo esperou alguns instantes antes de murmurar, baixo:

— Nem vem botar a culpa no Hiroshi, viu?

Axel sorriu de canto.

— Tu quer saber se eu vou confrontar ele?

Léo não respondeu. Axel o tranquilizou:

— Não vou, não... Ele deve ter um motivo muito bom pra não ter me contado.

Léo apertou os olhos.

— Fui eu que mandei segurar essa fita entre nóis, fechô?

Axel coçava a testa em silêncio. Léo levantou os olhos antes de dizer:

— E também tem outra coisa, mano.

Axel o olhou, mas no fundo já sabia o que viria:

— Eu e o Hiroshi tamo num rolo aí… parada nossa.

O silêncio veio carregado. Axel piscou devagar, absorvendo lentamente a informação.

— Sério? É isso mesmo que eu tô pensando?

Léo olhou direto pra ele.

— A gente tá com um rolo. Parada nossa, tá ligado?

Axel respirou fundo, tentando conter a onda repentina de desconforto. Piscou mais uma vez. Léo ia continuar, mas ele interrompeu rapidamente:

— Para! Eu já entendi… — Levantou-se e encheu um copo com água. — E tu acha que isso resolve o quê?

Léo despejou um pouco de pó no prato.

— A gente vai desenrolar, porra. Eu e ele, cê vai ver.

Axel engoliu o copo d’água e avançou:

— Dar um jeito como? Tu tá abastecido de pó até a tampa.

Léo tentou fingir controle enquanto enfileirava os rastros no prato.

— Quando essa porra no cabaré acabar, a gente vai meter o pé e ficar junto.

Axel riu e se aproximou de Léo. Pegou ele pelos ombros e o ergueu.

— Tu acha mesmo que ele vai largar tudo, Léo?

Léo semicerrou os olhos e riu.

— Que porra tu tá insinuando, hein? A hora vai chegar, caralho.

Axel desfez o sorriso e apertou os ombros de Léo.

— Léo… me escuta. — Apertou ainda mais. — Você não pode se envolver nisso! Léo, eu tô falando sério!

Léo sentiu um aperto maior no coração do que nos ombros.

— Envolver em quê, o caralho! Me solta, porra! — Se afastou de Axel bruscamente.

Axel olhou pela janela. Não queria dizer nada sobre a carta. Não podia correr o risco de Hiroshi descobrir que ele tinha lido os documentos entregues a Léo anos atrás.

— Hiroshi não cuida nem dele mesmo. Como é que ele vai cuidar de você, Léo?

Léo levantou o queixo, desafiador.

— Eu não sou criança, caralho! E eu que vou cuidar dele.

Axel ficou em silêncio. Depois, soltou uma risada curta. Seca.

— Ele nunca vai largar a mãe dele, Léo.

Léo apertou o maxilar, sentindo a raiva subir mais uma vez.

— Tu não sabe porra nenhuma, cê só acha que sabe.

Axel apenas assentiu. O silêncio pesou de novo.

Passou a língua pelos dentes. Olhou para Léo, avaliando o quanto podia dizer… ou não.

E decidiu se calar por alguns instantes.

***

A NOITE DO PRÓLOGO

ULISSES (volta do banheiro, senta devagar; toca no copo e faz leve careta)

— Tá quente já...

(afasta o copo, empurra pro canto; pega a latinha, balança e olha pra Diego)

— Tá quente também ou é impressão minha?

DIEGO (olha pro lado, sem hesitar)

— Tá gelada. O cara deixou agora aqui.

OBSERVADOR: "Esse aí tenta evitar encrenca, mas a tensão entregou."

ULISSES (murmura, desconfiado, mais pra si)

— É... sei...

DIEGO (acende um cigarro com calma, sopra a fumaça)

— Quer que eu troque essa aí? Já volto...

ULISSES (gesto leve com a mão, sem encará-lo)

— Não, relaxa.

DIEGO (assente, mexe os ombros, disfarçando o desconforto)

ULISSES (olha pra Marcus, depois pra mesa; pega a latinha de novo, hesita)

— Marcus... posso me servir da tua?

