O escritório estava quase vazio naquela noite. Apenas o brilho frio dos monitores e o som distante de teclas sendo pressionadas quebravam o silêncio. Clara, uma mulher nos seus quarenta anos, ainda estava ali, revisando propostas comerciais. O contrato com um dos clientes mais importantes da empresa ainda não havia sido fechado, e seu chefe, Marcos, estava impaciente.
O som dos passos firmes ecoou pelo corredor. Ela nem precisou se virar para saber quem era. A voz grave e autoritária de Marcos soou às suas costas.
— Ainda aqui, Clara? — Ele se aproximou, sua presença dominando o espaço.
Ela respirou fundo, mantendo os olhos na tela. Sabia que aquela conversa não seria sobre trabalho, pelo menos não no sentido tradicional.
— Estou ajustando os últimos detalhes da proposta, senhor. — Sua voz era profissional, mas carregava um leve tremor.
Marcos puxou uma cadeira e sentou-se à sua frente, analisando-a com um olhar calculista.
— O cliente quer algo mais do que números e projeções, Clara. — Ele fez uma pausa, deixando as palavras pesarem. — Ele deixou claro que o contrato só será assinado se você… colaborar.
O coração de Clara disparou. Ela engoliu em seco, tentando disfarçar o desconforto.
— Não pode estar falando sério… — murmurou, cruzando os braços.
Marcos inclinou-se sobre a mesa, os olhos cravados nos dela.
— Estou. E você sabe como o mercado funciona. Preciso de alguém comprometida com os resultados. Se não puder fazer o necessário, talvez não tenha mais lugar aqui.
Clara sentiu o chão fugir sob seus pés. Anos de dedicação à empresa, sacrifícios, longas horas de trabalho… E agora, reduzida a isso. A indignação misturava-se ao medo, e a pressão dele era esmagadora.
— Pense bem, Clara. Sua carreira depende disso. — A voz dele era fria, cortante.
Ela fechou os olhos por um instante, sentindo-se encurralada. Dizer "não" significava arriscar tudo pelo que havia lutado. Dizer "sim" significava se perder de si mesma.
E, no silêncio sufocante daquela sala, Clara percebeu que sua escolha já não lhe pertencia mais.