O SABOR DE UMA DOCE VINGANÇA ! Cap.18

Um conto erótico de Alex Lima Silva
Categoria: Gay
Contém 2668 palavras
Data: 02/04/2025 21:40:49

Era domingo, minha folga oficial da sorveteria já que Camila agora estava trabalhando lá! A cidade despertava devagar, e eu gostava desse horário pra correr. O ar era mais fresco, as ruas mais vazias. Meu fone de ouvido tocava Adele baixinho, me ajudando a manter o ritmo.

Foi então que o vi.

Arthur corria na minha frente, seguindo a trilha que levava a uma área mais afastada da cidade. Usava uma regata e um short curto, os músculos das pernas se contraindo a cada passada. O suor escorria pelos braços fortes, e eu notei que ele estava bem mais definido do que na época da escola.

A curiosidade me fez diminuir o ritmo. O que ele estava fazendo ali tão cedo? Antes que percebesse, meus passos começaram a seguir os dele. Mantive uma certa distância, apenas observando. Ele corria bem, o corpo acostumado ao esforço. Depois de alguns minutos, entrou na parte mais fechada da trilha, onde as árvores formavam um corredor natural.

Foi quando parou.

Arthur olhou rapidamente ao redor e caminhou até uma árvore. Abriu o short e começou a urinar. Eu ia simplesmente desviar o olhar e seguir meu caminho, mas o movimento dele me fez pisar em um galho seco.

O som fez com que ele se virasse bruscamente. Seus olhos se estreitaram ao me ver.

— Tá me seguindo, cara? — perguntou, ainda fechando o short.

Dei de ombros.

— Só coincidência. Sempre corro por aqui.

Ele cruzou os braços, ainda me estudando.

— Sei... Você me lembra alguém. Um viadinho da escola, que estudou comigo! Ele era obcecado por rola!

Senti meu estômago revirar, mas mantive o rosto impassível. Dei um sorriso de canto.

— Sei não, hein. Acho que você anda obcecado demais com esse assunto.

Arthur riu, balançando a cabeça.

— Nada contra, só achei parecido.

Resolvi mudar de assunto antes que ele começasse a conectar os pontos.

— E as investigações do assassinato do Gabriel? Alguma novidade?

O semblante dele ficou sério.

— Os caras que foram presos ainda não confessaram nada. A gente tem provas suficientes pra mantê-los na cadeia, mas não sabemos se eles foram os únicos envolvidos ou se tem mais alguém por trás disso.

Fiz que sim com a cabeça, fingindo refletir, mas, por dentro, cada palavra me interessava mais do que eu deixava transparecer.

— E vocês acham que vão conseguir arrancar algo deles?

Arthur suspirou.

— Cedo ou tarde, todo mundo fala.

Ele me olhou de cima a baixo mais uma vez, como se tentasse lembrar de onde me conhecia.

— E me chame de Delegado.

Eu ri de leve, cruzando os braços.

— Mas você não tá na delegacia agora.

Arthur estreitou os olhos, e antes que eu percebesse, ele avançou, me empurrando contra uma árvore. O impacto foi forte o suficiente para me prender ali, seu antebraço pressionando meu peito.

— Tá achando engraçado? — rosnou, os olhos me encarando de perto.

Eu deveria sentir medo, mas só conseguia achar graça na situação.

— Achei que você fosse mais profissional que isso, Delegado.

Arthur segurou minha camisa com mais força, mas algo nele mudou por um segundo. Seu maxilar travou, a respiração ficou mais pesada, e o contato próximo pareceu incomodá-lo de alguma forma. Ele me soltou de repente, dando um passo para trás como se tivesse se tocado do que estava fazendo.

— Toma cuidado por onde anda — disse, a voz mais baixa.

Me recuperei do impacto, ajeitando a camisa e olhando para ele com um sorrisinho.

— Você também.

Arthur me lançou um último olhar estranho antes de se afastar, voltando a correr pela trilha.

Fiquei parado por alguns segundos, vendo-o desaparecer entre as árvores. Meu coração ainda batia acelerado, mas não pelo esforço da corrida.

Ele estava começando a se lembrar, e isso podia ser extremamente perigoso pra mim!

Depois de encontrar Arthur correndo naquela manhã, eu não conseguia tirar uma sensação estranha da cabeça. Como se algo estivesse fora do lugar. Como se algo estivesse me chamando de volta.