MARCUS (dá de ombros, meio aéreo)

— A minha tá no fim, mas fica à vontade.

ULISSES (despeja o restinho no copo com calma; levanta os olhos)

— Avisa o garçom, Marcus. Pede mais duas?

MARCUS (parece não ouvir de imediato; acena pro garçom, mas mantém um olho discreto em Diego)

ULISSES (acompanha o gesto, depois finge distração; bebe do copo, observando Diego de canto de olho)

DIEGO (traga o cigarro devagar; olhar fixo em Ulisses, sem expressão)

MARCUS (alheio à tensão; vira o próprio copo, ainda cheio, mergulhado nos próprios pensamentos)

DIEGO (se levanta com a cerveja na mão; fala leve)

— Vou dar um balão... dar um salve na clientela.

(Dá dois passos, para. Olha pra Marcos.)

— Tá de boa aí?

MARCUS (sem mudar o tom)

— Tranquilo.

(Diego encara Ulisses por um segundo, depois sorri de canto.)

— Boa sorte pra vocês.

OBSERVADOR: "Mandou esse ‘boa sorte’ como quem lava as mãos. Mas tem mais coisa aí..."

***

PRIMOS ( DIAS ATRAS)

Axel preferiu permanecer de costas para a mesinha de centro. Sabia que Léo precisava daquilo. Cada fungada que ouvia era como uma punhalada no coração. Precisava entender mais.

— Acho que o tio não sabe disso, né?

Léo respondeu que não, puxando o ar pelas narinas. Axel continuou.

— E por que vir pra tão longe? Por que procurar logo o Hiroshi?

Léo passou a mão no rosto suado.

— Só restou ele.

Axel franziu a testa e se virou devagar.

— Tu veio pra capital e procurou ele porque… era o único que sobrou?

Léo soltou o ar pelo nariz e deu de ombros.

Axel apontou uma das mãos para Léo, sua voz ganhou um tom mais duro.

— E tu? Não sobrou? E eu?

A pergunta bateu forte em Léo.

— Quê?

Axel repetiu, com a voz firme, mas sem agressividade:

— Por que tu não me ligou?

Veio o silêncio abafado. Os olhos de Léo se arregalaram por um segundo. Depois se estreitaram — entre a raiva e a dor.

— Tá achando que sou comédia, é?

Axel apenas esperou, enquanto Léo ruía por dentro com o rosto esbanjando um sorriso distorcido com uma mistura amarga de ódio e incredulidade.

— Eu te ligar, Axel? Logo eu?

Piscou forte com o queixo tensionado. A voz começou a tremer.

— Pra quê? — A garganta fechou e os olhos vermelhos brilhavam. Ele baixou a cabeça. — Pra ouvir tu dizer que tava sem tempo?

Fechou as mãos em punhos. Tão cerrados que os nós dos dedos ficaram brancos.

— Pra tu me tratar igual um desconhecido? — Limpou os olhos rápido com o punho, como se quisesse apagar qualquer vestígio de fraqueza. — Do jeito que tu fez quando mandou eu ir embora daqui?

A respiração falhava.

— Eu que fui largado nessa merda, caralho! — A primeira lágrima escorreu. Mas ele não cedeu. Tentou engolir a dor. — Eu fui chutado, mano... tu cagou se eu cheguei vivo ou morto, Axel.

O silêncio esmagou os dois.

Léo tentou limpar o rosto de novo. As lágrimas continuavam vindo, descontroladas, como uma represa rompida.

— Tu nunca… nunca quis saber mais de mim!

A voz falhou. O peito tremeu no esforço de segurar o choro. Mas os olhos…

Os olhos não esconderam mais nada. A raiva virou desespero.

— TU ME ABANDONOU, CARALHO! ME LARGOU FEITO UM LIXO, FILHO DA PUTA!

O corpo cedeu e junto dele o choro, mas ele não permitiu que durasse. Respirou fundo e fechou os olhos com força.

Quando abriu… o orgulho voltou. A raiva cobriu o que restava de vulnerabilidade.

Axel deu um passo à frente erguendo os braços, numa última tentativa desesperada de abraçar o primo.

Os olhos de Léo faiscaram e se afastou bruscamente.

— SOME DAQUI! — Fungou com força. — Não encosta em mim, não!

O silêncio sufocou.

Axel baixou os braços, devagar com o rosto impassível.

Mas os olhos…

Os olhos gritavam um peso que Léo não queria enxergar.

***

A NOITE DO PRÓLOGO

MARCUS (olha de lado, lento)

— Fala tu, Ulisses... Pegou o clima?

OBSERVADOR: "Clima? Esse aí já é uma tempestade."

ULISSES (sorrisinho rápido, olhos baixos)

MARCUS (encosta a cadeira, diminuindo a distância)

— Saquei... Tá até sorrindo.

(toca de leve a coxa de Ulisses com os dedos)

— É assim que começa.

ULISSES (os olhos escorregam discretos até a bermuda de Marcus)

OBSERVADOR: “Se despedindo da pureza, Ulisses?”

MARCUS (percebe; recosta na cadeira com um sorriso de canto, abrindo as pernas devagar)

ULISSES (passa a língua pelos lábios, rápido)

MARCUS (desliza a mão pela própria coxa, subindo até a região marcada)

ULISSES (engole a cerveja sem desviar o olhar)

OBSERVADOR: Ai, meu Deus do céu... alguém salva o Ulisses. Ele desidrata assim.

MARCUS (sem tirar os olhos de Ulisses)

— Tá distraído demais... Tá imaginando?

ULISSES (limpa os lábios com o punho; sorri)

MARCUS (pressiona a curvatura já em destaque)

— Aí, tá vendo? Já tá no ponto.

(morde o lábio inferior)

— Só pedir... Mostra que tu quer.

OBSERVADOR: ISSO! Até que enfim, meu guerreiro! Bote quente no sonsinho aí.

ULISSES (engole seco; olhar fixo)

MARCUS (baixa o tom)

— Pega.

ULISSES (arqueia o queixo)

— Ah?

MARCUS (sorri; conduz a mão de Ulisses)

ULISSES (aperta, enquanto o membro pulsa em sua mão)

MARCUS (inclina o corpo; sussurra)

— Só vai ficar segurando?

OBSERVADOR: "Segurou? Agora aguenta, Ulisses. Porque esse aí não vai parar até despachar o que sobrou da tua dignidade."

***

PRIMOS (DIAS ATRÁS)

Axel aguardou um tempo. Deu água para o primo. Léo preferiu a cerveja. Os dois não tinham muito mais a dizer. Axel resolveu dizer só o suficiente:

— Léo, promete que não vai tentar ajudar o Hiroshi.

Léo não respondeu. Perguntou, desviando o assunto.

— Como tu tá sabendo do rolê dos vídeos?

Axel suspirou. As palavras vieram. E com elas, o pedido de Luiz ao telefone:

"Axel, se não for pedir demais... Se o Léo questionar sobre como você soube dos vídeos, diga que eu vim sozinho pra capital. Não envolva o Caio nisso. Esses dois têm uma dinamite entre eles."

— Conheci o Luiz.

Léo sorriu, debochado.

— Eu sabia que aquela desgraça tinha dedo nisso... O Caio veio?

Axel percebeu a armadilha na pergunta. Decidiu jogar a presença de Caio como algo próximo, mesmo sabendo que a mentira talvez não se sustentasse por muito tempo, pois Luiz e Caio ainda ficariam na cidade até tudo se resolver.

— Não sei quem é… mas o Luiz disse que tinha um amigo teu que ia vir pra cá amanhã.

Léo sentou na cama. Axel se levantou lentamente e disse, num tom mais baixo e sério.

— Léo, liga pra mim. Se achar que eu ainda sirvo pra te ajudar. Eu tô indo.

Os dois se olharam por um instante breve.

— E, por favor… não confunda. Nem tudo que o Hiroshi diz é o que ele sente.

Léo ficou em silêncio, mas sentiu o peso das palavras.