Sem pensar muito, meus passos me levaram até um bairro conhecido, um caminho que meus pés lembravam bem, mesmo que minha mente tentasse evitar. O sol já estava alto no céu quando parei em frente ao lugar onde antes ficava minha antiga casa.

Mas ela não estava mais lá.

Em seu lugar, havia um prédio pequeno, com luzes de neon apagadas e um letreiro desgastado que dizia **"Night Spot"**. Uma boate. Pelo horário, estava fechada, mas a entrada ainda tinha vestígios da noite anterior — algumas bitucas de cigarro espalhadas, papéis jogados, e um cheiro distante de bebida misturado com perfume barato.

Fiquei parado ali, encarando aquela cena. A última vez que estive naquele lugar, minha casa ainda existia. O portão enferrujado rangia quando eu o abria, o cheiro do café do meu pai se misturava com o jornal que ele sempre lia na sala. Eu podia ouvir sua voz, sentir o peso das lembranças me esmagando.

E agora, tudo tinha sumido.

Onde meu pai estava morando? Será que tinha vendido a casa ?

Engoli seco.

Talvez ele tivesse se mudado para outro bairro.Talvez estivesse vivendo em algum canto qualquer, esquecido por todos, ou talvez estivesse melhor sem mim por perto.

Eu deveria perguntar para alguém? Tentar descobrir?

Ou talvez fosse melhor deixar as coisas como estavam.

Soltei um suspiro pesado, sentindo um gosto amargo na boca.

Uma parte de mim queria respostas. A outra... Tinha medo do que poderia encontrar, até porque depois daquele dia que vi ele próximo a sorveteria, uma sensação ruim a alojou no meu peito!

Eu ainda estava parado na frente da de onde ficava minha antiga casa quando meu celular vibrou no bolso. Pisquei algumas vezes, tentando afastar os pensamentos sobre meu pai, e puxei o aparelho.

**Flávio:** *Ei, sumido. Ainda tá vivo ou desistiu da vida e virou um ermitão?*

Revirei os olhos, mas um pequeno sorriso escapou. Antes que eu respondesse, outra mensagem chegou.

**Flávio:** *Se não responder em cinco segundos, vou assumir que foi abduzido. Ou pior, que começou a fazer dieta e tá sem forças pra teclar.*

Balancei a cabeça, digitando rápido.

**Eu:** *O que você quer, Flávio?*

A resposta veio quase instantaneamente.

**Flávio:** *Quero você. Hoje. Aqui em casa. Jantar. Às oito.*

**Eu:** *Mandão.*

**Flávio:** *Eu prefiro "dono do seu coração", mas tudo bem.*

Soltei uma risada baixa. Flávio tinha essa habilidade irritante de transformar qualquer momento em algo leve. E, naquele instante, eu precisava disso.

**Eu:** *Isso foi cafona.*

**Flávio:** *E irresistível. Agora para de fazer charme e confirma logo que vem.*

Olhei de novo para o prédio que agora ocupava o lugar da minha antiga casa. Não havia mais nada ali para mim. Pelo menos, nada que eu quisesse reviver agora.

Respirei fundo e digitei.

**Eu:** *Tá bom! Mas se a comida for ruim, vou te denunciar pro serviço de proteção ao consumidor.*

**Flávio:** *Se for ruim, eu te compenso de outra forma. 😉*

Revirei os olhos novamente, mas meu sorriso ficou maiorFlávio me esperava na porta quando cheguei. A casa dele era simples, mas acolhedora, com um jardim pequeno na entrada e uma luz amarela na varanda que tornava tudo mais convidativo. Ele se encostou no batente da porta, um sorriso de canto no rosto, os braços cruzados.

— Pensei que tivesse desistido — brincou.

Revirei os olhos, fingindo impaciência.

— Só porque demorei dez minutos?

— Dez minutos podem ser uma eternidade pra quem tá morrendo de fome.

Ele me puxou pela mão para dentro de casa, e o cheiro de comida quente me envolveu imediatamente. A casa era simples, com móveis que pareciam antigos, mas bem cuidados. A mesa estava posta com pratos de porcelana desgastados pelo tempo, e havia uma garrafa de vinho barato no centro. Tudo parecia arrumado com carinho, e um nó pequeno se formou no meu peito.

— Fiz o básico — disse, servindo meu prato. — Mas com muito amor.

— Então pode ser que eu morra envenenado — brinquei, pegando o garfo.

Flávio riu e me deu um cutucão na costela.

— Não seja ingrato, garoto.

Ele continuou com as gracinhas enquanto comíamos, me cutucando de vez em quando e inventando piadas ruins só para me ver revirar os olhos. Seus pés roçavam nos meus por baixo da mesa, num contato quase distraído, mas que fazia meu corpo se arrepiar. Ele sabia exatamente como me provocar, como me puxar para aquele jogo silencioso onde ele sempre parecia vencer.

Depois do jantar, ele me puxou para o sofá. Uma música qualquer tocava baixinho no rádio, preenchendo o silêncio confortável entre nós. Meus olhos vagaram pela sala, observando cada detalhe — os livros empilhados num canto, as fotos antigas na parede, a manta jogada no sofá. A casa de Flávio parecia um reflexo dele: simples, bagunçada e acolhedora ao mesmo tempo.

Ele me abraçou por trás, apoiando o queixo no meu ombro.

— Você pensa demais — murmurou.

— Alguém tem que pensar, já que você só age por impulso.

— E qual o problema disso?

— Problema nenhum. Desde que você não caia de cara no chão.

Ele riu baixinho, seu nariz roçando contra minha pele.

— Às vezes, vale a pena se jogar.

Antes que eu pudesse responder, ele virou meu rosto na direção dele e me beijou. Um beijo lento, sem pressa, como se quisesse aproveitar cada segundo. Sua boca era quente, seu gosto uma mistura de vinho e algo mais que eu não sabia descrever.

Abracei sua cintura e correspondi, me deixando levar pelo calor, pelo jeito que seus dedos deslizavam suavemente pelo meu pescoço. O beijo foi se intensificando, e quando percebi, estávamos deitados no sofá, meu corpo sobre o dele, sua mão deslizando sob minha camisa.

— Esse sofá é pequeno demais — ele disse contra meus lábios.

Eu ri, sentindo minha respiração acelerada.

— Problema seu. Foi você que me puxou pra cá.

Ele me encarou por um momento, os olhos brilhando de divertimento, antes de me puxar para cima dele novamente.

— Então acho que vamos ter que resolver isso na minha cama.

Eu poderia ter recusado, poderia ter resistido. Mas naquele momento, nada parecia fazer sentido além dele.

A noite aconteceu naturalmente, entre risadas abafadas, provocações e toques que se tornavam cada vez mais íntimos. Havia algo diferente em estar ali com Flávio. Não era só desejo — era mais do que isso. Era uma entrega silenciosa, um sentimento que me envolvia sem que eu pudesse controlar.

E foi ali, no meio dos lençóis bagunçados, entre beijos e respirações ofegantes, que me dei conta: eu estava perdidamente apaixonado por Flávio.

A constatação me atingiu como um soco no estômago. Meu peito se apertou, minha mente se recusava a aceitar completamente aquilo. Eu gostava da sensação — gostava do jeito que ele me fazia sentir vivo, seguro, inteiro. Mas, ao mesmo tempo, sentia um medo absurdo.

Porque amar alguém significava dar poder a essa pessoa.

E eu sabia, melhor do que ninguém, que poder demais nas mãos erradas podia destruir tudo.

Ao meu lado, Flávio mexia no celular, distraído. O brilho da tela refletia em seu rosto, mas seu olhar estava perdido. Ele parecia inquieto, como se tivesse algo na garganta, algo que precisava dizer, mas não sabia como.

— Pedro… — Ele chamou meu nome de repente, me tirando do devaneio.

Virei o rosto para ele, notando seu tom mais sério do que o normal.

— O que foi?

Ele suspirou e jogou o celular de lado, virando-se para mim.

— Eu tava pensando em uma coisa… E acho que você precisa saber.

Minha expressão se fechou. Não gostei do jeito que ele disse aquilo.

— Fala de uma vez.

Ele hesitou por um instante, mas então soltou:

— Esse tal de Gabriel… O cara que morreu… Eu conhecia ele.

Meu corpo ficou tenso.

— Como assim?

— Não é do jeito que você tá pensando — ele se apressou em dizer. — Eu não era amigo dele, nem nada disso. Mas… Eu conhecia porque ele foi a pior coisa que já aconteceu na minha vida.

O ar pareceu pesar ao nosso redor.

— O que você quer dizer com isso, Flávio?

Ele desviou o olhar por um momento, como se revivesse algo doloroso. Então, respirou fundo e voltou a me encarar.

— Gabriel roubou o meu namorado.

Meu peito apertou.