— Eu conheço o Hiroshi, porra. Vai cuidar da tua vida, vai.

Axel ajustou a jaqueta.

— Tu transa com o Hiroshi... — fez uma pausa, respirou fundo — ...mas não conhece ele como eu.

Léo balançou a cabeça devagar, mas não respondeu.

Axel abriu a porta. Antes de sair, parou. Deu um último olhar para o primo.

— Te amo, primo. Você só esqueceu.

Bateu a porta atrás de si. No corredor, andou depressa. Mas não o suficiente pra fugir dos gritos desesperados de Léo que vinham do apartamento.

Pensou em voltar, mas viu um motoboy passando por ele, carregando sacolas com cerveja. Soube, naquele instante, que mesmo no fundo do poço… o primo teria companhia.

Engoliu o choro e seguiu pra fora do prédio. Decidiu que o tempo traria as respostas.

Tanto pra ele…

Quanto pra Léo.

***

A NOITE DO PRÓLOGO

MARCUS (desfaz a aproximação, reclinando-se na cadeira)

— E aí... quer ir agora?

ULISSES (enche o copo, olhos concentrados em um ponto do salão)

OBSERVADOR: "Daqui a pouco a menina já tá achando que é romance."

MARCUS (franze a testa, provocando)

— Tá querendo trocar? Vai com ele agora, é?

ULISSES (passa a mão no rosto)

— Não... só queria mais um pouquinho...

OBSERVADOR: "Pronto. Agora nem finge mais, só quer o sopro da coragem pra se arrebentar de vez."

MARCUS (observa Ulisses)

— Sei...

(acende um cigarro)

— Só pra avisar... o Diego é um cavalo, viu?

ULISSES (encara Marcus, voz baixa)

— Será que aguento ele?

(desliza o olhar pra boca de Marcus, depois sobe de volta)

— Você indo comigo... tu cuida de mim?

OBSERVADOR: "Olha o nível da safadeza do sujeito..."

MARCUS (roe a unha, sorrindo; olhar reto)

— Agora sim... Vai mandar logo uma chifrada dupla, hein?

ULISSES (não responde; lambe os lábios. As mãos apertam discretamente os próprios joelhos)

OBSERVADOR: "Mas veja se não fica mudo agora, Ulisses. Tu pediu o palco, agora dança. E rebola."

MARCUS (assobia curto; chama Diego com o queixo. Depois se volta pra Ulisses, mais baixo)

— Se arrepender, ainda dá tempo, viu?

ULISSES (olha de canto, meio sem fôlego; vira o copo de cerveja)

— Não vou. Agora não.

(Silêncio. Diego se aproxima devagar.)

DIEGO (chega com a cara fechada, mas a voz vem leve, provocativa)

— Qual foi, Marcão?

MARCUS (sorri de canto; aponta com a cabeça pra Ulisses)

— O rapazinho tá querendo, Diego.

DIEGO (sorri sacana)

— O quê? Eu, você ou a droga?

OBSERVADOR: "Três opções. Mas todo mundo sabe que o cu já escolheu por ele faz tempo."

MARCUS (passa o olhar por Ulisses, de cima a baixo, antes da resposta seca)

— Os três, meu chapa.

ULISSES (sorri de lado, sem negar)

— Não é bem assim... Só queria ficar mais à vontade...

DIEGO (ri abafado, olhando pros dois)

— Ih... quer logo o combo completo, é? Tá gulosa, hein?

MARCUS (se levanta; pega Ulisses pelo braço com calma)

— Hoje tu vai gritar “corno” até pedir pra gozar de novo. Bora logo, antes que tu desista.

OBSERVADOR: "Desistir? Meu fi... esse aí já se vendeu foi quando viu a tora dentro da sua cueca."

DIEGO (acompanha os dois com o olhar afiado; dá um tapa leve nas costas de Ulisses enquanto saem)

— Só não desmaia no primeiro tapa... senão a brincadeira acaba cedo.

ULISSES (Olha pros dois... e sorri — um sorriso rápido, que desaparece antes mesmo de fazer sentido. Depois segue em silêncio, como se já tivesse aceitado o que nem ele sabia explicar.)

***

OBSERVADOR:

“Tá vendo, rapaziada? Eu falei que o fresquinho ia se soltar. Era só questão de tempo. Agora não tem mais desculpa, né? A droga já bateu, o sangue já esquentou… E essa história de ‘não é bem assim’ já virou papo furado. Cês tão ligados que agora vem a sacanagem, né?”

“Mas antes… preciso falar um negócio.”

(pausa)

“Ô narrador santinho, segura tua onda aí, porque eu sei que tu já tá querendo podar o que interessa.”

AUTOR:

Eu tô vendo é que você tá querendo passar dos limites… E santinho, não.

Eu quero passar a história e o erotismo com equilíbrio.

OBSERVADOR:

“Equilíbrio é o caralho, nego véi. Os leitores querem gozar!”

AUTOR:

Eles querem uma cena bem escrita.

Os que tão entendendo e chegaram até aqui, sim.

OBSERVADOR:

“Tu que acha. Eu sei o que eles querem.”

AUTOR:

Faz parte da história.

OBSERVADOR:

“História é o caralho! Tu tá vendo o que eles tão prestes a fazer e ainda quer florear?”

AUTOR:

Você não decide nada aqui. Sou eu!

OBSERVADOR:

“Beleza, chefia. Então faz o seguinte: promete só que dessa vez tu não vai broxar a galera com aquela parte nojenta que tu enfiou no prólogo. Eu tô aqui pra garantir que não tenha cagada. Literalmente.”

AUTOR:

É a realidade.

OBSERVADOR:

“Realidade… beleza! Mas precisa repetir? Tu quer que o povo feche a aba do site no meio do tesão?”

(silêncio)

AUTOR:

Tá certo. Me convenceu.

OBSERVADOR:

"Isso aí, caralho! Tava só esperando tu admitir, parceiro..."

(pausa)

"E agora? O que acontece?"

"Eu volto no próximo capítulo!"

AUTOR:

O que vai rolar agora… é que você some! Já falou demais!

OBSERVADOR:

"Sumo nada, porra! Eu sei que vou voltar depois... né?"

AUTOR:

Tu sabe que vai voltar...

Mas não agora.

Só quando eu achar que preciso de você… e da tua opinião “duvidosa”.

(silêncio)

OBSERVADOR:

Tá bom, tá bom...

Só me deixa encerrar o capítulo. Pode ser?

(silêncio)

AUTOR:

Vai! Antes que eu mude de ideia.

OBSERVADOR (ao leitor):

Boa!

E vocês, rapaziada… me agradeçam depois. Tô fazendo tudo por vocês.

Esse aí finge que é certinho, mas eu já conheço o trampo dele.

Agora ajeita a mão… e o gel.

Porque o próximo capítulo, meu fi...

É ladeira, língua e labareda.

Vem coisa boa por aí.

.

Por R. Rômulo

***

Nota do autor:

O formato híbrido deste capítulo — que une elementos do teatro, da prosa e da quebra da quarta parede — faz parte de uma linguagem narrativa pessoal, construída com cuidado e trabalho intenso.

Essa estrutura não é uma fórmula pronta, mas uma assinatura em constante transformação.

Isso aqui é meu estilo — e ele nasceu aqui.

Gratidão a todos!

***

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Qualquer reprodução ou uso sem autorização do autor é proibido e sujeito a penalidades legais.

Para mais informações, entre em contato: novatinhocdc@outlook.com

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Foto de perfil de NovatinhoNovatinhoContos: 24Seguidores: 33Seguindo: 4Mensagem Olá, sou um jovem apaixonado por leitura e escrita! Meu coração pertence à literatura clássica, e não sou muito fã da literatura pós-moderna. Minhas preferências literárias se inclinam para obras da era romântica e realista. Gosto de opiniões: Me fortaleça e deixe seu comentário ou voto. Sou um cara do bem!

Comentários

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Graças ao Tito descobri teus textos e tenho lido com muito interesse.

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