— O quê?

— Eu tava namorando um cara… Não foi um relacionamento perfeito, mas eu gostava muito dele. Aí o Gabriel apareceu — Flávio deu um riso sem humor. — E ele sabia exatamente o que estava fazendo.

Ele se sentou na cama, os dedos apertando o lençol com força.

— Ele seduziu o meu namorado, fez a cabeça dele contra mim, e quando eu percebi, já tava sozinho. Abandonado. Ele conseguiu virar tudo contra mim, e no final, fui eu que saí como errado.

Minha boca ficou seca.

— Eu não fazia ideia…

— Ninguém fazia. Eu nunca falei muito sobre isso. Doeu pra caramba na época. Mas… — Ele soltou um suspiro longo, e quando olhou para mim, havia algo diferente no olhar dele. Algo que me atingiu em cheio. — Eu tô te contando isso porque… Tenho medo de perder você também.

O silêncio entre nós foi avassalador.

Flávio abaixou a cabeça e passou as mãos pelo cabelo, claramente desconfortável em se abrir daquela forma.

— Eu sei que parece idiota. Você não é o meu ex, e o Gabriel já morreu… Mas ainda assim, eu fico com esse medo estúpido aqui dentro e eu… — Ele apertou os olhos fechados por um instante antes de me encarar de novo. — Eu não quero perder você, Pedro.

Meu coração bateu forte no peito.

Eu nunca tinha visto Flávio daquele jeito. Sempre o conheci como alguém brincalhão, sempre tentando me tirar da seriedade, me puxando para a leveza da vida. Mas agora, ele estava ali, vulnerável. E tudo por minha causa.

Engoli em seco.

— Você não vai me perder.

As palavras saíram antes mesmo que eu pudesse processá-las.

Os olhos dele buscaram os meus, inseguros, como se quisessem acreditar, mas ainda não conseguissem.

Então, minha mente conectou os pontos.

Se Gabriel tinha roubado o namorado de Flávio, então esse ex ainda devia estar por aí. Ele sabia quem Gabriel realmente era.

— Flávio… — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. — Seu ex ainda tá na cidade?

Flávio piscou, surpreso com a pergunta.

— Sim. Mas por quê?

Minha cabeça estava a mil.

- Só curiosidade mesmo!

Eu nunca poderia imaginar essa conexão. Nunca poderia imaginar que, de alguma forma, o passado de Flávio e o meu se cruzavam por meio daquela pessoa. Mas agora, não conseguia parar de pensar nisso.

E se esse cara tivesse se cansado das manipulações de Gabriel? E se, depois de ser usado ele tivesse resolvido fazer justiça com as próprias mãos? O ex do Flávio poderia simplesmente ter descoberto que o Gabriel não valia nada e se livrou dele!

Meu peito apertou. Isso fazia sentido. Muito sentido.

Mas então, outra coisa me atingiu como um choque elétrico.

A Jéssica.

A mulher que eu tinha contratado para se aproximar de Gabriel, para seduzi-lo, para fazer parte do meu plano de vingança.

Ela sumiu da jogada antes mesmo de conseguir algo realmente relevante. Gabriel simplesmente se afastou dela. Do nada.

E se isso não tivesse sido coincidência?

E se o ex de Flávio tivesse algo a ver com isso?

Meu cérebro trabalhava a mil por hora, mas de repente, um pensamento me atingiu de um jeito diferente.

Gabriel gostava de homens.

Foi nesse momento que a ficha caiu de verdade.

Ele passou a vida inteira infernizando a minha. Me agredindo. Me humilhando. Me chamando de coisas que, agora, pareciam vir do próprio reflexo dele.

Gabriel era um bissexual incubado.

Talvez tenha passado a vida inteira tentando esconder isso. Talvez tenha usado o ódio contra mim como um escudo para mascarar o próprio desejo.

E eu nunca percebi.

Nunca liguei os pontos até agora.

Uma risada sem humor escapou dos meus lábios. Era quase irônico. Quase patético.

Ele me perseguiu, me destruiu, me fez sentir sujo por algo que ele mesmo era.

E agora estava morto.

Mas eu precisava saber mais. Precisava entender qual era o papel do ex de Flávio nessa história.

Porque se ele tinha feito algo… Então talvez ele fosse a peça final desse quebra-cabeça.

Continua ...

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Foto de perfil de Xandão Sá

Os mistérios estão tornando a história cada vez mais interessante e excitante.

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